Adolescentes não têm mimos a mais, têm mimos maus

Fevereiro 4, 2016 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto publicado no http://lifestyle.publico.pt de 26 de janeiro de 2016.

Ricardo Silva

Por Inês Garcia

O caso do adolescente norte-americano com “affluenza” trouxe preconceito contra as famílias ricas. Miúdos mimados ou com falta de mimos?

Em 2013, o adolescente Ethan Couch, de 16 anos, provocou a morte de quatro pessoas e feriu nove, enquanto conduzia embriagado no Texas, Estados Unidos. Os seus advogados alegaram que o jovem sofria de uma condição chamada “affluenza” para justificar a sua não-culpabilidade, argumentando de que a falta de valores morais e limites se devia à permissividade dos pais. Detido no fim de 2015 por ter violado a sua liberdade condicional e a aguardar julgamento, surgem as opiniões – “miúdo mimado”, “reflexo de negligência parental” ou “culpa de um vírus”?

O termo “affluenza” vem das palavras inglesas “influenza” (“gripe”, em português) e “affluence” (“influência, riqueza”), foi popularizado nos anos 1990 e refere-se a jovens que nunca terão aprendido a ser responsáveis nem a medir as consequências dos seus actos. A culpa disto seria dos pais, que teriam mimado os jovens em demasia. Mas esta condição nunca foi reconhecida pela Associação Americana de Psicologia – “há um conjunto de comportamentos e criou-se o termo para falar disso, mas não corresponde a um diagnóstico clínico, a comunidade não o aceita como tal”, atesta José Morgado, especialista em psicologia de educação, em conversa telefónica com o PÚBLICO.

A utilização desta condição foi uma estratégia de defesa de Couch – tentar provar a instabilidade perante um crime pesado em que o arguido é culpado é “comum” – mas “a América tem um contexto muito particular nas questões jurídicas, com meandros muito diferentes dos nossos”, lembra Morgado. “Não tenho a certeza se um caso com esse figurino teria o mesmo final num país da Europa, o modelo de justiça é muito diferente”.

Morgado admite, porém, que há crianças e jovens que crescem com alguma desregulação ao nível dos valores e dos limites. Há aqui algo que a sociedade não deve ignorar, defende Suniya Luthar, professora de psicologia na Universidade do Estado de Arizona num artigo para a agência Reuters intitulado Às vezes as ‘pobres criancinhas ricas’ são mesmo pobres criancinhas ricas, citado pela CNN. “Há provas crescentes de que os filhos dos ricos estão-se a tornar cada vez mais perturbados, irresponsáveis e auto-destrutivos”, defende Luthar, que investiga as vidas de crianças privilegiadas há 25 anos. José Morgado defende, no entanto, que “não há uma relação directa entre ter muito dinheiro e ter um determinado tipo de comportamento” por “uma razão simples: se houvesse uma relação causa-efeito, todas as pessoas teriam o mesmo comportamento na mesma circunstância e isso não se verifica”.

“São mais os estilos de vida que podem estar ligados a determinado tipo de condição, determinados tipos de exercício profissional, pouca presença familiar… Estes estilos podem reflectir-se ao nível do estabelecimento da educação, os miúdos ficam mais sós, com menos regras, com menos orientação, menos níveis de comunicação”, explica Morgado, que trabalha directamente com pais e professores de vários colégios e ouve queixas de determinado tipo de comportamentos. “Há pais muito ausentes que, como têm dinheiro, compram o serviço educativo, não o exercem. Não porque queiram ser maus pais”, continua, “mas não têm tempo, têm horários exigentes”.

Mas isto não está relacionado, frisa o especialista, com “mimo a mais”. “Tira-me do sério a expressão dos miúdos que têm mimos a mais. Não há ninguém que tenha mimos a mais, são é maus mimos”, diz, sublinhando o mimo como um bem imprescindível na vida das pessoas em qualquer idade. “Se não lhe dão mimo, se deixam fazer tudo o que a criança ou o jovem quer, isto não é mimo, é mau mimo, é um mau serviço prestado à criança”, enfatiza José Morgado.

Os miúdos a quem chamam “muito mimados” são crianças “mal-educadas”, diz José Morgado. “São miúdos sem regulação nos valores e nos limites”, que precisam de ouvir mais “nãos”.

As crianças e jovens “precisam e querem que lhes digam o que está certo e o que está errado e aprender a serem responsáveis e as consequências das suas acções”, frisa o psicólogo norte-americano Harris Stratyner à CNN. “O que as pessoas não percebem é que, para as crianças, os limites são necessários para que se sintam seguras. Elas não são cognitivamente capazes de definir limites para si próprias por isso precisam que nós, pais, lhes digamos ‘ok, é aqui que estou a traçar a linha. Não podes ultrapassá-la e haverá consequências se o fizeres’”, acrescenta Suniya Luthar.

Comunicação é essencial

“É preciso arranjar formas de comunicação com os miúdos”, reconhece José Morgado. Mas também é preciso “sermos realistas”: “Não posso dizer a um pai, que tem um trabalho e horários exigentes, para arranjar tempo. É preciso é adaptar o tempo às suas circunstâncias de vida. Há menos tempo mas o tempo de que dispõem tem de ser para comunicar com os miúdos”, aconselha, lembrando que a educação é feita com base na relação e só há relação se houver comunicação. “É isto que os pais não se podem esquecer”.

É preciso sermos “proactivos” e ter atenção, realça o psicólogo. “Quando chegamos a casa devemos perguntar aos jovens como correu o dia. Podem não querer falar, há a idade em que preferem falar com os amigos dos seus grupos, mas é importante os pais perguntarem e mostrarem que estão lá” para qualquer eventualidade, continua.

A psicoterapista norte-americana Eileen Gallo, co-autora do livro Silver Spoon Kids: How Successful Parents Raise Responsible Children, chama a atenção para as conversas dos pais com os filhos não só sobre os dias de escola dos miúdos mas também para contar os seus dias de trabalho. As conversas são “tão importantes” nestes casos, diz à CNN, “provavelmente ainda mais nos dias de hoje” – em que o contacto é feito através de chamadas ou troca de mensagens nas redes sociais em vez de conversas cara-a-cara.

Os níveis de deliquência entre pobres e ricos são “comparáveis”, diz Suniya Luthar. Independentemente dos rendimentos e do seu lar, há sentimentos de ansiedade, depressão, crimes – e é essencial haver figuras a seguir (role models) e comunicação. A única diferença pode ser a forma de quebrar as regras: nos lares das famílias de classe média-alta “o dinheiro é abundante, por isso os jovens têm mais dinheiro para comprar drogas, álcool e arranjar sofisticados bilhetes de identidade falsos e os pais têm dinheiro para pagar a advogados bons”.

“Não é fácil. É confuso. Isto de ser um pai ‘bom o suficiente’ é desconcertante. E pensar que só por que temos mais estudos ou mais dinheiro temos as respostas certas, que sabemos a melhor coisa a fazer para continuar a fazê-la, é um equívoco”, refere Luthar.

 

 

 

 

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