Algumas dicas para festas e festivais de verão do SICAD

Julho 15, 2015 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://www.sicad.pt/PT/Paginas/Campanha-SICAD.aspx

https://www.facebook.com/SICADPortugal

Publica fotos dos seus filhos nas redes sociais? Talvez não devesse

Julho 15, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Observador de 12 de julho de 2015.

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Seja por orgulho ou para quebrar distâncias físicas, há quem publique conteúdos familiares com regularidade. Mas é este um ato verdadeiramente seguro e que respeita a privacidade das crianças?

Ana Cristina Marques

Os meninos a brincar na areia, de cabelo molhado, acabados de sair da água, ou a subir às arvores, sorridentes e armados em exploradores… “Quando comecei a publicar fotografias deles [no Facebook], a única coisa que fiz foi escolher os meus amigos. E eliminei aquelas pessoas com quem, por uma razão ou outra, já não falava muito”, diz Vanessa Ribeiro, mãe de dois meninos, ao Observador. Desde cedo que Vanessa se habituou a partilhar nas redes sociais imagens do par de rapazes que tem em casa. Houve até uma altura em que publicava conteúdos familiares todos os dias. Hoje, fá-lo uma a duas vezes por semana e o registo é sempre o mesmo — os meninos a brincar.

Emídio Ferreira pensa de maneira ligeiramente diferente. Nascido e criado na Madeira, trocou a ilha pela capital há 11 anos e por cá resolveu educar a filha de cinco. A distância entre a menina e os avós paternos é tão grande que, volta e meia, Emídio não resiste em publicar uma ou outra foto. “Não gosto de o fazer, mas como a minha família está na Madeira e eu e a minha filha em Lisboa, às vezes publico uma fotografia”. Massagista de profissão, diz que a falta de gozo em divulgar as imagens da pequena prende-se, sobretudo, com questões de segurança — “Tenho medo que lhe façam mal e que as fotos sirvam para a identificar”.

Fotografias dos filhos nas redes: é ou não perigoso?

Vanessa Ribeiro diz que a sua única preocupação, quando publica uma imagem, é não colocar a respetiva localização. Porque não lhe agrada que as pessoas saibam onde anda e onde costuma levar as crianças. “Quando publico tenho o cuidado de cortar partes das fotos para serem só eles a aparecer e, se for na rua, tenho o cuidado de não publicar nomes ou placas”, esclarece.

Seja uma fotografia ou um vídeo, qualquer conteúdo tornado acessível a olhos alheios na internet pode ser descontextualizado. Quem o diz é Tito de Morais, o fundador do site Miúdos Seguros na Net. Tito garante que, na maior parte dos casos, os pais não têm noção dos riscos em que colocam os filhos — “Posso remover uma fotografia da minha conta, mas ela já pode ter sido copiada e colocada noutros locais, em contas que não controlo”. E dá o exemplo de redes de pornografia ou de sites de leilões. 

“Nós nunca conseguimos eliminar o risco, mas podemos reduzir a sua probabilidade”, defende. “É natural um pai ou uma mãe gostarem de partilhar fotos do filho que nasceu há pouco tempo, mas se eu o fizer de uma forma pública no Facebook, a probabilidade de essa imagem ser usada de maneira incorreta é maior”, esclarece. Por esse motivo, relembra que tais perigos podem ser minimizados com simples medidas, como divulgar o conteúdo em causa para uma lista de amigos ou em grupos secretos.

A Tito de Morais o que mais lhe preocupa é a ideia de que, na maior parte das vezes, as pessoas só comecem a questionar os perigos associados às redes sociais quando algo corre mal. “A segurança e a privacidade vêm sempre em segundo plano. É a velha história, ‘Casa arrombada, trancas à porta’”.

terra verde

hubs.ly/y0RfGz0 

Já Simão Melo de Sousa, professor auxiliar de informática na Universidade da Beira Interior, explica que existe uma falsa ideia de privacidade, uma vez que, em absoluto, nada é privado nas redes sociais. “A partir do momento em que se publica uma informação, essa pessoa tem de assumir que todos a podem ver”, diz, falando na possível perda de controlo sobre a informação publicada e sobre o analfabetismo tecnológico, o qual pode levar a comportamentos potencialmente perigosos, até porque o “próprio utilizador é a fonte privilegiada de informação”.

Simão Melo de Sousa questiona-se sobre quem conhece, na íntegra, as regras de publicação/privacidade das redes sociais e diz que o utilizador não tem, na maior parte das vezes, ideia do que acontece “por trás” do ato da publicação — quando uma pessoa publica um conteúdo pode estar, também, a publicar informação que à partida não era intencional (como a data, a hora e o local de uma dada imagem). Argumenta ainda que cada rede social tem as suas regras, tais como os muitos softwares que instalamos e que raramente lemos.

“A informação publicada nunca mais se perde. É muito difícil apagar conteúdos na rede internet”, confirma o professor auxiliar. “Os conteúdos são copiados/duplicados, ficam em cache (dos browsers, por exemplo), são indexados pelos motores de pesquisa.” Assim, “tudo o que é publicado é imutável e público, pelo que a probabilidade de essa informação ser usada contra quem a divulgou não é tão remota como, à partida, pode parecer. Esta é a reflexão que todos deveriam ter quando publicam informação nas redes sociais”, acrescenta.

Esta não é apenas uma questão de segurança

A ideia da pegada digital também é importante, acrescenta Tito de Morais: “As pessoas não têm noção que ao publicar fotos de um filho desde que ele é bebé que estão a definir a sua pegada digital. Quando o miúdo tiver 13 anos, ele não vai gostar de ver imagens suas a fazer cocó no pote, e pode mesmo vir a ser gozado pelos colegas. Os jovens adolescentes são muito ciosos da sua aparência”. Tito de Morais coloca, então, em cima da mesa o conceito de cyberbullying.

Já a psicóloga Inês Afonso Marques diz, desde logo, que há duas linhas de pensamento muito importantes: a questão da segurança e dos perigos que existem quando se partilham determinados tipos de conteúdos e o facto dos filhos fotografados não terem direito à privacidade nem poder de decisão. “Chegamos à adolescência e vemos o que os nossos pais partilharam. Podem ser situações ridículas que, na altura, ninguém lhes perguntou se podiam ou não publicar”.

Inês Afonso Marques revela que ao consultório já chegaram casos de quem foi gozado porque o pai, em tempos, publicou fotografias suas menos próprias (pelo menos aos olhos de um adolescente). Mas, para a psicóloga, estas não são situações que possam integrar o leque do cyberbullying: “Não será bullying na verdadeira aceção da palavra por ser um ato isolado. O cyberbullying é quando usamos as novas tecnologias de forma repetida e intencional para ameaçar ou ridicularizar a outra pessoa”. A psicóloga afirma ainda que existe uma fronteira muito ténue entre aquilo que é aceitável e o que é perigoso, e que os pais devem, acima de tudo, pensar se estão a respeitar o direito à privacidade dos seus filhos e se vão ou não criar situações futuramente embaraçosas para eles.

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http://ow.ly/Oikwe 

A propósito disso, Vanessa Ribeiro, mãe de dois, comenta que nunca ponderou sobre a eventualidade de os filhos sofrerem, no futuro, de bullying — ao Observador, diz que considera isso uma preocupação de maior, pelo que admite apagar as fotografias do último carnaval, quando mascarou um dos filhos de menina. E quanto aos restantes perigos indicados? “Este não é um tema sobre o qual tenha lido muito. Acho que se alguém lhes quiser fazer alguma coisa, não importa se ponho fotos ou não”.

Ainda por falar em pegada digital, Tito de Morais conta que há pais que criam páginas de Facebook para os filhos. “Por questões jurídicas, o Facebook só permite a adesão de crianças com idade igual ou superior a 13 anos”, esclarece. Mas, hoje em dia, o Facebook é tema de conversa entre família e amigos, motivo pelo qual as crianças com menos de 13 anos sentem-se excluídas, o que faz com que, mais cedo ou mais tarde, os pais sejam confrontados com uma problemática: ou mentem e ajudam os filhos a mentir, ao criar um perfil para eles, ou são rígidos e dizem que não, correndo o risco de os filhos criarem a conta à revelia.

“É uma decisão que cada pai tem de tomar. Ambas as situações são aceitáveis”, diz Tito de Morais, não sem antes deixar ficar o aviso de que, caso o Facebook descubra que um perfil é falso, o mais provável é este ser eliminado. No meio disto tudo, argumenta ainda que não considera que esta seja uma boa rede social para crianças com oito ou nove anos, uma vez que não tem ferramentas de controlo parental. Um exemplo? “Não consigo subordinar a conta do meu filho à minha.”

“Efetivamente, vejo crianças cada vez mais novas com o seu perfil criado. Mais uma vez perguntamos qual é o objetivo. Qual é o partido que a criança vai tirar e será que ela vai ser responsabilizada por gerir a sua própria página? Saberá ela o que é permitido e seguro?”, questiona Inês Afonso Marques.

Mas porque é que os pais publicam fotografias dos filhos?

São muitos os motivos que levam os pais a partilhar conteúdos relacionados com os filhos. Desde a partilha genuína da felicidade, a qual gera feedback do outro lado, ao colocar de dúvidas sobre a parentalidade. E há quem o faça — à semelhança do que acontece com Emídio Ferreira, que tem os avós da filha para lá do oceano Atlântico — para quebrar barreiras e distâncias físicas. E não é esse um dos pontos positivos das redes sociais?

A ideia de usar as redes em questão para tirar dúvidas ou pedir opiniões sobre os desafios de parentalidade pode significar inseguranças da parte dos pais e, nesse sentido, a opinião do outro pode ser valiosa, esclarece a psicóloga Inês Afonso Marques. No entanto, há situações em que existe uma certa vaidade em “mostrar este documentar público do crescimento de um filho; o que está por detrás nunca deixa de ser o orgulho, mas é preciso existir um equilíbrio”. A psicóloga convida, então, os pais a analisar o motivo porque o fazem: se é uma questão de aceitação por parte dos outros, se é um ato egoísta, se têm dúvidas e receios e se estão a preservar a segurança dos filhos.

Guia para utilizar o Facebook com mais segurança

É o professor académico Simão Melo de Sousa quem define as regras:

  • Não aceite qualquer amizade e, uma vez aceitando amizades virtuais vastas, estabeleça grupos, tal como acontece com os “círculos” do Google Plus. Isso permite publicar informação tendo em conta determinados grupos;
  • Pense antes de publicar. Não se exponha desnecessariamente. Questiona-se “isto pode ser usado ao meu desfavor”? — em caso de dúvida, não publique;
  • Nas definições do seu perfil, reflita sobre a informação que coloca. Não é por ter campos por preencher que tem de os preencher todos;
  • Não se esqueça que qualquer dado colocado no Facebook pode ser usado pelo Facebook e terças partes associadas;
  • Em qualquer informação introduzida, ou publicação, tenha em atenção na opção edit. Esta permite escolher a visibilidade para a informação introduzida.

Nota: O artigo foi atualizado às 13h14 com a definição de cyberbullying. 

 

Oficinas de Verão na Casa Fernando Pessoa

Julho 15, 2015 às 10:28 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2256&tx_ttnews[tt_news]=7836&tx_ttnews[backPid]=2254&cHash=3c1e8e26d9

Eles trocaram a rua pelo desporto

Julho 15, 2015 às 10:24 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Público de 12 de julho de 2015.

Nuno Ferreira Santos

Alexandra Couto (Texto) e Nuno Ferreira Santos (Fotografia)

Quando foi criado, o “Desperta no Desporto” tinha apenas miúdos como protagonistas e uma ambição: substituir comportamentos de risco por valores desportivos. Mas os anos passaram e essas crianças fizeram-se atletas de elite. Acumulam medalhas e vitórias, gerem dores de crescimento, criam expectativa

Foi esse o instinto inicial de Elsa Mendes quando, aos 13 anos, assistiu pela primeira vez a um treino de judo. Corria então o ano de 2010, a jovem de origem guineense tinha sido convidada por “uns senhores do Governo Civil” para conhecer a modalidade juntamente com outros miúdos de bairros problemáticos do concelho de Loures e aquilo que descobriu na sala de treinos do Sporting foi um desporto que, além de lhe parecer violento, tinha a desvantagem de acrescentar ainda mais azáfama ao seu já precoce quotidiano de adulta. Se acedesse a tornar-se atleta do clube, teria de lidar com treinos em horários incompatíveis com os transportes públicos entre a sua casa no Prior Velho e o Estádio de Alvalade, teria de dedicar-se a uma preparação desportiva que lhe retiraria ainda mais horas aos estudos e aos ensaios de contrabaixo, teria de suportar esforços que a deixariam ainda mais cansada para uma lida doméstica já de si pesada, em que cozinhar para as nove pessoas da família era apenas uma das suas muitas tarefas diárias.

Se Elsa superou aquele choque inicial e se foi fazendo judoca, chegando a atleta de alta competição, ganhando medalhas e qualificando-se para o Campeonato Europeu de Juniores que se disputa na Polónia nos próximos dias 18 e 19 de Julho, o mérito é dela, inevitavelmente. Mas é também de toda uma estrutura criada de forma institucional em meados de 2010, quando o então Governo Civil de Lisboa lançou o programa de detecção de talentos “Desperta no Desporto” — e, se é certo que em 2011 esse organismo foi extinto no âmbito da reforma administrativa imposta pela troika, também é um facto que o seu projecto continuou a funcionar para além dessa data, graças à convicção pessoal do seu coordenador e de todos aqueles que com ele partilham do mesmo sentido de missão.

O diplomata que assegurou essa continuidade a título informal e voluntário é Rafael Lucas Pereira, que, numa entrevista ao PÚBLICO em 2011, explicava ao jornalista Luís Francisco: “Procurámos modalidades desportivas que, pelos seus valores e regras, possibilitassem dar formação cívica a estes miúdos.”

Agora, quatro anos depois, Rafael admite que a maioria desses jovens ficou pelo caminho, mas orgulha-se daqueles que souberam resistir — no que inclui não apenas os que se vêm afirmando como atletas destacados, mas também aqueles que, tendo feito outras opções de carreira, retiveram para si os valores da moral desportiva assimilados no programa.

“A ideia era evitar o absentismo escolar, impedir que estes jovens se associassem a formas de criminalidade, mantê-los no bom caminho”, recorda o dinamizador do “Desperta no Desporto”. “Começámos com cento e tal estudantes a lutarem por um lanche, já que a maioria não tinha sequer comida em casa, e acabámos com umas dezenas que cumpriram o objectivo e fizeram um bom percurso. O sucesso está em detectarmos o valor de alguém e depois monitorizarmos essa pessoa quase individualmente, para puxar por ela e estimulá-la. Mas a evolução tem sempre de ser individual; ninguém vai chegar ao topo se não se decidir por si mesmo a trabalhar e a fazer sacrifícios para isso.”

Tal como Elsa, Volodymyr Grikh também soube seguir essa fórmula. O jovem de origens ucranianas estudava em Camarate quando, em 2010, Rafael o convidou a experimentar o râguebi e, ao fim de vários meses e “1001 desculpas”, aquele que todos tratam por “Vlady” acabou por comparecer a um treino orientado por atletas do Benfica.

Futebolista convicto, durante um ano andou de “coração dividido” entre as duas modalidades, mas em 2011 acabaria por render-se à bola oval e ao acolhimento do CDUL — Clube Desportivo Universitário de Lisboa. Só não chegou mais cedo à titularidade na selecção portuguesa por culpa da complexa burocracia na atribuição da sua dupla nacionalidade e, enquanto essa não chegava, em 2013 viu até como certo o regresso à Ucrânia para cumprir o serviço militar obrigatório. Isso implicaria o seu ingresso automático nas forças armadas de resistência à Rússia e “Vlady” convenceu-se de que seria esse o seu destino. “Acho que tudo na nossa vida aparece no tempo certo. Não podemos fugir a isso”, defendia nessa altura, de sorriso sereno, nos seus 1,98 metros de altura.

A verdade, no entanto, é que lhe estavam reservados outros combates: foi ficando por Portugal e, logo nos primeiros jogos oficiais pela Selecção Nacional de Sub-20, dois observadores estrangeiros repararam na sua eficiência atlética, pelo que, pouco depois, fechava contrato com um clube francês. “É porque tinha de ser”, diz o luso-ucraniano, a dias da partida. “E, a arriscar, é agora.”

Gratidão, mesmo que à distância

João Pisoeiro foi um dos participantes do “Desperta no Desporto” que ficaram pelo caminho, mas apenas no que se refere aos relvados. O jovem “Pizas” perdera o pai aos 14 anos e Rafael Lucas Pereira descobriu-o pouco depois, na fase em que “estava a dar em maluquinho”, como assume o próprio estudante de Informática ao lembrar-se dos seus anteriores comportamentos de risco, como violência para com colegas, indisciplina nas aulas, suspensões escolares e reprovações sucessivas.

Em 2010, o órfão rebelde acedeu então a experimentar o râguebi, em 2011 já era um entusiasta da modalidade e agora, passados cinco anos, o prazer que dela retira continua a ser o mesmo, sem eufemismos: “O melhor de tudo é a pancadaria. Não era o gozo de agarrar na bola e tirá-la aos outros, nem o de marcar ensaios — era mesmo a porrada que se dá. Aquilo mexe-nos com a adrenalina e eu parecia masoquista — podia doer-me, mas ia lá bater outra vez. No fundo, acho que isso me ajudava a libertar a raiva.”

João reconhece que, no início, a sua resistência aos treinos no CDUL se deveu a comodismo, sobretudo devido à distância entre Fetais, onde morava, e o Estádio Universitário de Lisboa. “Os horários das camionetas eram sempre muito complicados e, se eu perdia uma, tinha de ficar 45 minutos à espera da próxima. Com os treinos três vezes por semana, chegava sempre às 23h00 a casa e depois às 07h00 já tinha de estar a pé outra vez. Com as aulas e com jogos ao sábado e domingo, não era fácil… Depois ainda havia o gozo dos meus amigos, a dizerem que eu ia para o râguebi porque gostava de me agarrar a homens”, conta, no tom jocoso de quem não se sentiu ameaçado pelas piadas.

O atleta persistiu assim devido ao incentivo da mãe, da avó e “do Rafael”, que foi bem claro logo de início: “Disse-me que, para eu andar no clube, tinha de me portar como deve ser ou não me deixavam continuar. E eu ganhei responsabilidade. Era o nome do Rafael que estava em causa e eu não o podia manchar. Não é que fosse um miúdo assim perigoso, mas, com as más companhias… Se não fosse o râguebi, ia tornar-me um bandido como os que andavam lá no bairro.”

Com os treinos e jogos a funcionarem como escape e terapia, João foi evoluindo e, a certa altura, tornou-se mesmo uma das promessas para a Selecção Nacional de Sub-20. Uma lesão no joelho impediu-o, no entanto, de ingressar na equipa nacional e, embora continuando a jogar pelos seniores, sentiu-se desmoralizado. “Fiquei um bocado em baixo porque me esforcei ao máximo”, desabafa. Foi a partir daí que se tornou “mais complicado conjugar tudo”: surgiu a namorada, “que reclama da falta de atenção”, começaram as aulas de condução, intensificaram-se as exigências do curso e desenvolveu-se a ideia de uma carreira nas Forças Armadas. Assim dividido, a meio da época 2013-2014, João abandonava o râguebi.

Mais de um ano depois, ao partilhar a sua experiência com a Revista 2, a conversa sobre o “Desperta no Desporto” deixa-o melancólico. Confessa que tem saudades da competição, que sente falta dos colegas. “Tenho algum arrependimento”, sintetiza. A sua ambição ainda é “entrar nos pára-quedistas, que também são um bocado apanhados da cabeça”, mas entretanto o apelo do jogo já bateu mais forte — alguns dias após a entrevista, João alinhava pelo Sporting e voltava a deslizar na relva em placagens maciças. Antes de retomar a “pancadaria”, já tinha dito: “Posso ter outras prioridades agora, mas vou sempre ter muito por que agradecer ao râguebi.”

Diferentes pesos e medidas

Pedro Soares é o ex-atleta olímpico que treina Elsa Mendes desde a sua iniciação no judo e sabe por experiência própria que conciliar as várias áreas da vida de um adolescente com a prática regular de desporto exige uma disciplina acima da média. “Convidaram-me para o projecto precisamente por acharem que eu tinha o perfil adequado para lidar com miúdos com problemas de comportamento e lhes impor regras, e a realidade é que, quando o programa arrancou, os piores vieram mesmo todos para cá”, avalia.

Elsa Mendes não era, no entanto, dos casos de maior risco e, apesar da sua relutância inicial, acabou por revelar potencial para a modalidade. “Era um diamante em bruto”, diz o treinador. “Ninguém sabia o que ia sair dela, mas a dedicação e o rigor fizeram com que se tornasse uma atleta de interesse nacional, com talento para vir a ser de nível internacional.”

O facto de a jovem competir na categoria de pesos-pesados terá agilizado essa evolução: facilitou que Elsa se destacasse num universo de praticantes em que não terá mais do que dez verdadeiros adversários. Daí que logo na sua estreia competitiva em 2011 se sagrasse campeã nacional de cadetes, que pouco depois já integrasse a Selecção Nacional de Judo, que em 2012 conquistasse a medalha de bronze da Taça da Europa e que em 2014 chegasse a campeã de juniores e vice-campeã de seniores. Mas como esses são apenas alguns dos títulos na sua carreira, Pedro Soares faz questão de esclarecer: “A Elsa já se assumiu como a número 1 dos pesados em Portugal.”

Os planos da judoca passam, contudo, por se tornar mais leve. A jovem defende que competir na categoria de pesados se tornou monótono e, embora não querendo revelar quanto pesa actualmente, está empenhada em perder alguns quilos até se situar no escalão mais ágil dos 70 aos 78. “Na Taça da Europa, levei com uma atleta de 150 quilos e é uma seca!”, desabafa. “É um jogo muito mais parado, em que elas só fazem força porque lhes custa mexerem-se. Por isso é que estou a fazer dieta. Era bom se eu fosse rápida e tivesse força, não era?”

“Vlady” Grikh só mudará de escalão por aspectos relacionados com a idade, mas já mudou de modalidade e, após uma análise comparativa entre os seus seis anos de bola esférica e quatro de oval, assegura: “Futebol e râguebi são completamente opostos a nível de espírito e de valores. No futebol chega-se a uma altura em que o jogador só pensa em si, em ganhar o seu e em subir na vida; no râguebi não há protagonismos individuais. É por isso que este desporto é muito melhor para preparar as pessoas para a vida.” Vantagem adicional: “Também é um bom anti-stress. Temos muita coisa guardada dentro de nós e, sem quebrar as regras de jogo, no râguebi podemos soltar melhor essa emoção.” Conciliar a prática de ambas as modalidades durante algum tempo e ainda cumprir com as exigências escolares não foi difícil. “Até foi bom para mim, porque comecei a organizar o meu dia-a-dia de maneira diferente”, diz “Vlady”. “Tive tempo para tudo o que quis e nunca senti que estivesse a perder alguma coisa. Só depende da nossa cabeça.”

Gestão do dojo, da escola e da cozinha

Para Elsa Mendes, tudo depende mais do coração. Poderia ser de outra forma, quando só tem a mãe em Portugal e ainda há tantas crianças e jovens na família com necessidades para gerir? “Em casa somos nove e desde pequenina que estou habituada a cozinhar”, conta a guineense que veio para Portugal com um ano de idade e em África ainda tem outros três meios-irmãos. Essa vida doméstica deixou-a hesitante na iniciação no judo e a jovem chegou a desaparecer dos treinos em Alvalade, até porque se sentia comprometida com a orquestra em que tocava contrabaixo e não queria falhar às actuações do grupo. Mas o bichinho da modalidade já a contaminara e ela foi-se deixando ficar graças à insistência do “mestre” Pedro Soares, às boleias facilitadoras do Rafael Lucas Pereira e à companhia cúmplice da sua amiga Wilsa Gomes — que também foi descoberta pelo programa “Desperta no Desporto”, mas entretanto emigrou com as suas medalhas para a França. À Elsa ajudou ainda “o espírito de equipa” entre os judocas do Sporting, a amizade do seu colega João Santos e o incentivo constante da atleta olímpica Joana Ramos, que em 2011 foi vice-campeã da Europa e 5.ª no ranking mundial.

Nessa transição dos acordes de contrabaixo para os golpes de judo, muitas foram então as influências que mantiveram a luso-guineense a praticar no dojo, mas, em retrospectiva, a sua análise é só uma: “Comecei a gostar do que estava a fazer. Foi uma experiência boa, o meu primeiro ano de judo. Isso incentivou-me muito, mesmo na escola, e, quando comecei a entrar em competições, aquilo deu-me pica. Depois ganhei o campeonato de cadetes e senti que tinha de defender o título. A partir daí, pensava: ‘Se ganhei num ano em que não sabia nada de judo, daqui para a frente é obrigatório fazer melhor’.” De que é que Elsa teve de prescindir nesse processo? Sobretudo de dança e manicures. “A sério! Antes, eu só pensava em quizomba e, se chegava a casa e não tinha nada para fazer, punha-me logo a dançar ou a ouvir música”, desvenda, entre risos. “Passei a ter menos tempo para as amigas, também é verdade, mas elas sempre foram mais de fazer unhas e reclamar dos namorados, portanto não se podem queixar”, brinca.

O que Elsa não consegue evitar são os protestos de alguns dos seus professores, porque, quanto mais se empenha na modalidade, mais aproveita as aulas para pôr em dia a conversa com as amigas. Já a família da judoca tornou-se mais compreensiva. “No princípio não me ajudavam muito nem facilitavam nada em casa, mas agora vêem que me estou a tornar uma boa atleta, gostaram de me ver a ganhar lá fora e dão-me força”, explica a cozinheira, num tom que parece aliviado de culpa.

Burocracia às portas da guerra

Em casa de “Vlady” Grikh não houve hesitações, pressão ou chantagem emocional. “Nunca tive daqueles pais que me proibiam tudo ou levantavam problemas”, analisa o jovem, que aos quatro anos de idade ficou a viver com os avós ucranianos e só aos nove se juntou aos pais em Portugal. “A minha educação sempre foi no sentido de eu fazer o que achava que era melhor para mim e, como sempre quis uma carreira como atleta, deu resultado. Tenho os meus objectivos e aquilo que os outros me possam dizer não me afecta muito.”

A determinação que ressai do discurso de “Vlady” é a sua genética de Leste a transparecer. Pelo lado da família materna, o seu trisavô combateu pela Rússia contra a Alemanha na I Guerra Mundial e o bisavô foi distinguido pelo Kremlim por serviços prestados à nação. “Vlady” chegou a brincar com essas medalhas em criança, “sem ter ideia do que elas significavam”. Já pelo lado do pai, o seu bisavô foi sniper na II Guerra, um tio serviu no Afeganistão e outro fez três anos de serviço militar na Rússia. “Ao meu pai só não aconteceu o mesmo porque ficou parcialmente cego quando tinha nove anos”, observa. Desde os tempos em que a Ucrânia integrava território da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, esse passado deixou-lhe assim uma herança que é simultaneamente de autodomínio e conformismo, o que explicará a forma como superou as duas grandes contrariedades que se lhe depararam no percurso recente de atleta.

A primeira foi treinar quatro anos com a Selecção Nacional — desde a de sub-16 até à de sub-20 — sem poder ser convocado para os respectivos jogos por não estar ainda naturalizado como português. “O meu maior desafio a nível psicológico foi esse”, assume. “Nunca faltei a um treino e foi nessa fase que cresci mais como jogador, mas a certa altura era muito frustrante. Tive algumas quebras de ânimo e a pior foi quando falhei o Campeonato Europeu de Sub-19 por causa de uma lesão na cápsula [articular] do pé.”

Sensivelmente pela mesma altura, “Vlady” enfrentou depois o segundo grande obstáculo aos seus planos: em Maio de 2013, atinge os 18 anos de idade e, como ainda não dispõe da cidadania portuguesa, é chamado a regressar à Ucrânia para cumprir o serviço militar obrigatório, o que conduziria inevitavelmente à sua ingressão nas tropas de resistência à Rússia.

O que se seguiu foi o que Rafael Lucas Pereira descreve como “um difícil processo burocrático” para garantir a permanência de “Vlady” em Portugal. O jogador do CDUL reunia todas as condições para aceder à cidadania, mas divergências entre diferentes entidades da tutela vinham atrasando os procedimentos e Rafael assumiu a liderança das operações: desdobrou-se em contactos com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), colaborou com o Alto-Comissariado para as Migrações, apelou aos partidos do Governo, apelou a figuras de diferentes sensibilidades políticas. “O que nos assustou mesmo foi a questão do conflito russo-ucraniano”, refere o tutor desportivo do atleta. “Pelas entidades competentes, o processo estava OK, mas faltava o registo criminal emitido na Ucrânia e toda a gente sabia que, caso o ‘Vlady’ tivesse de entrar no país [para obter o documento], nunca mais de lá saía. Era literalmente uma questão de vida ou morte.” Entretanto, se o jovem já se mostrava conformado com a ideia de ser soldado, Rafael não. Marcou reuniões para insistir no tema; repetiu diariamente os mesmos telefonemas, para as mesmas entidades. E quando todos chegaram a acordo e lhe comunicaram que o atleta preenchia finalmente todos os requisitos para ser reconhecido como português, “foi uma emoção enorme, um peso que saiu de cima de toda a gente”. Rafael pôde relaxar; o novo cidadão português sentiu-se por fim liberto para comentar: “Este conflito na Ucrânia só se deve aos interesses dos magnatas e não à vontade de resolver os problemas do povo. Sempre foi assim e sempre será.”

A ambição é nómada

Mesmo antes de se colocarem essas questões políticas, a selecção russa mostrara interesse em recrutar “Vlady”, mas a hipótese não lhe dera muito que pensar. “A Rússia tem mais hipóteses de jogar um campeonato do mundo, mas o meu coração sempre esteve ligado a Portugal”, analisa. “É um país que me fez crescer como pessoa e como jogador; daí a vontade que tenho de um dia fazer um Mundial pelo ‘Lobos’”, anuncia o atleta, em referência informal à selecção lusa de râguebi.

“Vlady” já teve, aliás, o prenúncio do que isso poderá significar na sua tão aguardada estreia com o equipamento das quinas. Em Maio jogou pela Selecção Nacional no Mundial de Sub-20 e, frente à reputada equipa das Fiji, não mostrou ansiedade: “Eu esperei tanto tempo por isso que não senti nervos. Como me divirto a jogar, acho que vivi cada segundo como se fosse o último. Quando vestimos a pele do lobo, ganhamos superpoderes, vidas extra, e, mesmo sem ganhar, sei que fiz o que podia e o que não podia.”

Após quase dez anos de vida na Ucrânia e outros tantos em Portugal, “Vlady” terá agora de aplicar essa filosofia para ultrapassar uma nova encruzilhada. Até 23 de Julho, o seu quotidiano reparte-se pelo curso de Design Gráfico na Escola Profissional Bento Jesus Caraça, pela prestação na equipa sénior do CDUL e pelos treinos como elemento efectivo da Selecção Nacional; no dia 24, tudo muda. O atleta volta a deixar o seu país, a separar-se de família e amigos. Parte para os Pirenéus Orientais, instala-se na cidade francesa de Perpignan, recomeça a aprendizagem de uma nova língua e passa a vestir a camisola do USAP — Union Sportive des Arlequins Perpignanais. “O meu único problema é gostar mesmo muito de Portugal”, desabafa. “Mas, se conseguir não pensar nisso, a realidade é que vou fazer uma coisa de que gosto, tenho contrato de um ano com hipótese de renovação e fico a jogar num campeonato muito mais competitivo. Vai custar estar lá sozinho, claro. Mas é a tal coisa: a vontade de jogar e fazer a diferença tem de ser maior do que tudo o resto.”

Adeus, princesa

Aqui mais perto, em Alvalade, passaram-se uns cinco anos desde que Elsa Mendes evitava os treinos de judo no Sporting. Hoje tem 18, treina todos os dias, compete regularmente e estabeleceu para si mesma metas desportivas concretas, definidas com discrição, mas ambiciosas: “A prioridade é qualificar-me para o Mundial de Juniores.” A judoca conquista este mês o seu cinturão negro e já se convenceu de que encontrou a opção de carreira em que terá mais hipóteses de ser bem-sucedida. “Caí aqui de pára-quedas, mas, se eu treinar bem, posso fazer vida do judo”, proclama.

Em 2011, quando ainda residia no Prior Velho, tinha dito ao PÚBLICO: “Um dia ainda hei-de viver num palácio.” Agora diz que “já não é preciso”. Sente-se bem no bairro da Quinta do Mocho e até optou por um curso bem diferente do que se esperaria de quem sonhava com mansões. Estuda Turismo na Escola Secundária António Damásio, nos Olivais, e explica: “Posso ser guia ou trabalhar num hotel, mas acho que gostava mais de seguir Restauração, para servir, ou Cozinha, porque adoro cozinhar!” Não equaciona que algum dia lhe falte energia para conciliar ambas as carreiras e considera até intensificar a desportiva, dando formação aos judocas mais pequeninos. “Eles são chatos!”, alerta. “Alguns vêm para cá com três anos, ficam cansados rápido, estão sempre ‘dói-me isto, dói-me aquilo’! Mas era giro na mesma. Eu ia gostar de os treinar.”

Enquanto isso, a atleta propõe-se equilibrar estudos, vida familiar e competição, mas o que mais tem em vista é qualificar-se para o grande evento de 2020: “Ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio era uma emoção, fogo! Acho que nem ia acreditar!” Pintar unhas continuará a não ser uma prioridade nos seus momentos de descontracção, mas o sonho que Elsa acalenta não deixa de envolver outras opções de estética: “Vou tentar conseguir uma medalha olímpica para Portugal. Quero cobrar ao mestre a promessa de que, se eu ganhasse uma, ele até fazia no braço uma tatuagem com a minha cara!”

mais fotografias no link:

http://www.publico.pt/desporto/noticia/eles-despertaram-no-desporto-1701494

 

Os pais já não terão acesso ao registo de abusadores de menores

Julho 15, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Oposição acusa maioria de “tirar o tapete à ministra da Justiça”, que apresentou a proposta. Ministério diz que nunca quis que os condenados fossem identificados pelos pais, apesar de a proposta original o permitir.

A maioria PSD/CDS eliminou a possibilidade de os pais terem acesso à lista com a identidade dos condenados por abuso sexual de menores, uma alteração de última hora. Mas os termos em que o registo nacional de abusadores de menores acabou por ser aprovado esta sexta-feira no Parlamento provocou um coro de críticas da oposição que acredita que a solução final ainda é “pior”.

A proposta agora aprovada permite às pessoas que exerçam responsabilidades parentais e tenham um “fundado receio” de que alguém abusa sexualmente de menores que peçam à polícia que averigúe os factos que sustentem esse receio, mas já não lhes possibilita o acesso à identidade ou morada dos condenados.

“A proposta não ficou melhor. [Os pais deixam de ter acesso à identidade] mas podem perguntar se há um pedófilo na sua área de residência. Ora isto não vai servir para nada, a não ser para criar uma suspeita generalizada”, criticou a deputada do PS, Isabel Oneto.

“A proposta que foi aprovada é de um absurdo total”, sustentou o deputado do PCP António Filipe, para quem o clima de suspeição acaba mesmo por ser agravado com esta alteração. “Isto conduz a uma situação de suspeição generalizada e de alarme social. Todos vão desconfiar de todos, é uma coisa sem pés nem cabeça, não sei quem teve esta ideia peregrina”, enfatizou.

Já Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda, considerou que a maioria está a deixar “cair o acesso dos pais à lista de modo encapotado”.

Porém, para o deputado do PSD Hugo Soares a oposição está a fazer muito barulho para nada. “Não mudamos nada de especial. Agora, se um cidadão tiver um fundado receio de que na sua área de residência vive alguém condenado por abuso sexual de menores, pode perguntar à polícia, que dá essa indicação, mas sem a morada nem a identidade”. Para que serve essa informação, então? “Para reforçar os cuidados de vigilância”, explicou.

No Parlamento, a deputada do PSD Teresa Leal Coelho também desvalorizou a alteração, considerando que vai “no sentido daquilo que os partidos da oposição têm vindo a defender” e está “em linha com o defendido pela ministra da Justiça na Assembleia da República”. “A ministra afirmou sempre que os pais não tinham acesso à identificação. Admitimos, porém, que a norma precisava de clarificação, pois a sua interpretação gerava confusão”, explicou, mais tarde, ao PÚBLICO.

O acesso, pelos pais, à base de dados dos condenados por abusos sexuais de menores era a questão mais polémica da proposta do Governo e foi liminarmente retirada porque a maioria percebeu que levantava “problemas constitucionais”, reconheceu o deputado do CDS Telmo Correia, citado pela Rádio Renascença.

“O deputado [Telmo Correia] fez essa afirmação porque seguiu a interpretação que podia ser feita. Foi isso que clarificamos agora. A intenção deste registo é que se faça uma polícia de proximidade. Saber que a polícia tem mais instrumentos para poder fazer um policiamento de proximidade é vantajoso. Imagine que tem uma filha pequena. Se tiver a informação de que na sua área de residência existe alguém condenado [por abuso de menores], tem especial cautela. Por exemplo, pode não a deixar ir sozinha ao café”, exemplificou Teresa Leal Coelho.

Questionado pelo PÚBLICO, o Ministério da Justiça considerou que “não foi feita uma alteração, mas uma clarificação da proposta”. E sublinhou que “a ministra da Justiça na apresentação da proposta original nunca disse que se pretendia que fosse dada a identificação dos condenados aos pais e que esse nunca foi o espírito da lei”. O que estava previsto “era apenas que os pais, que suspeitassem de alguém, pudessem ir a uma esquadra e nesse caso a polícia só lhes dizia se existem ou não abusadores sexuais de menores na área de residência para estarem atentos sem revelar identificações”, disse a tutela.

Mas, de facto, a proposta antes de ser alterada permitia que os pais tivessem acesso à identificação de abusadores, o que aliás criou grande polémica com procuradores, juízes, Conselho Superior do Ministério Público e Comissão Nacional de Protecção de Dados a denunciarem a inconstitucionalidade. A proposta previa que os pais poderiam ter acesso “à informação do registo de condenados” e que, se suspeitassem que “determinada pessoa conste do registo”, poderiam ir a uma esquadra para que lhes fosse “confirmada ou infirmada a respectiva inscrição no registo e a sua residência no concelho”.

Para os juízes, a solução desta sexta-feira foi a óbvia. “Imperou o bom senso e fez-se o que se tinha de fazer. A proposta era a abusiva e nunca passaria no Tribunal Constitucional”, referiu a presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, Maria José Costeira. A posição dos procuradores é, contudo, mais critica. “A lei é inócua, populista e demagógica. Não vai mudar nada”, apontou o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Ventinhas.

O PSD e o CDS avocaram esta alteração ao plenário, no período de votações, e começaram por não a apresentar, como é habitual nestas situações, mas o PS pediu a palavra e, através de Isabel Oneto, acusou a maioria de “estar a tirar o tapete à ministra da Justiça” com esta alteração.

Tanto a alteração como toda a iniciativa legislativa (em votação final global) foram aprovadas com os votos favoráveis do PSD e do CDS-PP e os votos contra de toda a oposição. Mas a alteração suscitou dúvidas a “uma dúzia” de deputados do PSD que, liderados por Fernando Negrão, presidente da Comissão Parlamentar dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, vão fazer uma declaração de voto. “Esta última alteração suscita-nos dúvidas que serão esclarecidas na declaração de voto ”, disse Fernando Negrão.

Desde o início que a proposta foi alvo de grande contestação, tendo a oposição avisado desde logo que ia pedir a fiscalização do diploma ao Tribunal Constitucional.

Em Março, o Conselho de Ministros aprovou a proposta de lei para a “a criação de um registo de identificação criminal de condenados por crimes contra a autodeterminação sexual e a liberdade sexual de menores”. O secretário de Estado da Justiça explicou, na altura, que, nos termos da proposta, “os pais não têm acesso à base de dados e aos registos”, mas podem dirigir-se “às autoridades policiais da sua residência habitual” e “perguntar se o nome A, B, C ou D, com fundamento em situações concretas perfeitamente identificadas, existe ou não nessa base de dados”.

 

Pedro Sales Dias e Alexandra Campos, jornal Público em 3 de julho de 2015


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