Crianças livres de preconceitos: lembrem-se, pais, que ‘quem cala consente’

Novembro 3, 2015 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto da http://activa.sapo.pt/ de 25 de outubro de 2015.

mayoral

Os estudos mostram que é preciso falar com as crianças. não termos preconceitos não chega. O silêncio abre a porta à discriminação.

Bárbara Bettencourt

Queremos que os nossos filhos cresçam capazes de formar as suas próprias opiniões sobre o mundo. Educar, diz-se, é conduzir para a autonomia. Mas até que sejam capazes de pensar por si cabe-nos incutir-lhes regras e valores. Obviamente os nossos valores. Inevitavelmente também os nossos preconceitos. Os cães são maus. Os meninos não andam no ballet. As meninas não brincam com carrinhos. Há milhares de preconceitos e formas de os passar às crianças. Será possível evitá-lo? Não, diz a psicóloga Ana Paula Trindade. “Passamos sempre os nossos preconceitos. Alguns de forma assumida outros de forma inconsciente. “Se a mãe tem medo de cães, vai ficar perturbada quando vir um animal, agarrar na mão do filho e mudar de passeio, mostrar-se ansiosa se ele quiser fazer festas.” Não podemos evitar ser modelos. “E o que dizer daquelas famílias que dizem mal de tudo o que as rodeia, que mostram vivências negativas das intenções alheias (do vizinho, do chefe, da sogra), daqueles pais que quando entram no carro emitem juízos mordazes contra a diferença (pela cor, pela forma de pensar, pela origem). Não se duvide que geraremos pessoas intolerantes, racistas, xenófobas”, garante o psicólogo espanhol Javier Urra no livro ‘Educar com Bom Senso’ (Esfera dos Livros).

“O que somos é o que iremos passar aos nossos filhos”, corrobora Ana Paula Trindade. E, mesmo não indo tão longe como a família de que fala Javier Urra, é verdade que por vezes não temos noção do peso daquilo que dizemos, sobre os nossos filhos, sobretudo quando são pequenos. Segundo os especialistas em Psicologia do Desenvolvimento, as crianças começam a aplicar estereótipos entre os três e os seis anos. Antes dos 10 não conseguem formar opiniões por si, são autênticas esponjas para quem o que os adultos dizem é lei.

Foi também o que concluíram dois estudos sobre o preconceito nas crianças feitos na Universidade de Toronto e publicados em 2012 no Personality and Social Psychology Bulletin.

Nas pesquisas, as crianças foram separadas em dois grupos e colocadas em salas diferentes. Eram instruídas pelos adultos de que os meninos da outra sala eram maus. De seguida os grupos trocavam de sala e ao entrarem encontravam doces que o outro grupo tinha deixado de presente. A ideia era perceber se a perceção das crianças acerca dos outros era mais influenciada pelo que os adultos diziam ou pela sua própria experiência. Nos resultados percebeu-se que só as crianças mais velhas conseguiam sobrepor a sua experiência – deram-me doces – à opinião dos adultos – eles são maus. Os mais novos continuaram a percecionar o outro grupo como sendo de meninos maus, tal como os adultos tinham dito. Os investigadores concluíram que nas crianças pequenas o que os pais dizem é muito determinante, pelo que para prevenir o preconceito é bom que os pais falem de forma explícita e positiva acerca de outras raças. Às mais velhas será importante dar oportunidades de estarem em ambientes multiculturais diversos – com meninos de raças, países e costumes diferentes – que lhes proporcionem experiências positivas e lhes permitam formar uma opinião por si.

Pais seguros têm menos preconceitos

À partida, quanto menos inseguros forem os pais, menos preconceitos passarão aos filhos, sugere a psicóloga Ana Paula Trindade. “Estes pais admitirão visões diferentes e não irão ridicularizar as coisas que os filhos valorizam, mesmo que sejam diferentes das que eles valorizam.” No filme ‘Billy Elliot’ conta-se a história de um rapazinho com gosto pelo ballet que tem de ultrapassar o preconceito do pai, para quem a dança é coisa de mulheres. Ana Paula Trindade conhece várias histórias deste tipo. “Tenho um caso de um rapaz que tinha assumido a homossexualidade com 19 anos. Veio ter comigo e trouxe a mãe, porque não sabia como lhe dizer. Eu falei com a mãe, que curiosamente aceitou bem, mas disse: ‘Eu quero que ele seja feliz, mas o que é que os outros vão dizer? Como é que eu digo à família?’ É um bom exemplo do peso social no preconceito.”

Obviamente não podemos fugir às nossas preferências. “Se somos ateus, não metemos os filhos na catequese. Mas se mostrarem interesse pela religião não temos que dizer que é uma treta. Podemos dizer que não acreditamos, mas há pessoas que acreditam: Dizemos o que pensamos e deixamos uma porta aberta para a criança poder formar uma opinião por ela própria”, sugere. Também há valores que fazemos questão de passar aos filhos. É importante distinguir valores de preferências e, em qualquer caso, “ter cuidado para não os ‘castrar’ demasiado. Por exemplo, há formas hábeis de condicionar as crianças a hábitos saudáveis sem lhes dar a sensação de que não têm escolha. Em vez de dizer ‘não podes comer bolachas!’, é mais eficaz dizer ‘queres pão com marmelada, queijo ou fiambre?’. Desta maneira damos várias opções que são aceitáveis para nós. Esta via é sempre melhor porque tudo o que é imposto tem tendência a ser contrariado”, lembra a psicóloga.

Explicar às crianças o que é a raça e a cor da pele é bom ou mau para elas?

Há quem pense que é mau. Afinal, falar seria chamar a atenção para uma diferença quando o que se pretende é que as crianças cresçam com o sentido de igualdade. “Durante décadas, presumimos que as crianças só veem a raça quando a sociedade chama a sua atenção. Esta ideia era partilhada por grande parte da comunidade científica”, contam Ashley Merryman e Po Bronson no livro ‘Choque na Educação – Como os nossos erros estão a afetar os nossos filhos’ (Lua de Papel). Os autores defendem que falar abertamente é essencial, pela simples razão de que as crianças discriminam por natureza, faz parte do seu desenvolvimento. Categorizam tudo, desde a comida aos brinquedos, passando pelas pessoas e a sua cor. E contam como um estudo da Universidade do Colorado mostrou que aos seis meses os bebés já diferenciam rostos familiares de estranhos: “A raça propriamente dita não tem qualquer significado étnico mas os cérebros registam as diferenças de cor da pele e tentam perceber o seu significado”, explica Merryman. Aos três anos mostraram às crianças fotografias de outros meninos perguntando de quais queriam ser amigos e 86% escolheu crianças da sua raça. Aos cinco deram-lhes baralhos de cartas com desenhos de pessoas e pediram para as dividirem em dois montes. 68% usou a raça para dividir as cartas sem ter recebido qualquer instrução nesse sentido. Isto acontece com crianças que têm pais que não querem que os filhos sejam racistas. Se os próprios pais forem racistas será obviamente pior. Ana Paula Trindade conta um caso emblemático: “Na clínica, uma das nossas pediatras era de raça negra. A receção tinha ordens para dizer que a pediatra era de cor, porque havia pais que quando a viam diziam ‘não quero uma pediatra negra para os meus filhos’. E era uma excelente pediatra. O que é que estes pais estão a ensinar aos filhos?”

Pôr o preto no branco

Só que falar sobre as raças com os filhos pode revelar-se mais difícil do que parece. Num estudo da Universidade do Texas, em 2006, ficou patente a dificuldade, mesmo quando os pais não são racistas. A pesquisa recrutou 100 famílias caucasianas com um filho entre 5 e 7 anos e tentou perceber se ver vídeos infantis com histórias multiculturais tinha um efeito positivo nas crianças. A um terço dos casais foi dito para verem os vídeos com os filhos. Outro terço devia ver os vídeos e conversar com os filhos sobre as raças, o último terço não via vídeos, só falava sobre o assunto. As crianças que só tinham visto os vídeos não mostraram modificações na atitude racial. Nos casais que conseguiram falar abertamente sobre a amizade racial (só seis em 100!) a atitude das crianças mostrou ser menos preconceituosa. O surpreendente foi a maioria dos pais ter confessado que não tinha sido capaz, ou não queria, falar sobre raças com os filhos. Os que tentaram usavam frases vagas, como “somos todos iguais”… Quando testados, os seus filhos mostraram ter preconceitos e alguns até a convicção de que os pais eram racistas, apesar de não ser verdade.

Merryman está convicta de que é importante falar com as crianças sobre as raças, porque além de discriminarem tudo elas estabelecem preferências baseadas nas semelhanças. Colocá-las em ambientes multiculturais, como escolas multirraciais, não chega. Os estudos mostram que o preconceito não diminui nestas escolas. Pelo contrário, são as próprias crianças a estabelecer um mecanismo de segregação. Falar desde cedo parece ser a forma mais eficaz de evitar o preconceito, desde que seja de forma bem explícita. Evite frases vagas. Merryman conta: “Uma amiga minha dizia vezes sem conta ao filho de 5 anos, ‘lembra-te, somos todos iguais!’. E pensava que estava a passar a mensagem, mas ao fim de sete meses o filho perguntou: ‘Mamã, o que quer dizer igual?’.”

 

 

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