Aos olhos de Rita: Jovem de 15 anos com paralisia cerebral cria página contra o preconceito

Maio 8, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto da Visão de 30 de abril de 2015.

Rui Duarte Silva

Cesaltina Pinto (artigo publicado na VISÃO 1155, de 23 de abril).

Ana Rita “era uma bebé de seis meses, ternurenta, com um olhar estrábico e um lindo sorriso de dois dentes” quando a médica informou cuidadosamente os pais que a filha tinha paralisia cerebral. Na cabeça de Paula e Mário Augusto, jornalista especializado em cinema, fez-se “um apagão momentâneo”. Ouviram, “perdidos e baralhados”, a médica explicar que a evolução seria uma incógnita que só o tempo esclareceria. Quinze anos depois, num encontro casual, a mesma médica dirigiu-se ao pai para lhe dizer “que muita gente lhe falava dos textos de Rita e da vontade, determinação e inspiração que representa para muitos”.

Rita tem ainda muita dificuldade em andar e o medo tolhe-lhe a vontade quando pega nas canadianas. Mas tal nunca impediu a sua mente de voar, como uma “borboleta”, ou de procurar o lado solar da vida, como um “girassol “. E hoje, quando ainda ouve alguém sussurrar ‘coitadinha’, limita-se a sorrir. Rita tornou-se há dois anos “figura pública”, estatuto concedido pela página que criou no Facebook, com mais de 13 mil “gostos”, onde escreve os seus pensamentos e dá inspiração a muitos.

Recentemente, um dos seus textos provocou mais de cem mil mensagens e contactos. De tanto conviver e gostar de ouvir as conversas de adultos, tornou-se já uma “miniadulta”, como diz, embora se debata com todas as dúvidas existenciais próprias de uma adolescente.

É uma confidente, que retribui com ânimo e muito boa disposição. A tal ponto que foi convidada para fazer a sua primeira conferência no TEDx Vila Real, a 30 de maio próximo.

Rita quer ser “jornalista e contadora de histórias”. Aliás, já escreve, uma vez por mês, para o jornal regional Voz de Esmoriz. É boa aluna e está a terminar o 9.º ano de escolaridade do ensino regular. Tem uma grande consciência de si. “Na verdade, eu era para ter nascido dois meses depois, mas apressei-me e nasci antes do tempo. Por ter chegado mais cedo, passei dez dias fechada numa incubadora, e essa pressa toda fez com que me fosse diagnosticada paralisia cerebral. Dizem-me que foi por falta de oxigenação das células do cérebro. Não se assustem, isso não quer dizer nada de especial, apenas me condiciona a marcha, a minha forma de caminhar.” Foi assim que se apresentou na sua página Aos Olhos da Rita. Avisou: “Quero que saibam que estou sempre a sorrir.” O Sorriso da Rita dá também nome a uma associação criada pelos pais para angariar fundos que contribuam para a ajuda técnica a outros que sofrem de paralisia cerebral e que não são associados.

‘Ao ajudar os outros, também me ajudo’

A aventura da escrita começou quando Rita tinha 13 anos. “Foi uma história muito maluca.

Andava a dar uma volta de canadianas na rua com o meu pai. Estávamos a conversar sobre as coisas da vida. Então o meu pai disse: ‘Quando chegares a casa vais escrever um texto sobre este teu passeio, depois ponho na minha página para os meus leitores e logo vemos o que eles acham’. A partir daí, comecei a escrever. ” Um texto por dia. Ao fim de uns meses, Mário Augusto criou-lhe a página e deu-lhe um empurrão nas partilhas. E não podia estar mais orgulhoso, ele que sempre tentou não ser demasiado protetor, mas sim dar-lhe a maior autonomia possível. Ensinou-lhe “a palavra mágica” que Rita sempre repete: “De-ter-mi-na-ção”.

É com a escrita que Rita se “liberta dos pensamentos menos bons”, “deita para fora”, liberta as angústias. E assim estrutura o pensamento. “Parece que a sociedade ainda tem medo da diferença e dos diferentes.

Tornou-se egoísta.” Mas certas atitudes já não lhe fazem mossa. Ganhou anticorpos, desenvolveu autoestima, gosta de se ver bonita, de estar de bem com a vida. “No início, sofri um bocadinho, mas nunca me revoltei.

Nunca fiquei azeda nem amarga, porque não adianta. O problema já está lá. Porque é que havemos de nos dar mal com as pessoas?”, pergunta Rita. É esta forma de ver a vida que quer transmitir. “Há quem me diga: ‘Acabei de ler este texto e fiquei logo mais feliz.’ Fico contente por isso. Ao ajudar outros, também me ajudo. E vamos buscar forças que nem sabíamos que tínhamos.” Lê Alice Vieira e Luis Sepúlveda. Ouve António Zambujo e fez amizade com Rita Redshoes, que dá nome a um projeto que iniciou com uma amiga designer: criar um sapato “giro e adaptado” para quem tem “pé pendente “. O medo de andar de canadianas é um desafio que, garante, irá ultrapassar. Declarou guerra ao “senhor medo”, num dos textos que lhe trouxe mais “gostos”: “Só me apetece destruir-te, ou ignorar-te, sempre até saíres de vez da minha vida! Tu és uma verdadeira (e ainda por cima, das grandes) pedra no meu sapato!” Para Rita, um problema é “uma maneira de chegar a uma coisa melhor”. O segredo é “descobrir sempre o lado positivo, mesmo na desgraça”. A felicidade “é uma grande incógnita “, está “nos pequenos momentos”.

A dormir, sonha muito com borboletas. Acordada, imagina como será daqui a uns anos.

E tem sempre “medo de falhar em alguma coisa”. Mas sabe que os maiores valores da vida são “a amizade, o amor, a esperança e… a determinação, sempre”. Assim conquista espaço no mundo.

Nesta forma de ser está, afinal, o milagre que os pais tanto procuraram, após anos de intervenções cirúrgicas, fisioterapias e lutas solitárias por apoios que nunca chegam. A filha, “a coitadinha”, ganha asas e voa. E é o pai que desabafa, a propósito do encontro com a médica que lhe deu conta da paralisia de Rita: “Não foi uma má notícia. Foi apenas o princípio de tudo.”

https://www.facebook.com/AosOlhosDaRita/timeline
 

 

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