Não faça pela criança o que ela pode executar sozinha

Fevereiro 2, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

texto do site http://www.mamaeplugada.com.br de 15 de janeiro de 2016.

img_2426-1

Um estudo realizado por uma equipe de pesquisadores da área de psicologia, antropologia e sociologia da Universidade da Califórnia, analisou famílias de classe média em seu dia a dia (não em “laboratório”)  e chegaram a conclusões que não permeiam só o ambiente norte americano, mas sim uma realidade para famílias que tem pouco tempo para seus filhos. O estudo mostra que cada vez mais as crianças estão dependentes de seus pais, que os tratam como sendo “centro das atenções”. Veja mais sobre esse estudo aqui.

Percebemos não só nos Estados Unidos, local do estudo, que com um dia a dia cada vez mais agitado, pais e mães com no máximo 4h/dia de tempo útil com seus filhos (acordados, quando podem ensinar), a culpa reina. E muitos, quando estão com as crianças, ficam mais tendenciosos proporcionar alegrias, fazer tudo aos seus filhos (mesmo o que eles podem fazer sozinhos) do que ensiná-los responsabilidade,  por falta de tempo com elas. Superprotegem ao invés de dar-lhes independência.

Não estou generalizando. Conheço muitos que trabalham – e muito – fora e ainda assim prezam por disciplinar seus filhos, mesmo em 3-4 horas por dia em que estão juntos. Priorizam isso à fazer a vontade dos pequenos, o que é muito custoso a eles, afinal muitas vezes que educar muitas vezes implica em desagradar e dói desagradar em tão pouco “tempo líquido” juntos.

Apesar de conhecer muitos pais conscientes, não é a grande maioria que tem esse comportamento responsável perante a formação do caráter de seu filho e, infelizmente, passam a “tarefa chata” para outra pessoa resolver no dia seguinte, o que nem sempre é tão efetivo quanto se os pais o fizessem.

Quem educa é pai e mãe, não babá e escola. Estes tem que ser responsáveis por tomar conta e continuar a educação iniciada em casa pelos pais.
Mesmo levando em consideração que educar implica em desagradar a criança, não concordo com aqueles que entendem que educar implica em impor tudo, desrespeitando os sentimentos da criança em itens que não necessariamente precisam ser negligenciados. Criança não é um quintal nosso, onde fazemos o que queremos. É um ser único que deve ser preparado para o mundo, não para nossas vontades e caprichos. Estes dias escrevi um post que gerou muita polêmica:
sobre respeitar as crianças que não querem ter contato físico. Vejam bem: respeitar isso não quer dizer não educa-las! Cumprimentar com cordialidade é diferente de obrigar o contato físico.
Respeito minha filha em seus sentimentos, mas não faço todas as suas vontades. Ela tem obrigação de ser educada, cumprimentar, falar bom dia, agradecer, pedir licença, arrumar seus brinquedos após brincar, comer, escovar os dentes, tomar banho,… Mas o que diz respeito a ela, como ser único em formação, não me acho no direito de intervir: ela é mais tímida, quieta, não preciso obriga-lá a fazer algo que não é da natureza dela só para agradar os outros. Preciso orientá-la a viver bem e feliz em sociedade, dando-lhe auto confiança e saúde emocional.

E, ao contrário do que muitos pensam, por saúde emocional não se deve entender fazer tudo o que a criança quer é muito menos fazer tudo por ela, mas sim mostrar que ela é capaz de fazer as coisas sozinha!

Ela tem obrigação de escovar os dentes, né? Se ela consegue escovar sozinha, por que vou ficar escovando para ela (posso no final da escovação, só ir lá dar “aquele retoque”, rsrsrs). Isso faz com que a criança adquira confiança e responsabilidade.
E por responsabilidade, acho que podemos começar em casa desde muito cedo. Dar funções a crianças que elas são plenamente capazes de cumprir e, se não o fizerem, outras pessoas da casa sofrerão as consequências. Isso é um jeito simples e no aconchego do lar de mostrar desde cedo que o que um deixa de fazer, joga para as costas do outro. Ou seja, sua preguiça implicará em sobrecarregar o outro.
Ninguém aqui está propondo que você peça para seu filho limpar a casa enquanto você fica de pernas para o ar lendo jornais, rsrsrs. Mas sim propor algumas pequenas tarefas que ele já poderá executar a partir dos 2 anos de idade, conforme tabelinha abaixo. Lembrando que eles estão aprendendo e isso implicará SUPERVISÃO DE UM ADULTO.

img_2423

Lembrem-se: a gente ensina valores através de exemplos e dentro de casa. Educar não é fácil e está longe de ser fazer tudo pela criança. Mesmo criando com apego, como tenho muita simpatia, também prevê que devemos ensinar responsabilidades.
Então, vamos arregaçar as mangas, não importa o tempo que você tenha com seus filhos, e mãos à obra: ensinar senso de significância, responsabilidade de seus pequenos afazeres, cordialidade…

Além de estar educando para o mundo, essas pequenas atitudes são excelentes maneiras de combater o egocentrismo inerente às crianças e criar com sólida base em auto-confiança!

 

 

 

Ensaio Geral Solidário a favor do IAC – Poderá fazer o seu donativo até 3 de fevereiro!

Fevereiro 2, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação, Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

ensaio

O Instituto de Apoio à Criança convida-o a assistir ao Ensaio Geral Solidário do Programa Reportório / SERENADE / GROSSE FUGE / HERMAN SCHMERMAN / 5 TANGOS, pela Companhia Nacional de Bailado, no próximo dia 04 de Fevereiro, pelas 21H00, no Teatro Camões – Parque da Nações, Lisboa (junto ao Oceanário).

Ao contribuir com um donativo a partir de 12 euros, o Instituto de Apoio à Criança oferece-lhe um convite para assistir ao Programa de Reportório que reúne alguns dos coreógrafos que mais marcaram a História da Dança.

Até ao próximo dia 03 de Fevereiro poderá fazer o donativo através de:

  • Transferência bancária – NIB: 0035 0150 00050589030 90, envio do comprovativo para iac-sede@iacrianca.pt indicando os dados para emissão do respetivo recibo (nome, morada e NIF)
  • Através de cheque à ordem de Instituto de Apoio à Criança
  • Presencialmente, na sede do Instituto de Apoio à Criança – Largo da Memória, nº 14, 1349-045 Lisboa (perto da Igreja da Memória)

Os convites podem ser levantados na sede do Instituto, (Largo da Memória, nº 14, 1349-045 Lisboa, perto da Igreja da Memória), ou enviados por email, sendo imprescindível a sua apresentação no dia do Bailado.

O Instituto de Apoio à Criança é uma Instituição de Solidariedade Social, sem fins lucrativos, com o NIF 501 377 662, a quem foi reconhecido o estatuto de superior interesse social (Despacho conjunto nº823/98, de 9 de Novembro, publicado no Diário da República, II Série, de 27 de Novembro. Os donativos concedidos ao IAC enquadram-se nos Artigos 62º e 63º do Estatuto dos Benefícios Fiscais.

Para mais informações contacte o IAC através de Tel: 21 361 7880 / 913 247 970 ou iac-sede@iacrianca.pt.

Pela Defesa dos Direitos da Criança

Informação

Cartaz

 

Podemos aprender a ser pais?

Fevereiro 2, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas:

Artigo de opinião de Diana Ralha publicado na Visão de 16 de janeiro de 2016.

O primeiro-ministro inglês David Cameron elegeu o tema da Família como prioridade política para os próximos cinco anos, e propõe aulas de parentalidade financiadas pelo Estado. Faz sentido?

Uma enorme polémica rebentou no início desta segunda semana de 2016 no Reino Unido. Os seus ecos não me chegaram pela imprensa portuguesa, mas sim através dos insondáveis mistérios do algoritmo do Facebook, que trouxe ao meu feed, logo bem cedo pela manhã de segunda-feira, um post do The Guardian (sinais dos tempos – a rede social é cada vez mais um agregador e plataforma de leitura de jornais) sobre uma discussão que me apaixona desde sempre – esta coisa de ser mãe, esta coisa de ser pai, de construir uma Família, num mundo cada vez mais complexo.

Num dos seus primeiros discursos do ano, o primeiro-ministro conservador David Cameron elegeu o tema da Família (assim mesmo, com letra grande, porque é tão importante como quando usamos a maiúscula em Homem, para falar da Humanidade, que simplesmente é indissociável desta coisa transcendental que é Família) como prioridade política para os próximos cinco anos, e ousou propor aos súbditos da rainha de Inglaterra aulas de parentalidade financiadas pelo Estado. Defendendo que a Família é o melhor antídoto para a pobreza, o primeiro-ministro britânico anunciou ainda um reforço da oferta pública de terapia e aconselhamento conjugal.

Com este discurso, e com as medidas que estão neste momento em cima da mesa, Cameron incendiou a opinião pública britânica. Sucedem-se acaloradas opiniões e argumentos dos dois lados da barricada, as polls online revelam um esmagador repúdio dos britânicos, e os tablóides lançam álcool para a fogueira, refrescando a memória coletiva do infeliz episódio em que o primeiro-ministro britânico deixou a filha por uns instantes num pub, como quem diz: ‘Quem é este que nos quer ensinar a ser melhores pais?’

A ideia não é nova, porém. Há quatro anos, após os motins violentos em Londres que abriram os noticiários internacionais, Cameron tentou implementar aulas de parentalidade financiadas pelo Estado, para controlar a escalada de violência que assolou Londres em 2012. Dotou o programa piloto com sete milhões de libras e a expetativa inicial, de impactar vinte mil famílias carenciadas, reduziu-se a apenas três mil corajosos que embarcaram na aventura de melhorar as suas competências em parentalidade.

Porque volta então Cameron à carga?

Será assim tão descabida a ideia? E porque é logo descartada pela esmagadora maioria dos britânicos?

Sabem tudo sobre este duro ofício que é ser pai e mãe? Não aceitam lições de moral?

Identificam pelo tipo de choro de um recém-nascido aquilo que ele precisa apenas com uma intuição inata? Dominam a problemática da amamentação e das malvadas cólicas porque a fada madrinha acenou com a varinha mágica enquanto desmaiavam de cansaço pela privação de sono? E essa característica quase sobrenatural, das certezas absolutas sobre a parentalidade, desceu neles no momento do parto, ou foi logo às primeiras semanas da gravidez?

Podem por favor exportar a solução para o resto do mundo de como se põem as pestes a dormir a horas decentes? Esclarecem-me como deixo de negociar a torto e a direito com pequeninas criaturas adoráveis com tiques de ditadores?

E já agora, se não for pedir muito: como comunico com uma pré-adolescente, que se fecha num quarto e que parece ter distúrbio de personalidade múltipla? Sem querer ser muito chata, sabem o que é um canal de Youtube? E o Snapchat? Sabem o que andam os nossos filhos a fazer por essas bandas?

Tenho quatro filhos e isso faz de mim, para todos os efeitos, uma mãe experiente, que já tem umas luzes sobre como se cria um filho feliz, íntegro, responsável, capaz. Até me faz ter sido escolhida para escrever esta coluna.

Mas tenho a humildade de confessar que não são poucas as vezes em que não faço a menor ideia se o que estou a fazer é o mais correto, ou se as minhas ações e estilo de parentalidade suave e democrático, e que a minha mãe considera quase como que libertino, não vai transportar todos os meus filhos ao divã do psicanalista que, sem margem para qualquer dúvida, me apontará a mim a culpa de todos os seus problemas, depois de infindáveis sessões de doloroso espiolhar dos cantos mais recônditos da alma.

Andamos nisto em modo de tentativa e erro e alguma orientação era bem-vinda. Porque a intuição e o instinto são a base de tudo, mas grande parte das vezes não nos dão todas as certezas. Porque há mesmo muito em jogo. E não devia ser uma aposta às cegas.

Se é mais ou menos consensual que o curso de preparação para o parto é útil (confissão: nunca fiz), porque é que assim que a criança está cá fora os pais são de imediato empossados com toda essa sabedoria como que por linhagem divina?

A verdade é que conheço todo o tipo de pais, e sei que a parentalidade é, cada vez mais, uma espécie de religião, que envolve apaixonadamente a mãe e cada vez mais o pai, que surge empenhado e com vontade de partilhar tudo. Assisto diariamente ao fenómeno crescente do culto da parentalidade, com a criança no centro de toda a família. É que a família também mudou: os filhos atrasaram-se, porque a vida está difícil, e quando vêm, no número máximo de dois, são autênticos príncipes, rodeados de amor, roupas bonitas, e todo o tipo de bonecada e parafernália diversa. Muitos de nós também já não crescemos rodeados de irmãos mais velhos e mais novos, tias, primos e vizinhos, pelo que também não absorvemos inconscientemente os diferentes dilemas e desafios das diferentes etapas do crescimento de uma criança e como a Família lida com eles.

Surgiram, em alternativa, os grupos de pais e de mães no Facebook, os blogs de mães idílicos, que estão lá para a partilha, para as dúvidas, para o apoio (e alguma dose de neurose e histeria coletiva), 24 sobre 24 horas, onde quer que estejamos.

O mercado ao serviço da parentalidade cresce à velocidade da luz: livros, worskhops, um desfile de terapeutas e especialistas, a ensinar-nos massagens para o bebé, a relaxar o bebé, treino do sono para o bebé, a alimentar o bebé, a ter o bebé mais feliz do mundo. O bebé é, na verdade, alvo de muita informação e formação. Talvez porque não falam, porque são ainda uma espécie de extraterrestres para os pais. Mas tenho para mim que o bebé é a coisa mais fácil que nos acontece enquanto pais. Dêem-me quadrigémeos recém-nascidos: tenho uma pré-adolescente em minha casa!

Sei também dos desafios que os filhos trazem a um casamento. Oiço queixas, vejo casais infelizes, a discutirem diariamente por minudências, incapazes de gerir expetativas e a braços com a adaptação a uma nova realidade que um filho traz. Vivo num país em que o desemprego jovem ceifa esperanças, empobrece famílias, deixa crianças com fome.

Posso ver muita coisa, saber muita coisa, improvisar muita coisa. Mas não sei tudo o que há para saber. Ao quarto filho aceito a minha humanidade. Ser pai não faz de mim um Deus (apesar de contribuir em larga escala para a minha imortalidade se o fizer bem – e a minha fasquia está bem alta, eu assim defini).

Tenho quatro, mas nenhum dos meus filhos veio com manual de instruções. Partilham o mesmo material genético, mas nenhum é réplica do anterior: vieram com cores de cabelo, cores de olhos e personalidades completamente distintas. Cada um deles desafia-me à sua maneira, obriga-me a superar-me diariamente e nas mais variadas ocasiões, apresentando-me quebra-cabeças que transcendem a racionalidade e que implicam um pouco de magia e grandes saltos de fé.

Devo ou não devo estar melhor preparada? Aceitar toda a ajuda, venha ela de onde vier? Não tirei um curso para me dar entrada para o mercado de trabalho? Não aprendi a conduzir? Li ou não li o manual de instruções do último brinquedo diabólico que lhes ofereci pelo Natal?

Não é um exercício fácil, implica muita humildade e um notável espírito de abertura: ninguém quer ser visto como um mau pai, ninguém se quer apresentar como um pai fragilizado, com dúvidas que abalam certezas; ninguém, à partida, revê legitimidade a quem quer que seja que lhes diga como educar um filho, muito menos o Estado, numa atitude a roçar o condescendente e o paternalista.

Mas o que é que realmente é mais importante?

É ou não é o trabalho mais importante da minha vida?

São ou não são eles o futuro de um país?

Não vejo então porque não deve o país investir nos pais.

 

 

 

 

Filosofia para crianças conquista escolas algarvias

Fevereiro 2, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Reportagem do http://barlavento.pt de 15 de janeiro de 2016.

Filosofia-para-crianças-10-1250x596

por Sara Alves

É uma disciplina que educa para aprender a ouvir, pensar, questionar e argumentar. O «barlavento» acompanhou duas aulas de Filosofia para crianças, lecionadas pela professora Laurinda Silva, uma no ensino público e outra no privado. Apesar das diferenças entre instituições, o resultado é, em ambas, surpreendente: alunos mais participativos, comunicativos e críticos.

A qualidade da formação que os alunos mais pequenos recebem nos estabelecimentos escolares é uma das maiores preocupações para os pais e encarregados de educação. Em Portugal, ainda são poucas as escolas que oferecem Filosofia para crianças nos seus currículos. No entanto, essa realidade já está presente no Algarve.

Visitámos duas escolas que, à primeira vista, aparentam ter muito pouco em comum. O Colégio Internacional de Vilamoura (CIV) situa-se numa zona considerada de luxo. A escola da Abelheira fica entre dois bairros sociais, em Quarteira.

No caso pioneiro do CIV, a disciplina de Filosofia para crianças há muito que faz parte do currículo de estudos (há 19 anos). Na Abelheira, é uma novidade. Está disponível enquanto Atividade Extra Curricular (AEC) há três anos letivos. Há ainda que ter em conta o facto desta escola de Quarteira ser considerada TEIP (Território de Intervenção Prioritária) por estar inserida num ambiente socioeconómico desfavorecido. Dois cenários muito diferentes, portanto, mas com resultados idênticos.

«Estimulamos a capacidade de fazer perguntas. Não castramos a curiosidade das crianças, nem a sua capacidade de expansão. É um treino de competências e de busca de significados», explica a professora Laurinda Silva, 35 anos, natural de Oliveira de Azeméis.

Silva formou-se nesta vertente pedagógica no Instituto de Prática Filosófica em Paris e em Montclair, nos Estados Unidos da América, país pioneiro. Desde 2007 que dinamiza Filosofia prática para crianças e é atualmente responsável por 180 alunos, em ambas as referidas escolas, no concelho de Loulé.

As suas aulas são um «laboratório de ideias». «Queremos espicaçar o raciocínio, o questionar, argumentar e o saber escutar. Em Portugal, ainda temos uma escola que treina para a resposta, e não para a pergunta. Isso é um perigo, pois fomenta a apatia pelos assuntos ao não serem refletidos, ou então permanecerem sem significado para as crianças», explica.

«Coisas aparentemente simples como aprender a esperar pela sua vez de falar, exprimir uma ideia perante a turma, escutar a ideia do outro, corrigir-se a si próprio depois de ouvir argumentos diferentes, transformam as crianças. A longo prazo, admitem a diferença, dão espaço a outros argumentos. São capazes de discussões ordeiras e entendem crítica, dúvida, erro como algo positivo e que permite melhorá-las. Passam a ter a possibilidade, mais consciente, de usar a palavra como meio para resolver conflitos e ganham a noção de intervenção – cidadania e democracia em exercício – pela investigação em comunidade. Nota-se uma grande diferença na produção de perguntas entre quem está, ou não, treinado para fazer perguntas», evidencia esta professora.

A turma da Abelheira, em Quarteira, conta com uma dezena de alunos do quarto ano. A média de idades ronda os nove anos. A disposição das mesas em formato de «U» convida ao diálogo e partilha de ideias, um sistema que é frequentemente usado em contexto de formação de adultos, mas não no ensino básico tradicional.

A aula inicia-se a partir do poema «O aviador interior», de Manuel António Pina. Fala-se do ar, corpo, e da cabeça. Tudo o que a professora faz é lançar perguntas que incendeiam o pensamento da turma. Surgem novas e surpreendentes interpretações, hipóteses e explicações. Não há matéria debitada, nem um treino para «a resposta certa». Há liberdade para expor diferentes pontos de vista, estruturar ideias e aprender a construir uma argumentação.

«Agora vamos pensar diretamente para a caneta», pede a professora. «Quero que cada um de vocês escreva uma pergunta relacionada com o poema». Surgem questões como: «temos um campo de aviação dentro da cabeça ou não?» ou «o texto é sobre o ar?». Os alunos são estimulados a fazer perguntas e todos as querem partilhar.

Cerca de 50 minutos depois e sem se aperceber, a turma discute temas como a mente, o corpo e o cérebro: «a nossa mente somos nós?», «somos apenas o nosso corpo?», «de onde vêm as ideias?», «cérebro e cabeça são a mesma coisa?». A campainha toca, as interrogações coletivas continuam a fluir. Questionados sobre o que mais gostam nesta aula, um aluno responde: «de tudo porque posso dizer o que acho».

Laurinda Silva explica que as temáticas exploradas com mais frequência e que mais interesse despertam estão diretamente relacionadas com a origem do universo, a morte e «o que acontece depois», Deus, e a questão do infinito. Discute-se «corpo-alma», «bom-mau», «certo-errado», «amor», «felicidade», paradoxos e dilemas.

Mas os temas em análise podem ser ajustados à atualidade. Foi o caso do atentado no jornal «Charlie Ebdo». «Entendi por bem explorá-lo com todos os grupos que tinha na altura. De facto, desde o 3º ao 9º ano, ninguém falava noutra coisa. O professor pode esclarecer questões de facto – o que aconteceu, o relato, as informações de base – mas, sobretudo, importa definir com os alunos termos como «terrorista» e «islâmico», para que não se tornem pré-conceitos. É preciso encontrar pontos de vista, esclarecer o que é liberdade de imprensa, entre outras coisas» que normalmente estão fora dos programas.

Troquemos então a escola pública pelo ensino privado. No Colégio Internacional de Vilamoura encontramos fardas azuis e brancas, meninos de calções e meninas de saia. Aqui a disciplina de Filosofia para crianças faz parte dos currículos desde o jardim-de-infância ao 9.º ano.

Na multicultural turma do 6º ano, com 29 alunos, cuja média etária ronda os 11 anos de idade, a aula inicia-se com a visualização da curta-metragem de animação «Alma» do espanhol Rodrigo Blass. O filme não tem diálogos. No final, a professora pergunta: «quem é capaz de o explicar?».

Primeiro, relatos. Depois, a interpretação. Todos querem participar. Laurinda Silva anota o brainstorming no quadro. Os alunos falam ordeiramente. Explicam entusiasticamente os seus pontos de vista.

No meio da discussão, alguns mudam de ideias, fruto da partilha intensa de novas opiniões e interpretações. Os dedos estão constantemente no ar. É difícil manter a ordem, quando todos estão tão interessados em participar.

A professora lança perguntas e media a discussão de forma neutra. Gustavo queixa-se: «há meia hora que tenho o dedo no ar professora!». Já passaram 45 minutos e o debate continua: «estamos presos no nosso corpo?»; «a alma precisa de um corpo?». Não há certos nem errados. Há pontos de vista e argumentos que os suportam.

Questionados sobre «porque é que esta disciplina é diferente das outras», respondem: «porque nas outras o professor é que fala e aqui nós é que explicamos, como se fossemos professores e a professora uma aluna». E querem continuar a estudar Filosofia no futuro? A resposta é um alto e unanime «sim!».

Cidália Bicho, 39 anos, diretora do CIV, faz um balanço da importância, impacto e sucesso sobre o ensino pioneiro desta disciplina em Portugal: «em 19 anos vimos as crianças tornarem-se mais autónomas no pensamento, mais respeitosas perante pensamentos diferentes do seu. É visível a percepção ética aguçada, a capacidade de autoavaliação e a capacidade de argumentação. Procuramos que a inquietação que conduz ao questionamento seja uma prática transversal ao currículo e acreditamos que um dos grandes desafios da educação do século XXI é formar crianças e jovens com competências cognitivas e socioafetivas necessárias para transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em ações».

A origem da Filosofia para Crianças

O professor norte-americano Matthew Lipman foi o filósofo e educador responsável pelo programa de filosofia para crianças no final da década de 1960, embora ainda seja um conceito que só agora esteja a chegar às escolas portuguesas. Lipmann foi pioneiro ao pensar a contribuição da filosofia para a formação das crianças, enfatizando a necessidade de aprender a pensar e a questionar ao invés de apenas memorizar conteúdos. Lipman lançou o que alguns consideram já um autêntico movimento educacional, com a publicação de uma novela filosófica para crianças, Harry Stottlemeier’s Discovery, adoptado num grupo de escolas públicas de Jersey nos EUA, desde o início dos anos 1970. A principal tarefa do professor é criar condições para que a crianças aprendam conceitos de forma reflexiva e não mecânica. Criar uma prática de pensar que questiona conceitos e problemáticas comuns que possam ser investigadas e discutidas pelas crianças em vez de respondidas enquanto verdades absolutas ditadas pelos adultos.

Segundo Vera Varjota Rodrigues, investigadora algarvia e especialista de Filosofia Medieval na Universidade do Porto, «a Filosofia com Crianças foi recomendada pela UNESCO a partir do pré-escolar (5 anos de idade), com base nos benefícios, comprovados, no que diz respeito ao desenvolvimento de aspectos quer intelectuais e cognitivos, quer humanos e cívicos (desenvolvimento do pensamento crítico, capacidade de análise, argumentação, sentido de alteridade e respeito do outro, entre outros)».

«Dentro da Filosofia com crianças (FcC), hoje, há já inúmeras correntes. Uma delas distinguindo-se justamente pela própria denominação: Filosofia com Crianças versus Filosofia para Crianças. A primeira pretende distinguir-se explicitamente da filosofia tal como é tradicional e institucionalmente cultivada, quer em termos de conteúdos, quer em termos de métodos», compara Vera Varjota, pós-graduada em Filosofia com crianças (FcC) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

«No que diz respeito aos conteúdos, estes não existem, propriamente falando: não há transmissão, há reflexão e discussão de ideias, conceitos, problemas; assim também no que respeita ao método: rigorosamente dialéctico, na Filosofia com Crianças, podendo partir dos mais variados objectos, acontecimentos, termos (notícia da actualidade, poemas, imagens, experiência pessoal, entre muitas outras possibilidades). Assim, também, o professor não é um ‘professor’, é um ‘moderador’ ou um ‘facilitador’. Trata-se, no fundo, de uma concepção eminentemente socrática da experiência filosófica», acrescenta Vera Varjota.

«Pela minha parte, julgo importante sublinhar o imenso potencial da Filosofia com crianças – a partir do ensino básico – no combate às desigualdades de origem com que uma parte importante das crianças chega já à escola. É muito mais importante, a meu ver, e terá um papel muito mais decisivo nas crianças da Abelheira do que nas do Colégio Internacional de Vilamoura. Isto, a começar pela mais básica de todas as formas e ferramentas do pensamento – a linguagem, suas significações e utilizações (pragmática), encadeamentos e ordenação (argumentação e coerência) – e a terminar noutro alicerce entre os mais fundamentais da existência e da relação com o mundo e com os outros: a auto-estima», conclui.

 

mais fotografias da reportagem no link:

http://barlavento.pt/destaque/filosofia-para-criancas-conquista-escolas-algarvias


Entries e comentários feeds.