Estamos a criar filhos ‘totós’

Fevereiro 13, 2016 às 6:33 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Jornal de Leiria de 21 de janeiro de 2016.

Ricardo Graça

Ir para a escola sozinho, brincar na rua depois do anoitecer, subir às árvores ou até mesmo aventurar-se a ir de bicicleta à padaria da esquina são coisas do passado. A maioria dos pais da geração dos 35-45 anos estão a criar filhos sem autonomia

“Não corras porque cais”. “Não subas à árvore porque partes um braço”. Tirar as rodinhas da bicicleta? “Cuidado, porque pode magoar-se.” Estas e muitas outras expressões são uma constante nas bocas dos pais da geração dos 35-45 anos, que parece terem-se esquecido do que é ser criança.

Quando eram pequenos muitos foram rebeldes e desafiaram o perigo constantemente. No fundo, dizem os especialistas, fizeram aquilo que se espera que uma criança faça: arriscar e aventurar-se. Mas, enquanto pais, são incapazes de se libertar do instinto protector e pecam por excesso.

Esta superprotecção está a criar futuros adultos inseguros, com fraca auto-estima e com pouca resiliência e autonomia. O desistir facilmente e a dificuldade em superar problemas são, muitas vezes, resultado de um controlo excessivo que viveram por parte dos pais, que os impediram de correr riscos que os ajudaria a ficar preparados para enfrentar ‘verdadeiros perigos’.

Recuperando os dados recolhidos pelos investigadores da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, que constam num estudo sobre a independência e a mobilidade das crianças em Portugal, divulgado em 2013, constata-se que apenas 35% das crianças do 3.º ao 6.º ano fazem o trajecto entre casa e escola a pé e mais de metade vai de carro.

Com a mesma idade, 86% dos pais iam a pé e apenas 9% de carro. O resultado do estudo coloca Portugal em 10.º lugar na independência e mobilidade das crianças, comparando com os restantes 15 países avaliados.

Os mais autónomos são os jovens da Finlândia, Japão e Noruega. A justificação dos pais para travarem uma maior autonomia dos filhos tem a ver com o medo. De quê? “De acontecer alguma coisa.” Karina Guergous admite que é “muito superprotectora”.

“Apesar da escola ser perto só há dois anos é que deixo os meus filhos irem sozinhos”, confessa, referindo que as duas gémeas têm 17 anos e o rapaz tem 15 anos. Esta franco-argelina radicada em Pombal enfrentou alguns riscos enquanto adolescente e, por isso, quer “proteger” os filhos.

“Vivia em Paris e quando andava no 5.º ano ia sozinha para a escola e, por várias vezes, fui abordada por adultos perversos. Na adolescência é fácil perder o controlo: andamos à procura da nossa identidade e é fácil experimentar droga e álcool ou entrar em grupos criminosos”, salienta Karina Guergous confessa que a sua experiência de vida a tornou “mais severa” com os filhos.

“As gémeas são muito bem comportadas, nem têm nada a ver comigo, que fui muito aventureira. O meu filho já é muito mais parecido comigo na abertura para o mundo. Talvez agora já o deixe explorar um pouco mais, pois Pombal é uma cidade mais segura. Mas eu poderia ter sido raptada e não quero que os meus filhos passem por situações dolorosas.”

Esta mãe, que ainda tem outra menina com um ano, considera que “ter a noção do perigo” e do que poderia ter acontecido “torna os pais mais protectores”. Karina Guergous desconhece que consequências poderá causar esta protecção extrema, mas afirma que a “relação aberta” que mantém com as crianças – “sem ser amiga” – os ajuda a preparar para o futuro.

“Acredito que se forem confrontados com uma situação complicada vão saber reagir.” Garantindo que não dá aos filhos a liberdade que a mãe lhe deu, esta mãe sabe que se “deve dar asas para os filhos voarem”.

“Sei que me estou a contradizer com o que faço na prática.” Medo domina os pais Também Patrícia Ervilha, mãe de uma criança com 8 anos, confessa que o medo é que faz, dela e “sobretudo” do marido, uns pais superprotectores.

“Quando era pequena ia de autocarro para a escola. Hoje seria impensável deixar o meu filho fazer isso. Tenho consciência que não lhe dei a mesma autonomia que os meus pais me deram a mim. Fazemos tudo por eles e a culpa é nossa”, admite.

Redacção

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O que podemos aprender com a independência das crianças japonesas?

Fevereiro 13, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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texto do site http://mapadainfanciabrasileira.com.br 22 de janeiro de 2016.

mapainfancia

AUTOR (ES): Toda Criança Pode Aprender

Uma reflexão sobre a autonomia que diferentes culturas concedem às crianças, e sobre até que ponto a estrutura das cidades considera a criança como cidadã, com direitos sobre o espaço público.

O filme
As crianças independentes do Japão
, um curto documentário produzido pelo canal australiano SBS2, começa com uma criança recitando um provérbio japonês: “Envie a criança amada em uma jornada.” O significado dessa frase é explorado durante o documentário como revelador do modo como a cultura japonesa lida com suas crianças.

O documentário acompanha a rotina de duas famílias, uma japonesa e uma australiana, comparando as duas de modo a evidenciar os diferentes traços culturais na maneira como a criança é vista.

https://www.youtube.com/watch?v=ZaH7GIHaISs

Noe é uma menina japonesa de 7 anos, e sua escola não fica próximo ao pequeno apartamento onde vive com seus pais, na cidade de Tóquio. Para chegar à escola, ela caminha até a estação de metrô, segue por algumas estações, desce e pega outro trem, de outra linha, até chegar à estação mais próxima à sua escola, tendo que caminhar mais um pouco até lá. Já faz isso há um ano.

Noe é, assim como outras crianças japonesas, muito incentivada por seus pais a trilhar este percurso diariamente e a realizar outras tarefas com autonomia, contando consigo mesma.

Em Sydney, somos apresentados à família Frazer. Emily, de 10 anos, vai para a escola no banco de trás do carro do pai. Ela nunca foi para a escola sozinha, mas expressa claramente vontade de fazer isso. “O que mais anseio pelo Ensino Médio é saber que vou poder voltar da escola sozinha”, a menina declara, para então ser amparada por uma estatística que o narrador do filme fornece: “a maioria das crianças deseja ir e voltar da escola sozinha, mas os pais não permitem, justificando esse comportamento com a preocupação pela segurança delas”.

Porém, o filme adverte que pensar essa autonomia em relação às crianças como resultado apenas de segurança na cidade mostra-se equivocado. A paranoia com segurança não necessariamente vem acompanhada de dados reais: Sydney, por exemplo, tem baixos índices de criminalidade, mas o comportamento cultural do Ocidente em relação às crianças é o de acompanhá-las de perto até a adolescência. Isso não significa, é claro, que este é um aspecto que possa ou deva ser ignorado.

Sabemos – e o filme deixa isso bem claro – que cada cultura recebe e forma crianças de diferentes maneiras. É evidente que a estrutura brasileira, tanto cultural quanto de segurança na cidade, não nos permite simplesmente copiar o comportamento japonês. Mas podemos usar esse exemplo, que pode ser muito impactante – ver crianças tão pequeninas andando sozinhas em uma cidade tão grande e populosa quanto Tóquio – como ponto de partida para reflexão: quanto confiamos nas crianças? Quanta autonomia concedemos a elas? Como a cidade em que vivemos leva mais ou menos as crianças em consideração enquanto cidadãs, que circulam livremente no espaço urbano?

O desenho de uma cidade pode ser favorável ou não à circulação das crianças. Espaços que favorecem pedestres e não carros, escolas localizadas perto de praças públicas e locais movimentados e não distantes e isolados, e ainda próximas do local onde moram as crianças, são apenas alguns elementos de planejamento urbano que criam um ambiente mais favorável para a circulação autônoma das crianças.

Para que ações como estas sejam realizadas, é preciso haver uma mudança de atitude, por parte daqueles que planejam as cidades, mas também por parte dos adultos que criam as crianças. Que tal, da próxima vez que estiver andando com uma criança na rua, em vez de segurar a sua mão o tempo todo, soltar um pouquinho e observá-la em um pequeno momento de independência na cidade?

 

 


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