As 10 coisas que você nunca deve dizer à mãe de uma criança com alguma síndrome ou deficiência

Setembro 17, 2015 às 9:01 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Temos que tomar muito cuidado com as palavras usadas para não magoar ou irritar a mãe em questão. Se você não quiser causar embaraço ou mágoa, evite dizer à mãe da criança coisas como:

1. “Coitadinho”

Nenhuma mãe quer que as pessoas sintam pena de seu filho especial. Ela quer que elas sintam carinho por ele, consideração.

 

2. “A ‘doença’ do seu filho”

Cuide bem dos termos que usar. Deficiência, esse é o termo correto. Usa-se, também, o termo Necessidades Especiais ou Criança Especial, jamais doente. A não ser que a criança esteja gripada, com problemas cardíacos, respiratórios ou com outra doença qualquer.

 

3. “Sinto muito”

Não precisa sentir muito. Muitas mães são gratas pelos filhos especiais que têm, e não precisam que alguém lamente por elas. Para muitas é um período de aprendizado e crescimento.

 

4. “Eu não saberia lidar com uma situação dessas”

Ainda que você queira demonstrar sua grande admiração pela garra dessa mãe, não diga isso. Saiba que se você tivesse um filho especial, você saberia lidar com ele, sim. Toda mãe tem potencial para dar tudo de si para melhorar a vida do seu filho.

 

5. “Ele parece tão normal”

As mães de pessoas com Síndrome de Down ou outra deficiência têm que lidar com os conceitos “normal” e “diferente” o tempo todo. Na verdade, na maioria das vezes são os outros que as lembram disso. No dia a dia é bem comum elas se esquecerem de que há diferença entre seus filhos.

Ao mesmo tempo, elas têm ciência das características físicas, motoras e intelectuais deles. Elas não querem que eles pareçam “normais”, elas só querem que eles sejam felizes do seu próprio jeito. Se pensarmos melhor, como definir o que é normal ou não?

 

6. “Nem percebi que ele tinha ‘alguma coisa’”

Você não precisa disfarçar. A maioria das mães não se ofende quando as pessoas percebem a deficiência do seu filho. Mas pode se ofender se elas mentem não terem percebido.

 

7. “Por que ele nasceu assim? De quem ele herdou a deficiência?”

É um campo perigoso de invadir. Muitas deficiências, em especial a Síndrome de Down, acontecem por acidente genético. Isso significa que qualquer casal poderá ter um filho deficiente. E ainda que houvesse uma herança genética, que diferença isso faz? É um assunto que poderá trazer à tona culpas das quais o pai ou a mãe estão tentando se livrar.

 

8. Usar  o nome “retardad…”

Para ofendê-la, você não precisará usar esse termo para se referir ao filho dela, basta usá-lo para se referir a qualquer pessoa, deficiente ou não. É um adjetivo bastante ofensivo para quem tem um filho com necessidades especiais. Jamais o use na frente dela. Na verdade, seria melhor se você o eliminasse do seu vocabulário.

 

9. “Você vai arriscar outro filho?”

Eu ouvi isso muitas vezes, quando dizia que gostaria de ter mais filhos. Um médico geneticista chegou ao cúmulo de me dizer que eu “não deveria” ter outro filho, pois haveria tanto por cento de chance de ele nascer com Síndrome de Down também. Eu questionei: “E daí? Vou amá-lo do mesmo jeito!” Ele disse com todas as letras que os médicos não querem mais crianças assim no mundo. Foi algo chocante de se ouvir.

Bom, eu tive mais dois filhos ditos “normais”, que foram uma bênção na vida do meu garotinho especial, e na minha.

 

10. Nada

Não dizer coisa alguma ou não fazer perguntas soa como se a presença da criança não fizesse qualquer diferença, como se ela fosse invisível. Aposto que nenhuma mãe se ofenderia com perguntas educadas ou comentários gentis sobre seu filho. Então, encontre algo positivo para falar e tudo estará bem.

 

Um conselho simples

Aja naturalmente. Sorria para a criança e sua mãe, pergunte seu nome. Olhe para a criança. Não tente desviar o olhar. É muito estranho ver uma pessoa se esforçando para não olhar para seu filho. Por outro lado, pior ainda é ver uma pessoa olhando-o fixamente, como se nunca tivesse visto uma pessoa deficiente antes. Tudo o que é feito naturalmente e de boa vontade tende a funcionar bem.

Fonte: www.familia.com.br

Já conseguimos angariar 880 euros! Contribua também e ganhe uma das nossas agendas

Setembro 17, 2015 às 1:05 pm | Publicado em Campanhas em Defesa dos Direitos da Criança | Deixe um comentário
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Já conseguimos angariar 880 euros! Os nossos sinceros agradecimentos a todos os que contribuíram. Mas ainda estamos longe do nosso objectivo!

A Agenda do IAC 2016 é um produto muito útil, pois, para além de permitir lembrar tarefas futuras, anotar compromissos, escrever listas, planear o dia, a semana e o mês, registar ideias e acompanhar projetos, lembrar datas especiais como aniversários, contém dicas de segurança sobre a utilização da internet, a proteção da imagem, prevenção do cyberbullying, hábitos de conduta livres de riscos (prevenir raptos) e denúncia de abusos sobre a criança. A abordagem destas temáticas e respetivas dicas de segurança serão complementadas por alguns jogos pedagógicos. A par desta vertente utilitária, a Agenda IAC 2016 proporciona agradáveis momentos de leitura através de  maravilhosos poemas e contos da autoria de conceituados escritores portugueses como Alice Cardoso, António Torrado, José Fanha, Fernando Cardoso, Luísa Ducla Soares, Margarida Fonseca Santos, Raquel Palermo, Sara Rodi e Sílvia Alves. Cada mês apresenta um poema ou um conto alusivo à Criança. As ilustrações são criadas a partir dos desenhos das crianças apoiadas pelo IAC.

É uma agenda com um formato que facilita a sua utilização (14×14) e com capas de proteção transparentes que garantem a sua durabilidade.

Destina-se a crianças, jovens, pais, avós, educadores, responsáveis de instituições que trabalham com crianças, entre outros.

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As verbas auferidas com a posterior venda da Agenda IAC 2016 serão canalizadas para o desenvolvimento de novos projetos ligados à prevenção de situações de violência entre os jovens, nomeadamente do Cyberbullying, cujas estatísticas nacionais apontam para um aumento significativo deste tipo de violência. Por outro lado, as denúncias sobre violência juvenil, feitas através da Linha SOS Criança do IAC, têm preocupado profundamente a instituição, que, apesar dos seus poucos recursos, procura dar resposta a todas as situações que lhe são apresentadas.

Se o seu donativo for superior a 10€, além das recompensas enumeradas no PPL, vai receber também um exemplar da agenda.

Para apoiar a Campanha de Crowdfunding do CEDI Instituto de Apoio à Criança, aceda ao link

http://ppl.com.pt/pt/causas/agenda-iac-2016

Na causa “Agenda IAC 2016 Pela Defesa e Promoção dos Direitos da Criança” introduza o valor do seu contributo, clicando posteriormente em CONTRIBUIR. Continue o processo seguindo os passos que constam do formulário. Aconselhamos a selecionar a opção” Desejo doar o valor a este promotor, mesmo que a campanha não angarie a totalidade dos fundos“ para que possamos dispor de qualquer verba angariada e, desta forma, concretizar o nosso objetivo. A plataforma do PPL irá gerar uma Referência Multibanco para que possa fazer o seu contributo à campanha.

Agradecemos que divulgue a nossa iniciativa.

Os nosso agradecimentos

O Centro de Documentação do Instituto de Apoio à Criança

Casamento Prematuro e Gravidez na Adolescência em Moçambique: Resumo de Análises

Setembro 17, 2015 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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O casamento prematuro é um dos problemas mais graves de desenvolvimento humano em Moçambique mas que ainda é largamente ignorado no âmbito dos desafios de desenvolvimento que o país persegue – requerendo por isso uma maior atenção dos decisores políticos.

Moçambique é um dos países ao nível mundial com as taxas mais elevadas de prevalência de casamentos prematuros, afectando cerca de uma em duas raparigas, representando uma grande violação dos direitos humanos das raparigas. Esta situação influencia negativamente os esforços para a redução da pobreza e o alcance dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODMs) – em particular influenciando para que as raparigas fiquem grávidas precocemente e deixem ter acesso a educação, aumentando os riscos de mortalidade materna  e infantil.

A pressão económica exercida sobre os agregados mais pobres e as práticas socioculturais prevalecentes, continuam a conduzir as famílias a casarem as suas filhas cada vez mais cedo, quando as raparigas ainda não atingiram maturidade suficiente para o casamento e para a gravidez ou para assumirem a responsabilidade para serem esposas e mães. A maior parte das desistências escolares estão ligadas a gravidez precoce nas raparigas, numa fase do seu desenvolvimento físico e emocional em que elas ainda não se encontram preparadas para gerar uma criança, com consequências bastante sérias para a sua saúde e para a sobrevivência dos seus filhos.

Moçambique encontra-se em 10° lugar no mundo entre os países mais afectados pelos casamentos prematuros,  atendendo os dados relacionados com a proporção de raparigas com idades entre os 20-24 anos que se casaram enquanto crianças, isto é, antes dos 18 anos de idade. A maior parte destes casamentos são de facto uniões, mais do que casamentos legalmente registados, mas são usualmente formalizados através de procedimentos costumeiros como o pagamento do lobolo para a família da rapariga. De acordo com os dados do Inquérito Demográfico e de Saúde (IDS) 2011, 48% de raparigas com a idade entre os 20-24 anos casou-se antes dos 18 anos e 14% antes de atingir os 15 anos. Moçambique encontra-se ainda atrasado nos esforços de prevenção e combate contra este fenómeno, apresentando um nível de prevalência de casamentos prematuros acima dos restantes países da África Austral e Oriental, ficando apenas atrás do Malawi.

UNICEF, 22 Julho 2015

Faça download da publicação AQUI.

A filosofia no quarto dos brinquedos

Setembro 17, 2015 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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O que acontece quando um filósofo é pai? No caso de Francisco Bosco, acontece um livro onde tanto se fala de Lacan como da perda do direito à ressaca. Entrevistámos o autor.

A filosofia aplicada às fraldas. A ligação é inesperada, mas é isso que Francisco Bosco faz em Orfeu de Bicicleta (um Pai no Século XXI), o livro recentemente editado pela Tinta da China. Pai de dois filhos pequenos, o filósofo e colunista do Rio de Janeiro pega em conceitos da psicanálise e da sociologia, e em autores como Freud e Lacan, e aplica-os à sua experiência de noites mal dormidas, birras e pelos brancos prematuros na barba.

“O mundo não se divide entre Ocidente e Oriente, religiosos e tradicionalistas, mas entre pais de crianças pequenas e o restante da humanidade”, começa por escrever o autor, para quem esta classe faz parte da “categoria dos chatos provisórios”, formada por três tipos: “o bêbado, o apaixonado e os pais de recém-nascido. Só os suporta quem está no mesmo estado.” (pág. 37)

Tudo menos chato, o carioca que preside à Fundação Nacional de Artes do Brasil, e cuja tese de doutoramento envolveu uma dissertação sobre Roland Barthes, encontrou uma forma de falar nos velhos temas da paternidade em jeito de ensaio, sendo que esse ensaio é dividido em mais de 80 pequenos textos onde o choro de um bebé é considerado “um prodígio de polissemia” ou é possível encontrar Hegel no quarto dos brinquedos. Porque, afinal, “todos os fenómenos e todas as experiências podem ou não ser filosóficas”, como diz o autor numa entrevista por e-mail ao Observador. “O que torna um objeto filosófico é, justamente, transformá-lo em questão: isto é, desnaturalizá-lo, identificar a espessura de significados que ele contém, e revelá-los. Pode-se lidar com o choro de uma criança à noite apenas oferecendo uma mamadeira [biberão] para aplacá-lo. Mas também se pode perguntar por que chora uma criança à noite. E quando começamos a fazer essas perguntas, perguntas sobre o sentido, já estamos nos aproximando da filosofia.”

Quando é que sentiu que escrever sobre os seus filhos era tão importante ou interessante como fazer uma dissertação sobre Roland Barthes?
Bem, eu suponho que Barthes teria escrito sobre os seus filhos se os tivesse tido. Ele costumava dizer, justamente, que a écriture não faz acepção da futilidade. Ou seja, não é o objeto o que determina o valor ou interesse de uma escrita, e sim aquilo que uma escrita é capaz de fazer com um objeto. Lembremos que é Barthes o autor de ensaios como Structure du fait-divers ou do conhecido texto sobre o tele-catch, para não falar do projeto das mitologias como um todo. De minha parte, o meu ensaísmo tem uma relação forte com a vida, com a experiência concreta. Costumo escrever sobre o que me afeta e transforma (os meus primeiros livros, ingénuos ao ponto do embaraço, são de poesia, e penso que, de certo modo, nunca deixei de ser poeta). Assim, é para mim natural que viria a escrever sobre a experiência da paternidade.

O que pensava sobre a paternidade confirmou-se quando teve filhos ou, pelo contrário, foi pelos ares?
Eu tinha sobretudo ideias morais sobre a paternidade: julgava-me apto a ser pai porque julgava-me apto a educar, ou seja, transmitir um sentido de responsabilidade social, instruir a criança nos labirintos da nossa vida moderna, etc. E, entretanto, hoje penso que a responsabilidade requerida pela paternidade é antes de tudo aquela que toda a relação amorosa requer, só que numa intensidade muito maior: abrir a vida para o outro e reduzir drasticamente o individualismo. Isso é facilitado pelos mecanismos narcísicos que os filhos mobilizam nos pais. Há uma complementaridade perfeita: os egos dos filhos, incipientes ainda, dependem dos dos seus pais; os egos dos pais, assombrados pela sua inconsistência, de repente se sentem plenamente justificados pela dependência dos egos dos seus filhos. Por outras palavras, essa quase perfeição narcísica faz os pais suportarem todos os sacrifícios demandados pelas crianças-majestades de hoje.

Uma conhecida boutade diz que os bebés nascem rechonchudos para serem amortecidos quando os jogarmos na parede, por exaustão. O que nos impede de os atirar na parede é o enamoramento que, como observou Freud, parte do nosso próprio narcisismo, isto é, o facto de amarmos o seu eu como amamos o nosso próprio eu.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 36)

Um filho pode ser a resposta para a velha questão filosófica do sentido da vida?
Sim, sem dúvida. E essa velha questão nunca foi tão aguda como na nossa época moderna, desencantada, órfã de Deus (para muitos). Freud tem um texto bonito sobre isso onde usa a expressão “sua majestade o bebé” (creio que é Narcisismo: uma introdução, de 1914). Penso a coisa nos termos de uma ilusória completude imaginária: não é tanto que um filho sobreviverá ao pai, dando-lhe continuidade, e sim que um filho pequeno depende fundamentalmente do pai, dando a esse a sensação ilusória – e provisória, infelizmente – de uma plenitude ontológica, tapando seu buraco, por outras palavras.

Ter alguém tão dependente de você é uma irrefutável justificativa da sua existência. É uma dopamina ontológica.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 36)

Um dos textos tem esse título, “sua majestade, a criança”, e na contextualização que abre o livro fala de conceitos como “infantocracia” e overparenting. Como se explica esta importância tão grande das crianças nos nossos dias, pelo menos no mundo ocidental?
Essa é uma longa e interessantíssima história. Basta ir recuando nos séculos para se perceber que não existia a percepção da infância como uma etapa da vida a ser destacada e, menos ainda, valorizada. A descrição do processo de invenção e supervalorização da infância é bastante clara, tem marcos inequívocos – mas o seu sentido não é tão fácil de depreender. Parece-me que a questão demográfica é um ponto decisivo: não havia como valorizar tanto as crianças numa época em que a taxa de mortalidade infantil era altíssima. Mas o início da valorização da infância é anterior às transformações das condições de higiene e da medicina que reduziram radicalmente a mortalidade infantil. Phillipe Ariés, possivelmente o mais importante historiador da infância, aponta outras causas, como o surgimento da família nuclear burguesa (por sua vez ligada à emergência da vida privada) e certos pensadores morais do século XVII, que viram na infância a etapa onde se deveria educar o futuro adulto. Seja como for, é uma história fascinante. No século XVI, nas grandes navegações, os grumetes e pajens eram sodomizados e seviciados nas embarcações. Em casos de naufrágio, as crianças eram preteridas por caixas de biscoitos. Poucos séculos depois e cá estão elas, mimadas e idolatradas.

No livro tão depressa cita o “bico da mamadeira” como Lacan e Freud. Quis fazer um livro mais confessional e quotidiano, ou mais filosófico e conceptual? Ou ambos?
Justamente, o bico da mamadeira é a razão de Freud e Lacan existirem. Deleuze costumava lembrar que um conceito é uma abstração que remonta a um problema concreto. Cunhar um conceito é tentar compreender o que há de comum numa multiplicidade de fenómenos concretos. Um conceito que não nasce de um problema concreto, quotidiano, é uma mera abstração vazia (quem crê que Lacan é isso está muito enganado). Por isso, para mim o conceptual e o quotidiano não são duas coisas apartadas, mas, ao contrário, os dois momentos de um único processo.

O choro de um bebê é um prodígio de polissemia. Um único significante pode ter inúmeros significados: fome, frio, calor, fralda cheia, cólicas, posição desconfortável, sono, dor (que por sua vez podem ser muitas dores diferentes). Nas primeiras semanas de nossa filha, eu e minha mulher nos comportamos como linguistas atormentados, uma espécie de Bouvard e Pécuchet enlouquecidos com a natureza escorregadia daquele significante.” (Orfeu de Bicicleta, pág. 83)

Estar habituado a pensar filosoficamente implica uma maior clarividência? É que no livro faz afirmações que muitas vezes são tabus para os pais, como admitir que os recém-nascidos são “feinhos” ou que o amor por um filho é algo progressivo. Geralmente só os não-pais é que dizem isso.
Para mim a filosofia é inseparável da pergunta-motor dos gregos antigos: qual a melhor forma de viver, e como agir para obtê-la? Nesse sentido, sim, para mim o gesto filosófico não é apenas o de elucidar os problemas, identificando as suas tensões, descrevendo os seus significados, mas também o de ser capaz de se transformar por meio dessa elucidação, no sentido de ser capaz de viver melhor. Ora, não se vive bem com tabus, que são coágulos de medo e obscurantismo.

Tem uma crónica que remete para o título, Orfeu de Bicicleta, mas poderia explicá-lo melhor?
Como se sabe, no mito, Orfeu não pode olhar diretamente para Eurídice, sob pena de perdê-la. Jennifer Senior, que escreveu um belo livro sobre a experiência parental (da classe média estadunidense) contemporânea, observa que as ciências sociais têm uma grande dificuldade de depreender, nos seus estudos, a dimensão da felicidade parental. Penso que isso se deve a que a felicidade é completa, ela não produz signos, ela não impele à produção. Ao escrever o meu livro, sentia que no fundo do meu relato havia uma dimensão fundamental, que é essa mesma da felicidade, que é tão quotidiana, e que é tão difícil de dizer. E entretanto, andando de bicicleta com a minha filha, cada um com uma ponta do headphone, ouvindo e cantando a mesma música, várias vezes eu colhi no olhar dos outros a melhor tradução para o que eu experimentava. E que contudo permaneço sem poder dizer diretamente. Como Orfeu. Um Orfeu de bicicleta.

Posso descrever uma cena. Enquanto pedalo, minha filha está sentada na cadeirinha, de capacete e cinto. A sua cabeça fica na altura do meu peito. Ela canta, ou observa coisas com avidez, ou exclama coisas incompreensíveis. Posso tentar interpretar minha felicidade: a combinação dos elementos de liberdade, movimento, descoberta, com a sensação geral de segurança e proteção. Talvez eu me sinta ali protegendo a sua liberdade, e a combinação dessas duas palavras, desses dois valores, representa pra mim um ideal moral parental. Pode ser.”(Orfeu de Bicicleta, p.92)

Se conseguir fazer esse exercício, qual foi a maior lição que os seus filhos já lhe ensinaram?
Há na paternidade uma dimensão incómoda, estruturalmente análoga à relação que um analisando tem com o seu analista. É que o modo como nos relacionamos com os nossos filhos é incontornavelmente revelador das nossas estruturas psíquicas, das nossas fantasias mais estruturais. Constato os meus mecanismos todos quando estou agindo com os meus filhos, do mesmo modo como um analista identifica as estruturas da fantasia de um sujeito quando esse as atualiza na relação com ele. É incómodo isso. Percebo o meu autoritarismo de fundo, os meus joguinhos amorosos patéticos, coisas assim. É curioso, mas nas relações amorosas entre adultos isso acontece de forma encoberta, me parece. Aí está um ponto para eu entender melhor.

Fonte: Observador, em 24 de Agosto de 2015


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