Saúde mental das crianças é mal tratada em Portugal

Junho 26, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://economico.sapo.pt  de 19 de junho de 2015.

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Irina Marcelino

O acesso a ansiolíticos e antidepressivos por crianças e adolescentes é preocupante, considera Maria do Céu Machado.

As crianças portuguesas têm mais alergias, mais asma e doenças como a de Chron, infecção crónica dos intestinos que se pensava que apenas atingiam os adultos.

A asma está à cabeça das doenças crónicas nas crianças. A doença terá aumentado na ordem dos 20% nos últimos dez anos, segundo Maria do Céu Machado, pediatra, professora da Faculdade de Medicina na Universidade de Lisboa e responsável pelo serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria.

O aumento deste tipo de doenças crónicas é, afirma, “o preço a pagar por termos um país desenvolvido”. Nos restantes lugares da “tabela” elaborada por Maria do Céu Machado, que foi Alta Comissária para a Saúde, surgem ainda doenças como a obesidade, que dá origem a problemas como a diabetes, a doença inflamatória intestinal, a doença pulmonar crónica, a epilepsia e, ainda, as doenças mentais. “Em Portugal dá-se muito pouca importância a esta área. Uma criança ou um adolescente com uma doença mental vai dar um adulto com problemas de saúde mental”, considerando que esta é uma área relativamente à qual tem uma grande preocupação.

A especialista lembrou a propósito o caso da Islândia, que em plena crise lançou um programa de acompanhamento da saúde mental das suas crianças e adolescentes. “Na altura achei um exagero, mas agora compreendo. Essas crianças e adolescentes eram os filhos da maioria dos casais que caíram no desemprego”. Um estudo recente concluiu que a aposta islandesa resultou. E que o país conseguiu evitar os efeitos negativos que a crise podia ter tido nos seus jovens.

Em Portugal, a forma como se trata a saúde mental das crianças e adolescentes não tem comparação. “Não temos uma organização de psiquiatria na infância e na adolescência, como devíamos ter em Portugal”, considera. Além da falta de profissionais especializados, há, também, falta de camas nos hospitais. “Para toda a zona Sul, de Lisboa e Vale do Tejo, ao Alentejo e ao Algarve temos dez camas no Hospital de D. Estefânia para crianças e adolescentes com problemas de saúde mental”. E apenas os casos mais graves acabam por ser atendidos. “Ou seja, os casos ligeiros são recusados. Mas os ligeiros eram os que a longo prazo podiam ser tratados de forma a não terem problemas. Se investíssemos neles teríamos adultos saudáveis”.

Um dos problemas que destaca diz respeito ao acesso a ansiolíticos e antidepressivos.

“Não há nenhum dia na urgência que não apareça um adolescente que tenha tomado 10 ou 15 comprimidos, não para se suicidar mas porque está medicado e não aguenta quando lhe passa o efeito dos medicamentos. O acesso aos medicamentos é mais grave do que a doença mental em si”.

Sobre a saúde infantil, Maria do Céu Machado defendeu que também a área de cuidados continuados devia ser acautelada nesta fase da vida. “Com o aumento das doenças crónicas nas crianças, as camas dos hospitais são ocupadas por estes doentes, quando deviam ser tratados em cuidados continuados”, refere, lembrando tam ém a possibilidade de haver cuidados continuados de curta duração “para dar aos pais destas crianças a oportunidade de descansar”.

Os cuidados de saúde para crianças deviam também ser melhorados. “Devia haver um gestor do doente. Há um problema com a multiplicação de consultas e de exames em dias diferentes, que resultam em faltas na escola e no trabalho que podiam ser evitadas”.

Maria do Céu Machado defendeu ainda a necessidade de construção de Centros de Referência. “Espero que em breve saiam as regras e que possamos construir Centros de Referência. Mas é preciso que estes centros tenham uma política de RH diferente da actual”.

 

 

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