“Come pelo menos a carne.” Os conselhos dos avós nem sempre estão certos

Outubro 27, 2015 às 10:30 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

texto do i de 17 de outubro de 2015.

getty images

Quando uma criança diz que não quer comer mais é porque provavelmente lhe estão a ser dadas quantidades superiores às recomendadas

Marta Cerqueira

Depois de ler este texto acreditamos que nunca mais vai forçar o miúdo lá de casa a comer o bife todo quando estiver sem fome para o resto. As crianças portuguesas consomem proteína a mais e as consequências vão chegar na idade adulta.

Já toda a família arrumou o prato, a comida começa a ficar fria e a paciência já está perto do limite. É nessa altura que se arrepende de ter deixado o seu filho comer aquele chocolate enquanto via os desenhos animados e que agora lhe tirou a fome para o jantar. “Come pelo menos o bife”, resta dizer, como se se tratasse de um último sopro de esperança para que o dia termine de forma saudável. Reconhecemos o esforço, mas fique a saber que não há nada mais errado.

“Se uma criança não tem fome, pode comer menos mas que seja um pouco de tudo”, explica Ana Macedo. A médica e investigadora na área da alimentação tem vindo a acompanhar os hábitos de crianças em idade escolar e depressa chegou a uma conclusão: as crianças portuguesas, como, aliás, quase todas as outras, estão a consumir proteína a mais. “Há um contexto histórico ainda relacionado com o racionamento da Grande Guerra e com o facto de a carne e do peixe serem quase um luxo para alguns dos nossos avós”, lembra Ana. A médica vai mais longe e refere que, na maior parte das vezes, a recusa da criança em comer pode ser uma reacção natural do corpo a dizer que lhe está a ser dada comida a mais.

Para se ter uma noção mais visual, Ana Macedo descreve o prato de uma criança – “que deve ser de sobremesa” – subdividido em três partes: metade ocupado com legumes e, na outra metade, apenas uma fatia bem fina deve ser ocupada pela carne, peixe e ovos, ficando o restante para o arroz, massa e batatas. “O bife de um adulto deve ser do tamanho de um baralho de cartas e essa quantidade deve ser partida ao meio quando se fala de uma criança”, refere, lembrando que estas são quantidades longe das que nos habituamos a ver encherem o prato.

As consequências

A curto prazo, não há nada que fisicamente revele que uma criança esteja a consumir demasiada proteína. Os problemas chegam na idade adulta, depois de anos a sobrecarregar os rins, lembra o pediatra Mário Cordeiro, que não se acanha na hora de traçar um diagnóstico futuro: “O excesso de proteínas, associado ao hábito de beber pouca água e fazer pouco exercício físico, pode levar a uma insuficiência renal.” Na hora de reavaliar as quantidades, o médico alerta para o tipo de substituições feitas no prato. “Não convém substituir por hidratos de carbono, que também são excessivos na alimentação infantil”, lembra o pediatra, fazendo referência ao excesso de insulina que estes alimentos provocam e que aumentam a vontade de comer doces.

Comum ao discurso dos dois médicos ouvidos pelo i é a palavra “excesso”, que serve para caracterizar o tipo de alimentação das crianças portuguesas. A este coro junta-se Pedro Graça que, como coordenador do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, tem dados suficientes para dizer que quase tudo na alimentação está “a mais”, seja sal, açúcar e, claro, proteína. “Pensar que é a carne que alimenta e ajuda no crescimento de uma criança é um erro”, explica.

Leite, esse vilão?

 O nutricionista Pedro Graça aproveitou a ocasião para lembrar os dados de um estudo publicado em 2013 sobre os padrões de alimentação na infância, que revelaram que as crianças portuguesas entre os 12 meses e os três anos consomem mais do dobro das proteínas recomendadas, sobretudo devido a um excesso de leite de vaca. “Os pais têm tendência para sentirem que a criança fica protegida se consumir elevadas doses proteicas”, refere. Apesar do alerta, o médico reconhece as vantagens do consumo de leite e afasta-se das recentes ondas que apelidam o leite de “produto maldito”. Para Pedro Graça, continua a ser fundamental para um crescimento saudável, desde que, como em tudo, seja consumido com moderação. Muito mais grave que o consumo de leite, o nutricionista lembra um número do estudo que o deixou em maior choque: 17% das crianças portuguesas com um ano e meio consomem refrigerantes diariamente.

 

 

 

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: