O Ser Criança é universal – Artigo de Luísa Lobão Moniz do IAC

Outubro 26, 2015 às 3:24 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Artigo de Luísa Lobão Moniz, docente a exercer funções no IAC / SOS-Criança.

O Ser Criança é universal

O IAC, SOS Criança tem desenvolvido um trabalho de sensibilização e de divulgação do número telefónico das crianças maltratadas, ou seja, de qualquer criança que se encontre em risco, 116 111 através do projecto “Bom dia, SOS Criança”.

O projecto tem como base os Direitos da Criança e tem como suporte físico o livro “Menino como eu”, cartões SOS Criança e autocolantes com o nº 116 111.

As conclusões do relatório de avaliação deste projecto, durante o ano lectivo 2014/2015, assemelham-se às considerações feitas pelo Coordenador do SOS Criança, Dr Manuel Coutinho, relativamente à prioridade dada pelas crianças ao motivo que as faz telefonar_ a solidão, o estarem sós, mesmo com alguém por perto.

As nossas crianças e jovens têm uma grande necessidade de comunicar para contar o que lhes vai na alma.

As relações sociais, parentais e familiares têm-se vindo a modificar ao longo dos tempos. Se fizermos uma viagem, ascendente relativamente às nossas famílias, verificamos que os usos e costumes, dentro de uma mesma família, variam conforme as diferentes gerações, do bisavô à bisneta.

As relações adulto/criança não se modificaram porque sim, mas porque as relações sociais também se modificaram e estas também não se modificaram porque sim.

O que tem contribuído para estas modificações tem sido o modelo sócio económico em que vivemos.

Não se imagina as crianças da Idade Média com os problemas das nossas crianças. Haveria solidão?

As crianças estavam sempre acompanhadas por pessoas mais velhas que lhes ensinavam um ofício e que lhes davam atenção, à noite, quando os mais velhos se reuniam para contar histórias à volta de um fogo (fogueira).

As crianças das famílias pobres eram pobres, não tinham roupa adequada, vestiam como os adultos, tanto fazia que chovesse ou fizesse frio que a roupa era a mesma.

Nos anos 80, em Lisboa, encontrei situações de pobreza do século XX idênticas a esta.

O modelo socio económico determina a qualidade de vida das pessoas e em cada época os povos vivem em conformidade com as forças dominantes, ou tentam combater essas forças, criando outras forças, mas de libertação.

As crianças choravam quando se viam afastadas dos pais, para irem servir os senhores do poder.

As mães entristeciam.

Os pais de tristes faziam-se contentes porque a separação, quantas vezes para sempre, ia fazer deles Alguém com um Nome.

As crianças sentir-se-iam sozinhas , com “problemas” que atravessam todas as épocas e todas as crianças?

Todas têm medo de serem abandonadas, que não gostem delas.

Têm medo de desiludir os adultos de quem gosta.

Não havia a linha SOS Criança (só uma sociedade com tanta desigualdade social e tanta exclusão sentiria a necessidade de auxiliar, por via institucional, crianças que se sentem sozinhas, em risco).

Também na Idade Média as crianças fugiam de casa ou iam com desconhecidos. Não havia meios de comunicação, mas havia sofrimento.

Quando se punham em pé, em cima de um caixote, para poderem descascar batatas, quando tinham que obedecer, sem pestanejar, às ordens de uma “mulherona frustrada”, mas com o poder que lhe era conferido por ser a chefe de cozinha, as crianças choravam ou faziam uma traquinice (vêem como ela merece o castigo?).

A vida da Criança tem sido feita de grande sofrimento.

Eram violadas como as do século XXI, mas não havia leis de protecção.

Eram abandonadas, porque a família já não as podiam sustentar.

Acreditava-se que alguém com mais “posses” as encontrassem e tomassem conta delas, sabe-se lá para que futuro.

O Ser Criança é Universal.

As mudanças sociais dão-se todos os dias, a obediência às regras dos mercados não se discutem….mas as Crianças, essas, crescem com sabor amargo na boca, com os olhos rasos de lágrimas, com o corpo dorido, com a alma cheia de medo e sem ter com quem falar.

Neste momento, estão a morrer crianças maltratadas, crianças soldado, crianças refugiadas, crianças com fome;

neste momento, estão pais a sofrer porque não têm nada para dar aos filhos;

neste momento as sociedades, os países estão a ser governados em prol dos lucros económicos e não em lucros para os afectos.

O que seriam os senhores do poder se não houvesse pobreza, se não houvesse dívidas, se o bem-estar das crianças e das famílias fossem quem mais ordenasse?

Haveria crianças com medos, mas haveria tempo para Elas.

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