Vamos fazer uma revolução para crianças?

Março 16, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Os pais não podem repetir que tiveram uma infância mais despreocupada, mais livre e mais feliz que a dos seus filhos, sem que tirem as consequências que devem de tudo isso, mudando seja o que for, para melhor, na vida das crianças. Nem podem reconhecer que estudavam menos e que brincavam mais, ao mesmo tempo que dão a ideia de estar indiferentes ao modo como nada disso parece chegar para interpelarem a escola e a mudarem.
Eu acredito que são as pessoas que mudam o mundo. Mas reconheço que ele também adoece e se “constipa”. E que hoje, mais do que nunca, em relação à vida das crianças, ele precisa de ganhar em sabedoria, precisa de mais coração e de voltar a ter um rosto humano. Precisa de deixar de se preocupar, obsessivamente, com o seu futuro, enquanto, por distração, lhes estraga o presente. E precisa de deixar de as imaginar como “produtos normalizados”, não permitindo que sejam – como têm de ser! – na vida como na escola, mais singulares e desiguais.
Eu acredito que conhecer nos dá à luz. Mas que é com as memórias indispensáveis, tecidas por pessoas preciosas, que se lê o mundo. E é com elas que este “primeiro, aprende-se, e, depois – logo se vê – talvez se viva…” (que domina, hoje, tristemente, a vida das crianças) irá morrendo, todos os dias, um bocadinho. E que só assim as crianças serão mais felizes e mais crianças.

Eu acredito que “sempre que um homem sonha” o mundo não pula nem avança. Porque os sonhos que se sonham são muito privados e quase solitários, até. Mas os sonhos que se repartem, e se costuram com paixão, a várias mãos, ficam mais simples e mais bonitos. São uma espécie de: “Sim, nós queremos!”, com que se junta aquilo que de precioso a memória nos dá e as convicções com que a sabedoria nos aconselha. É disso que as crianças precisam por parte dos pais: duma revolução tranquila que lhes dê o futuro sem lhes tirar o presente!
É por isso que acredito que podemos começar a mudar o mundo por aquilo que mais nos une: o mundo pula e avança quando muda o modo como vive cada criança! E é por isso que vos proponho que nunca nos cansemos de afirmar que:

1. Queremos um mundo onde as crianças continuem a compreender que, muito mais que a técnica, o melhor do mundo são as pessoas! (E que, por isso, devia ser proibido, nas refeições de família, tablets, televisões e telemóveis. Aliás, devia haver RESTAURANTES AMIGOS DA FAMÍLIA, daqueles que, à porta, não deixam de recomendar que não se use qualquer objeto que afaste as pessoas do olhar umas das outras.)

2. Queremos um mundo onde as crianças nunca deixem de ter tempo para serem crianças. Onde a família esteja antes da escola e o estudo de braço dado com o brincar! E onde o direito ao tempo livre seja sagrado, já que ele é o lugar onde a infância se apura e engrandece e onde a fantasia se alimenta e robustece.

3. Queremos um mundo de crianças que “tirem do sério” os pais. Daquelas que os vencem pelo cansaço e que se entregam, com paixão, a qualquer tira-teimas. Mas que nunca desistem de ser crianças! O que só é possível quando os pais não se esquecem dos filhos que foram.

4. Queremos um mundo onde as crianças não se movam em bicos dos pés, nem queremos que mexam “nos intestinos das coisas” com as pontas dos dedos! Queremos um mundo de crianças que ocupem espaço mas que sejam delicadas, e que não andem pela vida nem conheçam como quem faz cerimónia.

5. Queremos um mundo de crianças que façam asneiras! Mesmo que, convictamente, as façam “sem querer”! E onde se portem mal e ponham problemas aos pais. Mas crianças educadas!

6. Queremos um mundo de crianças “abelhudas”. Daquelas que se perdem, pelo menos, uma vez. Mas que são prudentes, autónomas e despachadas.

7. Queremos um mundo de crianças que brigam. Daquelas que acabam sempre a dizer: “Quem começou, foi ele!”. Porque as brigas arejam a alma. E é com ela que a vida se ama e se descobre.

8. Queremos um mundo onde as crianças pensem com o coração e com o corpo. Onde o corpo não seja um adereço e a cabeça não sirva, unicamente, para imitar e repetir. E onde a vida se invente e se conheça sempre que, alguém pelas crianças, a vire do avesso.

9. Queremos um mundo onde as crianças acreditem em bruxas, duendes, fantasmas e papões. E onde os heróis e as personagens das histórias sejam “pessoas reais” que deem forma, argumentos, enredos e histórias àquilo que se sente mas não se vê e a tudo o que se vendo não se sente.

10. Queremos um mundo onde as crianças se continuem a sujar enquanto aprendem. Um mundo que as deixe contar pelos dedos e falar pelos cotovelos. Onde tenham tinta nos dedos e chapinhem na lama ou brinquem à chuva. Porque um mundo de crianças uniformizadas e atiladas é uma milícia de assustados e nunca um vendaval com que se ama o futuro.

11. Queremos um mundo onde as crianças corram e corram, e brinquem na rua! E onde esfolem os joelhos, pelo menos, todas as semanas. E onde se magoem, claro. Para que os pais façam de mágicos, a seguir, quando acolhem uma dor e a sossegam com o furor de um só beijinho.

12. Queremos um mundo onde as crianças se possam irritar. E onde façam birras e possam agredir. E enquanto ligam fúria e frustração, aprendem a dizer não, de olhos nos olhos, com lealdade e maneiras.

13. Queremos um mundo onde às crianças não se poupe toda e qualquer dor. Alguma dor faz bem à saúde! Mesmo que um sofrimento tenha a ver com uma desilusão, das mais pequeninas. E onde qualquer pequena dor não seja considerada um imenso traumatismo. É verdade que as dores nunca são nem justas nem necessárias. Mas é também verdade que são as pequenas dores (duma espera que se estica, duma revolta que nos pontapeia ou dum mundo que nos desconsidera) que dão o sal com que se vai de sabichão à sabedoria.

14. Queremos um mundo de crianças que corram riscos! Pelo menos, um ou outro, dos mais pequenos, de vez em quando. Um mundo onde as crianças entendam que um risco serve para olhar o medo de olhos nos olhos e para desafiar a sensação, desconfortável, de ser pequenino.

15. Queremos um mundo de crianças que não sejam nem exemplares nem adultos em miniatura. E que tenham, de entre todas as habilidades que orgulham os pais, o imenso talento de serem crianças: com a cabeça no ar, a vista na ponta dos dedos e com língua de perguntador. Um mundo onde as crianças sejam só crianças. Um mundo em que elas errem. E onde se engasguem e tenham dias maus. E onde tenham “quotas de parvoíce” que nunca se cansem de desbaratar.

16. Queremos um mundo onde as crianças acreditem no sonho e na paixão! Um mundo onde – pelo silêncio com que reage e pelo medo com que não se opõe àquilo em que acredita – nunca se fique, em relação a elas, pelo “podemos”. Porque é com cada “sim, nós queremos!”, a propósito daquilo que acreditamos ser o melhor para elas, que o mundo se conforta e a vida se abraça. Um mundo que se constrói com o melhor da infância dos pais: mais despreocupado, mais livre e mais feliz! Mas um mundo com futuro e com presente.

Eduardo Sá para a Pais e Filhos, em 19 de Janeiro de 2016

A saúde dos adolescentes portugueses em tempos de recessão – dados nacionais 2014

Março 16, 2016 às 3:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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descarregar o relatório no link:

http://aventurasocial.com/arquivo/1437158618_RELATORIO%20HBSC%202014e.pdf

O HBSC/OMS (Health Behaviour in School-aged Children) é um estudo colaborativo da Organização Mundial de Saúde (OMS) que pretende estudar os estilos de vida dos adolescentes e os seus comportamentos nos vários cenários das suas vidas. Iniciou-se em 1982 com investigadores de três países: Finlândia, Noruega e Inglaterra, e pouco tempo depois foi adoptado pela OMS, como um estudo colaborativo. Neste momento conta com 44 países entre os quais Portugal, integrado desde 1996, e membro associado desde 1998 (Currie, Samdal, Boyce & Smith, 2001).

O estudo HBSC criou e mantém uma rede internacional dinâmica na área da saúde dos adolescentes. Esta rede permite que cada um dos países membros contribua e adquira conhecimento com a colaboração e troca de experiências com os outros países. No sentido desta rede funcionar de forma coordenada, todos os países membros do HBSC respeitam um protocolo de pesquisa internacional (Currie et al., 2001).

Portugal realizou um primeiro estudo piloto em 1994 (Matos et al., 2000), o primeiro estudo nacional foi realizado em 1998 (Matos et al., 2000), o segundo em 2002 (Matos et al., 2003), o terceiro em 2006 (Matos et al., 2006), o quarto em 2010 (Matos et al., 2012) e um mais recente em 2014, ao qual se refere este relatório (relatórios disponíveis em:

http://aventurasocial.com/publicacoes.php

 

Em Portugal, a falta de autonomia dos adolescentes “é algo assustadora”

Março 16, 2016 às 2:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Entrevista do Público a Margarida Gaspar de Matos no dia 15 de março de 2016.

Enric Vives Rubio

Margarida Gaspar de Matos: “Quando há ‘apenas’ laços fortes há, em geral, pouca dissonância e debate de ideias (vamos pouco além das discussões do dia-a-dia sobre a gestão da casa)” Enric Vives-Rubio

Andreia Sanches

Entrevista a Margarida Gaspar de Matos a propósito do novo estudo da Organização Mundial de Saúde: a família, que os portugueses tanto prezam, dá afecto e apoio, mas os “pares”, sublinha, são essenciais para aprender a negociar, a debater e a descobrir o mundo.

Os adolescentes portugueses estão menos com os amigos, depois da escola, quando comparados com os de outros países. E saem menos à noite. Isso é bom, ou significa que estão demasiado presos às saias da mãe? Com que impacto no seu crescimento? Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e investigadora, da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, que coordena a parte portuguesa do estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), da Organização Mundial de Saúde (OMS), responde a algumas perguntas suscitadas pelo mais recente relatório internacional sobre a adolescência, divulgado nesta terça-feira de manhã.

Segundo o HBSC, Portugal é o país, em cerca de 40, onde os jovens de 11, 13 e 15 anos menos estão com amigos depois das oito da noite. Isto é bom ou mau? Significa o quê?

Temos uma cultura muito ligada à família e pouco ligada a “grupos de amigos”. Por outro, temos das maiores cargas de aulas e de TPC (trabalhos para casa) da Europa. E, por outro ainda, há agora a Internet que deixa os jovens mais “voluntariamente” em casa… se, por um lado, as saídas à noite estão associadas a riscos (consumos, por exemplo), por outro lado esta falta de autonomia é algo assustadora.

Que indicadores nos estudos revelam essa “falta de autonomia algo assustadora”?

Neste estudo temos dados, por exemplo, sobre a frequência com que os adolescentes jantam com a família — somos dos que mais o fazemos. Ou sobre sair à noite com os amigos — somos dos que menos o fazemos. Estudos anteriores mostravam que em Portugal os jovens não se envolviam em actividades de voluntariado, associativismo. E temos a tal imensa carga horária dos jovens portugueses na escola, que outros estudos, ainda, demonstram.

Na rede [de peritos do] HBSC falamos muito disto: há países (nórdicos) onde os jovens em geral saem de casa dos pais quando acabam o secundário, ficam entregues a si próprios, arranjam um part time para se auto-financiar, pedem um empréstimo para estudar… estas práticas não são comuns entre nós e os jovens ficam dependentes dos país até bem depois da sua maioridade.

Os estudos em geral confirmam que, salvo em casos extremos, é bom termos uma família e apreciarmos ter tempo de qualidade para a família, mas também (salvo casos extremos) é bom termos amigos, tempo livre para os amigos e irmos construindo a nossa autonomia. A família dá no início uma estrutura, mas entre amigos gera-se “a geração”. Ambos são necessários.

Sermos dos que mais jantam com a família é “bom”, se isso for indicador de coesão familiar e alimentação saudável, mas já não é tão “bom” se for indicador de que os jovens não conseguem estar sem a família. Do mesmo modo, estar com os amigos fora de aulas é “mau” se ficar associado as lutas, aos consumos e ao insucesso escolar; mas já não é tão “mau” se significar autonomia, amigos pessoais, interesses vocacionais ou de lazer partilhados… Há um sociólogo (Granovetter) que (em 1983, imagine) escreveu um trabalho chamado a importância dos laços fracos (“weak ties”). O racional é que na nossa rede de contactos sociais/o nosso capital social, temos laços fortes com um número reduzido de pessoas — pais, filhos, esposos, etc. — e laços fracos com um número mais extenso de pessoas. Os laços fortes dão-nos afecto e apoio, mas os laços fracos são importantes para nos “abrir ao mundo”, para construirmos a nossa “diferença” face à família e ao nosso grupo restrito, para nos tornarmos “tolerantes à diferença” e até curiosos sobre o mundo.

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Os laços fortes não chegam.

Quando há “apenas” laços fortes há, em geral, pouca dissonância e debate de ideias (vamos pouco além das discussões do dia-a-dia sobre a gestão da casa). São os nossos laços fracos que nos fazem questionar os nossos valores e as nossas crenças. Claro que os laços fracos podem fazer perigar a nossa “boa educação”, mas a falta de laços fracos dificulta a evolução das ideias e, em última análise, pode perpetuar, por exemplo, o preconceito, a xenofobia… Alem disso o “treino” de debate entre pares constrói-se com estes laços fracos e facilita o aparecimento de jovens com capacidades de negociação, de debate, de resolução de conflitos, que muitas vezes em relações “verticais”, como as da família, não são privilegiados….

No estudo, os adolescentes portugueses aparecem em pior posição do que os de outros países no que diz respeito aos níveis de “satisfação com a vida”, aos 13 e 15 anos. Mas, em relação a outros sintomas de saúde mental e física (como ter dores de cabeça, de estômago, dormir mal, etc), não estão tão mal como os jovens de outros países. Como se enquadra isto?

Pois, diz bem: posso adiantar apenas enquadramentos ou interpretações, estes estudos “transversais” não nos permitem identificar causas. Adianto a minha leitura. É nos mais velhos (13 e 15) que ocorre a pior posição na “satisfação com a vida” e é nos mais novos (11 e 13) que menos ocorrem os chamados sintomas múltiplos. Penso que a recessão que atolou o país desde 2010 pode estar associada à falta de satisfação com a vida. Temos outros dados em Portugal [recolhidos através de questões que nem todos os países aplicaram no inquérito, pelo que não constam dos resultados do relatório final da HBSC/OMS] que apontam para um aumento dos jovens que se auto-lesionam em Portugal, dos que dizem que “estão tão tristes que não aguentam” e dados também que mostram uma diminuição das expectativas em relação ao futuro. Estas questões, associadas à (falta de) saúde mental, formam um dos grandes problemas detectados pelo nosso estudo nacional.

Há algum tempo, numa entrevista ao PÚBLICO, a Candace Currie, a ex-coordenadora internacional do HBSC, disse que estava preocupada com a saúde mental das meninas.

Também está?

Sim, eu e a Candace e mais alguns investigadores do HBSC temos um grupo a estudar exactamente as diferenças de género. As meninas tradicionalmente “internalizam” e aparecem com mais preocupações, com menos confiança, com menos satisfação com a vida, com menor percepção de qualidade de vida, com mais sintomas,  com mais preocupações pela imagem do corpo. Como se o “glass ceiling” estivesse já na adolescência e as meninas andassem sempre stressadas a tentar “provar algo” para sua afirmação pessoal. Este stress aparece com mais força após a puberdade e, portanto, poderá estar associado a alterações hormonais (e respectiva leitura cultural claro). Já quis estudar isto a fundo mas ainda não consegui o apoio financeiro respectivo. Talvez este ano.

mais gráficos no link:

https://www.publico.pt/sociedade/noticia/em-portugal-a-falta-de-autonomia-dos-adolescentes-e-algo-assustadora-1726066

 

Os adolescentes portugueses têm um problema com a escola. E tem piorado

Março 16, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 15 de março de 2016.

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Andreia Sanches

Grande estudo da OMS sobre a adolescência. Portugal é dos países onde há menos jovens a dizer que gostam muito da escola. E os seus níveis de satisfação com a vida já conheceram melhores dias. Mas em muitos aspectos são mais saudáveis.

Os adolescentes portugueses sentem-se mais apoiados pela família. Queixam-se menos de dores de cabeça, de estômago, de dificuldades em dormir. São dos que mais tomam o pequeno-almoço todos os dias, o que, é sabido, é bastante saudável. Têm consumos de álcool ligeiramente abaixo da média observada noutros países. E fumar vai sendo menos frequente. O novo grande estudo internacional sobre a adolescência, da Organização Mundial de Saúde (OMS), faria respirar de alívio milhares de pais em Portugal se ficássemos por aqui. Mas não é o caso. Primeira má notícia: os adolescentes portugueses são dos que gostam menos da escola, em 42 países e regiões analisados. E piorou bastante nos últimos anos.

“Quando em Portugal perguntamos do que é que gostam na escola, as aulas aparecem em último lugar. Pior que as aulas, só mesmo a comida da cantina. E isto tem sido recorrente, somos sempre dos piores no gosto pela escola e na percepção de sucesso escolar. Não há nenhuma razão demográfica ou geográfica que eu conheça que explique tal, e o atraso provocado pelo obscurantismo de antes do 25 Abril (sendo uma incontestável verdade) já devia, por esta altura, estar ultrapassado.” Quem o diz é Margarida Gaspar de Matos, a investigadora que em Portugal coordena este estudo da OMS desde que, em 1998, o país começou a participar.

Chama-se Health Behaviour in School-aged Children, é feito de quatro em quatro anos. Os resultados da edição de 2014/2015 são apresentados nesta terça-feira de manhã, em Bruxelas. Baseiam-se nas respostas de mais de 220 mil adolescentes europeus e do Norte da América.

A recolha foi feita em escolas com 6.º, 8.º e 10.º anos. O objectivo é avaliar hábitos, consumos, comportamentos, com impacto na saúde física e mental, em diferentes fases de crescimento: aos 11, aos 13 e aos 15 anos.

Em Portugal participaram 6000 adolescentes — em Dezembro de 2014 o PÚBLICO divulgou as primeiras conclusões do inquérito nacional, aplicado nesse ano, que mostravam um número crescente de jovens a queixar-se de sintomas que revelavam mal-estar psicológico, tristeza, stress, insatisfação. Agora, com este relatório internacional, esses dados são vistos à luz do que se passa noutros pontos do globo.

A escola vai mal

Gostas muito da escola? Cerca de um quarto dos adolescentes de 15 anos dos 42 países e regiões participantes dizem que sim. A Arménia tem o melhor resultado, a Bélgica francófona o pior, Portugal surge com a 33.ª pior posição: só 11% dos rapazes e 14% das raparigas dizem que gostam bastante da escola.

Os adolescentes portugueses são também dos que maior pressão sentem com a vida escolar e dos que menos se têm em conta como alunos. É assim desde cedo: aos 11 anos, aparecem quase no fim da tabela, com a 38.ª pior auto-avaliação do seu desempenho escolar. Aos 15 é pior. Só 35% das raparigas e 50% dos rapazes consideram que têm bom desempenho escolar, quando a média dos 42 países é 60%.

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Os macedónios, os albaneses, os búlgaros, os israelitas e os ingleses são os que mais acham que na escola até se saem bem; os portugueses e os húngaros estão no extremo oposto.

“Isto é um forte alerta aos responsáveis pela educação neste país”, diz Margarida Matos, em resposta ao PÚBLICO. “É preciso avaliar a situação, identificar determinantes, estudar casos de sucesso noutros países, aprender com o que funciona bem. A minha percepção, neste e noutros casos, é que temos uma tendência nacional para nos esmerarmos na legislação, mas esta raras vezes é antecedida de uma avaliação dos pontos fortes e fracos das situações e ainda mais raras vezes é seguida por um estudo das consequências e dos riscos. Do ponto de vista da populações (e neste caso das famílias) parece que os governantes andam a saltar de medida em medida ‘apenas’ para fazer diferente, sem grande racional por trás.”

Nem sempre estivemos tão mal: em 1997/1998, ano de estreia dos portugueses no estudo da OMS, o país era o 2.º no gosto pela escola, em 28 participantes. Melhor do que a Noruega, Israel ou os Estados Unidos, por exemplo. Mais de um terço dos jovens portugueses de 15 anos diziam então que gostavam muito da escola.

Em 2001/02 descíamos para 8.º no ranking. Quatro anos depois já aparecíamos em 22.º. E se em 2009/10 se registou uma ligeira melhoria (o país ficou 21.º), em 2014/15 estamos pior do que nunca, com o tal 33.º lugar.

O problema não são os colegas — que são, na verdade, o que os portugueses mais gostam na escola, seguindo-se os “intervalos” entre aulas. O problema são mesmo as aulas, consideradas aborrecidas, e “a matéria”, que é descrita como excessiva, prossegue a investigadora da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa.

As diferenças de género são evidentes: as raparigas têm quase sempre pior percepção da sua competência escolar. Aos 15 anos gostam menos da escola do que eles. E são também elas que mais se mostram mais stressadas com os trabalhos para casa. De resto, em Portugal, como no resto do mundo, as meninas estão a suscitar preocupações crescentes aos peritos da OMS. “São mais propensas a relatar saúde irregular, múltiplas queixas, menor satisfação com a vida”, lê-se nas conclusões do relatório internacional.

E a vida em geral?

“A experiência que se tem com a escola pode ser crucial no desenvolvimento da auto-estima e de comportamentos saudáveis. Os adolescentes que sentem que a escola os apoia estão mais propensos a ter comportamentos positivos e a serem mais saudáveis”, prosseguem os peritos da OMS, “têm níveis de satisfação com a vida mais elevados, menos queixas relacionadas de saúde e apresentam menor prevalência de consumo de tabaco”. Em suma: as escolas têm um papel essencial no bem-estar.

Em Portugal, contudo, como já se viu, a escola não parece ser grande fonte de felicidade. E os temas “satisfação com a vida” e “bem-estar” foram mesmo dos mais surpreendentes no inquérito português quando ele foi divulgado no fim de 2014. Quase um em cada três adolescentes disse que se sentia deprimido mais do que uma vez por semana. Eram 13% em 2010. E um em cada cinco alunos do 8.º e 10.º anos magoara-se a si próprio nos 12 meses anteriores ao inquérito, sobretudo cortando-se nos braços, nas pernas, na barriga.

As perguntas relacionadas com auto-lesões não foram incluídas no estudo internacional agora tornado público, uma vez que nem todos os países as colocaram nos inquéritos. Não eram obrigatórias. Mas atente-se, por exemplo, à pergunta sobre “satisfação com a vida”: os adolescentes portugueses estão comparativamente em pior posição, aos 13 e 15 anos, do que os de outros países. Números: em Portugal, 74% das raparigas e 83% dos rapazes de 15 anos deram uma nota de 6 ou mais à sua felicidade (numa escala de 0 a 10); a média do HBSC é de 79% e 87%, respectivamente, o que significa que sobretudo as raparigas portuguesas estão aquém da média. Globalmente, o país aparece neste indicador em 36.º lugar, em 42. Há quatro anos, estávamos melhor, em 28.º.

Os luxemburgueses, os galeses, os ingleses, os polacos e os macedónios são os menos satisfeitos de todos, aos 15 anos de idade. E é na Arménia, na Moldávia, na Albânia, na Holanda e na Suíça que se encontram as maiores percentagens de satisfação com a vida.

“O que aconteceu em Portugal foi que os jovens com elevada satisfação melhoraram, os com muito baixa satisfação continuaram assim, mas os que tinham uma satisfação mediana desceram”, explica Margarida Gaspar de Matos. A recessão económica, diz, “além de ter feito descer a satisfação com a vida, foi fonte de iniquidade, uma vez que não afectou os mais satisfeitos, havendo uma associação da satisfação com a vida com a condição económica — quanto melhor condição económica mais satisfação com a vida”.

Sexo com preservativo

Boa notícia é o facto de quando se fala dos chamados “sintomas múltiplos” — dores de estômago, de cabeça, dificuldades em dormir — o país aparecer muitíssimo melhor do que outros, com percentagens bem abaixo de média de jovens a declarar tais sofrimentos. “Ainda temos um bom Sistema Nacional de Saúde, certo? A precariedade afecta primeiro a satisfação e o bem-estar e só depois a saúde física”, continua a investigadora.

E como se saem os portugueses em matéria de consumos? Há “bons resultados, comparados com as médias HBSC”, prossegue. Comece-se pelo tabaco: 10% das raparigas e 12% dos rapazes de 15 anos fumam pelo menos uma vez por semana, a média dos países do HBSC é 11% e 12%. No que diz respeito ao uso de cannabis passa-se o mesmo (entre 10 e 13% já usaram, a média é 13% e 17%, o país onde há mais gente a consumir é a França, entre 14 e 16%).

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No que diz respeito ao uso de preservativo, apesar diminuição registada em Portugal, desde 2010, “estamos, ainda assim, nos sete primeiros lugares”, nota Margarida Matos: 75% das raparigas de 15 anos e 73% dos rapazes da mesma idade que já tiveram relação sexuais disseram que usaram preservativo na última relação. Suíça, Grécia e Ucrânia têm as taxas de utilização mais altas; Polónia, Malta e Suécia os piores.

A propósito, mais um dado: aos 15 anos, 13% das raparigas e 26% dos rapazes portugueses disseram já ter ido relações sexuais, contra uma média internacional de 17% e 24%, respectivamente.

As más notícias regressam quando se chega ao capítulo do peso/obesidade. Em Portugal, há mais adolescentes com excesso de peso ou até mesmo obesos do que a média. No grupo dos miúdos de 15 anos, o país está no 12.º lugar (entre 16% e 21%, respectivamente raparigas ou rapazes, apresentam peso a mais ou obesidade, o que significa um ligeiro aumento em relação há quatro anos).

Pesados e parados

As meninas portuguesas de 13 anos são mesmo das que têm mais excesso de peso nos 42 países analisados: 24% têm peso a mais ou estão já obesas, sendo que uma prevalência igual é observada no Canadá e maior só em Malta.

Portugal tem ainda um ponto a seu desfavor: aos 11, 13 ou 15 anos os adolescentes portugueses são dos que menos exercício físico fazem diariamente — o indicador é “60 minutos por dia de actividade física moderada a vigorosa”, que é o recomendado, como lembra a OMS.

“Temos agora uma regulação cuidada sobre a alimentação nas escolas”, nota Margarida Matos. “Mas por qualquer motivo os alunos continuam a queixar-se que comem mal.” Ou seja, “tanto na área da alimentação na escola como na área da prática da actividade física, o que quer que ande a ser feito não está a dar resultado”. Serão necessárias novas abordagens.

Alguma intervenção centrada na “educação para a diferença, para a tolerância e para a expressão convivial de pontos de vista diferentes” é também sugerida pela investigadora, para atacar a questão do bullying.

Aos 11 anos, por exemplo, entre 11% (raparigas) e 17% (rapazes) disseram que foram alvo de bullying na escola, “duas ou três vezes por mês nos últimos dois meses”. A média é 13%. O país tem, assim, a 16.ª taxa mais alta de alunos de 11 anos que se dizem vítimas de bullying.

O cenário piora quando se avalia a percentagem de adolescentes que foram vítimas “pelo menos uma vez nos últimos dois meses” — ou seja, quando se procura aferir um bullying menos frequente, 34% dos alunos de 15 anos dizem ter sido vítimas. Bem acima da média HBSC de 23%.

A coordenadora do HBSC sublinha que “diminuíram muito as situações de vitimização desde 2002” e que “agora estamos ‘apenas’ um pouco acima da média”. Subsiste, contudo, “algo de chamemos-lhe ‘cultural’” — relações interpessoais algo “belicosas” entre pares, mesmo quando se diz que se gosta dos colegas: é “o empurrão”, é o “não deixar falar”, é o “chamar parvo”, é o “insulto ocasional”.

Margarida Matos remata: “Talvez esteja na hora de incluir, nos programas das escolas, um aspecto convivialidade positiva entre pares, nomeadamente nas questões entre idades, entre géneros e entre culturas.”

EntrevistaEm Portugal, a falta de autonomia dos adolescentes “é algo assustadora”

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mais gráficos no link:

https://www.publico.pt/sociedade/noticia/os-adolescentes-portugueses-tem-um-problema-com-a-escola-e-tem-piorado-1726154

 

 

 

Formação “Introdução à Perturbação do Espectro do Autismo” em Viana do Castelo

Março 16, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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08 e 09 de Abril
Formação “Introdução à Perturbação do Espectro do Autismo”, pela Fundação AMA.
Inscrições limitadas.

96 6190086

formacao@fundacaoama.pt

http://www.fundacaoama.pt

“Então é assim” – Educação Sexual para Crianças, em vídeo

Março 16, 2016 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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