Divórcio: Ouvir mais e pedir menos relatórios para decidir guarda dos filhos

Julho 17, 2015 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Inspirando-se num juiz de Sintra, novo Regime Geral do Processo Tutelar Cível prevê mudança de paradigma escrito para oral.

Explicou tudo ao juiz. Tem 13 anos. Vive com os avós, os tios e os primos há dois anos. Sente-se abandonado pelo pai, que mora no Brasil, e pela mãe, que mora em Espanha. A tia é quem cuida dele. O juiz falou com a tia e com a mãe, ali, no tribunal. Suspendeu a diligência e contactou o pai pelo Facebook. Telefonou à tia para acertar uns detalhes. No mesmo dia, assunto arrumado.

Ouvir as crianças, procurar consenso entre os envolvidos, simplificar os processos, eis os princípios que o juiz Joaquim Manuel Silva já aplica no Tribunal da Comarca de Lisboa Oeste e que estão vertidos no novo Regime Geral do Processo Tutelar Cível, aprovada na generalidade pela Assembleia da República, agora na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

A mudança foi sugerida pela comissão criada para debater a revisão da Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo, presidida pelo procurador Maia Neto. Ao ouvir personalidades e entidades com responsabilidades em matéria de infância e juventude, também se debruçou sobre a lei tutelar civil.

A proposta mantém o fundamental da “organização tutelar de menores”. Inova ao mandar simplificar e reduzir a instrução escrita e potenciar e valorizar o depoimento oral – não só dos pais e de outras pessoas que sejam referência afectiva para as crianças, mas também de quem faz assessoria técnica aos tribunais – em especial nos processos de exercício de responsabilidades parentais.

Neste momento, não havendo acordo, o comum é os juízes pedirem um relatório sobre o pai e um relatório sobre a mãe às equipas de assessoria aos tribunais, que trabalham para o Instituto de Segurança Social (menos em Lisboa, onde a Santa Casa da Misericórdia assume esse papel). E isso gera atrasos nos processos de responsabilidades parentais que já rondam uma média de dois anos.

Concluiu a comissão que o recurso ao relatório é mais demorado e menos pacificador. Pode até funcionar como gasolina numa fogueira. Joaquim Manuel Silva dá o exemplo de uma avó que entregou o relatório à neta, recomendando-lhe que visse bem o que a mãe e a outra avó “andavam a dizer”.

Não basta decidir. De pouco serve decidir se o conflito persiste: os incumprimentos tendem a suceder-se à decisão. Há um que não paga a pensão de alimentos, há outro que não entrega as crianças na hora certa e no sítio combinado. A zanga alastra-se aos filhos. “Os efeitos são dramáticos”, observa Joaquim Manuel Silva.

Fazer a mudança do paradigma escrito para o paradigma oral implica assumir a resolução do conflito como tarefa do tribunal. Se o juiz não conseguir resolver a discórdia, conversando com a criança e com os pais, deve encaminhá-los para uma audiência técnica especializada: um técnico vai ouvi-los, ajudá-los a ultrapassar as divergências, pôr os pais focados no interesse dos filhos.

O caso não pode ficar parado numa fila interminável. Tem de se fazer logo uma sessão, duas, três, quatro. Dentro de dois meses, comparecem todos perante o juiz. Ele não tem de pedir um relatório. Pode perguntar o que entender, aproveitar os elementos que lhe parecerem relevantes, ditá-los para a acta.

Uma ordem de preferência
O diploma não acaba com os relatórios e os julgamentos. Põe uma ordem de preferência de diligências. Dita que só se recorre à mais complexa quando a mais simples não resulta. Primeiro, conferência de pais, depois audiência técnica especializada, depois mediação familiar. Se nada funcionar, julgamento.

Quando o juiz Joaquim Manuel Silva chegou ao Tribunal da Comarca de Lisboa Oeste, em Setembro de 2009, tinha 1209 processos pendentes. Em Maio deste ano, tinha 392.  Ao longo destes anos, só levou a julgamento três processos de regulação ou alteração de responsabilidades parentais. Em todos os outros, sozinho ou com assessoria técnica, encontrou consenso.

Talvez o seu percurso profissional o tenha feito apostar nesta via. Antes de estudar direito, estudou filosofia e trabalhou em recursos humanos e gestão de conflitos. Na conferência de pais, tenta perceber qual é o motivo do conflito, desmontá-lo, explicar que efeito tem no desenvolvimento da criança. E nota que, ao perceber o dano psicológico, “a maior parte dos pais muda”.

Há quem lhe chame radical. Ouve as crianças todas a partir dos quatro anos. Não lhes pergunta se querem viver com o pai ou com a mãe. Procura perceber que relação elas têm com o pai ou com a mãe ou com outras figuras que para elas sejam de referência. Às vezes, nem lhes pergunta nada. Uma vez, uma mãe disse-lhe que o filho não tinha ligação ao pai. O juiz mandou-o entrar. E ela, que não tinha mais de dois anos, foi directa ao pai. “Tinha saudades.”

A proposta legislativa refere que todas as crianças têm direito de serem ouvidas e que tem de haver condições para isso. Não se deverá sujeitá-las a “espaço ou ambiente intimidatório, hostil ou inadequado à sua idade, maturidade e características pessoais”. O melhor mesmo é os magistrados não usem traje profissional.

Se for para a frente, este novo Regime Geral do Processo Tutelar Cível vai obrigar a mais do que uma mudança de mentalidade. Agora, as equipas que a Segurança Social tem a assessorar os tribunais trabalham em instalações suas e estão divididos em três partes: uma dedicada às medidas de promoção e protecção de crianças e jovens em situação de acolhimento, outra às medidas de promoção e protecção de crianças e jovens que permanecem em meio natural de vida, outra aos tutelares cíveis. O diploma dita que cada processo tenha um titular, que os técnicos estejam dentro dos tribunais e que os magistrados façam um uso mais escrupuloso do seu tempo: primeiros a serem ouvidos, primeiros a serem dispensados, se for mais conveniente a sós, longe dos pais.

 

Ana Cristina Pereira, jornal Público, 5 de julho de 2015

Escolas aprendem a identificar sinais de violência doméstica

Julho 17, 2015 às 5:19 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 11 de julho de 2015.

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Comissão Europeia repreende Portugal por causa de agressores sexuais de crianças

Julho 17, 2015 às 2:01 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 16 de julho de 2015.

Público

É mais uma descompostura. A Comissão Europeia instou Portugal, Espanha, Itália, Malta, Grécia e Roménia a explicarem-lhe que medidas já adaptaram para assegurar a aplicação prática da directiva relativa à luta contra pornografia infantil, abuso e exploração sexual de crianças. Desta vez, Portugal tem resposta.

A referência está no pacote mensal de decisões relativas a processos por infracção divulgado esta quinta-feira. Alguns países tomaram medidas – para aplicar a Directiva 2011/93/EU, que institui um nível mínimo de sanções e inibe condenados por crimes daquela natureza de exercerem actividades que impliquem contactos regulares com crianças –, mas não notificaram a Comissão Europeia.

A directiva deveria ter sido transposta até 18 de Dezembro de 2013. Em Janeiro do ano passado, a Comissão Europeia enviou cartas de notificação à Grécia, à Espanha, à Itália, a Malta, a Portugal e à Roménia, os seis países que ainda não a tinham notificado sobre os passos que tinham dados para garantir a conformidade entre a legislação nacional e a legislação europeia.

A Comissão decidiu agora enviar pareceres. Quer isto dizer que, a partir deste momento, os seis Estados em falta dispõem apenas de dois meses para notificarem a Comissão Europeia do que fizeram. Se não, a Comissão poderá instaurar um processo no Tribunal de Justiça Europeu contra cada um deles.

A directiva ainda não foi transposta, mas as mudanças estão no pacote do polémico registo de condenados por crimes sexuais contra menores. Questionado pelo PÚBLICO, elucidou o gabinete da Ministério da Justiça: “Cumpre esclarecer que Portugal vai agora informar a Comissão Europeia que já foi aprovado em votação final global, na Assembleia da República, no passado dia 3 de Julho, a lei que procede à transposição da directiva 2011/93/UE relativa à luta contra o abuso sexual, a exploração sexual de crianças e a pornografia infantil (PPL 305/XII/4ª), o que dá cumprimento à obrigação em causa”.

Desde 2009, a lei determinava que se exigisse registo criminal a quem se canduidatasse a trabalhar com crianças. A entidade empregadora tinha de ponderar essa informação ao aferir a idoneidade do candidato. Agora, passa a ser proibido contratar condenados por crimes sexuais para exercer actividade pública ou privada, remunerada ou voluntaria, que implique contactos directos regulares com crianças, por um período de cinco a 20 anos.

De acordo com a mesma lei, os condenados por crimes desta natureza também não poderiam assumir a confiança de uma criança, isto é, adoptar, ter a tutela, fazer acolhimento familiar ou apadrinhamento civil. E, se os crimes em questão tiverem sido praticados contra os próprios filhos, como às vezes acontece, ficarão ainda inibidos de assumir responsabilidades parentais entre cinco a 20 anos.

Directiva 2011/93/UE

 

 

 

A orientação sexual só fica definida por volta dos 16 ou 17 anos

Julho 17, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Diário de Notícias a Daniel Sampaio no dia 12 de julho de 2015.

© Paulo Alexandrino Global Imagens

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A orientação sexual só fica definida por volta dos 16 ou 17 anos

 

 

“O pilar da parentalidade é as pessoas terem trabalho, remunerado de forma condigna”

Julho 17, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Estabilidade de políticas. Creches mais baratas. Acabar com a culpa, alimentada pelos pediatras portugueses, de deixar os mais pequenos numa instituição para ir trabalhar. Estas são lições simples que, diz Vanessa Cunha, Portugal, país de filhos únicos, podia copiar da França.

França traçou há muito uma meta: ajudar os pais a terem filhos. E tem mantido o rumo ao longo dos anos, independentemente dos governos. Os franceses sabem com o que contar e isso faz a diferença, diz Vanessa Cunha, investigadora no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa e membro da comissão coordenadora do Observatório das Famílias e das Políticas de Família.

Sublinhando que o “pilar da parentalidade” é o trabalho, diz que em tempos de crise, haver “estabilidade” dos apoios do Estado pode dar às pessoas “a possibilidade de continuarem os seus projectos familiares”, em vez de os adiarem para um dia mais tarde. Ou emigrarem. Já aconteceu assim nos países nórdicos, por exemplo.

Esta é a leitura de Vanessa Cunha, uma socióloga que desde 1997 estuda o lugar dos filhos nas famílias portuguesas contemporâneas e está envolvida em vários projectos de investigação sobre baixa fecundidade. Fala ao PÚBLICO no seu gabinete, no ICS, com o relatório do Inquérito à Fecundidade 2013, do Instituto Nacional de Estatística e da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em cima da mesa. “A grande diferença entre nós e a França é que temos muito mais dificuldade em fazer a transição para o segundo filho.”

Como é que uma especialista em família olha para um país como França, que tem o maior índice de fecundidade da União Europeia (1,99 filhos por mulher) e como é que o compara com Portugal (1,21)?
A França tem uma longa história de acolhimento de crianças pequenas. Há a ideia de que os indivíduos têm de ser educados pela sociedade desde pequenos e há uma política dirigida para os equipamentos colectivos. Em Portugal há ideia de que a crianças têm de ser educadas em primeiro lugar pela família. Apesar de haver uma grande procura de creches e infantários [para crianças até aos 3 anos] por parte das famílias, há, ao mesmo tempo, a sensação de que as crianças estariam melhor em contexto familiar, só que isso não é possível por causa dos constrangimentos do mercado de trabalho, neste caso da mães… e as creches são vistas como uma segunda escolha.

Há um peso na consciência em deixar as crianças…
Sim. Por isso, há na sociedade portuguesa muitas estratégias para adiar essa entrada no equipamento colectivo. Desde as grandes ginásticas quotidianas entre pais e mães — pais que fazem desfasamento de horários de trabalho, com jornadas contínuas, um e outro, para conseguirem assegurar os cuidados aos filhos até mais tarde; recurso a outros familiares, que também pode estar a trabalhar, e que também se ajustam; avós que se reformam… Há um grande protagonista dessa imagem negativa dos infantários e das creches que são os pediatras. Eles são em Portugal altamente avessos à ideia de pôr uma criança na creche.

Mas em França acha-se que a socialização faz bem, é importante… descomplica-se.
Sim, em França é visto como algo positivo. Aqui só se acha positivo a partir dos 3 anos, é como se até lá fosse mais prejudicial do que benéfico. Diz-se: os infantários são infantários, a crianças estão sempre doentes, precisam de um colo personalizado… e isto cria nos pais uma angústia. É uma diferença cultural.

Por causa disso, as pessoas podem inibir-se de ter filhos?
Acho que não. Muitas vezes as pessoas só são confrontadas com isto quando já estão na primeira consulta com o bebé nos braços. E o pediatra começa a mostrar-lhes o lado negativo do infantário. Por isso, não inibe a vinda de um primeiro filho, mas condiciona muito a vinda de um segundo. Para além de que aí as pessoas já se aperceberam das dificuldades de conciliação e também de todos os custos que acarreta pôr uma criança num equipamento colectivo, principalmente nestas faixas etárias baixas onde há pouca oferta pública. É uma grande fatia do orçamento familiar que se vai com estes custos.

O que mais explica a nossa baixa fecundidade não tem tanto a ver com a vinda do primeiro filho, mas com a vinda do segundo.

Os casais portugueses têm filhos, mas só têm um, é isso?  E em França a média é dois.
Ou três. A grande diferença entre nós e a França é que temos muito mais dificuldade em fazer a transição para o segundo filho.

Qual é o peso das mães de filho único?
Há um indicador que nos dá a descendência final das gerações. Uma geração chega ao final da sua vida reprodutiva e vamos ver quantos filhos é que as mulheres dessa geração tiveram até chegarem ao final da vida reprodutiva (que vai até aos 49 anos). Na sociedade portuguesa, apenas 5% das mulheres nascidas no início dos anos 1960 não tiveram filhos. E este é o valor mais baixo em termos europeus. Nos países com fecundidade elevada, a percentagem de mulheres sem filhos é maior. Em Itália um quarto das mulheres nascidas nos anos 60 não tiveram filhos. Em França, 10,3%.

Ao mesmo tempo, somos dos países com valores mais elevados de filhos únicos: 31,9% das mulheres só tiveram um filho [18% em França]. Nos países com fecundidade elevada, esta é feita à custa dos segundos e terceiros nascimentos.

Já há dados para a geração nascida nos anos 70?
A previsão em Portugal é que haja um aumento do peso do childness [não ter filhos]. À volta de 9%. Há, de facto, um adiamento fortíssimo do nascimento do primeiro filho que pode pôr em causa a possibilidade de se ser mãe ou pai quando se chega aos 40 anos e ainda não se conseguiu ter o primeiro.

Chegámos assim à nossa baixíssima fecundidade. Que, de algum modo, está em contra-ciclo com o que se passou no resto da Europa — tirando os países que também atravessaram esta crise económica, como a Itália e a Espanha, e cuja fecundidade voltou a baixar ligeiramente nos últimos anos. Mas no nosso caso ela nunca parou de descer. Estamos em queda desde os anos 70.

Em França chegou-se aos anos 20 do século passado a proibir a contracepção porque se achava que o país estava em risco de desaparecer com tão poucos bebés que nasciam na altura…
Exactamente e depois tiveram uma recuperação fantástica. E nós estamos aí. Estamos com níveis de fecundidade hoje que, dificilmente, mesmo que agora todos os casais começassem a ter imensos filhos, não conseguiríamos recuperar, porque há muito poucas pessoas em idade de ter filhos. Portanto, a não ser através de movimentos migratórios, a tendência para a nossa população é para declinar.

Nos anos 2000, quando os outros países estavam em recuperação, nós continuámos numa escalada descendente, houve ali num momento, um aumento ligeiro, que pensamos que era o momento de viragem. Mas era uma conjuntura…

Não foi nenhuma política que o país tivesse adoptado?
Não. Foi uma conjuntura demográfica, imigrantes que tinham chegado nos anos 90 e engrossado a população em idade de ter filhos; a chegada à idade de ter filhos da população nascida no 25 de Abril — uma população que era ela mesma mais empolada porque tínhamos tido um pico de nascimentos no 25 de Abril… Quando essa população começou a deixar de ter filhos e começou a haver menos fluxo da população [estrangeira], a nossa fecundidade caiu e quando chegámos à crise foi um literal trambolhão…

Quem é que tem mais filhos em Portugal?
As franjas mais excluídas da população e as classes média altas. Nas classes médias altas acontece algo que a socióloga francesa Martine Segalen observou nos anos 80, em França, precisamente: o factor de distinção social associado ao terceiro filho. Ter uma família numerosa, pode ser visto em determinados meios, como uma evidência de estatuto. Quer-se ter uma família numerosa e pode-se ter. Em Portugal vemos hoje essa lógica: estas famílias têm filhos mais tarde mas mais próximos uns dos outros, todos de seguida, para concretizar o seu projecto de família. É um padrão de fecundidade diferente da maioria da população que aumentou os intervalos entre os nascimentos (as pessoas empurram a decisão do segundo filho para quando o primeiro já está numa solução mais económica do que a creche).

Qual é o peso da imigração na natalidade?
Não fosse essa população e era ainda mais baixa.

O que é que a França fez nas últimas décadas? Que medidas destacaria que possam explicar a evolução que teve? A socióloga Jeanne Fagnani diz que não é a imigração que explica o sucesso deles.
O mais importante do caso francês é a estabilidade das políticas. Ou seja, eles fizeram uma aposta que se manteve estável no tempo e isso cria confiança nas pessoas. As pessoas quando têm filhos sabem que contam com aquele quadro de políticas de família, de conciliação, e portanto tomam decisões tendo em conta esse contexto. É algo que nós não temos em Portugal, que é saber que tomamos hoje uma decisão a prazo, e que pensando nos primeiros anos de vida das crianças há qualquer coisa que se vai manter. Nós não temos esse nesse nível de confiança nos apoios às famílias, pelo contrário, nos últimos anos entrámos num processo de descrédito. Houve avanços e o recuos e…

Em 2009, por exemplo, o Governo anunciou que disponibilizaria mais de 20 milhões de euros por ano no chamado cheque-bebé mas essa medida nunca avançou… é deste tipo de coisas?
Por exemplo. Dizia-se que ninguém ia ter filhos por causa daquilo. São medidas pontuais, não são políticas natalistas propriamente ditas, mas são medidas de bem-estar para as pessoas que decidem ter filhos, que é o que fazem algumas câmaras que têm as suas próprias medidas que passam por esse apoio económico mais pontual. São sinais de reconhecimento da importância da parentalidade, do custo económico da parentalidade, são sinais positivos…

Depois, em 2010, as famílias do 4.º e do 5.º escalão de rendimentos deixaram de receber abono de família…
Isso foi… O abono é um apoio estrutural, dirigido à criança, e na minha perspectiva isso foi uma das grandes machadadas no bem-estar das famílias e na confiança das famílias nas políticas de família. Este gráfico é elucidativo [apresenta um gráfico que mostra como entre 2010 e 2013 há uma quebra de mais de meio milhão de crianças abrangidas].

Nós tivemos um processo de fortalecimento das políticas da família, de enriquecimento dessas políticas, foram-se acrescentando medidas que se percebia serem importantes para as famílias com filhos, caso do investimento na rede pública do pré-escolar, que foi importantíssimo, ou das licenças para os pais… depois… Fizemos um estudo e verificámos que as crianças elas próprias ficaram incrédulas com o que se passou com o abono de família.

Cortou-se o abono. Mas isso leva as pessoas a terem menos filhos?
O pilar da parentalidade é as pessoas terem trabalho, remunerado de forma condigna e com alguma perspectiva de estabilidade. É o factor central na decisão de ter filhos. Uma sociedade que está a ser marcada por desemprego de longa duração, sem fim à vista, onde ficar desempregado é quase uma sentença de desemprego de longa duração… Uma população penalizada assim que perde também a almofada que é o Estado Social, e foi o que aconteceu, é duplamente penalizada. E fica duplamente sobrecarregada com os custo de ter um filho. Não é o abono especificamente, é o contexto em que aconteceu e como aconteceu que levou as pessoas a esperar por melhores dias para ter filhos. Ou a emigrar.

A França tem uma série de subsídios monetários de apoio à família: licenças que permitem ao pai ou à mãe ficar em casa com um apoio que compensa minimamente a redução de trabalho ou a cessão total de actividade; o abono; o subsídio para pagar amas; o subsídio para as primeira despesas com o nascimento; o complemento para as famílias mais pobres, um sem número de apoios… estas almofadas financeiras podem contrariar o impacto de uma crise económica na natalidade?
Podem e nos países nórdicos aconteceu. Em contexto de crise económica — que a tiveram também — a política foi manter o apoio social existente. E isto deu às pessoas a possibilidade de continuarem os seus projectos familiares.

De facto, mais do que se calhar a política A, B ou C da França, essa construção de um conjunto variado de apoios que a França desenvolveu, em que para umas famílias vão ser mais importantes os apoios económicos directos, para outras o facto de haver creches e para outras é outra coisa… o importante é essa construção, essa permanência… manter-se o quadro.

Em França há uma percentagem grande de mulheres em part-time, 30%. O actual Governo português prometeu um programa de apoio ao trabalho a tempo parcial de pais e mães de crianças pequenas até Julho deste ano, com verbas para compensar as perdas de rendimentos das pessoas que optem por essa via. Um país que quer ter bebés tem de promover o part-time?
Não. O part-time, independentemente da bondade da medida, é altamente penalizador das mulheres. Quem quiser e puder, fantástico. Mas o part-time não é promotor de natalidade. Na sociedade portuguesa vai ser usado por determinadas franjas, que já são as mais favorecidas. O part-time em Portugal, do ponto de vista económico para as famílias, não é nada favorável…

Por isso é que o Governo admite dar uma compensação aos pais.
Mesmo que fosse exactamente assim, e que as empresas estivessem dispostas… quando perguntamos às mulheres em que moldes querem elas trabalhar elas respondem: a tempo inteiro. O part-time tem efeitos perversos: os homens não vão conseguir negociá-lo com os seus empregadores. Acha-se que os homens têm estar lá a dar o litro e não têm que ter outras responsabilidades que não sejam profissionais. E há uma certa condescendência em relação à mulheres para assegurar a conciliação. É uma medida desenhada para as mulheres. Por outro lado, em termos da vida do casal vai criar maiores desigualdades.

A mulher fica em casa por isso espera-se que faça tudo e o homem menos…
E se a mulher está em casa, o homem não precisa de conciliar. Naquele dia era o dia dele sair do trabalho às 17h para ir buscar as crianças à escola? Como ela está em casa deixa de ser.

Se as mulheres ficassem em casa tinham mais filhos?
O emprego feminino é um aliado da natalidade. A falta de emprego, ou os constrangimentos do emprego, é que são inimigos da natalidade.

Que recomendações daria ao próximo ministro com a pasta da família em Portugal? Que prioridades?
Políticas de emprego. Emprego com rendimentos condignos. Emprego que as pessoas sintam alguma estabilidade na sua vida profissional. Possibilidade de as pessoas conciliarem a sua vida privada com a sua vida profissional, nomeadamente alargando os equipamentos sociais de apoio à pequena infância, a custos que possam ser suportados pelas família. Reduzir os custos que esses serviços têm para as famílias. E, por outro lado, haver uma política de igualdade a nível familiar e laboral. As mulheres têm tanto direito ao trabalho como os homens. E a terem uma vida profissional. E os homens têm tanto direito como as mulheres a terem acesso aos cuidados aos filhos e a medidas de conciliação entre trabalho e família. É importante haver uma regulação do mercado de trabalho, porque o que nós ouvimos nas entrevistas é isto: muitos homens gostavam de estar mais presentes, de ir à reunião dos pais na escola do filho, ou de levar o filho ao médico, mas no trabalho perguntam: ‘Ouça lá, não há uma mulher que faça isso?’

Mas essa mentalidade não se muda com uma medida do Estado…
Tem de haver uma mensagem. E medidas, como as licenças parentais que mudaram em Portugal em 2009, com o mês extra para os pais-homens, e que foram muito importantes. Foi uma mudança inspirada no modelo nórdico, onde o emprego feminino a tempo inteiro é elevado, tal como em Portugal (e mais do que em França) e as políticas de conciliação são mais plurifacetadas, com uma combinação entre equipamentos para as crianças e a salvaguarda da igualdade de género, com o direito das mulheres ao acesso ao trabalho e o direito dos homens aos cuidados aos filhos, através do sistema de licenças para os pais homens. O modelo francês falha na promoção da igualdade de género.

Andreia Sanches para o jornal Público

Dicas sobre a comunicação em família

Julho 17, 2015 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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