Férias grandes… de mais?

Julho 24, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo da Visão de 11 de julho de 2015.

Nuno Botelho

O Ministério da Educação esticou o verão, deixando os alunos mais uma semana em casa. Até 21 de setembro, os miúdos terão 14 semanas de descanso. Bem precisam, defendem uns. Mas há que os ocupar, ripostam outros. Viagem a este tempo em suspenso que, para algumas famílias, parece infinito

Teresa Campos com Sónia Calheiros e Pedro Lisboa (artigo publicado na VISÃO 1165, de 2 de julho)

Uma casa numa árvore é o sonho de qualquer criança e mais ainda em tempo de férias – e esta também faz (ou melhor fez, que eles já mal cabem lá dentro!) a delícia dos netos de Margarida Machado. Duarte, 17 anos, os gémeos Francisco e Carlota, 11, seus irmãos, e o primo João, também de 11, desde pequeninos que adoram ir para casa dos avós, na Amoreira, em Cascais. Ali têm ainda um cão para brincar e, quando faz muito calor, podem sempre tomar banho de mangueira. Férias grandes demais? “Nem por isso, assim são boas”, responde Carlota, de imediato.

A alegria de os ter por perto é mais do que recíproca: afinal, cuidar de crianças em casa fez sempre parte da vida da avó Margarida, 71 anos. “E quem o faz por gosto não cansa”, defende, sem esconder que compreende bem a dificuldade em ocupar miúdos durante tanto tempo: “Quem não tem uma avó disponível, como eu, deve ter momentos muito complicados.”

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É exatamente desta ginástica de que se fala quando se menciona o outro lado das férias grandes: atente-se o caso de Margarida Gomes e do marido, ela assistente de bordo, ele piloto. Não voam juntos para deixarem o menos possível os dois filhos sem os pais em casa, obrigando-se para isso a uma logística que inclui todos os dias a ajuda de uma baby-sitter e do avô materno – e que também mantém por perto os tios e alguns amigos mais próximos. Se os horários pré-combinados já são essenciais durante o ano letivo, é nas férias grandes que se tornam imprescindíveis. E agora, com a chegada de julho, começou também a sua roda-viva da ocupação.

A organização em pessoa, Margarida Gomes planeia tudo com o máximo de antecedência. As inscrições para a colónia organizada pela autarquia de Oeiras são logo feitas em março: afinal, os 75 euros desta semana de “Mexe-te nas Férias” são “um achado”. Sempre atenta ao que circula no Facebook, Margarida descobriu ainda uma nova atividade desportiva em Paço de Arcos, por 89 euros, com basquetebol, surf, skate, futebol, escalada e idas à praia, para ocupar Lourenço nas mesmas datas que Francisca. Como os sobrinhos vão para as mesmas atividades, assim já se  facilita a vida do avô, a quem recorrem todos na recolha e entrega diária das crianças. Só que, como as colónias não são eternas, daqui a quinze dias começará outra atividade de dança para Francisca, onde paga 60 euros só pelas tardes. Lourenço pondera ir para a Aldeia Hípica Fonte Caspolina, uma atividade paga ao dia. A 20 de julho, ambos estarão na vela, na Doca de Alcântara, uma semana que custou 250 euros.

Com o início do ano letivo anunciado para 21 de setembro (o Ministério da Educação decidiu acrescentar mais uma semana às férias), Margarida já pensa que talvez este mês não seja o problema maior. “Tenho de encontrar também soluções para setembro…” E se até agora já gastou 474 euros, questiona-se quando mais será preciso investir.

Num país que já tem uma das pausas escolares mais longas da Europa (ver infografia), a verdade é que há dez anos que as férias de verão não eram tão grandes. Serão grandes demais?

Uma revolução a pedido

“As escolas não são depósitos de crianças” foi a tese que vingou durante muitos anos – e isso nem se questionava no tempo em que havia avós (livres!) por perto, a vizinhança era nossa amiga e tinha filhos pelas idades dos nossos e no bairro podia brincar-se na rua e…  bom, toda a gente se conhecia. No dia a dia do século XXI, em que pai e mãe trabalham fora (e muitas horas), em que nem sempre há super-avós por perto, ou disponíveis a cem por cento, e em que não se estreitam grandes amizades com os vizinhos, mal se aproximam as pausas escolares anda tudo numa correria para ocupar os tempos livres dos filhos. As dúvidas não se fazem esperar: Se a escola é o espaço mais agregador que os mais novos conhecem, não poderia dar essa resposta? Pergunta número 2: E será que devia?

Foi a pensar nisso que, há dias, se falou numa verdadeira revolução. Tudo começou quando o Conselho de Escolas recomendou umas “férias de outono”: uma pausa a meio do primeiro período, à semelhança do que acontece em outros países, para que as escolas possam avaliar o trabalho realizado e planear atividades de apoio aos alunos com mais dificuldades.

A Confederação das Associações de Pais (Confap) não perdeu tempo e aproveitou o pretexto para dizer que o que faz falta é uma mudança radical nos tempos das escolas – começando com apenas um mês de férias no verão. Jorge Ascensão, o presidente da Confap, criticou mesmo as pausas avulso e defendeu que as aulas deveriam começar no início de setembro e terminar apenas no final de julho. “Começo a recear que as escolas tenham mais pausas do que aulas. Toda a gente se queixa de que os programas são extensos e os alunos não têm tempo para aprender e tirar dúvidas. É preciso tempo”, sublinha. O representante da maior confederação de pais insiste ainda que a recomendação do Conselho de Escolas é redutora: “Há muito mais a mudar na educação”, apontando, por exemplo, que os miúdos podem estar na escola sem atividade letiva. “Houve uma revolução na sociedade mas não na escola, que continua centrada na sala de aula, no quadro preto do professor e nas secretárias alinhadas”, criticou.

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Para a outra confederação da associações de pais, a Cnipe, o risco maior desta discussão é os alunos estarem tempo demais na escola. “Parece-nos que encurtar o tempo de férias acabaria por ser contraproducente”, sublinhando que crianças e jovens precisam de tempo para crescer. “Não queremos criar robôs. Queremos cidadãos completos e as crianças precisam de espaço para socializar em vez de estarem na escola das oito da manhã às seis da tarde e ainda levarem trabalhos para fazerem em casa”, salienta, receando que filhos cada vez mais ocupados se tornem demasiado competitivos e isso ponha em causa a entreajuda entre colegas.

De portas abertas

Eis que o Ministério da Educação decidiu baralhar e voltar a dar nesta discussão sobre o tempo das férias e, pelo menos este verão, acrescentou-lhes mais uma semana. As razões? Equilibrar a duração dos três períodos de aulas, salientou o gabinete do ministro da Educação, Nuno Crato, em comunicado enviado às redações. As teorias da conspiração não tardaram: seria a forma de dar mais tempo às escolas para terem todos os professores colocados, evitando assim que qualquer problema afete em demasia a campanha as eleições.

Filinto Lima, da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, é o primeiro a refutar que este adiamento se deva a uma necessidade das escolas: “Depois das colocações dos professores, nós precisamos de apenas uma a duas semanas para ter tudo pronto”, insiste, compreendendo que a decisão traga prejuízo aos pais, que vão ter os filhos a cargo o dia todo, durante mais uma semana. “E podíamos ter as portas abertas. Basta haver vontade política”, sublinha, antes de revelar o (bom) exemplo da autarquia de Vila Nova de Gaia: 4 mil crianças vão participar nas atividades recreativas na escola, fora dos tempos letivos, durante todo o verão. “A escola tem de passar a ser uma instituição de portas abertas, com uma componente lúdica e socializadora”, salienta.

E há mais quem veja na escola esta potencialidade agregadora. Veja-se o exemplo da Associação de Pais do Externato Fernão Mendes Pinto, em Lisboa. A braços com os miúdos em casa, na pausa do Natal passado, propuseram-se usar o espaço da escola para os ocuparem e agora não querem outra coisa. Contam com as auxiliares educativas, mas também com o voluntarismo de alguns dos pais, o que ajuda a diminuir o valor a pagar por estas atividades. “Sou investigadora na área das neurociências, por isso organizei um workshop ligado às ciências”, conta Joana Coelho, 41 anos, presidente daquela associação de pais. “Cada um socorre-se de algo que saiba fazer e, numa manhã ou tarde, dá o seu contributo.”

Em geral, os miúdos adoram, já que assim têm a companhia dos amigos. Mas há também quem se queixe, confessa Joana: “Acabam por passar as férias na escola.”

Este é o ponto que os especialistas mais apontam, para que não seja esquecido, no meio desta loucura de encontrar ocupação para os mais novos: os alunos portugueses já são dos que têm mais carga horária, por comparação com os seus pares europeus (ver infografia). Vivem, como assinalava há já 10 anos o Sindicato das Crianças, uma jornada contínua, quase de sol a sol. “Se os adultos tivessem tido infâncias mais felizes, talvez se lembrassem mais vezes das crianças e se colocassem mais facilmente no lugar delas.” Foi assim que o psicólogo Eduardo Sá apresentou a iniciativa, em 2005, alertando para o facto de “as crianças serem cada vez mais jovens tecnocratas de fraldas e mochila”.

Brincar, precisa-se

Hoje, brincar continua a ser uma preocupação, alerta José Morgado, professor de Psicologia da Educação do info-3-ferias-6607Instituto Superior de Psicologia de Educação. “O problema não é a duração das férias. Os nossos miúdos até têm mais aulas do que muitos outros. O problema é faltar uma resposta adequada da comunidade para este período”, diz, acrescentando que não o incomoda nada que possam decorrer iniciativas na escola, desde que não sejam escolares. “Acaba muitas vezes por acontecer os miúdos terem uma imensa panóplia de atividades neste período. E eles também precisam de outras rotinas, de brincar, de serem crianças por um bocadinho”, apela o professor do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, criticando também as tais “crianças-?-agenda”, que mesmo nas férias continuam com uma sequência organizada de horários e afazeres. “Brincar é a atividade mais importante que as crianças fazem”, defende.

Veja-se que nada disto anula outros dados da ciência, como o de que o cérebro não precisa de muito mais descanso para lá do sono regular. “O desenvolvimento cerebral desenrola-se conforme os estímulos que recebe”, confirma Tiago Reis Marques, psiquiatra e investigador do Instituto de Psiquiatria do Kings College de Londres, além de dar consultas no Centro Cirúrgico de Coimbra e ter sido, recentemente, distinguido pelos seus pares como o Melhor Jovem Investigador, na área de esquizofrenia. “A adolescência é, ainda por cima, o período com mais potencialidade para se desenvolver. Não faz muito sentido que fique quieto”, acrescenta, a lembrar os resultados do famoso estudo que analisou o desempenho de jovens, uns de famílias desfavorecidas, outros de meio social economicamente superior. “No final do verão, os primeiros tinham desenvolvido muito menos sinapses do que os segundos, pela simples razão de serem expostos a menos estímulos.”

Mas Tiago Reis Marques também reconhece que estimular tanto pode ser ter livros para ler como ir à praia. “A mensagem não é ‘se não os pusermos em atividades estamos a condená-los ao insucesso’. ?A mensagem é que continuemos a alimentá-los de coisas, mesmo as mais simples”, aponta, concordando também que há perigos na sobrestimulação. “Quando se trata de crianças, a primeira regra é sempre a do bom senso.” E aqui estão todos de acordo. Ou como diz José Morgado: “Era bom que as férias fossem isso mesmo: férias!”

Ivone Silva compreende perfeitamente do que falam: afinal, é sempre um alívio quando acaba o ano letivo. Por esta altura, ela própria também já está saturada da rotina dos trabalhos de casa e de estudar para os testes com os três filhos. “É o momento em que desaceleramos e terminam as suas atividades extracurriculares.” Habituada a levar os filhos André, Tiago e João, de ?5, 6 e 10 anos, de manhã à escola, a advogada que trabalha numa empresa de tecnologias de informação até tem flexibilidade para sair às cinco da tarde, mesmo que depois, se for necessário, tenha de trabalhar pela noite dentro. Ainda assim, nada tão flexível como nos países nórdicos. “Não tenho dúvidas de que é o modelo ideal. Os miúdos têm seis semanas de aulas, seguidas de quinze dias de férias. Assim, os meses de férias grandes são repartidos ao longo do ano”, descreve, salientando que nem eles ficam tão cansados nem os pais andam nesta correria durante o verão todo. Desde que as aulas terminaram, André, Tiago e João já foram uma semana de férias para o Algarve com o pai, passaram outra semana em casa com o apoio dos avós e esta semana começaram a frequentar a colónia organizada pela Associação de Pais da Escola Básica Gomes Freire de Andrade, que os mais velhos frequentam – e que só existe graças ao tempo livre despendido pelos progenitores, cobrindo toda a mancha horária fora do ano letivo com idas ao Oceanário ou à Quinta do Piruças, com workshops de culinária pelo meio, qualquer coisa como 30 euros por semana por cada um, mais o valor do almoço. André, o mais novo, também vai para a colónia da sua escola, a Básica Beça Múrias, onde, por 160 euros por mês, tem idas à praia, passeios, ateliês de teatro, culinária, dança e música.

Mesmo assim, e para que os miúdos não passem tanto tempo nos ATL, pai e mãe optam por também tirar todos os dias de férias desencontrados. “Tento que tenham o máximo de dias livres com os pais, em vez dos 22 que a lei laboral permite.”

 

 

 

 

Os pais podem publicar fotos dos filhos no Facebook? Os especialistas respondem

Julho 24, 2015 às 6:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da http://exameinformatica.sapo.pt de 23 de julho de 2015.

o acórdão citado na notícia é o seguinte:

Acordão de 25 de junho de 2015, processo n.º 789/13.7TMSTB-B.E1

O Código Civil determina: «o retrato de uma pessoa não pode ser exposto, reproduzido ou lançado no comércio sem o consentimento dela». Será esta frase suficiente para inibir os pais de publicarem fotos dos filhos nas redes sociais?

Um acórdão do Tribunal da Relação de Évora lançou a polémica: um ex-casal foi inibido de publicar imagens da filha de 12 anos nas redes sociais. A inibição foi aplicada na sequência de uma disputa pelo direito de tutela da criança, mas nenhum dos pais havia apresentado queixa ou levantado a questão. E o próprio acórdão contém várias passagens de caráter universal. O que permite deduzir que, noutros casos similares, os juízes portugueses poderão aplicar a mesma inibição e lembrar que nenhum pai tem o direito de publicar fotos dos filhos nas redes sociais.

O acórdão está longe de ter gerado o consenso na opinião pública. E mesmo entre os especialistas as divergências estão patentes. Luis Neto Galvão e Manuel Lopes Rocha protagonizam as duas formas de ver a questão: São ambos advogados e ambos conhecem a fundo as questões relacionadas com a privacidade na Internet… mas discordam quando se coloca a questão: terão os pais a legitimidade para publicar imagens dos respetivos filhos menores nas redes sociais?

Luís Neto Galvão, Consultor do Conselho da Europa na Área da Privacidade e Proteção de Dados e sócio da SRS Advogados, mantém a esperança de que o acórdão do Tribunal da Relação de Évora não faça jurisprudência nem sirva de referência para outros casos similares que venham a ser julgados no futuro. «A proteção dos menores, atenta a sua natural vulnerabilidade, em particular no universo online, deve ser assegurada em primeira linha pelos pais. Estes têm o dever de adotar uma conduta responsável, atentos os perigos comprovados que oferecem as redes sociais e a Internet. Mas isso não justifica, por si só, uma proibição como esta, que me parece interferir injustificada e desproporcionalmente com a esfera de ação parental», refere o causídico por e-mail enviado para a Exame Informática.

Manuel Lopes Rocha, advogado da PLMJ, tem uma visão bem diferente e mantém a expectativa de que o acórdão faça sirva de referência futura: «É de elementar bom senso. Penso que o acórdão pode vir a servir de orientação para outros casos que cheguem ao tribunal. A própria lei geral já vai neste sentido. Não se trata de uma questão de ser ou não perigoso para as crianças, mas sim de que as crianças não são propriedade dos pais».

Manuel Lopes Rocha recorda que o direito à imagem é um dos direitos essenciais do núcleo de direitos de personalidade do código civil.

No Código Civil, o artigo referente ao direito à imagem determina que «o retrato de uma pessoa não pode ser exposto, reproduzido ou lançado no comércio sem o consentimento dela». Também estão acauteladas exceções que não exigem consentimento dos retratados, e que estão relacionadas com pessoas que já detêm alguma notoriedade, tenham cargos públicos ou se encontrem em eventos ou lugares públicos.

O Código Civil faz menção ao “comércio”, o que poderá remeter para uma eventual transação, que não ocorre na larga maioria das publicações de fotos de crianças redes sociais. Em contrapartida, a publicação em redes sociais pode levar a foto de uma pessoa para o domínio público. Resultado: tanto os pais como as crianças retratadas acabam por perder o controlo sobre o uso que outros internautas poderão dar a essas imagens, depois de as copiarem ou descarregarem para os seus computadores. E talvez por isso os juízes da Relação de Évora tenham feito questão de lembrar que as redes sociais poderão ser usadas por predadores sexuais que procuram vítimas entre perfis, nomes e imagens que se encontram disponíveis.

Mas há uma questão que o acórdão do Tribunal da Relação de Évora não chega a responder: Se os pais, que têm a tutela, não têm direito a usar a imagem dos filhos, então conclui-se que, tirando as exceções previstas pela lei, mais ninguém terá esse direito de o fazer com quaisquer crianças (ou adultos)… e mais: eventualmente, as próprias crianças perdem o direito de publicar as suas imagens nas redes sociais, uma vez que apenas podem fazê-lo com a autorização de quem as tutela (os pais, que por sua vez, também devem «abster-se de divulgar fotografias», como refere o acórdão da Relação de Évora em relação ao caso que iniciou a polémica).

Luís Neto Galvão lembra que estes casos devem ser analisados à luz do bom-senso: «É claro que as crianças têm direito à imagem e à reserva da vida privada e a partilha de fotos em redes sociais, quer pelos pais quer pelas próprias crianças (distinção que me parece menos clara no acórdão) acarreta riscos significativos. Esses riscos devem ser tidos em conta pelos pais, enquanto representantes legais das crianças. Mas dai até proibir tout court essa publicação parece-me excessivo e desproporcionado, sobretudo por não serem referidas circunstâncias particulares na conduta dos pais que justifiquem uma medida tão drástica».

Manuel Lopes Rocha concorda com o acórdão, mas também admite que a inibição de publicação de imagens de crianças não pode ser levada ao extremo: «Se a foto apenas está disponível para a família ou para os amigos chegados, não haverá mal. O problema é se a foto for disponibilizada a toda a gente, permitindo o acesso universal».

Do mesmo modo que considera que o acórdão da Relação de Évora está bem elaborado, Manuel Lopes Rocha não vê qualquer razão para que se crie uma legislação específica para estes casos.

Numa prova de que a polémica está longe de ficar sanada, Luís Neto Galvão apresenta uma opinião diametralmente oposta e sugere que os responsáveis políticos tomem a iniciativa tendo em conta o «contexto europeu (a Agenda Digital também abrange esta temática), e bebendo na experiência federal dos Estados Unidos da América que, com o Children’s Online Privacy Protection Act (COPPA)».

«O Estado deve ainda apostar fortemente na educação e formação das famílias, de modo a incentivar condutas responsáveis de pais e filhos online. Há projetos meritórios nesta área a vários níveis em Portugal. Falta talvez uma maior coordenação dos vários atores com responsabilidades. Não chega a ação muito positiva da CNPD, com o projeto Dadus. É preciso um envolvimento integrado de outros organismos com responsabilidade na área», acrescenta Luís Neto Galvão.

 

 

Press Release : a propósito das alterações introduzidas à Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo

Julho 24, 2015 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Boletim do IAC n.º 116

Julho 24, 2015 às 12:15 pm | Publicado em CEDI, Publicações IAC-CEDI | Deixe um comentário
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Descarregar o Boletim do IAC n.º 116 aqui

Seminário Anual da Rede Construir Juntos “A Maioridade de uma Rede – Paradigma do Presente, Perspetivas de Futuro” 8 de setembro em Braga

Julho 24, 2015 às 11:10 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Entrada livre com inscrição obrigatória

Data limite de inscrição: 3 de Setembro de 2015

Seminário Anual RCJ-2015 – definitivo

Ficha de inscrição participantes 2015

 

Mário Cordeiro. “Há mais crianças que se sentem infelizes, tristes e deprimidas. Até bebés…””

Julho 24, 2015 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do i a Mário Cordeiro no dia 18 de julho de 2015.

Ana Brígida

“O problema não são os divórcios. Qualquer evento pode ser traumático se os miúdos se sentirem ameaçados”

Marta F. Reis e Vítor Rainho

A paixão pela medicina e as críticas à sua desumanizaçao são os fios condutores desta conversa.

Médico há mais de 30 anos, autor de mais de uma dezena de livros em diferentes registos. Toca piano, é um leitor compulsivo e fotógrafo amador. Acaba de tirar um curso de História de Arte e está decidido a aprender violino para acompanhar um dos filhos. Mário Cordeiro tem bicho carpinteiro como as crianças. Encontramo-lo numa manhã de férias numa esplanada com vista para a Praia da Areia Branca. Há anos que o seu retiro é por ali, na aldeia de Cezaredas, perto da Lourinhã. A caminho dos 60 anos, gosta cada vez mais do campo e sente-se cada vez com mais sede e fome do mundo, na corrida contra o tempo da vida.

Como decidiu seguir a carreira de medicina?

Foi sempre uma coisa que me entusiasmou, até pela parte da ciência, da descoberta. Aquele aspecto mais de trabalho de Sherlock Holmes, de chegar ao diagnóstico a partir dos dados, como se estivesse a fazer um puzzle. Depois terei sido influenciado por ter crescido num ambiente médico.

O pai, também Mário Cordeiro, insistiu nisso?

Ele era pediatra. Sei que gostava da ideia, mas não. O meu irmão mais velho andou em Medicina e depois desistiu e tenho uma irmã médica. Na altura não havia serviços de urgência de pediatria – o primeiro em Santa Maria era numa casa de banho adaptada para ver crianças. Como em casa ele estava de prevenção, aos almoços e jantares era frequente estarmos todos à mesa e alguém telefonar a pedir indicações para o filho que estava doente. Era engraçado porque nós a certa altura já fazíamos apostas sobre o que ia ser com base nas respostas e perguntas que ele fazia.

O interesse surge aí?

Sim. Gostava daquilo mas havia um problema: se via sangue começava logo a tremer, por isso pensei que nunca iria para Medicina. Tanto que quando me fui inscrever no liceu escolho Direito, que era algo que também me interessava. Todo feliz vou para a paragem do autocarro, que terei perdido por uns instantes. É enquanto estou à espera pelo autocarro seguinte que tomo a decisão de voltar à secretaria, rasgar os papéis e inscrever-me para Medicina.

O que o fez voltar atrás? 

Acho que foi pensar ‘não vou deixar de fazer o que quero por medo’. Não podia ser o facto de tremer ao ver sangue que me ia limitar na profissão. Nunca houve de facto pressão familiar, embora curiosamente toda a minha família do lado paterno, pai, avô e trisavô, tenham sido médicos.

Uma grande referência sua foi, contudo, o seu avô materno. O que o marca tanto?

A vida dele. Não conheci os meus avós paternos – o pai do meu pai já tinha morrido quando nasci e a mãe estava na Índia. Esse avô era realmente uma pessoa incrível, um homem da Renascença. Médico, oficial da Marinha, perito em história medieval italiana, em orientalismo. Foi secretário-geral da Sociedade de Geografia. Foi inventor! Inventou uma maca que permitia que duas pessoas transportassem um ferido em vez de quatro, ainda hoje ensinada na NATO. E fazia tudo discretamente. Não era um homem dos sete ofícios mas dos 70. Tive a sorte de ficar com o seu espólio quando a minha mãe morreu e ele tinha escrito memórias e apontamentos sobre a participação nas campanhas da República. Note-se que nasceu em 1881, foi mobilizado para derrotar Paiva Couceiro quando houve a tentativa de restaurar a Monarquia e depois esteve na Primeira Grande Guerra e nas campanhas de África. Era agnóstico e foi um dos únicos portugueses a ter autorização para consultar os arquivos secretos do Vaticano. Descubro tudo isto nas memórias, lá em casa o avô era o avô. Sabia que tinha estado em África mas não sabia nada sobre o seu pensamento religioso ou político. Achei esse processo de descoberta de uma pessoa fascinante, mais porque estava tudo escrito com uma letra irrepreensível. Era como se estivesse escrito em Word. Digo muito aos meus filhos: escrever é comunicar e é bom que, mesmo com os computadores, consigam rabiscar coisas que sejam entendíveis 100 anos depois.

Há algo desse avô no seu lado de cultivar vários ofícios, da escrita à música?

Não sei o que será genético, mas acho que esta vontade que tenho de fazer coisas é uma resposta a uma certa angústia existencial. É isto de sentir que há tanta coisa por fazer, ouvir, ler, escutar, aprender e ao mesmo tempo ver que a vida não é eterna.

Sente essa ânsia aumentar?

Sim, é aquela coisa de pensarmos que morremos velhinhos e isso a certa altura começa a cair por terra. Começam a morrer pessoas próximas de nós, da nossa idade, mais novas. Digo isto sem fatalismos. Ela anda aí e acho que isso deve ser uma força motivadora para tudo. Sinto sobretudo a ânsia de não perder tempo com coisas que não interessam. Durante muitos anos não fui capaz de dizer que não e agora já sou.

O que mudou nas doenças das crianças desde que começou a trabalhar?

Houve muitas mudanças em tudo. Quando comecei as crianças morriam de desidratação na sequência de uma gastroenterite. Em Peniche, no início dos anos 80, no serviço médico à periferia, chegava a fazer bancos em que entrava às 8 da noite de sexta-feira e estava até às 8 da manhã de segunda. Eram quase 72 horas de urgência e via-se de tudo: desde uma grávida em trabalho de parto, picadas de peixe-aranha e, se havia festas na aldeia, era quase certo que apareciam facadas e navalhadas.

Havia muitas situações de alcoolismo, mesmo em miúdos?

Sim, as sopas de cavalo cansado. Havia essa ilusão nas aldeias de que o álcool dava calor, o que ajudava a fazer frente ao frio. Claro que também havia miúdos que iam à garrafeira dos pais, quase para experimentar o menú dos adultos. Hoje é diferente. A bebida passou a ser vista quase como uma condição para estar contente e feliz. Há uma noção um bocado perversa do que estar feliz e contente implica dizer alarvices e fazer figura de palhaço…

Os pais levam essa preocupação ao consultório?

Sim, mas vejo sobretudo isso nos agrupamentos escolares. O álcool hoje aparece muito barato aos jovens. Até à volta de algumas escolas há happy hours de cerveja, imperiais a 60 cêntimos, o que fica mais barato que uma água ou um refrigerante.

Em termos de doenças, que diferenças se nota mais nas crianças?

Não nos podemos esquecer que somos campeões na redução da mortalidade infantil. Houve uma diminuição do peso das doenças infecciosas e há mais situações crónicas, seja perturbações do desenvolvimento, cancro e as consequências de violência e acidentes. Mas há muito mais problemas de saúde mental, se calhar porque as pessoas ligam também mais a isso, mas não digo só esquizofrenias e neuroses. Há mais casos de crianças que se sentem infelizes, tristes, deprimidas.

Crianças de que idade?

Quatro e cinco. No fundo miúdos deprimidos por se sentirem mal nos seus ecossistemas, mal em casa, muito fechados. São quatro paredes sem casa, no carro, no consultório. E muitas vezes tudo plastificado, mesmo os afectos.

Falta de amor que gera falta de amor-próprio?

Sim. Creio que o nosso discurso de adultos não contribui muito para uma boa auto-estima.

Que idade tinha a criança mais nova que viu com uma depressão?

Já vi depressões em bebés. Um bebé que não seja objecto de afecto explícito corre esse risco. Agora, o ser humano tem uma boa resiliência desde que perceba o que se passou.

Mas como se trata uma criança com depressão?

Primeiro é preciso descobrir o que a deprime, o que a traumatizou, magoou. Isso nem sempre é fácil. E depois é tentar fazê-la ver o lado bom da vida, o que às vezes não é fácil pois é residual.

Dizia que os adultos podem contribuir para esse fenómeno.

Sim, há duas coisas erradas que fazemos. Uma é criar a expectativa de uma vida maravilhosa que depois não se concretiza. Aquela pressão para ir para o quadro de honra, ter a camisa de marca. A outra coisa é precisamente o contrário, aquela atitude de “escusas de estar a esforçar-te para ser uma pessoa completa porque, das duas uma, ou vais ser um malandro ou a vítima do malandro.” É o que vemos no telejornal: a galeria de horrores em que se salta do malandro, para o assassino, o pedófilo, o ladrão, o corrupto, o mentiroso. Isto não é muito estimulante para quem está a crescer e acho que devemos, enquanto adultos, ter a preocupação de passar um quadro de liberdade do que é a vida adulta. Devemos dizer que há o malandro, a vítima do malandro e depois a terceira hipótese, que é a da generalidade das pessoas. Acho que os adultos se vitimizam um bocado e desfrutam pouco para estar obcecados com o que não têm e isso passa às crianças.

Os pais que o procuram hoje são diferentes de há 30 anos?

Sabem mais coisas. Sempre foram mas hoje assumem-se mais como os primeiros cuidadores dos filhos e os médicos vão perdendo felizmente aquela arrogância, aquilo de se achar que os pais não sabiam nada e o doutor é que era o bom. Antes, se os pais fossem ignorantes, saíam tão ignorantes como quando tinham chegado ao consultório porque nada era explicado ou então os médicos usavam um jargão impressionante. É aquela velha história de dizer ao doente quem tem espondiloartrose e não bicos de papagaio. Espondiloartrose é mais solene e às vezes isto ainda acontece… A medicina evoluiu muito pouco neste sentido.

Da humanização?

Sim, continua a haver este desfasamento entre uma ciência que não sendo exacta tem de ser muito rigorosa, mas que tem de saber ao mesmo tempo comunicar. Não será caso único, acontece o mesmo com a linguagem jurídica. Acho que se um diagnóstico ou uma terapêutica é um acto negocial, como uma lei é para ser seguida pelas pessoas, tem de ser antes de mais entendido.

Uma relação negocial em que sentido?

Se faço um diagnóstico ou prescrevo um antibiótico de oito em oito horas, e os pais questionam que por causa do infantário têm receio que a educadora falhe, tenho de ver se há alternativa, se pode ser de 12 em 12. Tem de haver um entendimento mínimo para haver um compromisso e as coisas funcionarem.

 

Menina de sete anos escreve livro sobre medo de dormir sozinha

Julho 24, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Livros | Deixe um comentário
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Notícia do http://diariodigital.sapo.pt  de 10 de julho de 2015.

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Todas as noites, Emily Losada pegava na sua almofada e ia até ao quarto dos seus pais porque não conseguia dormir sozinha. «Eu não tinha coragem», diz a menina, hoje com sete anos.

Um dia, teve uma ideia: pegou na almofada e no seu elefante de peluche e borrifou-os com o perfume dos pais. Depois disso, nunca mais dormiu noutra cama que não fosse a sua.

Foi a partir da própria história que a pequena escreveu, sem contar a ninguém, o livro «Quando Eu Vou Dormir no meu Quarto». O texto apresenta a personagem Elizabeth, uma menina que sofria do mesmo problema que ela.

«Tinha um monte de livros, e queria um em que eu pudesse transmitir o que sentia às pessoas», conta Emily, que diz ter mais de 200 na estante.

Pois ela conseguiu o que queria. Já fez dois lançamentos e, dos 1.000 exemplares impressos, assinou mais de 100. Agora, quer espalhar a história para que mais crianças deixem o medo de lado.

As ilustrações também são da menina, que garante que fez tudo sozinha. «Os meus pais são engenheiros, mas eu não quero ser, porque não gosto de trabalhar no computador», diz. «Quero um trabalho muito criativo quando crescer, como artista.»

mais informações sobre o livro no link:

http://www.allprinteditora.com.br/quando-eu-vou-dormir-no-meu-quarto?filter_name=Emily%20Losada

quarto

 


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