Hiperactividade… Ciência versus Facebook…

Julho 5, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no i de 30 de junho de 2015.

Nem tudo o que mexe é hiperactivo, nem todos os que sonham têm défice de atenção. Mas destruir um fármaco com “cultura de Facebook” é demasiado leviano…

De acordo com os dados do Infarmed, houve um aumento na prescrição de metilfenidato (Concerta®, Ritalina®) para o dobro, entre 2010 e 2014. Podem existir várias explicações para isto, desde um exagero de prescrições até um melhor diagnóstico e medicação de crianças e jovens que necessitavam do medicamento e não o estavam a tomar. Por outro lado, os problemas de dispersão, falta de concentração e atenção e hiperactividade são mais bem conhecidos e isso pode justificar o aumento.

Todavia, os números não falam; as pessoas é que os interpretam, e tudo o que seja tirar ilações do facto de a prescrição ter aumentado é especulativo. O que se sabe, sim, é que embora haja crianças medicadas que não precisavam de o ser, é maior o número das que precisam e não estão medicadas e, das que estão, a esmagadora maioria colhe benefícios. A destruição da ideia de medicar, como vemos no que designo por “cultura de Facebook”, pode arruinar a vida de muitas crianças e isso é feito diariamente, de forma leviana.

Recomenda-se este tipo de fármacos nas situações em que há uma perturbação da concentração e atenção – o que ocorre sobretudo nos rapazes – que afecta a vida das crianças de forma significativa, para lá dos casos de cansaço, má gestão dos estímulos artificiais que desviam a atenção ou irrequietude natural das crianças e jovens, sobretudo do sexo masculino. Nem tudo o que mexe é hiperactivo, nem todos os que sonham têm défice de atenção!

As crianças, vivendo num mundo “entre quatro paredes”, precisam de se expandir, de se mexer. No entanto, a incapacidade de concentração num estímulo, sobretudo abstracto, desviando-se para “qualquer mosca que passe”, faz com que a criança retire muito pouco das aulas, se mexa constantemente, se sinta mais distante do “filme” que está a passar na sala de aula e invente outras coisas, mexendo-se, perturbe os outros e se comporte de modo hiperactivo, sendo disruptiva para a aula e prejudicando gravemente o seu próprio processo de aprendizagem.

Finalmente, estar constantemente a ser admoestado e posto de castigo e ver as notas aquém do que deseja (para dar um exemplo, a impulsividade faz ler apenas metade do cabeçalho e começar logo a responder, esquecendo o resto e tendo a pergunta incompleta apesar de saber a matéria) diminuem a auto-estima, causam tristeza e geram problemas acrescidos, sociais e psicológicos.

Só pode ser arrogante relativamente a esta forma terapêutica quem nunca foi o “patinho feio” ou o “palhaço” da turma, sentindo que pode ser mais e que fica aquém, como no poema de Mário de Sá-Carneiro.

Os benefícios da terapêutica, que pode ser instituída por um pediatra ou neuropediatra, mas que não necessita obrigatoriamente de ser baseada em doses e doses de testes e exames, são tal e qual umas muletas para quem tem uma perna engessada: ajudar o processo de aprendizagem e permitir à criança o desenvolvimento das suas capacidades.

O argumento dos detractores de que “é um químico” é anedótico porque o cérebro funciona, exactamente, com mediadores químicos, e nos casos de hiperactividade e défice de atenção, dispersão e impulsividade, esse mediador está em falta. Com o crescimento, o cérebro arranjará outras formas de funcionamento e não é precisa medicação para a vida toda, como alguns dizem. Além disso, é boa prática as crianças interromperem a medicação nas férias lectivas; a ideia de que se fica “preso a uma droga” é mais um dos mitos urbanos veiculados na internet.

Quanto a contra-indicações, nas redes sociais há pessoas que gostam muito de dizer que “é veneno”, “um perigo” e “não serve para nada”… dá vontade de rir. Leiam a bula do ibuprofeno ou do paracetamol, que dão aos vossos filhos, ou a de qualquer medicamento, e verão a “galeria de horrores” – os efeitos colaterais são raros e, salvo excepções, resumem-se a duas semanas de perda de apetite ou de acordar durante a noite, mas são situações transitórias. Aliás, como qualquer medicamento, se o utente apresentar sintomas, o médico suspenderá a terapêutica… isso acontece com antibióticos ou com anti-histamínicos… ou com tudo!

O metilfenidato não dá “superpoderes” à criança… apenas faz render melhor as suas capacidades naturais. Ninguém fica engenheiro, pianista ou escritor com o medicamento se não tiver esses talentos, mas pode nunca vir a ser engenheiro, escritor ou pianista, tendo esses talentos, por não conseguir estudar e concentrar-se, e andar toda a escolaridade a saltitar de “mosca para mosca”, irritando os professores, enervando os pais e diminuindo a sua auto-estima. E se pensássemos numa coisa chamada ciência? Talvez valha mais do que o diz-que-diz das redes sociais…

Pediatra

Escreve à terça-feira 

 

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