Eduardo Sá “Devia ser proibido aprender a ler e escrever no jardim-de-infância”

Abril 11, 2015 às 10:37 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do i  a Eduardo Sá no dia 6 de abril de 2015.

Ana Brígida

Ana Brígida

 

Por Marta F. Reis

É psicólogo clínico, psicanalista e professor de Psicologia Clínica. As crianças são o lado mais visível do seu percurso profissional que, contudo, não aconteceu por vocação, mas porque começou a trabalhar com crianças autistas. Eduardo Sá está convencido

É um dos psicólogos mais conceituados do país e abriu-nos as portas do seu consultório em Lisboa para uma conversa sobre a vida, os filhos, os pais e o futuro do país que, na sua opinião, passa por uma mudança radical na escola e um pacto de regime para resolver a crise de natalidade, mas também políticas mais responsáveis. Aos 52 anos, Eduardo Sá admite que ser mediático foi um acidente, mas que gosta de se sentir útil. Nada lhe enche mais as medidas que o amor.

Li que o Peter Pan é a sua história preferida, que gosta de pensar que nunca deixou de ser criança.

Às vezes tenho medo das coisas que digo e de ser demasiado literalizado quando a ideia não é essa. Eu não tenho a ideia de que a infância é o momento mais importante da vida e muito menos acho que seja pintada em tons de azul-bebé e rosa. Não tenho nada essa ideia. É mais porque acho que as pessoas se estragam de uma forma inquietante à medida que crescem.

 O que acontece?

Vamo-nos reprimindo e censurando. Temos os vícios de uma educação judaico-cristã que, em muitos aspectos, foi uma mais–valia para a humanidade, mas noutros talvez não seja. De repente ficamos com a noção de que, se nos soltarmos muito, podemos ficar perigosos, o que é mentira.

Como foi a sua infância?

Cresci em Leiria, com uma família muito alargada. Pela minha casa circulavam muitas pessoas. Tenho duas irmãs, mas era uma casa sempre cheia de primos.

 Numa cidade mais pequena, nesses anos 60, com o que é que sonhava?

Não tive logo o privilégio de ter uma televisão e lembro-me das tardes infantis e dos folhetins radiofónicos que nos convidavam a ser audiovisuais, a criar as personagens. Foi uma infância de grande criatividade e que atravessou esta fabulosa transformação da sociedade.

O amor atrapalhou os estudos ou só veio mais tarde?

Devia ter atrapalhado mais. Eu nunca me dei muito mal na escola, era bom aluno, mas tive de aprender a gostar. Tive alguns professores que guardo religiosamente na memória, mas devia ter tido muito mais professores daqueles mágicos, que nos viram do avesso. Ainda assim, não era um rebelde encartado.

Era um betinho?

Também não, mas era certinho. Embora jogasse râguebi. Era popular.

 Sempre quis ser psicólogo?

O meu primo Oliveira e Sá era director do serviço de Medicina Legal em Coimbra e foi sempre um homem muito influente na minha vida, assim como o meu pai. Ele gostava que eu fosse para medicina legal e, como eu tinha boas notas, lá em casa a ideia da medicina era uma coisa muito acarinhada.

 Acarinhada ou forçada?

Acarinhada. Na altura não havia 12.o ano, era o chamado ano propedêutico, e tínhamos um prazo-limite em que podíamos mudar de opção. E foi só no último dia que às 17h menos dez, eu fui alterar a minha opção de Medicina para Psicologia. Isto porquê? Apesar dessa ideia da medicina, tinha uma professora de Psicologia muito importante para mim que me fez seguir outro caminho. Eu achava fantástico tudo o que era vida mental e, de repente, tinha uma mulher à minha frente que, de forma apaixonada, falava disso tudo.

 Teve alguma paixoneta pela professora?

Não, de todo. Era fascinante a forma como ela falava daquilo, como se envolvia. Sentia que finalmente via respostas para os muitos enigmas que eu tinha coleccionado na adolescência.

Então, apesar de popular, era um rapaz introspectivo. 

Sim, muito. Nessa altura era muito intimista, escrevia poesia. E, portanto, à última hora decidi mudar.

 E o pai não se chateou? 

Um dia, no máximo, mas também percebeu que aquilo era tão forte para mim que não criou obstáculos. Se tivessem, não sei se teria tido força para lutar contra isso, pelo respeito que lhes tinha. Mas não aconteceu. Às vezes é isso que acontece.

 A vocação para o trabalho com crianças e jovens foi imediata?

Não é uma vocação. Fiz um curso absolutamente normal e depois, na parte clínica, tive a sorte de ter um professor que me direccionou para o trabalho com crianças muito perturbadas, com autismo grave. E aí tive o meu primeiro grande desafio: para quem achava que tinha estudado os grandes autores da psicanálise, de repente via-me com crianças que não falavam bem a minha linguagem e em relação às quais tinha de mudar completamente a forma de comunicar. E tinha de fazer uma coisa, na altura, muito difícil. As crianças lêem-nos os olhos e sentem-nos muito bem.

Mesmo essas crianças?

Mais ainda que quaisquer outras. E, portanto, não fazia muito sentido eu estar envolvido naquela leitura tão aparentemente complexa quando me faltava tudo para fazer a quadratura do círculo.

 Foi um banho de realidade?

Sem dúvida, foi a melhor escola que podia ter. Ajudou-me a perceber que, às vezes, quando somos formados para sermos psicoterapeutas, ensinam-nos a ser um bocadinho falsos e, quando trabalhamos com crianças, ou somos transparentes e autênticos, ou aquilo que os nossos olhos dizem condiz com as nossas palavras, ou então perdemo-las.

Nessa vertente mais pública do seu trabalho apostou na informação sobre parentalidade. Ser pai é uma tarefa difícil?

Tenho medo de dizer que é difícil, porque isso é quase sinónimo de dizer que é feita de uma aragem muito fria. A minha resposta é que tudo é muito difícil porque tudo é muito complexo e, depois, depende da nossa inteligência e das parcerias que estabelecemos para tornar o complexo simples. Evidentemente que não é fácil ser pai.

 E nunca estamos preparados?

Acho que nunca estamos preparados para coisa nenhuma porque a vida tem essa capacidade imprevisível. Mas isso não é mau, torna-nos atentos. Tenho medo até dos pais que querem preparar-se tão bem que, de repente, perdem a hipótese de aproveitar tudo o que é equipamento-base: o sexto sentido e uma capacidade absolutamente comovente de criar laços.

 Tem quatro filhos. São parecidos consigo?

A mais velha tem 28 anos e o mais novo tem 19. Os meus dois filhos mais velhos são meus colegas. E houve uma altura que fiquei um bocado inquieto com isso.

Com a hipótese de terem sofrido alguma lavagem cerebral?

Não, disso tenho a certeza que não. Preocupavam-me duas coisas: que o quisessem ser exclusivamente porque eu o era ou que não quisessem ser só porque eu era, como se eu fosse um obstáculo a um sonho que pudessem ter. Eles insistiram e foram por aí mas, com eles, sou sobretudo pai, não andamos a discutir questões técnicas.

 E os mais novos?

Os mais novos estão os dois a estudar Gestão. Confesso que foi um alívio.

Qual foi o maior erro ou disparate que fez com um filho seu? 

Cometi tantos erros que tenho dificuldade em dizer. Mas há um que até foi divertido. Tive um professor que um dia me chamou e disse: vais ser professor, vais ter alunos mais velhos que tu e, por isso, vou ensinar-te um truque infalível para quando te fizerem uma pergunta a que não saibas responder. Então o truque era o seguinte: quando houver uma pergunta dessas, não deveria olhar bem para o aluno, mas em direcção ao absoluto, levantar a sobrancelha, fazer uma ligeira pausa e dizer com um ar muito sério: “Ora aí está uma boa pergunta.” E o aluno ficaria tão vaidoso que se ia esquecer.

 E se se lembrasse?

Perguntei-lhe e ele respondeu: com a mesma postura, tinha de perguntar ao aluno o que é que ele achava e depois dizer: “Está a ver como sabia?”

 E fez isso com um filho?

Um dia andava a passear com a minha filha e ela olhou para o céu e perguntou o que é que a lua estava ali a fazer. Esqueci-me que era minha filha e disse: “Boa pergunta.” A função dos nossos filhos é obrigarem-nos a continuar a crescer, mas esqueci-me disso. Ela insistiu, eu perguntei-lhe o que é que ela achava e ela disse que a lua estava no céu a fazer estrelas. Achei uma solução fantástica mas, se me tivesse armado em pai, podíamos ter discutido os dois, chegado a uma solução, é isso que os pais devem fazer.

 E o que mais o orgulha?

Adoro ser pai, tenho dificuldade em escolher. E acho o máximo chegar ao fim-de–semana e estarmos todos por ali.

 Vivem todos consigo?

Não, mas ao fim-de-semana estamos juntos. Não é só encontrarmo-nos, os programas são fascinantes, desde os mais exóticos a estarmos todos juntos a sofrer pelo Benfica.

 Pensamos sempre que não vamos fazer as mesmas coisas que os nossos pais. É mentira?

Tenho muito medo daqueles pais que têm a ideia de que criam uma família do zero. Muitas vezes estão tão presos à sua experiência que não sentem os filhos, não os conhecem e parecem estar sempre a fugir das experiências que os magoaram ou de maus exemplos. Faz lembrar uma porta giratória: tentando de tal forma escapar, acabam por ir dar ao mesmo sítio, ter as mesmas consequências.

 O que mais o incomoda nos pais que vêm ao consultório?

Os que vêm ao consultório não me incomodam assim tanto porque, se aparecem, é porque se põem em dúvida. Preocupa–me é aqueles pais que, em vez de quererem ter filhos, querem transformá-los numa espécie de troféus.

E há muito disso?

Acho que há. E também porque há cada vez menos crianças e, quanto mais a relação com a infância é diminuta, mais as pessoas sentem uma vertigem maior. Costumo dizer que só começamos a ser pais ao segundo filho; o primeiro é sempre uma criança em perigo. Mistura-se tudo: os pais que tivemos, os pais que desejávamos ter tido, os pais que desejávamos ser, os filhos que imaginamos construir. Preocupa-me que os pais transformem os filhos quase num projecto de carreira e que não lhes dêem espaço para crescerem como deve crescer, com regras mas com liberdade, com espaço para todos errarem.

Tem muitos casos em que os problemas dos jovens resultam dos pais?

Claro que os pais têm muita responsabilidade por muitas coisas, mas o importante é que, se pudermos ajudá-los e pudermos tornar as crianças mais simples e acessíveis, não tenho dúvidas de que são absolutamente fantásticos.

Que erros se cometem mais vezes nessa relação?

Acho que os pais falam de uma forma muito complicada. Acho uma ternura que, quando estão tensos um com outro, tenham aquele devaneio quase infantil de dizer que não discutem à frente das crianças, que elas nunca percebem que as coisas estão mal. Quando um pai e uma mãe estão zangados, só faltam terem luzinhas. Acho que, às vezes, falta transparência na maneira como se fala com as crianças. Não no sentido de as pôr ao nível dos pais…

O que acontece muitas vezes?

Sim, há esse reverso da medalha quando pai e mãe estão num campeonato diferente. Mas, às vezes, fala-se às crianças como se fossem mais ou menos débeis, quando elas são brilhantes na acutilância com que percebem as coisas.

 Temos filhos cada vez mais tarde. Perde-se ou ganha-se alguma coisa com isso?

Sendo pai mais tarde, tem-se mais experiência de vida, pelo que pode ser bom. Mas a experiência que se ganha sendo mãe ou pai – e quem sou eu para recomendar o que quer que seja – é tão completa que não merece ser adiada. Dito isto, é verdade que Portugal é um país estranho, muito pouco amigo das famílias. Nunca houve uma discussão verdadeiramente séria sobre isso e seria crucial.

Mais trabalhos a tempo parcial ou vantagens no IRS serão a solução?

Haverá muitos aspectos, mas o financeiro é crucial. Um filho custa muito dinheiro por dia. Às vezes, acho que as pessoas que têm responsabilidades políticas não são tão sérias como deviam ao falar destas coisas. Gostava que explicassem aos cidadãos como é possível ter dois ou três filhos entre os zero e os seis anos com os jardins-de-infância a custarem mais por mês do que uma universidade privada. A ideia de que educamos os nossos filhos nas lojas dos 300 é algo que as Finanças insistem em imaginar, mas que é um absurdo. E acho inacreditável que, de há muitas Presidências da República para cá, isto nunca tenha sido um compromisso de regime.

 Além das dificuldades materiais, ouvimos muitas vezes o desabafo: para quê pôr uma criança neste mundo? Como o vê?

Acho que é um bocado vaidoso. Quando olhamos para trás e pensamos nos nossos antepassados, acho que o mundo em que vivemos fica mais fácil. Apesar de tudo, acredito que o mundo tem crescido para melhor e parece-me completamente disparatado só pensar no mal. Se formos menos vaidosos e gananciosos, percebemos que, todos juntos, fazemos melhor muitas coisas que têm, por vezes, um mau uso e podem ser usadas em proveito de todos.

 Entretanto, e enquanto se aguardam mais medidas, a ministra das Finanças mandou os jovens multiplicarem-se. Que solução vê para esta crise de natalidade?

Acho que o primeiro passo seria aumentar significativamente o vencimento de quem tem cargos políticos e começar a eleger pessoas que assumam responsabilidades e não tenham observações infelizes como essa. Acho que a política tem de ser reabilitada e temos de discutir o que queremos do mundo, das pessoas, do futuro, e isso é um debate de convicções urgente.

 E não tendo começado na política partidária, sente-o entre as pessoas?

Sem dúvida. E acho importante que existam novos movimentos. Só acho inquietante que se fique pelo “podemos” quando podíamos ir ao “queremos”.

 Segue esses movimentos com atenção?

Sim. Acho que são interpelações muito sérias aos partidos políticos e a uma certa distracção incompreensível que foram tendo em relação às questões fundamentais, tanto à esquerda como à direita. Acho que foram cedendo com uma facilidade inquietante ao populismo e esqueceram–se de que as pessoas não são o que alguns programadores de televisão imaginam, que consomem sobretudo filmes de série B e “Casa dos Segredos”.

 A escola tem estado em convulsão nos últimos anos e, mais recentemente, houve este apelo para eliminar os chumbos. Que diagnóstico faz? 

Costumo dizer que acho que a escola devia fechar para balanço e abrir com nova gerência.

O que está mal? 

Há muitas coisas que estão mal e os ministros também, às vezes. Não temos nada mais importante que a escola. Se o mundo, em particular este lado ocidental, mudou alguma coisa nos últimos séculos, foi sempre de dentro para fora da escola. Não tenho dúvidas de que é a invenção mais bonita da humanidade. Tornar o ensino obrigatório foi a verdadeira revolução tranquila de que temos a obrigação de nos orgulhar. Tenho medo que o ensino público fique demasiado constipado e que, de repente, uma revolução como esta se esteja a transfigurar.

 Com que impacto?

Além dos impactos individuais, não podemos esquecer que a escola é a forma mais simples de democratizarmos o mundo, é a forma de, a priori, seja qual for a porta de entrada, as pessoas crescerem em função das suas competências e não tanto em função dos seus apelidos e da sua classe social. Pode ser a verdadeira entidade reguladora da vida.

O que devia mudar?

Tantas coisas… Acho uma patetice separar o ensino obrigatório da educação infantil, que devia ser tendencialmente gratuita e para todos. Devia ser proibido ensinar a ler e escrever nos jardins-de-infância. De repente, estamos a espatifar um recurso fundamental: não é pelo facto de as crianças serem bons macacos de imitação que aprendem a pensar e, ao ensinar escrita e leitura aos quatro anos, estamos a impedi-las de ter essa experiência profunda na idade certa. Acho que devia ser proibido haver turmas de primeiro e turmas de segundo nível e ser possível haver escolas só de raparigas e só rapazes.

Mas sempre houve.

Não faz sentido porque, se existe uma ideia da educação, é a de integrar. Acho que, se queremos acarinhar o sucesso educativo, devíamos acabar com aulas expositivas de 90 minutos e recreios de 10 minutos, quando brincar devia ser património da humanidade. A escola teima em estragar a criatividade das crianças. É incompreensível que tenhamos Matemática e Português como disciplinas de primeira e Educação Musical, Visual e Física como disciplinas de segunda. Acho que as crianças têm cada vez mais tempo de má escola e, quando dizia “parar para balanço”, é no sentido de termos de pensar nisto com seriedade – pais, professores e quem decide as políticas. Neste momento, o que estamos a fazer é transformar as crianças pequeninas em burocratas de fralda, depois tecnocratas de mochila e depois acabam todos mestres aos 23 anos, como se fosse possível.

 Os seus filhos andaram na escola pública ou na privada?

Foi sempre na escola pública até eu me ter zangado, depois de um incidente infelicíssimo com o meu filho Pedro, mais novo.

 Um incidente académico?

Era um professor que invariavelmente lhes chamava estúpidos nas aulas. Eu fui ter com a directora de turma e pedi delicadamente para trazer algum comedimento àquele professor porque, se o meu filho chamasse uma vez que fosse estúpido a um professor, eu acharia muito grave. A directora deu-me a única resposta que nunca aceitaria: não deve levar tão a sério aquilo que as crianças dizem porque elas inventam muitas coisas.

 Percebe os pais que põem os filhos na escola privada?

Receio que, às vezes, os pais o vejam como a única solução quando a escola pública sofre, de facto, de carências inacreditáveis. Quando falamos do preço do aluno por ano, esquecemo-nos de que a escola pública é o sítio mais inclusivo do mundo, e isso acresce os custos, que não podem ser iludidos por quem têm responsabilidades. Agora, é preciso combater a ideia de que as escolas são tanto melhores quanto mais exclusivas forem. E é isso que está a pegar. Temos cada vez mais jardins-de-infância em Lisboa que, em vez de terem muitos meninos, têm seis ou dez. E fico escandalizado quando conheço colégios católicos que convidam as crianças a sair para não enviesarem os rankings.

 A pluralidade é uma vantagem no ensino?

Sim. Todas as crianças têm necessidades educativas especiais, mesmo quando têm boas notas. Podem ter óptima nota a Português e a Matemática, mas não se safam à baliza nem a jogar à bola, falta-lhes confiança. E o nosso papel enquanto educadores é esticar todas essas potencialidades gigantes que as crianças têm e levá–las a aprender umas com as outras.

 Um tema que está na ordem do dia é a criação de uma lista de pedófilos a que os pais poderão aceder. Como vê esta ideia?

Não percebo a leveza com que se tem discutido os abusos de menores na sociedade portuguesa, o que começou na Casa Pia e continua hoje. É um atentado à vida de uma criança e merece respostas concretas, mas tenho muito receio desta ideia, de Estados voluntaristas, e que a certa altura haja milícias populares, casais de justiceiros.

 E conhecendo a natureza dos pais, é o mais provável?

Sim. Não acho nem sensato nem prudente, de todo.

 Tivemos três anos de resgate financeiro e caminhamos agora para eleições. Como é que olha para o país?

Para começar, sinto muito mal-estar quando vejo que foram suprimidos alguns e como isso liga com a forma como a história é mal ensinada às crianças. Só temos direito a ter futuro quando acarinhamos a história. Preocupa-me, depois, a voracidade com que, às vezes, se tenta conquistar o poder e como alguns políticos reconhecem que não se ganham eleições falando verdade.

 Ao ponto de se arreliar com períodos de campanha? 

Fico furioso.

 Mas vota ou engrossa a abstenção?

Voto sempre.

 Sabe em quem?

Sei. Sou um homem de esquerda.

Falou-se muito da marca da crise nos adultos, na desesperança. Nas crianças e jovens, que marca ficou?

Na psicologia, temos a ideia de que as crises são sempre oportunidades de crescimento, nós é que parece que diabolizamos sempre o que nos pode ajudar a crescer. O contrário da crise é um impasse. Se calhar, fui ficando mais preocupado com essa atmosfera de impasse e quase de euforia com que fomos crescendo durante muitos anos, como se, de repente, tudo tivesse um preço e não fosse preciso integridade, aquela fórmula infelicíssima, que se banalizou, de que o importante não é viver, é saber viver.

 Portanto, acreditou que a crise podia ser terapêutica? 

Acreditei que a crise pudesse obrigar os pais a fazer escolhas e que, nessas escolhas, pudessem ser mais claros nas convicções que têm, passando isso aos filhos. Preocupa-me que os pais que passaram dificuldades tenham saído muito mais azedos e muito pouco restaurados. E que isso passe para os miúdos que estão no 10.o e é como se estivessem na pré-reforma. Não acreditam nos sonhos.

 O que o faz mais feliz, além dos filhos e do Benfica?

Escrever histórias, ficção e não só. Interpelar pessoas desconhecidas, recriar, dá–me muito prazer.

 E que amor lhe sabe melhor neste momento: de pais, de filhos, da mulher?

Nisso, não há dúvidas: acho que o amor adulto é o topo-de-gama dos amores.

 

 

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