O preço do silêncio – reportagem do Expresso sobre bullying

Novembro 7, 2015 às 4:11 pm | Publicado em A criança na comunicação social, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Expresso de 20 de outubro de 2015.

O artigo contém declarações da Dra. Cláudia Manata do Outeiro do IAC-CEDI (Centro de Estudos, Documentação e Informação sobre a Criança).

luis barra

Quando se celebra mundialmente a prevenção e o combate ao bullying, fomos conhecer quem já esteve nessa encruzilhada. Cinco vítimas e um agressor contam a sua história.

Luciana Leiderfarb

Tenho de falar, já fiquei muito tempo calado.” O caminho que levou Pedro do silêncio ao discurso foi longo e brutal. Para lá do que uma criança deveria suportar. Por não falar, por se esconder atrás da sua carapaça, quase morreu. E acordar com vida depois de desejar perdê-la aos 12 anos teve o efeito de o tornar um falador. Um falador cujas frases lutam por igualar a velocidade do pensamento. No entanto, já não podem.

Aos 10 anos assumiu a escola como hostil. Pedro era alvo diário de agressão dos rapazes mais velhos da turma. Encontrões e ameaças foram o início de uma rotina que a passagem para o 6º ano agravou. Somaram-se ataques de pânico e de asma. No 7º era frequente os agressores aparecerem à sua porta. Uma vez, um vizinho conseguiu protegê-lo. Noutra ocasião não teve a mesma sorte: “Foi nas férias. O S. tocou à campainha para eu descer, eu disse que estava ao computador. Então ameaçou que subia e partia a casa toda.” Ao descer, Pedro viu a navalha.

Antes de atravessar a porta do prédio, ainda tirou a argola de ouro da orelha e pô-la na caixa do correio. Eles começaram logo a bater-lhe. Hoje, é arrepiante ouvi-lo dizer: “Não doeu muito.” Foi a partir deste episódio que a mãe, Rosa, confirmou o que andava a intuir e o filho ocultava. Ainda pensou em mudá-lo de escola, mas convenceu-se de que seria melhor esperar até ao ano letivo seguinte. Pedro escondia a situação dos pais por achar que não iam compreendê-la. Às vezes escrevia “mensagens” em pedaços de papel que amachucava e deixava em diferentes cantos do apartamento. A 4 de fevereiro, voltou para casa a pé e mandou à mãe um SMS: “Cheguei. Gosto muito de si.” Rosa ligou-lhe, lembrou-lhe que tinha de estudar para o teste de História. Meia hora depois, o telefone dela tocou. O irmão mais velho de Pedro encontrara uma multidão à entrada do prédio. A multidão rodeava o corpo do irmão mais novo, inerte no chão. Acabara de se atirar do 3º andar.

Pedro esteve três meses em coma no Hospital de Santa Maria e oito no Hospital de Alcoitão. Ficou com lesões a nível da coluna, da visão e da fala. Em 2010, em cadeira de rodas, reiniciou a escola e já recuperou o andar. Tem amigos e define-se como “um brincalhão”. Mas, se pudesse, voltaria atrás. “Aquilo virou-se contra mim. Destruí a minha família”, afirma, enquanto dá palmadinhas no joelho da mãe, que nega, abanando a cabeça. Tentando afastar do filho os novos fantasmas que substituíram os antigos.

antonio pedro ferreira

“As crianças são exímias em esconder e camuflar”, reflete Sónia Seixas, psicóloga com um doutoramento na área do bullying. As razões por que o fazem variam entre a vergonha, a humilhação e o temor de que os pais desvalorizem o quadro — e isto acontece muitas vezes. Para esta profissional, o bullying é uma noção que importa circunscrever e que não se dilui em confrontos pontuais: “É um comportamento sistemático, repetido e intencional, em que há sempre desigualdade de poder.” Sem intervenção do adulto “raramente se resolve”.

Cinco anos de perseguição

Com o Filipe, os problemas apareceram mais cedo. E teve de aguentar cinco anos até recuperar a infância. Ainda agora se encolhe se alguém levantar a mão para dizer adeus ou acenar ao pé dele. Desde a entrada no 1º ano, aos cinco, que os rapazes da turma o perseguiam para lhe bater. Eram liderados pelo neto de um ex-presidente da junta de freguesia, que gozava de “imunidade” tácita entre os adultos da escola. “Quando ele não estava, os outros eram simpáticos”, diz Filipe, que fugia, passava os intervalos na biblioteca ou colava-se aos mais novos para se proteger. Se o apanhassem, agarravam-no pelos braços e pelas pernas, dando-lhe pontapés. No 4º ano, a quantidade de nódoas negras que marcavam o seu corpo frágil chamou a atenção do pediatra, que interpelou os pais. E estes interrogaram o filho até Filipe responder.

Ficaram a saber que, durante quatro anos, o miúdo se escondeu “até de si próprio” (palavras dele), que chegava a casa e “descarregava a estudar”. Na vila pequena onde viviam ninguém interveio, defendeu-o ou contou aos pais, que tarde perceberam o motivo por que Filipe insistia em não ir à escola. Porém, não o transferiram. No 5º ano, numa aula de ginástica na piscina municipal, o agressor quis afogá-lo. Pôs-lhe a mão na cabeça, impedindo-o de voltar à superfície. A professora travou-o, chamou os pais e a decisão de mudarem de terra impôs-se por fim. “Foi um alívio, virei um capítulo inteiro”, diz Filipe. Há pouco tempo, quase três anos depois, recebeu um SMS do agressor a ameaçá-lo.

“É uma caçada”, comenta Luís Fernandes, que escreveu o livro “Plano Bullying” com Sónia Seixas — um manual com ferramentas de intervenção que desde 2012 é utilizado em centenas de escolas. “O bullying está a aumentar e acontece cada vez mais cedo. Além disso, continua quando a criança vai para casa, na internet e no telemóvel”, observa. Na escola, 70% dos atos de bullying ocorrem no recreio, espaço que se tornou “terra de ninguém”. Para o psicólogo clínico, o problema não é apenas a escassez de adultos, mas o facto de, muitas vezes, não saírem do papel de observadores. “A passividade dos adultos perpetua estes comportamentos, enquanto a sua ação pode diminuí-los para metade”, afirma.

Descodificar os sinais

É em Beja e pela mão de Luís Fernandes que encontramos Daniel, um jovem de 15 anos, novo na cidade. Saído de Mértola, deixou para trás uma história de perseguição e manipulação. O agressor levava os outros a cuspirem-lhe, vedava-lhe a permanência em certos espaços da escola ou mandava-o calar. Só porque a sua voz “o irritava”. Um dia, no 6º ano, Daniel não acatou a ordem. E o agressor agarrou-o pelo pescoço com uma força tal que as marcas duraram mais de um mês. Passou a usar gola alta, a ter pesadelos, a urinar na cama e a trancar-se na casa de banho. A mãe estranhou, mas culpou a medicação para a hiperatividade ou a recente prisão do pai.

“Um dia entrei durante o duche”, conta Susana. Viu as nódoas negras, efeito das caneladas e dos beliscões, e as marcas no pescoço. Soube que o perseguiam da escola até casa à pedrada e que o diretor de turma lhe chegara a dar boleia para o resguardar da agressão. Uma única reunião com a direção da escola pôs a descoberto 12 responsáveis, que suspenderam o ataque físico mas mantiveram o virtual, enviando-lhe SMS com epítetos como “deficiente” ou “chibo”. A espiral só parou quando Susana recorreu à GNR. Daniel repetiu o 6º ano e esteve mais dois nesta turma até a mãe arranjar trabalho em Beja, onde o filho hoje frequenta o 9º. Houve quem lhe pedisse desculpas.

Por vezes, os pais conseguem descodificar os sinais dos filhos porque já pertenceram à mesma comunidade silenciosa. É o caso de Rui e de Isabel. Logo no 1º ano, o miúdo começou a ser alvo de sovas e insultos. Luís Fernandes via-o a “sozinhar” no recreio e Isabel diz que chegava a casa “pensativo, sem vontade de nada”. Ela conhecia bem os sintomas. No 5º ano, um simples comentário seu desencadeara o ataque de vinte raparigas, ao estalo e ao pontapé. Depois, a agressão passou a ser verbal. “O que é pior”, conta Isabel. Aos 10 anos, “só pensava no que ia acontecer no dia seguinte”. E assim aguentou mais cinco. “Não sou escrava do que passei, mas mudou a minha vida”, admite. Para ajudar o filho, pediu ajuda a Luís Fernandes. O rapaz — a iniciar o 2º ciclo — também se esforçou, treinando futebol em casa para saltar a barreira que o separava das outras crianças.

Como identificar os sinais de bullying? Sónia Seixas avisa que não existe um padrão único. Nas vítimas destaca o isolamento, o procurar a proximidade dos adultos, a insistência para mudar de turma ou de escola, o desaparecimento ou perda do material escolar ou de dinheiro; as alterações de sono, de humor, o choro exagerado, as dores de cabeça ou de barriga que surgem do nada, nódoas negras, rasgões na roupa ou ferimentos que a criança “não se lembra” como aconteceram. O agressor será em geral uma criança desafiadora com os adultos e dominadora com os colegas, com pouca empatia pelo sofrimento alheio, que aparece em casa com objetos que não lhe pertencem, que nas expressões simbólicas — jogos de faz de conta ou desenhos — cedo manifesta agressividade.

Muitos destes traços confundem-se com o início da adolescência, alerta Sónia Seixas. E o crescimento aumenta a eficiência em camuflá-los. “Há pais que ainda acham que o bullying faz parte de uma infância normal, mas o normal são os conflitos, não a violência continuada e intencional”, frisa. Cláudia Outeiro, do Instituto de Apoio à Criança, que nas ações com as escolas utiliza a metodologia do “Plano Bullying”, salienta por sua vez a facilidade com que, nas atividades feitas com as turmas, é possível reconhecer “quem tem perfil de agressor, de vítima e de observador.”

Crianças que “sozinham”

Nessa constelação de relações, Maria João soube qual era o papel da filha. Bastou reparar no espaço vazio que as colegas criavam à sua volta. E se P., na altura com oito anos, garantia “estar tudo bem”, as férias de verão provaram o contrário: “Chorava muito, tinha reações extremas, não se sentia bem em lado nenhum”, recorda a mãe. Já em casa, Maria João questionou-a. “Desabou logo. Nunca a vi assim. Soluçava para dentro, não emitia um som.” Quando conseguiu falar e deixar de puxar os próprios cabelos, contou que ninguém brincava com ela, que lhe chamavam estúpida e deficiente.

P. tem uma deficiência não cognitiva que está a ser tratada em terapia da fala. Até agora, este problema nunca fora objeto de exclusão. E a verdade é que não era a única vítima. Maria João descobriu que a mandante há meses semeava o terror na turma e dirigiu-se à mãe desta expondo a situação. A resposta que obteve foi primeiro evasiva, depois brutal. “Chegou a gritar-me que o pesadelo de P. estava só a começar.” De certa forma, estava. Com os pais das outras vítimas a demitirem-se de intervir e a escola a recusar mudar a agressora de turma, P. passou parte do 4º ano sozinha. Até fazer amigos entre os rapazes. “Não a mudei de escola porque precisava de aprender a defender-se”, diz Maria João. A filha negou-se a ir à festa de fim do 1º ciclo. A mãe levou-a à praia e ela fez a festa a brincar na areia. Sozinha, desta vez por opção.

“As escolas têm de ser implacáveis”, exorta Margarida Gaspar de Matos, uma das pioneiras na investigação deste campo em Portugal e coordenadora do estudo “A Saúde dos Adolescentes Portugueses”, integrado num projeto da Organização Mundial de Saúde que abrange 44 países.

“Não adianta mudar os regulamentos se não se mudar a cultura escolar. Há que formar os adultos e trabalhar nos observadores, que são 60%, não participam no bullying nem fazem nada para o travar”, diz a psicóloga. Os alunos devem ser obrigados a reportar, de forma escrita e anónima, qualquer incidente suspeito. “Enquanto o agressor tiver aura de herói e de sem-medo, não vai parar”, avisa.

A aura do agressor

Joaquim tem isso tudo. Ou teve. Era um sem-medo e gostava de dominar. Desde o 2º ano que se juntava aos mais velhos na perseguição dos seus pares. Gozava-os. Se o mandassem bater, ele ia. “Os mais pequenos fazem tudo o que queremos”, admite. A sensação de poder empolgava-o. No final do 1º ciclo a mira apontou para as miúdas. Apalpava-as, levantava-lhes as saias. No 4º ano, a escola inteira temia-o. A mãe era convocada todos os dias: Joaquim envolvia-se em lutas, partia vidros, importunava raparigas. Os pais de uma delas acusaram-no de molestar a filha durante meses. Noutra ocasião, os mais velhos forçaram-no a beber água de uma poça. Ficou tão furioso que atacou os que ficaram a observar, empurrando-os para o meio da lama. Nenhum ousou defender-se.

tiago miranda

Reinou até ao 6º ano e só os sucessivos processos disciplinares o fizeram abrandar. “Parei para não arranjar mais problemas”, diz. Sentia remorso? “Mais ou menos.” Quando repetiu o ano e foi integrado numa turma nova, o líder desta virou-a contra ele. Ficou no papel da vítima. O seu comportamento começou a mudar, mostrando arrependimento em casa, em especial perante a mãe. Mas não deixou de pertencer “ao grupo dos gozões”. Ainda és agressor? “Sou um bocado. Gosto de mandar.”

Há anos que Luís Fernandes trabalha com agressores e conhece as suas estratégias para exercer o poder. Uma das que mais o impressionou veio de um rapaz que escolhia as vítimas olhando para o quadro de honra da escola, a que chamava ‘ementa’. O caso de Joaquim, que Luís segue desde o 1º ciclo, é diferente: “Muitas vezes nem é ele a começar as brigas. Mas insulta, goza e humilha até que a vítima ou alguém próximo dela reage. E aí ataca com força.”

Portugal já teve em cima da mesa uma proposta de lei para a criminalização do bullying. Mas caducou em 2011. Desde então, não houve qualquer iniciativa semelhante. “Um projeto de lei deve ser secundado por uma estrutura preventiva. Não adianta apenas punir”, opina Luís Fernandes, que em poucas semanas se juntará a Sónia Seixas e a Margarida Gaspar de Matos, entre outros profissionais, para começar a delinear um futuro Plano Nacional de Luta contra o Bullying, a ser apresentado na AR.

Joaquim está a repetir o 6º ano pela terceira vez. É a sua última oportunidade de normalizar o percurso escolar. Perseguido pela má fama, chegou ao ponto em que lhe é imputada qualquer coisa que aconteça na escola. Porém, parece ainda não ter chegado ao ponto de viragem. Falou connosco num dia cinzento e quente, em Beja. Esboçava um meio sorriso ao contar ou ouvir contar os seus feitos. Se por timidez, vergonha ou orgulho, é impossível saber.

Nesta reportagem, os nomes de P. e de Joaquim são fictícios.

 

 

 

 

Childhood autism Horrible history

Novembro 7, 2015 às 1:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Notícia do The Economist de 22 de agosto de 2015.

Getty Images

The treatment of autistic children in the 20th century was shocking

Neurotribes: The Legacy of Autism and the Future of Neurodiversity. By Steve Silberman. Avery; 544 pages; $29.95. Allen & Unwin; £16.99.

EVERYTHING about autism, which is among the most common and the most slippery of mental conditions, is contested. The American Psychiatric Association, which determines what ailments American insurance companies will pay to treat, classifies it as a disorder. Many parents of autistic children are desperately searching for a cure, and find themselves easy prey for people who overpromise, selling remedies that have no scientific basis. Plenty of other people think that autism—which is characterised, among other things, by an inward focus that makes it hard to abide by the conventions of social behaviour—is not a disorder at all, and therefore has no need of a cure. America’s Centres for Disease Control and Prevention thinks that one in 68 children in the country have at least a touch of autism, which if true means there are more autistic Americans than Jewish ones. This too is contested.

Steve Silberman’s interest in autism was prompted more than a decade ago by his work in Silicon Valley for Wired magazine. He kept coming across software engineers with autistic children and, in an article entitled “The Geek Syndrome”, speculated whether this was a coincidence. Work by Simon Baron-Cohen at Cambridge University suggests it is not. Mr Baron-Cohen’s team has shown that people who have engineers for grandfathers are far more likely to be diagnosed with autism. In “Neurotribes” Mr Silberman goes further. He traces the prehistory of autism, which he argues persuasively was around long before it was given a name in the 1940s, and explains how a condition that now seems common is the product of ego-driven scientists and of the unusual circumstances in which they worked.

The book begins on Clapham Common, in south London, in the 18th century with the perambulations of Henry Cavendish, an aristocratic scientist obsessed (in the proper sense) with measurement. Cavendish took the same route around the common at the same time every night; he ate the same meal every day; wore the same clothes, insisting that his tailor replicate them when they wore out. He avoided eye contact with people. Colleagues at the Royal Society found that they could engage Cavendish in conversation only if they avoided addressing him directly. Yet he was only turned inward in a cocktail-party sense: he endowed a library which scholars were free to borrow from (so long as they did not talk to him) and shared his scientific discoveries with anyone who was interested. Among them were hydrogen, his “inflammable air”, and an accurate estimate of the Earth’s mass, which he calculated on his own at home using instruments of his own design.

Cavendish died 130 years before autism was recognised, but his biography suggests he would have been a good candidate for diagnosis. The same goes for Nikola Tesla, who could not sit comfortably at a breakfast table without calculating the precise volume of the coffee cups on it, or for Paul Dirac, whose work predicted the existence of antimatter. Faced with some marital tension over his tendency to ignore his wife (and everybody else, really), Dirac constructed a spreadsheet where he could insert her queries and make sure he answered them properly, an arrangement that seems to have worked rather well for the Diracs.

Yet for all its current associations with outstanding brains, autism was first identified as a pathological state. Before it got its own label, the condition was referred to as childhood schizophrenia. At the core of “Neurotribes” is an explanation of how autism emerged as the product of conflicts between psychiatrists anxious for career advancement, as played out against the backdrop of the Holocaust. The chief protagonists in this story are Hans Asperger, he of the syndrome, and Leo Kanner, who is widely credited with the invention of autism in a paper published in 1943.

Asperger’s syndrome, which has been dropped from the latest version of the Diagnostic and Statistical Manual, the textbook of American psychiatry, has been criticised for its focus on brilliant oddballs and also for its basis in a small number of observed cases. Yet Mr Silberman shows that Asperger, who was working in Nazi-controlled Austria, deliberately played up the brilliance of his patients in the hope of saving them from murder, and that his work was in fact based on the study of a large number of children who were less obviously gifted. German eugenicists, inspired by work in America, referred to such children as “useless eaters” and said the kindest thing would be to kill them. Asperger lost this argument, but continued his work in a place that made it impossible. One haunting image in the book is of his head nurse buried alive in Vienna by an Allied bomb, her arms wrapped protectively around a young patient.

Cold parents, autistic children

Kanner would surely have known of this work, done by a fellow German-speaker, but chose to ignore it. The Nazis dragged Kanner’s 70-year-old Jewish mother to a gas chamber and scattered the rest of his family. After a spell working in a primitive asylum in South Dakota, he fetched up in Baltimore, where autism was born. Kanner was so keen to make a brilliant breakthrough that he insisted that his discovery was new and rare, when it was neither. That bit of vanity might have been more forgivable had he not also speculated, on flimsy evidence, that the parents of autistic children were unusually cold. Time magazine ran a story headlined “Frosted Children” about these “Diaper-Age Schizoids”. The slur on refrigerator mothers took decades to fade.

Much of the subsequent history of autism has been about recovering from Kanner’s mistakes. In his defence, Kanner never used a cattle prod, unlike some other doctors trying to treat autistic children. Perhaps the grimmest case Mr Silberman cites is of a child who would not stop crying being subjected to electroconvulsive therapy, after which he never spoke again. This sort of stuff is, thankfully, now largely forbidden. But most treatments for autism still inhabit the realm of chelation, supplements, strange diets and other junky science.

If “Neurotribes” has a shortcoming, it is a minor one. By focusing on some of the most interesting cases, Mr Silberman says little about autistic people with severe learning difficulties who will probably require lifelong care. It may be that in a generation the diagnosis thrashed out by Asperger, Kanner and their heirs will splinter anew into lots of separate syndromes, and the notion of an autism spectrum, which is currently used to make sense of a situation where people with very different characteristics are given the same diagnosis, will fade. Whatever the future of autism, though, Mr Silberman has surely written the definitive book about its past.

From the print edition: Books and arts

 

 

 

Seminário “On/Off Digital – Benefícios e Ameaças das Tecnologias para a infância e adolescência”

Novembro 7, 2015 às 11:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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vasco

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http://www.colegiovascodagama.pt/noticias.php?Y=2015&m=10&dd=32


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