“Como se explica porque é que “o avô está esquecido e diz disparates?”

Julho 14, 2015 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Na associação Alzheimer Portugal às vezes surgiam familiares que perguntavam às técnicas: “como é que eu explico à minha filha o que é que o avô tem?”, ou “como é que eu explico ao meu neto o que é que o meu marido tem?”. “Era recorrente. Sentimos a necessidade de criar algo para as crianças”.

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“O que é que tu fazes?” O filho teria uns três anos quando lhe fez a pergunta sobre o seu trabalho e Ana Margarida Cavaleiro andou às voltas com a resposta. Como é que se explica a uma criança desta idade que se trabalha com pessoas e familiares afectados com a doença de Alzheimer, a mais frequente das demências? A pergunta fez nascer um livro infantil sobre uma manada de elefantes e um projecto que esta segunda-feira recebe o Prémio Maria José Nogueira Pinto em Responsabilidade Social.

Na associação Alzheimer Portugal às vezes surgiam familiares que perguntavam às técnicas: “como é que eu explico à minha filha o que é que o avô tem?”, ou “como é que eu explico ao meu neto o que é que o meu marido tem?”. “Era recorrente nas nossas formações a familiares. Sentimos a necessidade de criar algo dirigido às crianças”, diz a psicóloga Ana Margarida Cavaleiro, directora do Departamento de Formação e Projectos da associação.

Não é pergunta que se responde às crianças como se faz com os adultos, que o Alzheimer, é “uma doença neuro-degenerativa que origina uma deterioração progressiva e irreversível das funções cognitivas, com implicações no comportamento, personalidade e capacidade funcional da pessoa.” E que haverá cada vez mais pessoas a tê-la, à medida que a população envelhece. Existirão cerca de 182 mil pessoas com demência em Portugal, a doença de Alzheimer representa cerca de 50% a 70% de todos os casos.

Era preciso chegar até eles e o elefante Memo e a avô Kelembra foram as duas personagens do livro infantil O pequeno elefante Memo, da autoria de Paula Guimarães com ilustrações de Alexandra Rebelo Pinto, que simplificaram a história para a tornar acessível ao público infantil. O livro (que a associação vende por 10 euros) vai mostrando um neto que se apercebe que a avó está a perder a memória e capacidades, até que a própria avó acaba por dizer-lhe que será melhor ir embora, para “o lugar dos elefantes”. Acaba por ficar com a manada, com o apoio da família, muito particularmente do neto.

São estas as duas personagens que têm viajado até a várias escolas com o projecto “Memo e Kelembra nas Escolas”, dirigido a meninos dos 6 aos 12 anos do 1º e 2º ciclo. O projecto-piloto arrancou em Santarém, em 2013, e acabou por chegar até 19 escolas de 11 distritos de Portugal, com 3429 participantes, considerando-se que estas crianças serão “os futuros ‘cuidadores’ das pessoas atingidas por estas doenças”. Os 10 mil euros do prémio ajudarão aquele que era já um objectivo assumido, alargar-se a todos os distritos de Portugal nos anos 2015 e 2016. O projecto teve o apoio do Instituto Nacional para a Reabilitação.

Nas escolas, a história é teatralizada e depois chega a altura de a descontruírem, de falar às crianças do que é estar doente, de falar de avós que andam esquecidos, que se esquecem do que almoçaram, ou até dos nomes dos netos, explica a psicóloga. “Explicamos-lhes que não é por não gostarem deles que se esquecem dos seus nomes”.

Algumas crianças fazem mesmo a ponte com algo que viram acontecer na sua família, normalmente dizem-lhes algo como “o meu avô está esquecido ou diz disparates”. Fala-se “do que se passa com o meu avô/avó?”, “dos primeiros sinais?”, “do que são as demências?”, de “como lidar com as suas características?”, “enquanto neto como posso ajudar?”, “dar mimos ajuda?”.

Esta 3ª edição do prémio, que foi instituído em 2012 pelo laboratório farmacêutico Merck Sharp & Dohme (MSD), homenageando a deputada “que se distinguiu pela sua persistência na defesa da responsabilização social”, recebeu 107 candidaturas. O objectivo é  reconhecer o trabalho de pessoas, individuais ou colectivas que se tenham destacado no âmbito de acções de responsabilidade social activa, em Portugal. A cerimónia de atribuição é no Grémio Literário, em Lisboa, pelas 17 Horas. Vão também ser atribuídas quatro menções honrosas. O júri é presidido por Maria de Belém Roseira e constituído por mais seis personalidades, Anacoreta Correia, Clara Carneiro, Isabel Saraiva, Jaime Nogueira Pinto, Óscar Gaspar, em representação da MSD, e o padre Vítor Feytor Pinto.

Menções Honrosas

Mentes Brilhantes

Miranda do Corvo é um concelho sobretudo rural onde muitos alunos abandonam a escola para acompanhar os pais em actividades rurais. O projecto “Mentes Brilhantes”, da Fundação ADFP – Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional, pretende diminuir os níveis de abandono escolar e as debilidades no âmbito da educação. O projecto, que nasceu em Setembro de 2014, dá apoio a 150 alunos do concelho que frequentam o ensino pré-escolar até ao 1º ciclo. É desenvolvido por uma equipa de especialistas da educação e psicólogos que pretendem avaliar e apoiar as crianças “que revelem talentos especiais, dificuldades de aprendizagem e comportamento”. O objectivo não é diagnosticar deficiências mas sim descobrir talentos e potenciar aptidões de jovens através de cursos de estudos avançados nas áreas de Ciências, Matemática, Língua Portuguesa e História gratuitos, workshops nas escolas, conferências e campos de férias e actividades escolares durante as férias.

Escola Virtual de Língua Gestual Portuguesa

“A Escola Virtual de Língua Gestual Portuguesa é dirigida a pessoas que ouvem mas que queiram aprender linguagem gestual, “quebrando a grande barreira de comunicação existente entre pessoas surdas e pessoas ouvintes, nomeadamente os familiares de crianças e jovens que sofrem de surdez.” Funciona através de uma plataforma de ensino online que oferece formação em linguagem gestual com diferentes níveis de aprendizagem, sendo aberta a todos. Os conteúdos são de domínio básico e vão sendo gradualmente aumentados até atingirem níveis médios ou avançados. É gerida pela Associação de Surdos do Porto, tendo ficado disponível em Março de 2015. O projeto conta com 5.629 registos.

“A Música nos Hospitais”

“Através da música, introduzir momentos de ruptura na rotina dos hospitais” é esse o mote deste projecto que, desde 2006 tocou para mais de 140.000 pessoas por ano, de crianças, a idosos, familiares e profissionais de saúde. Um dos objectivos é ajudar aliviar o stress e humanizar contextos comunitários e institucionais, sobretudo hospitais, nomeadamente as áreas de pediatria e geriatria, mas também instituições de educação e de cuidados especiais, prisões e lares públicos e privados. A Associação Portuguesa de Música nos Hospitais dá formação específica a músicos para trabalharem nestes contextos, tendo actualmente uma equipa de 22 músicos.

“Casa em Ordem”

“A Casa em Ordem”, um projecto do Serviço Jesuíta aos Refugiados, surge da necessidade de integrar socialmente e profissionalmente mulheres migrantes na área dos serviços domésticos e cuidados a crianças e idosos. Criado em 2012, dá formação gratuita técnica e comportamental nas áreas de serviço doméstico, culinária, cuidados a idosos, técnicas de procura de emprego, auto-conhecimento, entre outros, através de um curso de dois meses, sendo o segundo mês um estágio. As mulheres que frequentam estes cursos encontram-se em situação vulnerável, desempregadas, com pouco conhecimento da cultura portuguesa e poucos conhecimentos para exercer a profissão pretendida.

Catarina Gomes, jornal Público, 6 de julho 2015

Crianças vítimas de tráfico precisam de melhor acolhimento

Julho 14, 2015 às 6:23 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TVI24 de 13 de junho de 2015.

Rede Europeia Anti-Pobreza quer que sejam criadas respostas de acolhimento adaptadas.

Por: Redação / PP

A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) defende que sejam criadas respostas de acolhimento adaptadas a crianças vítimas de tráfico, um dos muitos projetos do plano para combater a mendicidade forçada e o tráfico de pessoas.

O acolhimento e integração de crianças sinalizadas como vítimas de tráfico de seres humanos é uma das medidas que faz parte de um catálogo de projetos, em que são pensadas e delineadas medidas específicas não só para crianças, mas também para os ciganos romenos e outros cidadãos da União Europeia.

Neste projeto, pretende-se, por isso, melhorar a capacidade de acolhimento, assim como ajudar os técnicos dos Lares de Infância e Juventude (LIJ) a melhor conhecer o fenómeno do tráfico de pessoas, além de promover a integração das crianças vítimas de tráfico em Portugal.

O projeto propõe que seja feito um estudo sobre esta matéria e criado um guia de acolhimento e intervenção com crianças, bem como formação para os diretores e técnicos dos LIJ.

Relativamente à integração de estrangeiros em situação de mendicidade, outro dos projetos, a EAPN dá especial destaque aos ciganos romenos, sugerindo a criação de equipas de rua ou a realização de um estudo sobre as características das comunidades ciganas de leste em Portugal. Propõe também que os profissionais que trabalham nestas áreas tenham formação em língua romena, ao mesmo tempo que sugere a formação em língua portuguesa para os cidadãos estrangeiros, com especial enfoque no conhecimento das instituições nacionais, como o Sistema Nacional de Saúde, por exemplo.

Sugere igualmente uma ação de formação de mediadores ciganos de comunidades de leste.

Um terceiro projeto visa o reforço da capacidade de sinalização de situações de tráfico de seres humanos, nomeadamente para exploração da mendicidade forçada, para o qual estão pensadas atividades como organização de materiais de informação e sensibilização de profissionais de saúde ou a produção de materiais informativos adaptados a diferentes públicos.

Planeia também a produção de materiais informativos em romeno/português para distribuir junto de agências de viagens rodoviárias para a Roménia e Moldávia, com vista a sensibilizar os motoristas para possíveis situações suspeitas.

Pretende aumentar a capacidade de sinalização de presumíveis crianças vítimas, bem como criar um espaço de acolhimento especificamente pensado para menores, onde possa ser feito o contacto com os órgãos de polícia criminal, pedopsicólogos, etc.

De acordo com a EAPN falta um programa formal de apoio ao retorno ao país de origem, quando as vítimas são cidadãs da União Europeia, sugerindo, por isso, a criação de um fundo especial para a assistência ao retorno destas pessoas, ao mesmo tempo que seja construído um processo de retorno com o envolvimento das próprias vítimas.

Por último, é pensado um projeto de apoio à integração em Portugal de vítimas de tráfico de pessoas, através do conhecimento da língua e cultura portuguesas e das principais estruturas institucionais do país.

Para a EAPN é necessário que seja criada uma Estratégia Nacional de Combate à Pobreza e à Exclusão Nacional e que sejam aproveitados os 20% do Fundo Social Europeu no combate à pobreza.

Este trabalho é a fase final de um projeto promovido por uma organização não-governamental (ONG) italiana, em parceria com a EAPN, financiado pela Comissão Europeia, e que envolveu, além de Portugal, Itália, Bulgária e Roménia.

O catálogo de projetos vai ser apresentado na terça-feira, no Porto.

No tempo das reguadas

Julho 14, 2015 às 1:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Eram crianças no Estado Novo e agora são avós. Contaram aos netos como foi a sua vida na escola e fora dela. Os miúdos escutaram, registaram e fizeram um livro. Havia reguadas, mas também brincadeiras e solidariedade. Foi isso que os “jovens historiadores” escolheram transmitir.

Alunos de 14 e 15 anos entrevistaram os seus avós e ficaram a saber como era a escola primária de outros tempos. Dos 52 testemunhos, maioritariamente femininos, resultou o livro No Tempo da Escola das Nossas Avós (edição da Estuário Publicações). Um projecto que envolveu 90 alunos de 9.º ano e seis professores de História da Escola Secundária D. João II, de Setúbal.

“Era obrigatório ir à escola?”, “que matérias estudavam?”, “que acontecia quando se portavam mal?”, “como eram as salas de aula?”, “como iam para a escola?”, estas foram algumas das perguntas que os alunos fizeram às suas avós, que durante o Estado Novo (1930-1974) teriam entre seis e 12 anos.

“Queremos que os alunos se sintam historiadores. Aprendam a pesquisar, investigar, compilar. A melhor maneira de aprender é fazer, e os miúdos percebem imediatamente o essencial”, diz ao PÚBLICO Jaime Pinho, co-autor do texto e coordenador do projecto em conjunto com Alberto Lopes, ambos professores de História. Este último sublinhou, durante a apresentação do livro, num fim de tarde de domingo numa esplanada em Setúbal, “o prazer de participar num trabalho colectivo estimulante, que contribuiu para o conhecimento da comunidade e contou com o empenho de todos os professores de História”.

Um dos testemunhos recolhidos: “(…) A professora tinha, no canto da sala, uma cana-da-índia que era muito comprida e dura. Servia-se dela para nos bater nas mãos.” Outro: “Tinha uma régua que era de cinco olhos… e tinha um, dois, três, quatro buracos e outro no meio, cinco. Era redonda, apanhava a mão toda.” Outro ainda: “Éramos castigados por qualquer coisa. Se fizéssemos algum mal, ficávamos 10 minutos virados para a parede. Se fosse algo de grave, davam-nos reguadas, ou então uma chapada e não se podia fazer queixa aos pais, pois eles eram da opinião de que se o professor bateu ou castigou era porque tinha motivos.”

As respostas às entrevistas foram trabalhadas pelos docentes, dando origem a um texto colectivo organizado segundo alguns temas: Ambiente escolar, Métodos de ensino, Instrumentos de trabalho/tempos livres, Castigos, Relação escola/pais, Higiene, Diferenças de género, O primeiro dia de aulas, Instalações, Divertimentos, Trabalho infantil, Sociedade.

Título recusado
O título do livro foi alvo de discussão, e a proposta inicial (de que nos apropriámos para este artigo, No Tempo das Reguadas) não agradou aos alunos. Argumento: “As nossas avós não falaram só disso.” Os professores aperceberam-se de que os jovens não queriam um título “pela negativa”, respeitaram a vontade deles e escolheram outro, “mais neutro”.

No entender dos jovens historiadores em formação houve respostas positivas que interessava divulgar, como esta: “(…) Lembro-me de que a minha mãe me fez duas tranças e eu ia muito vaidosa com a minha mala nova, toda contente para a escola.” E esta: “Era uma alegria juntarmo-nos todos.” Ou mesmo esta, que descreve tão-só as aprendizagens: “1.ª classe, aprendi o abecedário, a ler e a escrever; 2.ª classe, aprendi a contar, fazer contas de somar, dividir, subtrair e de multiplicar e aprofundei a Língua Portuguesa; 3.ª classe, aprendi a resolver os problemas e a estudar pelo caderno de verbos. Na 4.ª classe, comecei a aprender Geografia, História e Ciências. A Língua Portuguesa e a Matemática tornaram-se mais complicadas.”

Também no livro se fala da solidariedade de alguns professores: “Para os que tinham maiores dificuldades económicas, o lanche era escasso e, por vezes, partilhavam o que a professora trazia.” E das brincadeiras: “Os recreios eram pátios de terra batida. (…) jogávamos ao mata, à calha (macaca), fazíamos rodas, cantávamos, conversávamos umas com as outras, saltávamos à corda e ríamos. Assim eram os nossos recreios.”

Nas ex-colónias, rapazes e raparigas brincavam juntos: “O recreio era um campo e brincávamos ali uns com os outros e juntávamo-nos aos rapazes.” Em Portugal, “os meninos e meninas estavam geralmente separados”. Tinham salas e horários diferentes.

Há descrições das salas de aula: “As paredes eram pintadas a cal e não havia aquecedores e muito menos ar condicionado. Quando chovia, passava muito frio ou então nem ia à escola porque não tinha roupa quente”; “numa das áreas da sala estavam duas fotografias, uma delas do Chefe de Estado Craveiro Lopes. Havia também uma cruz (…), cadeiras de madeira”.

Há relatos das férias: “As férias eram a trabalhar. Comecei a trabalhar com dez anos de idade. Agora há muitas férias, mas antes não havia.”

Há recordações dos caminhos até à escola: “Na província, íamos a pé para a escola. Chegava-se a andar 5km. Morava nos montes e não tinha companhia”; “o meu transporte era uma carroça e percorria em média 2km”.

Há informações sobre o abandono escolar: “A maioria abandonava a escola no final do 4.º ano”; “os pais podiam precisar que os filhos trabalhassem”.

Origens alentejanas e africanas
A Escola D. João II situa-se no limite urbano da cidade de Setúbal (bairro da Camarinha) e acolhe 1100 alunos (do 7.º ao 12.º ano) de famílias de classe média/baixa, muito diversificadas. Umas vivem em meio rural, outras são inteiramente urbanas e algumas têm origem africana, resume Jaime Pinho. Mas o Alentejo é uma das geografias mais presentes nas avós entrevistadas, daí o subtítulo do livro: Setúbal, Alentejo/ Estado Novo.

A grande dificuldade em encontrar fotos daquela região e daquele tempo fez com que se optasse por usar imagens de Américo Ribeiro (1906-1992), conhecido como “o fotógrafo de Setúbal”. Paulo Curto Baptista, responsável pela escolha das fotos e pelo design da obra, deu-nos conta dos seus critérios: “Foquei-me nos temas gerais do livro e, dentro do que pesquisei no Arquivo Fotográfico Américo Ribeiro [da Câmara Municipal de Setúbal], escolhi as imagens que tinham melhor composição e expressividade. Mas não há ligação directa com as pessoas entrevistadas.” O designer assume ainda: “Fugi daquelas fotos cheias de ‘burguesinhos’. Não espelham de todo a comunidade que aqui se queria retratar.”

Quem muito se orgulha sempre que sai um livro com imagens de Américo Ribeiro é Isabel Almeida, sobrinha e “afilhada de baptismo e casamento” do fotógrafo. “Ele foi ter connosco à África do Sul para ser nosso padrinho de casamento”, diz ao PÚBLICO, num pequeno compartimento que serve de escritório a uma mercearia tradicional, que explora com o marido, José Almeida, num bairro histórico da cidade (Fonte Nova).

A sobrinha do fotógrafo lembra como ele “gostava muito de viajar” e lamenta ter deitado “fora muitos negativos”, já que, na altura da sua morte, “não tinha noção da importância do que ali podia estar”. No entanto, guardou “alguns slides e duas máquinas fotográficas”. Sobre a simpatia ou não de Américo Ribeiro relativamente ao regime de então, diz nada saber. “O que sei é que ele trabalhava para a Câmara de Setúbal e para vários jornais: Setubalense, Diário de Notícias, Bola, Século. Assim que havia algum acontecimento importante, era o primeiro a ser chamado.”

Na ficha técnica do livro, escreve-se sobre Américo Ribeiro: “Fotógrafo profissional com loja no centro da cidade, respondia também a pedidos de reportagens fotográficas sobre eventos organizados pelo regime da época.”

O sonho de Alexandre Herculano
No Tempo da Escola das Nossas Avós – Setúbal, Alentejo/Estado Novo é o quinto livro que a Escola Secundária D. João II edita, contando sempre com a confiança e apoio da direcção da escola e seguindo invariavelmente o método de escutar de viva voz a experiência dos mais velhos. A segunda edição já está garantida, tendo a primeira, de mil exemplares, esgotado por estes dias (o livro custa cinco euros, está à venda em livrarias e papelarias da cidade e pode ser encomendado através da escola).

O primeiro projecto data de 1986 e teve como título A Vida e o Trabalho em Setúbal no Tempo dos Nossos Avós. O que mais sucesso de vendas obteve foi Quando a Tróia Era do Povo, em 2009 (5200 exemplares), que “beneficiou” de um contexto em que houve alterações na travessia do Sado e em que os cidadãos estavam apreensivos com as mudanças na península de Tróia.

Num outro livro, de 1993, Entre Urzes e Camarinhas As Festas da Arrábida e de Tróia, José Mattoso escreveu, na Introdução: “(…) Ocorre-me a esse respeito que [Alexandre] Herculano sonhou um dia escrever, em vez da história dos reis de Portugal, como se fazia até ao seu tempo, a história do povo português. Não sabia como. (…) Para poder escrever a história do povo português, teria de utilizar elementos do género dos que, neste livro, bem mais modesto do que o dele, afinal, se recolhem. A verdade é que ninguém depois de Herculano conseguiu realizar o seu sonho. Com dados como os que aqui se apresentam, talvez isso venha um dia a ser possível.”

Quando se fala deste elogio de José Mattoso, o professor Jaime Pinho fica entre o orgulhoso e o constrangido, mas reforça a ideia de que “é preciso fazer a história das pessoas, do povo e não apenas e sempre a história do poder”, lembra ainda que “as escolas têm um potencial enorme para o realizar, com tanta energia jovem e com uma grande concentração de professores de várias áreas do conhecimento, permitindo a interdisciplinaridade”. O que o investigador mais gostava era que outros colegas aplicassem o guião da entrevista semidirigida publicada no final do livro nas comunidades das suas escolas. Com ou sem adaptações.

Não foge às reflexões teóricas e críticas sobre a História baseada na oralidade, está consciente de que o afecto entre entrevistado e entrevistador pode enriquecer a informação transmitida, dando-lhe um cariz mais próximo e verdadeiro, mas sabe também que o mesmo pode aumentar a fantasia de quem relata. “Os avós podem querer agradar ou impressionar os netos.” Por isso, foi pedido aos alunos que transcrevessem os diálogos na totalidade, cabendo aos professores aferir e validar – aliando as ferramentas próprias das ciências sociais às suas experiências de investigação – a informação que poderia entrar neste retrato de época, de região e de comunidade.

Uma certeza Jaime Pinho tem: “Estes projectos deixam marcas positivas nos alunos, nos professores, nas famílias e na cidade.” E não quer deixar de estudar as vivências de “quem ainda as pode contar na primeira pessoa”. Por isso, na tal apresentação de fim de tarde, invocou a ideia de que, “quando morre um velho, é uma biblioteca que arde”. Mesmo que esse velho jamais tenha lido um livro.

 
No Tempo da Escola das Nossas Avós – Setúbal, Alentejo/Estado Novo
Textos: Alberto Lopes, Elisabete Isidoro, Natércia Gouveia, Jaime Pinho, Sara Pereira, Susana Nogueira
Coordenação: Alberto Lopes, Jaime Pinho
Design: Paulo Curto Baptista
Edição: Estuário Publicações
132 págs., 5€

 

Rita Pimenta para o jornal Público em 2 de Julho de 2015

 

MNTraje: férias no jardim…mais perto da natureza, de 3 a 14 de Agosto

Julho 14, 2015 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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MNTraje | Divulgação
Museu Nacional do Traje
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