Os bebés não são torradeiras, não são um electrodoméstico

Abril 29, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do i a Constança Ferreira no dia 27 de abril de 2015.

Rodrigo Cabrita

Marta Cerqueira

Chamam-lhe a “fada dos bebés”, mas Constança prefere o termo terapeuta

Teve uma primeira bebé que chorava inconsolavelmente. Para o segundo filho, decidiu ler, investigar e perceber o porquê de os bebés chorarem sem razão aparente. Percebeu que entre mãe e filho existe uma linguagem própria que tem de ser desenvolvida e agora serve de tradutora para quem ainda luta para perceber as necessidades dos bebés. Constança Ferreira começou por ajudar as amigas e as amigas das amigas até que percebeu que precisava de um local para as mães recorrerem. Em 2014 abriu o Centro do Bebé, em Lisboa, e em 2015 lançou o livro “Os bebés também querem dormir”, mas avisa que não se trata de um manual de instruções. “Um bebé não é um electrodoméstico”, refere.

Se a fralda está limpa e o biberão está dado, porque é que um bebé chora?

Em primeiro lugar, essa questão deve ser colocada ao pediatra para ver se há alguma razão do foro físico que possa estar a espoletar dor e desconforto. Com esse aspecto descartado, a primeira causa para o choro do bebé nos primeiros três meses passa a ser a separação. Habituamo-nos a pensar no choro como um mecanismo ligado às necessidades reais como a fome, frio, calor, a fralda suja, e vemos tudo o resto como vício, manha, capricho, necessidades secundárias. A verdade é que o bebé tem necessidade de estar no seu habitat natural, que é o corpo do cuidador.

O facto de um bebé chorar mais que outro tem também a ver com personalidade?

Somos todos diferentes e, não sei porquê, continuamos a pensar que os bebés não são pessoas. A mim, isso deixa-me perplexa. Pergunto muitas vezes aos pais: como foi o teu primeiro dia de escola? É a mesma coisa. O bebé acabou de chegar ao mundo e cada um processa isso de maneira diferente.

A forma como a gravidez e o parto são vividos também influencia?

Há estudos que relacionam o stresse durante a gravidez com a forma como o bebé se desenvolve. Além disso, um parto traumático tem imenso impacto na forma como o pós-parto será vivido e até na confiança da mãe para cuidar do bebé.

É formada em comunicação. De onde veio esse interesse pelas questões da maternidade?

Acaba por ser um trabalho de comunicação também (risos). A minha primeira filha chorava muito e, no meu segundo, quis estar mais bem preparada e comecei a pesquisar e a fazer formação. As amigas começaram a pedir a minha ajuda, comecei a visitar muitas mães e, mais tarde, senti falta de um espaço físico para trabalhar e abri o Centro do Bebé, onde posso trabalhar em equipa com profissionais de outras áreas, como enfermeiros e psicólogos.

No livro, começa por avisar que não é médica, nem psicóloga, nem enfermeira. Não acaba por ser um pouco destas três coisas?

Sou contra quem, sendo terapeuta numa área, se auto-intitule de especialista. As pessoas devem saber qual é o papel de cada profissional. A minha área de actuação é a do entendimento, de descodificação do que o bebé quer dizer.

As mães chamam-lhe a “fada dos bebés”. O que faz é assim tão transcendente?

Isso teve a ver com o facto de eu não encontrar um nome para o meu trabalho.

E agora já encontrou?

Sim, digo que sou terapeuta de bebés. Há casos em que as mães me chegam já no limite e, quando começo a transformar o choro em palavras, parece magia. É o mesmo que acontece quando estou a falar com alguém numa língua estrangeira e chega alguém que traduz. Há mães que chegam cá a achar que não sabem cuidar dos filhos e eu faço-as entender que têm esse superpoder de dar resposta a tudo o que o bebé precisa.

Há falta de preparação para a maternidade?

A vinculação não é um momento, é um processo. Continuamos a achar que basta olhar para o bebé para ficar logo a pensar “eu amo-o” e nem sempre é assim.

Há uma ideia muito idílica da maternidade?

Preparamo-nos para o pós-parto como quem se prepara para um projecto no trabalho. Há listas de coisas para comprar, livros para ler e esquecemo-nos de que o pós-parto é um encontro com o lado mais primitivo que todos temos.

Falta alguém que dê um toque de realidade?

Digo sempre: qualquer coisa que falte, pode-se ir comprar à farmácia, mas o amadurecimento daquilo que vai ser o nosso lado mais escondido, esse deve ser pensado ainda na gravidez. Nós, mulheres modernas e cheias de certezas, vamos ser confrontadas com a sensação de não saber o que fazer, e isso é novo para muitas de nós. Devemos deixar que isso venha ao de cima sem medo.

Toda a gente tem uma opinião sobre a maternidade. As mães devem evitar essas comparações?

Quando temos muitas vozes na cabeça, deixamos de ouvir a nossa. Temos de ter presente que o nosso bebé quer-nos a nós e mais nenhuma mãe. Eu demorei muito tempo a escrever este livro porque não queria fazer um manual de instruções. Os bebés não são torradeiras, não são um electrodoméstico. Os palpites vêm porque os bebés são um bem colectivo e porque continuamos a achar que o sono, a comida e os percentis são medalhas que as mães trazem ao peito. Extrapolar o que o nosso bebé atinge valida-nos enquanto mães.

Nove anos depois do nascimento da sua primeira filha, já percebe porque é que ela chorava tanto?

Uma vez contei-lhe esses episódios e disse-lhe que parecia que não nos entendíamos. Ela respondeu: “Mãe, eu estive sempre bem.” Olhando para trás, percebo. O parto não correu como eu esperava, via-a muito em braços de profissionais, o que me fez sentir dispensável, e fui muito surpreendida pela intensidade das necessidades de um bebé.

A insegurança dos pais potencia o não entendimento com o bebé?

A insegurança até pode ser positiva, porque nos faz pensar na melhor resposta a dar. Mas a ideia de insegurança associada a uma resposta certa ou errada é que já não é bom, porque aí estamos associados a ideologias e a teorias. Seria mais fácil que, se um bebé chorasse, os pais simplesmente o acalmassem ao colo.

O colo excessivo não prejudica o bebé?

Claro que não. Os bebés humanos são das crias mamíferas mais imaturas e precisam de terminar a gestação fora do útero, nos braços dos cuidadores. O colo acalma, regula a temperatura, o ciclo respiratório e cardíaco.

O stresse e as preocupações dos pais passam para os bebés?

O contágio hormonal acontece, está provado que estar ao pé de alguém stressado activa os níveis de stresse. Basta um ritmo cardíaco mais acelerado para que o bebé perceba a diferença. Eu aconselho as mães a falarem com os bebés e explicarem o que as preocupa. Não é científico, mas eu acredito que deixa o bebé mais descansado.

Na hora de acalmar o choro, quais são os erros mais comuns?

Deixar que o bebé chore para lhe darmos algo faz com que a comunicação seja feita à base do choro. Ainda temos a ideia de que o choro é a única forma de comunicação de um bebé, e isso é mentira. O choro é o SOS, é a comunicação tardia. Quando o bebé já está na zona vermelha, as várias tentativas de acalmia, às vezes, resultam ao contrário. Passar de colo em colo, ir à janela ver os carros, ligar a televisão ou o bonequinho com música vão estimular um bebé que já está estimulado.

O que aconselha em alternativa?

O contacto físico é essencial. O bebé deve ser embalado e sem estímulos no espaço visual. Estar à frente de uma parede branca, por exemplo, ajuda.

Já teve casos em que nenhuma técnica funcionou?

Não, porque nunca faço igual. Fruto da experiência, espero que seja o bebé a mostrar do que precisa e acabo por adaptar as técnicas a cada caso.

O instinto maternal existe?

Sem dúvida.

Então porque há quem não o tenha?

Porque confundimos instinto e intuição. O instinto é aquilo que temos de mais primitivo, é o olhar para o bebé e perceber que se passa alguma coisa. A intuição é mais natural para algumas mães, mas tem a ver com a forma como se prepararam para a maternidade.

Mas é algo que pode ser desenvolvido?

A intuição e a confiança podem sempre ser desenvolvidas. Há muita coisa que os pais vão fazer errado, mas é nessas tentativas que se vai conhecendo mais o bebé.

Acha que os cursos de preparação para a maternidade deviam ser mais utilizados?

Há um acesso cada vez maior a esse tipo de cursos, existem até nos centros de saúde. Mas acho que falta conhecimento geral sobre os bebés. Ainda os vemos como um incómodo social, isso é um absurdo.

Mas não acha que ainda há preconceito sobre esse tipo de cursos?

Isso tem a ver com o facto de serem um fenómeno da última década com o qual as nossas mães e avós não lidaram. A preparação para o parto fazia-se desde a infância, vivíamos em comunidade e toda a gente tinha contacto com irmãos, primos, sobrinhos, etc. Deixámos de viver em comunidade e passámos a viver em gavetas, e isso fez com que muitos casais nunca tenham lidado com um recém-nascido até ter o seu próprio filho. Não podemos é ter a arrogância de pensar que um curso substitui uma avó.

Qual é o papel do pai no pós-parto?

Nos novos conceitos familiares, actualmente temos uma mãe, um pai e um bebé. Não ter o pai nesta equação é impensável. Pensar que o pai dá uma ajuda é giro, mas não é suficiente. O pai é um cuidador de pleno direito.

Concorda com a forma como o parto é feito nas maternidades?

Já começa a dar-se mais importância ao contacto entre mãe e bebé logo após o nascimento. Se não houver problemas de saúde, não há razão para que sejam afastados. Está provado que os bebés que têm um contacto imediato com a mãe são bebés com mais facilidade na amamentação e as mães sentem-se mais seguras no seu cuidado.

E os tempos de licença de maternidade? São suficientes?

Os primeiros dois anos são fundamentais. Não digo para os pais ficarem sem trabalhar durante dois anos, mas a protecção à presença do pai e da mãe durante a primeira infância devia ser repensada. Nenhum pai é feliz ao deixar o filho na creche às 7 da manhã e ir buscá-lo às 19h.

 

 

Conferência do Observatório da Criança “100 Violência” 30 de abril na Assembleia da Republica

Abril 29, 2015 às 3:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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A conferência “100 Violência” do Observatório da Criança, irá contar com a presença da Dra. Manuela Eanes, Presidente do Instituto de Apoio à Criança e da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança.

programa no link:

http://www.parlamento.pt/Paginas/XIIL4S-Conferencia-100-Violencia.aspx

 

 

 

Criado observatório para prevenir e combater maus-tratos contra crianças

Abril 29, 2015 às 2:50 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 29 de abril de 2015.

Globalimagens

por Lusa

O ‘Observatório Criança – 100 Violência’ vai ser presidido por Rui Pereira, antigo ministro da Administração Interna.

Elementos das forças de segurança e académicos criaram o “Observatório Criança – 100 Violência” para prevenir e combater os maus-tratos físicos ou psíquicos contra crianças, disse hoje à agência Lusa o seu presidente, Rui Pereira.

O antigo ministro da Administração Interna explicou que na origem da criação do observatório esteve “a conjunção de vontades de elementos das forças de segurança, que têm ligações com congéneres estrangeiros que estão muito preocupados” com os fenómenos da violência contra crianças e de violência doméstica, e de académicos do Instituto Superior de Ciências Sociais.

Segundo Rui Pereira, a associação sem fins lucrativos foi criada para “aumentar a consciência cívica e sensibilizar as pessoas para o fenómeno” da violência contra as crianças.

Os objetivos do “Observatório Criança — 100 Violência” são “prevenir e combater os maus-tratos físicos ou psíquicos de crianças, incluindo ofensas sexuais, castigos corporais, privações da liberdade ou o emprego em atividades perigosas desumanas, excessivas ou proibidas”.

Visa também proteger os direitos das crianças vítimas desses maus-tratos e promover a cooperação nacional e internacional contra esses crimes.

O observatório é apresentado na quinta-feira numa conferência na Assembleia da República presidida pela sua presidente, Assunção Esteves, que conta com a participação, entre outros, da presidente e presidente executiva do Instituto de Apoio à Criança, Manuela Ramalho Eanes e Dulce Rocha, respetivamente, e do presidente da Comissão de Proteção das Crianças e Jovens em Risco, Armando Leandro

“O que vamos fazer na assembleia é um debate sobre a situação que infelizmente é atual, atendendo ao que temos visto nos últimos tempos”, disse Rui Pereira à Lusa.

O presidente do observatório sublinhou que a questão das crianças vítimas de maus-tratos e em situações de perigo “não é uma questão estritamente criminal ou penal”.

“É uma questão que tem de ser prevenida ao nível social de forma integrada e de várias maneiras porque o que nós vemos são situações dramáticas de crianças que não têm o apoio que mereciam”, defendeu.

Rui Pereira deu como exemplo o caso do bebé que foi morto pelo pai em Linda-a-Velha, no concelho de Oeiras.

“A criança estava sozinha com um pai que infelizmente tinha problemas de alcoolismo, eventualmente toxicodependente, que estava desempregado e, porventura, tinha problemas de foro mental”, disse.

Para Rui Pereira, o agressor deve ser “fortemente responsabilizado pelo crime horrível que cometeu”, mas defendeu que estas situações exigem uma intervenção prévia.

“O Estado não pode agir só no momento seguinte quando tudo está consumado”, frisou, defendendo que são necessários meios para o fazer.

 

 

 

Participação da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança, no programa “Discurso Direto” TVI 24 hoje a partir das 15.00

Abril 29, 2015 às 12:15 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Participação da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança, no programa Discurso Direto” TVI 24 hoje a partir das 15.00. O tema a abordar é o registo nacional de pedófilos.

discurso

 

 

Alunos fazem voluntariado nas bibliotecas escolares e dão explicações a colegas

Abril 29, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site Educare de 20 de abril de 2015.

Snews

Lusa / EDUCARE

Sentadas atrás da secretária à entrada da biblioteca da Escola Básica Galopim de Carvalho, Raquel e Yara, alunas do 6.º ano, vão registando as requisições de livros e computadores dos colegas e assegurando que as regras da sala são cumpridas.

No ano passado, candidataram-se ao cargo de monitoras, fizeram um curso de formação, estagiaram e foram selecionadas. Agora fazem parte do grupo de 90 alunos monitores (35 são este ano estagiários) que vão garantindo o normal funcionamento do espaço.

“Faço requisições, dou chaves de cacifos para os pertences e faço rondas para saber se está toda a gente a portar-se bem”, resumiu Raquel, que garante querer continuar a fazer estas tarefas.

Quando há distúrbios, os voluntários avançam: “Alguns entram e eu já sei que se vão portar ligeiramente mais mal. Quando se portam mal eu mando calar e, se não me obedecerem, chamo a Dona Teresa ou a professora Fátima”, contou Yara, desdramatizando os casos pontuais de mau comportamento.

Numa escola com 727 alunos, a biblioteca regista mais de três mil entradas por mês, segundo a professora bibliotecária, Fátima Rocha, que mostra orgulhosa a tabuleta de “Lotação Esgotada” que, por vezes, têm de pôr à entrada.

Uma das razões para a elevada afluência prende-se com as mudanças registadas nos últimos anos: as gigantescas estantes de livros trancadas à chave a que só as bibliotecárias tinham acesso deram lugar a móveis de prateleiras baixinhas, acessíveis a todos; agora há também revistas, computadores e tablets, além dos tradicionais livros, e o silêncio deu lugar ao burburinho dos alunos que podem trocar ideias, conversar, ouvir música ou ver um filme.

Esta transformação é o resultado do trabalho desenvolvido pela Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) e pelas obras do programa “Parque Escolar”. Agora, muitos destes espaços enchem-se de alunos, como o Francisco que gosta de ler revistas e jogar: “No recreio brinco e nos tempos livres, quando acabam as aulas, venho para aqui”, contou à Lusa.

“Acredito que ainda há muita gente que tem a ideia daquele espaço antigo, mas os tempos mudaram e as bibliotecas também”, lembrou Isabel Mendinhos, coordenadora interconcelhia das Bibliotecas Escolares, sublinhando que “já não reina um silêncio absoluto”, porque agora é “um local de aprendizagem onde os alunos colaboram entre si e com os professores”.

Uma das tarefas de alguns voluntários é precisamente ajudar os alunos com mais dificuldades nas aulas, como é o caso de João Natário, do 8.º ano, que aderiu a esse programa da RBE que foi este ano aplicado na sua escola.

“Normalmente costumo ajudar os alunos com mais dificuldades nos TPC e a fazer pesquisas nos computadores”, contou à Lusa o aluno, garantindo que alguns colegas já subiram as notas. “Os outros… já se sabe como é que é”, desabafou.

Isabel Mendinhos falou no sucesso do projeto de explicações interpares que começou no agrupamento de escolas de Mem Martins, onde já se registaram “melhorias nas aprendizagens e nos resultados escolares”. A escola do Cacém é apenas uma das muitas onde os alunos são monitores, graças ao projeto da RBE, um organismo criado há 19 anos com o objetivo de instalar e desenvolver as bibliotecas nos estabelecimentos de ensino.

Com um orçamento anual de cerca de 400 mil euros, a coordenadora Nacional da RBE, Manuela Pargana da Silva, diz que existem atualmente 2420 bibliotecas ligadas em rede, o que permite trocar experiências e replicar as melhores práticas, como a dos voluntários e das explicações interpares. João Natário passa as tardes entre os livros e computadores, na biblioteca, e garante estar sempre disponível para os colegas. “Se alguém precisar, pode vir cá pedir ajuda”.

Há crianças a lerem para colegas como gente grande

Bruna descobriu o prazer da leitura aos 8 anos, quando começou a contar histórias aos meninos do jardim de infância pela mão da professora que decidiu que os seus alunos iriam ler para os mais novos, aderindo a um programa da Rede de Bibliotecas Escolares.

Todas as quartas-feiras, à hora do almoço, os mais pequenos dirigem-se à biblioteca da Escola Básica Gomes Ferreira de Andrade, em Oeiras, para ouvir mais uma história contada pelos “meninos crescidos”. Os “meninos crescidos” são alunos do 3.º B e têm apenas 8 anos, mas encaram esta missão como gente grande: são eles que escolhem os livros, que distribuem as personagens entre si e que ensaiam a leitura, garante a professora Carla Fernandes.

O que se passa nesta escola de Oeiras repete-se em muitas outras, onde alunos do 3.º e 4.º anos de escolaridade leem em voz alta para os mais novos, que podem ser meninos do jardim de infância ou alunos do 1.º e 2.º anos, graças a um projeto da biblioteca escolar destinado a conquistar os mais pequeninos para a leitura, desenvolver a expressão oral e partilhar palavras e histórias.

É entre os livros que têm em casa, na sala de aula ou na biblioteca escolar que os mais velhos decidem o que querem dar a conhecer aos colegas. “Depois, no recreio ou na sala preparamos as personagens”, contou à Lusa Afonso Lourenço, aluno da sala de Carla Fernandes.

A professora garante que muitos alunos levam os livros para o intervalo, onde “livremente treinam a leitura” para depois terem sucesso na apresentação aos mais pequenos.

“Eu gosto de ouvir os meninos crescidos, porque eles contam bem e nunca têm vergonha”, diz Lara, que esteve atenta durante as três leituras feitas esta quarta-feira na biblioteca da escola.

Com 6 anos, Lara ainda não domina a leitura, mas diz que o pai já a está a ensinar e que consegue “ler” um livro inteiro: “Sei `Os cães não dançam ballet´ mas só com o livro, sem o livro não consigo”, explica. Matilde Coimbra, aluna do 3.º B, selecionou uma das histórias da semana: “Eu escolhi o Coelhinho Branco porque no 1.º ano já tínhamos lido e gostei.

” A professora, que decidiu avançar com este projeto no âmbito da Rede de Bibliotecas Escolares, garante que os seus alunos “estão praticamente autónomos a fazer este tipo de atividades” e que agora “dão menos erros, fazem melhor os diálogos e são mais imaginativos”.

Porque os livros têm um número limite de personagens, os alunos organizam-se em pequenos grupos e registam-se para conseguir ir ler. “Já tenho inscrições quase até ao fim do ano letivo”, garantiu orgulhosa Carla Fernandes.

Este é um dos muitos projetos da Rede de Bibliotecas Escolares, que pretende estimular o gosto pelos livros e parece estar a resultar. “Antes eu não gostava muito de ler, era um bocado chato, mas agora já comecei a gostar”, desabafou Bruna Roque, que esta semana fez parte do grupo que leu o Coelhinho Branco.

A coordenadora nacional da Rede de Bibliotecas Escolares, Manuela Pargana Silva, diz que é nestas idades que “os alunos começam a criar hábitos de procura de biblioteca que vão continuando nos outros níveis etários” e sabe que, por volta do 7.º ano, muitos alunos abandonam essa rotina “porque aparecem outros interesses”.

“Mas depois há um retorno”, garante Manuela Pargana Silva, que não tem dúvidas que esse regresso se consegue cultivando o gosto pela leitura desde cedo.

 

 

Os filhos têm direito a não ser amigos dos pais no Facebook

Abril 29, 2015 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do i  a Margarida Gaspar de Matos de 26 de abril de 2015.

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Marta F. Reis

Margarida Gaspar de Matos, uma das maiores especialistas de comportamento de jovens fala ao i.

É uma das maiores especialistas nos hábitos dos jovens em Portugal e coordena os inquéritos à população escolar. Margarida Gaspar de Matos acaba de publicar o livro “Nascidos Digitais: Novas Linguagens, Lazer e Dependências”, uma colectânea de estudos sobre o uso da internet pelos mais novos.

A psicóloga e investigadora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa diz que muitas vezes os receios digitais dos pais são exagerados, mas acredita que há uma explicação histórica para isso. E está mais preocupada com a falta de esperança da juventude que já não se lembra do antes da crise do que com as novas tecnologias.

Nesta geração de jovens nascidos na era do digital ainda faz sentido perguntar se passam muito tempo à frente do computador?

A internet veio para ficar. Não vale a pena pensar que vai passar, que é evitável. Em poucos anos a forma como encaramos este fenómeno já mudou. Hoje em dia nos inquéritos já não perguntamos quanto tempo os miúdos estão sentados à frente do computador porque já ninguém está apenas sentado à frente do computador, estão no telemóvel ou deitados com o tablet.

E miúdos que estejam sempre deitados com o tablet estão viciados?

Isso é outro aspecto que importa esclarecer. A dependência tem critérios que não são apenas usar nem usar de mais. Ser dependente é viver em função de. E o que temos concluído é que não há assim tantos jovens com sinais de dependência da internet: há uma percentagem de uso mais problemático na casa dos 3% a 4%, como sempre aconteceu.

É pior que seja no telemóvel ou noutra coisa qualquer?  Mas não estão a sacrificar nada? Concluímos que não deixam de fazer grande coisa. Eu quando andava no liceu chegava a casa e telefonava às minhas amigas para conversar. Eles agora ligam-se ao Facebook mas em geral é para fazer o mesmo: falar com os amigos da escola. Há uma questão que mete muito medo aos pais que é haver predadores à procura dos miúdos na net. Com certeza que existem e é preocupante, mas em geral os miúdos são consumidores exigentes e informados e não andam a falar com estranhos. Mesmo miúdos que parecem mais viciados naqueles jogos multiplayer, como o “World of Warcraft”, dizem uns tempos mais tarde que foi passageiro.

Enquanto não passa não almoçam, faltam às aulas…

Certo, mas um dia fartam-se. Não era uma verdadeira dependência. Do ponto de vista psicopatológico a dependência tem a ver com alguns tipos de personalidade e nem toda a gente tem propensão para isso. Os pais, mais que catastrofizarem a internet, devem monitorizar os jovens e acompanhá-los.

Quais são os sinais de alarme?

É estar enfiado no quarto, saltar refeições, não querer falar com ninguém, mas não se durar uma semana ou duas. Percebo que quando há uma semana disto o pai fica preocupado mas é preciso perceber se é uma dinâmica circunstancial ou algo estrutural e invasivo.

Concluem, contudo, que mais de metade dos jovens não dormem o que deviam, também graças à internet.

Sempre dormiram pouco. Antes do computador ouviam música, liam. É normal que o adolescente quando se fecha no quarto esteja a criar uma identidade e um espaço que o ocupa. Se calhar, se antes o fazia mais sozinho, agora tem mais amigos através das redes sociais.

Há uma nova publicidade que diz que os telemóveis e as redes sociais podem estar a conspirar contra a amizade real. Não tem essa visão pessimista?

Não tenho. Os jovens têm-nos convidado a reflectir sobre essa crença e de facto eles na net falam com os amigos que conhecem. Na maioria dos casos não há amigos virtuais e amigos reais.

O conceito de amizade não mudou então com os “amigos” do Facebook?

Não me parece, há é mais contacto. Em vez de falarem ao telefone e escreverem bilhetinhos, podem estar sempre em contacto. Até se podem estar a fortalecer os laços e miúdos que moram em zonas mais isoladas têm maior facilidade em estar em contacto. E se antigamente a família tendia a menosprezar a importância do contacto com os amigos, agora eles conseguem ultrapassar isso.

Quanto mais estuda os nascidos digitais, menos preocupada está?

Não estou preocupada. A internet não está a viciar mais que outras coisas que viciavam no passado. É evidente que se pode dizer que é mais acessível mas não acredito nessa visão pessimista. Miúdos com muitos problemas não são o país, são um grupo minoritário.

De onde vem essa demonização? Da desconfiança crónica dos mais velhos em relação aos hábitos dos mais novos?

Por um lado é isso. Por outro estamos numa altura histórica, em que os pais que ensinavam os filhos a fazer coisas nesta questão das tecnologias não conseguem. E os próprios pais perdem de certa forma o crédito que tinham junto dos filhos – os miúdos não pensam neles para pedir ajuda.

Os pais sentem-se ainda menos presentes na vida dos adolescentes?

Sim, creio que é muito isso.

O que será passageiro, não? Os pais de hoje já serão quase “nascidos digitais”.

Sim, mas atenção: isso pode ser verdade para si e para mim, que sou bastante mais velha mas utilizo muito a internet, mas não é verdade para toda a gente. Hoje em dia 99% dos miúdos têm acesso até através de programas como o Magalhães, mas ainda há pais de filhos adolescentes só com o primeiro ciclo, pessoas que mal sabem ler e escrever. A internet foi um grande desafio à parentalidade: é a primeira vez que os pais são incompetentes numa das coisas mais importantes na vida dos filhos. Deve ter acontecido o mesmo quando apareceu a roda.

Qual é a expressão do ciberbullying em Portugal?

Os jovens que dizem que são alvo de ciberbullying são 16% do total e apenas uma minoria, na ordem dos 2%, diz ter tido consequências que não conseguiu ultrapassar. Uma vez mais, não digo que não é importante, mas não é um problema de saúde pública. Sinceramente, vejo com muito mais preocupação e frequência miúdos que se sentem humilhados porque os pais usaram as suas passwords para entrar nas suas contas e ver o que escrevem e com quem falam.

Isso gera mais sofrimento?

Os miúdos sentem-se ofendidíssimos. Às vezes escrevem coisas que nem diriam a eles próprio, quase como num diário. E os pais, com a ajuda de um irmão mais velho, vão lá, lêem e confrontam-nos.

Por ser a internet, os pais desvalorizam mais a privacidade dos jovens?

Acho que sempre houve essa tendência e os miúdos sempre tentaram esconder a chave do diário e o que escreviam dos pais. Um adolescente quando está a crescer tende a reservar a sua intimidade. Os pais têm de estar perto, têm de os monitorizar e dialogar, mas tem de haver um espaço onde não entram pois isso é mau para o desenvolvimento.

Os pais por vezes queixam-se de que os filhos não querem ser amigos deles no Facebook. O que diz? 

Os filhos têm direito a não ser amigos dos pais no Facebook. Os pais não existem para ser amigos dos filhos, existem para ser pais. Não são melhores porque se vestem como os filhos, vão aos sítios deles e lidam com os amigos deles como se fizessem parte do grupo. O que acontece quando os pais aborrecem os miúdos para serem amigos é eles acabarem por criar outro perfil onde possam ser eles próprios. Dito isto, acho que antigamente ainda era pior. Hoje vejo os miúdos mais próximos dos adultos, mas aquela coisa de andar sempre em cima do filho nunca foi boa.

Os receios dos pais são exagerados?

É isso que nos dizem os jovens quando respondem que sabem bloquear, que escolhem com quem falam e que não se sentem mal. Hoje os miúdos aprendem isto tudo na escola. No estudo de 2010 houve uma subida no uso na internet mas em 2014 estagnou. Há uma maior utilização de dispositivos mais integrados mas os miúdos não estão a passar mais tempo na net. Claro que há riscos: há o sedentarismo, problemas nos olhos e activação muito rápida a nível cerebral por causa da luminosidade dos ecrãs que pode alterar o limiar de excitabilidade e fazer com que tenham menos interesse noutras coisas.

Qual é o tempo de ecrã seguro?

Fizemos um estudo sobre qualidade de vida e concluímos que os jovens que passam mais de quatro horas à frente do ecrã têm mais problemas mas os que não têm acesso também – percebem a sua vida com menos qualidade e sentem-se menos bem consigo. O que acho importante é que os pais expliquem os riscos numa conversa mas não no meio de uma discussão e que não imponham regras só para os pôr de castigo. A partir dos 12 anos um adolescente consegue cognitivamente perceber porque é que se estiver com o telemóvel na cama vai ter maior irritabilidade e uma pior qualidade de sono. E os jovens gostam de seguir regras desde que percebam a lógica e não lhes pareça que é só para os controlar.

É o problema de muitos pais: quando faz sentido dar o primeiro telefone ou tablet? 

Uma criança com dois anos agarra num tablet e consegue mexer naquilo mas por definição nestas idades os brinquedos acabados têm uma utilização muito curta – os miúdos desinteressam-se. Deve dar-se quando têm responsabilidade. Agora não vejo mal em começarem a usar os equipamentos dos pais mais cedo, até com dois ou três anos. Se gostam e há ferramentas que permitem trabalhar a atenção, a habilidade ou a identificação de padrões, porque não havemos de aproveitar? Tem é de haver regras: se gosta, joga um jogo. Acaba e vai fazer outra coisa. Agora o que acontece muitas vezes é os pais aproveitam que estão acabar alguma coisa e eles ficam ali jogo atrás de jogo e isso é que não pode ser.

Mas o que vemos são famílias todas de tablets e telefones na mão à mesa do restaurante e entre jovens o mesmo.

Sim, mas há pior. Estive na Coreia e lá é que não encontra ninguém que não esteja com auscultadores e telefone na mão.

E isso faz sentido?

Assim nunca tinha visto e fez-me um bocado de impressão, mas é um choque como noutras culturas ver as pessoas com os narizes furados.

Se isso for o futuro, admite que possa ser uma evolução positiva?

É uma evolução histórica e temos de esperar para ver os resultados. O que penso hoje é que se agora tenho uma pessoa ao meu lado mas tenho um dispositivo e estou a escrever a outra, o que acontecia antes? Se calhar as pessoas estavam caladas.

Estariam?

Já viu nos pequenos-almoços nos hotéis a quantidade de casais que entram, comem e não trocam uma palavra?! Agora há aqueles cartazes nos cafés que dizem “não temos net, falem uns com os outros”. Se as pessoas quiserem falar umas com as outras não estão agarradas ao telemóvel e se estão é porque se calhar querem falar com outras pessoas. Pode ser uma forma de estarem mais satisfeitas.

Sempre teve essa visão tão optimista?

No início achei que era algo que iria usar pouco. E depois veio a euforia. Lembro–me de pensar, quando fizemos o primeiro estudo, em 2006, que nada do que se estava a passar era normal. Tinha aparecido o jogo “World of Warcraft”, a Ségolène Royal tinha feito campanha no “Second Life” e tinha ido a uma conferência em Palermo em que os colegas estavam a abrir consultórios online. As coisas acabaram por não se extremar tanto como se imaginou. É engraçado: perguntámos aos miúdos no inquérito de 2014 o que tinha mudado para melhor nos últimos anos e dizem que agora conversam mais. Não estou a defender a crise e a austeridade mas estávamos a entrar num pico de consumismo e isso abrandou, o que se calhar explica o resto.

Estuda esta área há 30 anos: os jovens e as crianças já foram mais felizes?

O relatório internacional sobre jovens que saiu recentemente mostra que de 2002 a 2010 a população europeia ficou mais saudável: há menos consumo de álcool e a obesidade não continuou a aumentar. Deram-lhe até o título “Jovens mais saudáveis e mais felizes”.

Mas no inquérito de 2014 em Portugal concluíram que mais de 50% dos jovens se sentem tristes.

Era o que ia dizer. O que comentário que faço é que, em Portugal os dados mais recentes é que menos saudáveis ainda não estão, mas os jovens portugueses estão tristes como não estavam desde 2002.

Porquê?

Vamos passar este ano a discutir isto mas queixam-se de falta de expectativas.

A desesperança que tanto foi diagnosticada nos adultos?

Até pode ser pior. Os miúdos que têm agora 14 e 15 anos só se lembram da recessão. Não sabem o que foi o pós-modernismo ou o excesso dos irmãos cinco anos mais velhos. Cresceram a ouvir dizer que em Portugal não há lugar para eles, não há emprego. Estão numa desesperança enorme e isso assusta-me porque sem esperança não se cresce.

Esse estudo de 2014 revelou que um quinto dos jovens do 8.o e 10.o já se automutilaram. A percentagem impressionou-a?

Impressionou. Na clínica estamos a habituados a ver o comportamento autolesivo em reclusos e raparigas com bulimia, mas não estava habituada a ver isso no cidadão comum. Fizemos a pergunta pela primeira vez no inquérito de 2010 pela ligação que tenho a uma equipa em Itália, que tinha apurado uma incidência de 17%. Achava que teríamos 3% ou 4%, a percentagem normal para um assunto mais grave. Quando saiu 16% e em 2014 subiu para 20% comecei a pensar que não é de facto normal. Não vejo isto como patologia única mas como incapacidade de lidar com a frustração.

Mas estará ligado à crise?

Não me parece. Creio que está mais ligado à pressão que existe sobre os jovens em termos de resultados, de imagem.

Não será também pela visibilidade dessas agressões em séries e na net?

Acho que tem mais a ver com o facto de os jovens não serem ensinados a lidar com as más emoções. Claro que há internet ligada a alguns destes comportamentos, como acontece nas anorexias, mas irem cortar-se ou vomitar juntos em sites são fenómenos raríssimos.

E como é que isso se resolve?

Até há dois ou três anos havia as áreas curriculares não disciplinares em que algumas escolas promoviam competências psicossociais e os miúdos tinham um adulto de referência – o professor ou coordenador para a saúde – que os ajudava e podia dizer que essa questão da autolesão é uma estratégia para regular a ansiedade que não resulta. É como a bebida, resulta num segundo e no segundo depois está-se pior. Em vez de se ter reforçado isso, desinvestiu-se…

Que efeito da recessão nos jovens a deixou mais impressionada?

Aumentou o número de jovens que dizem que vão para a cama com fome porque não têm comida em casa. Não estava à espera de voltar a viver num país assim. Outra coisa é a percentagem de miúdos que dizem “sinto-me tão triste que às vezes penso que não aguento”, que também aumentou. E de facto foi isso que me fez reportar internacionalmente que ainda estamos mais saudáveis mas já não estamos mais felizes.

“Ainda”… 

Sim, os efeitos em termos de saúde nunca são a curto prazo. Se a conjuntura não muda, podemos ter um retrocesso nos indicadores e tenho imensa pena: tínhamos resultados muito bons quando comparados com a Europa.

A subida da idade para beber para os 18 anos está na ordem do dia. Parece-lhe que isto era o assunto prioritário em relação aos jovens?

Se fosse governante, apostava forte e feio na saúde mental dos jovens e em conseguir trabalhar com eles no sentido de lhes dar uma esperança, competências de liderança e empreendedorismo. É isto que tenho de fazer na faculdade para que os meus alunos não se deprimam: explicar–lhes que isto é uma crise, é uma onda. Criar projectos que os envolvam, dar-lhes meios e recursos para investir.

Como vê a alteração na lei do álcool?

Os nossos estudos dizem-nos que desde 1992 o consumo de álcool não tem aumentado entre os jovens. Nos últimos dois estudos (2010 e 2014) tudo leva a crer que estamos com um padrão diferente, com um consumo mais de fim-de-semana e maior de bebidas destiladas. E com as medidas de prevenção, que entretanto estão a acabar, os jovens não estavam a beber mais mas os que já bebiam estavam pior, portanto estava-se a circunscrever o problema e havia um grupo mais desviante.

Faz sentido então proibir a cerveja aos 16 anos?

A proibição dos consumos em geral, lendo como dificuldade de acesso, é óbvio que ajuda e tem efeito a curto prazo. E além disso achava estranho uma lei que não permitia beber uma bebida branca mas deixava beber dois litros de cerveja. Agora, se isso não for acompanhado de alternativas, vão fazer o quê? Vão fumar charros, vão partir a rua, vão cortar-se? É preciso criar projectos que canalizem a energia dos jovens.

A propósito da queda da natalidade e da falta de protecção dos menores, com casos de violência fatais, tem-se dito que Portugal não é um país amigo das crianças. Concorda? Preocupo-me também com esses pais, pessoas perturbadas mas que devem servir de alerta. Tive um professor etólogo, Bracinha Vieira, que quando nos levava ao zoo a ver os macacos dizia que as mães nunca agridem os filhos sem ser em cativeiro. Pense nisso relacionado com a sociedade actual. Se nós não estivéssemos num cativeiro simbólico não agredíamos as nossas crias. Em que raio de gaiola estamos? É um problema de saúde mental gravíssimo que precisa de resposta.

A saúde mental é um calcanhar de Aquiles conhecido. A quebra de natalidade está a tornar-se outro.

Não concordo que se diga que não somos um país amigo das crianças, não temos é uma política amiga das crianças. O país não considera ter cidadãos novos um investimento nacional. Há uma comissão para estudar quando todos sabemos quais são os problemas. Não há condições, as creches custam uma fortuna.

Se fosse governante, que solução implementava?

É uma mudança de abordagem. Os noruegueses nos anos 90 tiveram uma grande quebra de natalidade e implementaram medidas consistentes. Uma mãe é considerada trabalhadora a tempo inteiro. Pode entrar em qualquer sítio para mudar uma fralda ou aquecer o biberão. Tem de haver investimento. E o mesmo acontece com as comissões de protecção de menores, com défice de técnicos. O que hão-de fazer? Tem de haver investimento e compromisso político e em tempo de crise é preciso perceber o que se corta.

O psiquiatra José Gameiro dizia há dias que não percebia como em crise não se tinham reforçado as comissões de protecção de menores e a prevenção. Isso também a surpreendeu?  

Sim, o Estado social tinha de estar em toda a sua pujança. Agora recuperar este país é obra, as sequelas não passam com a crise. Mesmo as medidas para protecção de emprego tinham de ser muito mais. O impacto de um pai desempregado sentado num sofá em casa é enorme, e não só no dinheiro que não entra. Os filhos preocupam-se, os pais ficam envergonhados.

Em ano de eleições está optimista com o futuro ou ainda não viu solução?

Não vi. E se ao menos se tivesse trabalhado na coesão social as pessoas estavam desiludidas mas juntas. Esta aposta na clivagem social, dos mais novos contra os mais velhos, público contra privado, homens contra mulheres, é muito prejudicial.

Poderia ter sido de outra forma?

Se tivesse a resposta não estaria aqui mas a dar palestras por todo o lado. Não sei. Ao longo de todo o processo da crise houve várias coisas que me afligiram do ponto de vista técnico. Não sou especialmente partidarizada, mas senti que os especialistas não foram suficientemente ouvidos na escolha das prioridades e dos cortes, para que não se ficasse com um problema maior.

Nunca foi ouvida?

Não, mas repare, quando se fala da crise e de défices, um cidadão comum não consegue dar solução. Eu diria que não se pode cortar o futuro aos jovens. Uma pessoa mais velha tem o passado inteiro para lembrar, os jovens não. Quando visito uma escola e os miúdos dizem todos que vão para cozinheiros e línguas para emigrar… não queria viver num país assim. Pergunto-me se não teria valido a pena termos tido direito a vetar uma coisa por dia.

Faltou o quê ao governo, estar na rua?

Não podem estar em todo o lado mas há ali qualquer coisa que não funcionou e não foi só a crise.

A professora tem filhos? Com tudo o que tem aprendido acerca dos jovens, teria feito alguma coisa diferente?

Tenho filhos e netos já. Isso teria de lhes perguntar a eles mas acho que correu bem. É evidente que me lembro de ter feito uma licenciatura grávida, e isto é muito difícil de conciliar, mas temos de ter tempo de qualidade com os filhos e procurei sempre fazer isso. E hoje com as novas tecnologias é mais fácil. Quando o meu neto mais novo nasceu eu estava na América do Sul de sabática e tive pena de perder cinco meses do bebé. Pensei que ele se ia esquecer de mim mas como falávamos todos os dias pelo Skype quando cheguei reconheceu-me. Mais uma vez não estou deslumbrada com isto e há riscos, mas há muitas coisas boas nas novas tecnologias.

Um conselho para pais e filhos felizes?

Os pais não têm de se responsabilizar por todas as coisas que acontecem aos filhos mas têm de se habituar a ouvi-los desde novos e a assumir que não têm as soluções todas. Às vezes quando estamos a tentar resolver tudo perdemos a capacidade de os ouvir e soluções eles têm – às vezes querem é uma validação e partilhar. Acho que devíamos falar muito menos e ouvir muito mais.

 

 

 

 

Workshop “Ser professor: como construir uma boa relação com os alunos”

Abril 29, 2015 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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http://www.cadin.net/ser-professor/


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