Uso excessivo da Net pode vir a ser considerado perturbação mental

Agosto 25, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 25 de agosto de 2015.

Maria João Gala

A Associação Americana de Psiquiatria, responsável pela edição do manual de diagnóstico das doenças mentais (DSM), uma espécie de bíblia para muitos dos que trabalham nesta área, está a ponderar incluir a chamada “perturbação de uso da Internet”, o uso excessivo das novas tecnologias, na próxima revisão da obra. A dependência extrema da Net poderá, assim, vir a integrar o catálogo das perturbações psiquiátricas, como já acontece, por exemplo, com o jogo patológico.

Especialistas contactados pelo PÚBLICO demonstram algumas reservas em relação a esta possibilidade, apesar de reconhecerem que o problema é “preocupante”. Tão preocupante que a equipa de Daniel Sampaio, director do serviço de psiquiatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, criou há cerca de um ano um “núcleo de utilização problemática de Internet” para dar resposta ao número crescente de pedidos de consulta para problemas deste tipo. Problemas de adolescentes e jovens adultos, basicamente, e que usam de forma excessiva uma série de novas tecnologias, sobretudo jogos online.

Os dados disponíveis para Portugal indicam que o problema é sério. Um recente estudo do Instituto Universitário de Psicologia Aplicada (ISPA) mostrou que quase três quartos dos jovens (até aos 25 anos) inquiridos apresentavam sintomas de dependência do mundo digital. E, destes, 13% exibiam níveis severos de dependência. Em casos extremos, o vício online pode implicar isolamento, comportamentos violentos e até exigir tratamento. Coordenado por Ivone Patrão, este trabalho passou por três fases de aplicação de questionários a cerca de 900 adolescentes e jovens dos 14 aos 25 anos.

O núcleo do Hospital de Santa Maria cobre escolas da zona, como as secundárias Virgílio Ferreirade Benfica e a Gomes Ferreira, exemplifica Daniel Sampaio. Mas quem se enquadra, afinal, neste tipo de definição? “São pessoas que não fazem mais nada, [estão viciadas] sobretudo em jogos online. Chegam a faltar às aulas, não cumprem os seus compromissos”, sintetiza, sublinhando que este comportamento está habitualmente “associado a ansiedade e a depressão” e que a adição surge muitas vezes como uma espécie de “tranquilizante”.

Na DSM 5 (que é de 2013), apesar a única dependência comportamental incluída ser o “o jogo patológico”, a Internet gaming disorder (perturbação de jogo na Internet) aparece já no apêndice das entidades que se reconhece precisarem de mais investigação. Mas o problema é mais lato, estendendo-se às novas tecnologias em geral.   Não deitem fora agenda em papel “Isto está em estudo há muito tempo”, frisa Daniel Sampaio, que lembra que estão a ser feitos trabalhos de campo para se perceber o uso excessivo da Net preenche ou não os critérios para ser considerado uma perturbação psiquiátrica. O que se pode dizer, por enquanto, é que o problema “existe e é preocupante”, enfatiza.  Mas não se sabe ainda se vale a pena elencá-la como uma perturbação independente por si mesma. Classificar como doença situações que podem ser apenas problemas de comportamento pode ser complicado, alerta.

“A maior parte das pessoas, mesmo que faça uso da tecnologia durante horas excessivas, ainda não o entende como uma adição”, sustenta Alexandra Rosa, que é psicóloga da saúde no Hospital dos Lusíadas e chama a atenção para outro problema relacionado com este: o da utilização constante de iPhones ou de agendas electrónicas, que pode acabar por prejudicar a memória. “Com os iPhone as pessoas deixam, por exemplo, de decorar datas de aniversário”.

A psicóloga até já se acostumou a recomendar aos seus doentes a não deitarem fora a velha agenda de papel. “A visualização e o treino de outros aspectos da memória são muito importantes, até porque a tecnologia também falha”, frisa.

Sobre o uso excessivo da Internet em geral, Alexandra Rosa lembra que está a ser tudo muito rápido: “No espaço de 15 anos, ficamos habituados ao contacto permanente, e agora sentimos ansiedade quando tememos ficar desligados do mundo”. O que defende é que a diferença entre o que será normal ou patológico deve ser ponderada em função da utilização que é feita da tecnologia. “Quando a pessoa deixa de ter padrões relacionais, quando prejudica o seu trabalho, o seu sono e até a sua alimentação, isso já é motivo de preocupação”, considera.

“Pode haver dependência de tudo e mais alguma coisa”, defende o coordenador nacional para a saúde mental, o psiquiatra Álvaro Carvalho, para quem nem todo o tipo de comportamentos excessivos deve ser entendido como patológico. “Isso depende de o uso da Internet poder ou não ser altamente pernicioso para o desenvolvimento, contribuir para desarranjar a vida, como acontece com a dependência do jogo”, compara.

“Face a uma  prevalência muito elevada, e no caso de pessoas que não vivem para outra coisa, estão sempre ligados à Net”, isto deve ser encarado como um motivo de preocupação, reconhece. Mas alerta que a DSM 5 “teve uma grande influência da indústria farmacêutica” e que esta perversidade até foi “denunciada pelo coordenador” da anterior versão do manual. O que Álvaro Carvalho teme é que “a psiquiatrização de comportamentos” seja usada para aumentar “a prescrição de medicamentos”.

O que se pode fazer nos casos extremos de dependência, então? É preciso que haja “um diagnóstico precoce e uma tentativa de reeducação”, nomeadamente através de “intervenção psicoterapêutica”, preconiza. Mas reconhece que existem “poucas respostas” deste tipo no Serviço Nacional de Saúde.

 

 

 

Estima-se que, em 2026, a hiperatividade nas crianças seja a norma

Agosto 25, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Visão a Fernando Rodrigues no dia 23 de agosto de 2015.

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Clara Soares (VISÃO nº 1172 de 20 de agosto)

19:00 Domingo, 23 de Agosto de 2015

Fernando Rodrigues, neuropsicólogo e investigador, explica de que forma o consumo digital altera o cérebro e quais as implicações da omnipresença tecnológica nas nossas vidas

O uso da tecnologia transforma o funcionamento do nosso cérebro?

Os estudos disponíveis permitem dizer que há mudanças estruturais em várias zonas do cérebro nomeadamente no hipocampo, onde armazenamos memórias, que está a ficar mais pequeno.

Memorizar tornou-se uma competência menos adaptativa do que indexar, ou seja, localizar informação.

A exposição constante à tecnologia é inofensiva ou potencialmente aditiva?

O ser humano funciona de forma similar a um sistema operativo. Os gadgets estimulam o cérebro de muitas formas (auditiva, tátil, visual) e ativam alguns circuitos de recompensa (libertando dopamina): quanto mais se tem, mais se quer. O sucesso das redes sociais assenta nisso: estar ligado com todos, a toda a hora, numa lógica imediatista que depois se transfere para todas as áreas da vida.

Os contactos sociais, os namoros, tornam-se cada vez mais efémeros.

Porque não temos retiros de ‘detox’ digital, tão populares noutros países, no setor turístico?

Houve uma tentativa de um grupo francês, há uns anos, na Quinta da Romaneira (Douro). Fechou por falta de procura e dificuldade em admitir que se tem a dependência de apps, redes sociais, que produz o mesmo efeito que o jogo patológico mas, até há pouco tempo, estava classificada como um distúrbio no controlo dos impulsos.

Existe uma relação entre excesso de estimulação e hiperatividade?

As estimativas de investigadores que abordaram o tema num congresso internacional recente levantam uma questão inédita: estima-se que, em 2026, a prevalência de hiperatividade na população infantil seja de 52%, ou seja, a norma, nos EUA. E, se este funcionamento passar a ser a norma, justifica-se, como questionou uma psiquiatra nesse congresso, desenvolver fármacos para quem não é hiperativo?

Como encara esse futuro provável? Mais ‘tecnostresse’ e menos desfrute?

As crianças não vão poder comparar porque já nasceram num mundo em que todos estão ligados, num registo imediatista, volátil e orientado para a procura de novidade.

Ainda desconhecemos o impacto disto a médio prazo, mas imagino que haverá mais partilha, menos íntima e altruísta.

Que função vai ter o jogo, o brincar, cuja lógica não é comparável à da era pré digital?

Era um meio para a criança aprender a resolver problemas e a autonomizar-se, na presença dos pais. Hoje, o jogo é a recompensa: “Passaste na escola, não fizeste birras, toma lá um prémio.” Sem um modelo afetivo, o risco é que se tornem autómatos, e não autónomos.

É possivel reverter esta tendência, sem perder os ganhos conquistados pela evolução?

Sim, porque temos plasticidade cerebral e o processo de maturação vai até aos 30 ou 40 anos. Temos mais competências mas podemos gerir melhor o uso dos gadgets. O nosso hipocampo, que se tem reduzido à conta deles, pode voltar a expandir-se.

 

 

 

 

 

Tertúlia – “Crianças e jovens institucionalizados – Desafios da (re) construção de um projeto de vida”

Agosto 25, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Cartaz da tertulia

mais informações:

www.solardomimo.org

Seminário «Finanças Conjugais em Contexto de Crise: Género, Poder e Desigualdades» (31 ago. – 1 set., Lisboa)

Agosto 25, 2015 às 8:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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cesfb

mais informações no link:

http://www.ces.uc.pt/eventos/index.php?id=11899&id_lingua=1&pag=11901

 

Vinny tem 13 anos e vive num centro de detenção juvenil

Agosto 25, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://p3.publico.pt  de 18 de agosto de 2015.

Isadora Kosofsky

“Quero ir para casa” (“I want to go home”) foram as palavras de Vinny, de 13 anos, que deram título ao projecto da jovem fotógrafa de Los Angeles Isadora Kosofsky. O adolescente foi encarcerado por ter esfaqueado o homem que atacava fisica e brutalmente a sua mãe. “Quando a minha mãe estava a ser espancada tive muito medo, mas queria defendê-la. Estou farto de ver a minha mãe magoada”. Foram estas as palavras que Vinny partilhou com a fotógrafa, que decidiu documentar este caso por sentir que o Vinny e ela têm “traumas de infância semelhantes”. Confessou, em entrevista ao P3: “Identifico-me com a dureza de ser exposta à condição humana ainda muito nova. Acho que com o meu documentário tento registar o paradoxo do amor-perda que me é tão familiar”. Isadora demorou anos até obter autorização, aos 18 anos, para documentar dentro de estabelecimentos de detenção juvenil. Assim que conheceu Vinny, no Centro de Detenção Juvenil de Albuquerque, nos Estados Unidos, sentiu o que denominou de “ligação imediata”. “Sentei-me com ele e ele começou a chorar, falando-me do seu desejo de proteger a mãe e descrevendo a sua relação próxima com o irmão mais velho David.” Percebeu então que o laço entre eles era tão forte que “para documentar a vida de Vinny seria impossível não incluir a de David”. “Depois de terem crescido em sofrimento e abandono, o Vinny e o David queriam reaver laços de amor e uma família. A relação que têm é o único conforto de ambos. Vinny descreve David como uma figura paternal e David vê em Vinny a única pessoa que gosta verdadeiramente dele.” Documentar as suas vidas não foi fácil. “O Vinny mostrou-se imediatamente receptivo à minha presença.” O mesmo não aconteceu com David. “Sabia que seria um longo processo antes que pudesse fotografar momentos do David sem que usasse a sua “máscara”, como costumava chamar-lhe. Demorou mais de um ano até ganhar a sua confiança. Tinha um medo intenso do abandono, que eu tirasse fotografias dele e nunca mais voltasse. Tive de mostrar-lhe que era de confiança, sincera, ‘real’, como ele costumava dizer.” Todo este investimento Isadora justifica com a vontade que tem de retratar Vinny e David de uma forma humana, “de uma forma que levasse os que vêem as imagens a sentir que aquelas pessoas podiam ser seus amigos, familiares, filhos”. “Existe muita fotografia que documenta homens encarcerados, mas muito pouca mostra realmente a pessoa que está por detrás dessa etiqueta.” O projecto tem um lugar especial na vida da fotógrafa. Durante a sua adolescência teve um grupo de amigos “cuja delinquência resultou em intervenção policial”. “Alguns já tinham estado detidos”, prossegue, “outros estavam em liberdade condicional. Encontrávamo-nos todos num centro comercial e contavam-me as suas experiência dentro do sistema judicial juvenil. Tornei-me particularmente próxima de um deles e começamos a passar muito tempo juntos fora do nosso grupo. Infelizmente, ele foi preso e perdemos contacto. Foi então que comecei a desenvolver novos projectos e a escrever para as instituições de detenção. Há já quase quatro anos que Isadora documenta as vidas de Vinny e David. Vinny tem hoje quase 17 anos, está prestes a ser pai, e vive finalmente na companhia do seu irmão mais velho. Isadora Kosofsky recebeu um Louvor da Ian Parry Scholarship da presente edição de 2015. Ana Maia

mais fotografias no link:

http://p3.publico.pt/cultura/exposicoes/17723/vinny-tem-13-anos-e-vive-num-centro-de-detencao-juvenil

 


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