Crianças deprimidas. São cada vez mais e mais novas

Janeiro 9, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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artigo do i de 7 de janeiro de 2014.

Nicholas Monu  Getty Images

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Por Rosa Ramos

A crise, o desemprego dos pais, o stresse e a pressão de ser melhor são algumas das razões apontadas pelos especialistas para o aumento de casos. Cabe aos pais ajudar a ultrapassar

António nunca acreditou em depressões, muito menos em crianças. Por isso, quando o filho de 15 anos começou a trancar-se no quarto depois de a namorada o ter deixado, reagiu mal. Um mês depois, quando Bruno deixou de ir à escola e de aparecer nos treinos de futebol, António decidiu adoptar uma postura ainda mais agressiva. Sem resultados: o filho parecia não se importar com nada. Uma tarde, a seguir a uma discussão, Bruno tomou uma caixa inteira de comprimidos e acabou internado no hospital. A seguir foi-lhe diagnosticada uma depressão.

Há cada vez mais crianças e adolescentes deprimidos nos consultórios dos pedopsiquiatras e psicólogos infantis e nos hospitais. Além de estar a aumentar nestas faixas etárias, a depressão manifesta-se cada vez cedo. “Se há uns anos os primeiros sintomas começavam a surgir geralmente na pré-adolescência, hoje atingem crianças com três, quatro anos”, confirma a psicóloga infantil Rita Jonet.

A culpa, acreditam os especialistas com quem o i falou, é sobretudo do clima económico e das dificuldades que as famílias atravessam. “O desemprego e os problemas dos pais levam a quadros de depressão e ansiedade nos jovens e isso tem-se reflectido nas consultas, quer no consultório quer no hospital”, admite o psiquiatra Daniel Sampaio, que trabalha com adolescentes.

O presidente da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente sublinha que, mesmo sendo muito pequenas, as crianças apercebem-se dos dramas domésticos. “Há famílias em que pai e mãe estão desempregados e não têm dinheiro, sequer, para comprar os livros escolares”, exemplifica Bilhota Xavier. Rita Jonet acrescenta que os filhos são “esponjas” que absorvem o ambiente que encontram em casa: “Pais extremamente ansiosos, preocupados, pessimistas e angustiados em relação ao futuro passam esses estados de espírito para os filhos”.

O pediatra Mário Cordeiro avisa, por outro lado, que os pais – com determinadas conversas – contribuem para o mal-estar dos filhos: “Por vezes damos uma perspectiva da vida adulta muito negra, como se fosse um corredor da morte e houvesse um determinismo de impostos, corrupção e cortes, quando a vida de adulto tem preocupações, mas também momentos felizes e deve significar, para as crianças, ser mais livre e ter mais autonomia.”

Nem só a crise explica o aumento de casos de depressão na infância e na adolescência. Bilhota Xavier realça a “grande pressão” que é colocada em cima das crianças, desde cedo, para que sejam competitivas e obtenham bons resultados – na escola e nas actividades em que participam: “As famílias conhecem as dificuldades que existem no mercado de trabalho e os números do desemprego jovem. Por isso, muitos pais colocam demasiada pressão nos filhos para que consigam tirar médias mais altas e serem sempre os melhores, de maneira garantir um bom futuro”.

O stresse é, por outro lado, cada vez mais uma característica presente na vida das crianças. Alguns pais, sublinha Rita Jonet, exageram no número de actividades que proporcionam aos filhos. Por excesso de zelo e por desejarem que tenham uma vida boa. Entre ténis, aulas de ballet e de natação, as crianças são obrigadas a entrar numa correria diária, stressante e desenfreada, deixando de ter tempo para serem crianças. “Para estarem sozinhas e se auto-estimularem”. Além disso, falta silêncio na educação de hoje. “Entre a televisão e o tablet, os mais novos não aprendem a estar em silêncio. Habituam-se a receber constantemente estímulos exteriores e, quando não os recebem, sentem um vazio com o qual não conseguem lidar”, explica a psicóloga infantil. Os divórcios mal resolvidos e situações de violência doméstica – que as estatísticas mostram estar a aumentar – são outras causas apontadas pelos especialistas para o aumento das depressões em jovens e crianças. Em famílias estruturadas, e nos casos em que os pais até têm emprego, o problema é outro: a falta de tempo para estar, em pleno, com os filhos. “Sem ter a cabeça cheia de coisas que aconteceram no trabalho e ouvindo o que eles têm para dizer”, defende Rita Jonet. Daniel Sampaio sublinha que é um mito que os adolescentes não queiram falar com os pais. Por isso, ter tempo para a vida em família é fundamental.

O meu filho está deprimido? Há sinais a que os pais devem estar atentos. Na adolescência, a tristeza constante e prolongada não deve ser encarada com ligeireza. Sobretudo se for acompanhada por sinais somáticos – como excesso de peso ou magreza extrema, insónias, isolamento dos amigos e das amizades virtuais, ausência de comunicação, perda de interesse por actividades que antes eram importantes, desinteresse por tudo, quebra no rendimento escolar. E eventuais tentativas de suicídio nunca devem entendidas como meras chamadas de atenção. “Quando um adolescente fala em suicídio deve ser levado a sério”, avisa Daniel Sampaio.

No caso das crianças, é mais difícil descortinar os sintomas de depressão. “Porque cada criança reage à sua maneira e há até crianças que manifestam a depressão através da euforia e da alegria e actividade exageradas”, explica Rita Jonet. Umas podem deixar de comer, outras de brincar. Mas o principal sinal de alerta é sempre uma mudança brusca de comportamento. Independentemente das idades em causa, os pais devem procurar comunicar e compreender os filhos. Sem serem demasiado permissivos, mas sem adoptar um tom paternalista ou rígido. “A melhor maneira de ajudar é ouvir com atenção e, a partir daí, mostrar que é possível encontrar uma alternativa”, aconselha Daniel Sampaio.

Um ano depois da tentativa de suicídio, Bruno continua a ser seguido por um pedopsiquiatra e está a reaprender a gostar de viver. O pai, António, também teve de fazer um conjunto de aprendizagens: “Compreendi que a depressão é realmente uma doença. E hoje admito que talvez tenha sido demasiado duro com ele em alguns momentos. Não era só um coração partido”.

 

Ação de Informação/Sensibilização “A importância do acolhimento de crianças e jovens em risco, no desempenho escolar”, organizada pelo IAC – Fórum Construir Juntos

Janeiro 9, 2015 às 2:03 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Durante a manhã do dia 14 de janeiro irá decorrer, na Escola Secundária Jaime Cortesão, em Coimbra, a Ação de Informação/Sensibilização relativa ao tema “A importância do acolhimento de crianças e jovens em risco, no desempenho escolar”, organizada pelo IAC – Fórum Construir Juntos.

A sessão será dinamizada pelo Doutor João Pedro Gaspar, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e, atualmente, supervisor de equipas técnicas educativas em Lares de Infância e Juventude.

Com a realização deste momento formativo pretende-se identificar sinais e sintomas de crianças expostas a disfunções familiares; compreender a importância dos cuidadores nos processos de transição de crianças e jovens acolhidos e relacionar as estruturas familiares securizantes e estimulantes com fatores intrínsecos e extrínsecos da vivência institucional.

A ação destina-se aos técnicos das instituições parceiras da Rede Construir Juntos – Polo de Coimbra e às várias equipas dos diferentes Gabinetes de Apoio ao Aluno e à Família, apoiados pelo IAC-FCJ.

No período da tarde, será dinamizada a reunião anual das equipas dos diferentes GAAF, a norte de Leiria.

Esta reunião tem como principal objetivo, a partilha de boas práticas, bem como avaliar a intervenção das equipas, nos diferentes agrupamentos onde estão inseridas.

Inscrição até 12 de janeiro.

IAC – Fórum Construir Juntos – Coimbra

Rua Padre Manuel da Nóbrega, n.º38, 1.º

3000-320 Coimbra

Telefone: 239 821 280

Fax: 239 821 280

E-mail: iac-fcj@iacrianca.pt

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Workshop Mediação Escolar dinamizado por Melanie Tavares do IAC

Janeiro 9, 2015 às 1:30 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Dra. Melanie Tavares, Coordenadora da Mediação Escolar do Instituto de Apoio à Criança irá dinamizar o workshop sobre mediação escolar no auditório da Escola Básica e Secundária de Cabeceiras de Basto no dia 14 de janeiro de 2015.

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Educar não é difícil. É ter momentos terríveis – Mário Cordeiro

Janeiro 9, 2015 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Público a Mário Cordeiro no dia 4 de janeiro de 2014.

Enric Vives-Rubio

Enric Vives-Rubio

 

Anabela Mota Ribeiro e Enric Vives-Rubio

Mário Cordeiro, pai de cinco, avô de cinco. Não lhe digam que é um pai-avô. Habitualmente fala de papas e birras. Desta vez falou da sua infância, de ver os agapantos com o pai. Na badana do livro mais recente, dizem que é o pediatra em quem os portugueses mais confiam.

Escreveu peças de teatro, poesia, romance, escreveu de tudo. Fez “safaris fotográficos” por Lisboa como quem vai numa expedição. Tentou captar a natureza, a cidade, a luz, os ângulos. Revelava os rolos em casa. Fazia muitas coisas, tem talentos e interesses dispersos. Era mais ou menos inevitável que fosse médico e pediatra.

É filho de um médico pediatra que tem o mesmo nome e que se transformou numa referência da pediatria. Sobretudo, houve sempre crianças por perto. Foi tio aos dez anos, as irmãs montaram um infantário em casa, depois vieram os filhos e os netos.

É um pediatra de referência, autor da bíblia O Livro da Criança, um autor prolixo. Só na segunda metade de 2014 publicou Educar com Amor e Diário do André. No primeiro, fala sobre a tarefa hercúlea que é educar meninos felizes e equilibrados e abre cada capítulo com uma citação de Saint-Exupéry. No segundo, num tom diarístico, olha para a vida e o íntimo de um jovem institucionalizado.

Parece dizer a cada resposta a celebérrima citação d’O Principezinho: o essencial é invisível aos olhos. Quer dizer, está sempre à procura do âmago que importa.

A entrevista começou com uma hora de atraso porque foi preciso acudir a meninos doentes. Passou-se na hora de almoço. Não houve almoço. Saímos juntos do consultório e já no passeio explicou-me da vantagem que é fazer vida a pé. Vive a dois passos do espaço onde trabalha, as crianças andam numa escola logo ali. Uma vida simples. Tem 59 anos.

Fala no seu livro Educar com Amor da importância de nos sentirmos queridos. A palavra “querido” é muitas vezes usada como se fosse uma coisa esvaziada de sentido, mas é fundamental na construção de quem somos e da nossa auto-estima. O “meu querido”, quando dito com sinceridade, diz-se como se fosse um nome. Relacionado com o verbo, tem que ver com desejado. “Eu quero-te”. Essa sensação de ter sido querido ou de se ser querido — amado — é um dos factores protectores maiores que a pessoa pode ter. Ter uma recordação, mesmo que no inconsciente, de uma infância em que alguém nos quis; descobrir ao longo da vida, em gestos, nos símbolos, que se foi querido (até por pessoas que já morreram, pais, avós); pensar que a nossa família, o nosso bairro, o nosso grupo de amigos não teria sido igual sem nós é muito importante.

Dê-me uma recordação sua assim, como quem dá um tesouro. Vivíamos numa moradia no Restelo. Uma das coisas de que me lembro com mais gosto era sentir o carro do meu pai chegar. Às vezes, já estava escuro e eram dias chuvosos. Ele ia dar uma volta pelo jardim, apanhar uma rosa, podar umas coisas, tirar os caracóis dos agapantos, que comiam as folhas.

Esse passeio, fazia-o consigo? Sim. Era um passeio muito pequeno, um bocadinho. Era uma maneira de ele sentir: “Cheguei a casa, estou a ver as minhas roseiras, as árvores de fruto.” Tínhamos uma cumplicidade silenciosa. Julgo que nem falávamos. Ou ele falava para explicar. Era um homem curioso, cientificamente, e muito vasto na sua cultura.

Que idade é que o seu pai tinha quando faziam esses passeios pelo jardim? Ele tinha 43 quando eu nasci. Portanto, tinha quase 50 anos. Aos cinco, seis anos não podia organizar a importância que esse gesto teria para si. Tinha apenas a sensação prazenteira. Há coisas que não têm de ser verbalizadas, que não são taxativas, mas que insidiosamente ficam lá. Hoje temos a ideia de que tudo tem de ser dito, quase formalizado. Outro aspecto: uma atenção exclusiva, que parece durar a vida toda, e que cabe em 15 minutos. A minha costela epidemiologista não me deixa fazer comparações. Se hoje é melhor que antigamente. É comparar o incomparável. Estamos a falar de realidades diferentes. Mas há uma coisa que me preocupa na sociedade dita ocidental: a perda da intimidade. Não só a intimidade de um pequeno ecossistema familiar versus os sete mil milhões de habitantes do planeta. Revelar a intimidade ad nauseam, sem se saber muito bem porquê… É bom ter partes íntimas e apreciar os momentos pelos momentos. Quando era esse quarto de hora: chegava o Outono, fazia-se uma queimada de folhas. Para um miúdo, é sempre deslumbrante ver folhas a arder. Esta faceta pirómana… Os cuidados a ter, ver de onde o vento vinha, perceber se é dia para fazer isso ou não. Essa percepção das coisas, esses momentos, eram preciosos.

Os passeios eram só consigo. Era um tempo só seu numa família numerosa. Oito filhos. Tendo o meu pai uma vida tão sobrecarregada, não dava para estar uma hora com todos. Conseguia pequenos momentos, pequenos códigos, que uniam a família. Trabalhava no hospital de manhã, à tarde tinha consultório, vinha almoçar a casa. A minha mãe estava em casa. Fazíamos o possível, os meus irmãos e eu, para almoçar também em casa. A seguir ao almoço, escolhíamos um disco para ouvir. Discos de vinil, 33 rotações, os LP. Geralmente música clássica. Eu ou um dos meus irmãos é que éramos os eleitos para escolher o que íamos ouvir. Estas pequenas coisas (não ser ele a escolher) era um privilégio que ia dando. E transformava aquele bocadinho, que era muito pouco, em termos de tempo útil.

Como é que se consegue transformar uma coisa que parece banal (um almoço/um jantar em família), sobretudo na vida apressada que todos temos, num encontro mágico, pelo qual se anseia? É o espírito com que se vive as coisas. Essa figura central, que era ele, e a minha mãe, também, não sendo muito expansivos nas suas manifestações afectivas… Eu fui muito mais físico com os meus filhos do que o meu pai ou a minha mãe foram comigo. Havia o desejo de que estivéssemos lá. Não havia um carácter obrigatório. Não era um amor obrigado.

Transparece no que diz uma ausência de ansiedade. No fundo, estou a falar das doenças de que as pessoas mais se queixam. O medo do abandono, a sensação de desamparo. Eu tinha grandes ansiedades quando era criança e adolescente. Era de uma timidez — era e sou, quando se é, é-se a vida toda — exagerada. Ter sete irmãos mais velhos, e estamos a falar de seis irmãs, não é fácil. É-se passado a pente fino, a pente para piolhos. O meu irmão casou-se tinha eu nove anos. Fui tio aos dez anos.

O que é que era mais difícil, conquistar o seu espaço? O modelo infanto-juvenil da relação fraternal é de grande cumplicidade, mas também de muita picardia, de empurrões para ver quem chega à frente.

Digamos que é uma primeira grande amostra do que se passa cá fora. É. Os irmãos muitas vezes não passam uns sem os outros mas, a propósito de coisas mínimas, explode uma litigância.

Essa litigância tem sempre por objecto a atenção dos pais? Muitas vezes, sim.

Era um tímido exagerado — estava a dizer. O meu pai também era extremamente tímido. E o meu avô materno também. (Era um homem fascinante, escrevi um livro sobre ele. Morreu tinha eu oito anos. Veio no início do século XX para Portugal, para a metrópole. Chamava-se Júlio Gonçalves.) O gosto pelo show off sempre me arrepiou um bocado. Serviu para cultivar uma vida interior maior. Estava com os amigos nas férias e no fim-de-semana, em casa, estava muito sozinho. Gostava muito de brincar, de ler. Os ecrãs eram mínimos. Só tive televisão quando o homem foi à lua. O meu pai nunca controlou o que eu estudava, mas eu sentia que ele queria que estudasse.

Esperava que reproduzisse o percurso dele e quem ele era? De alguma forma. O meu pai veio da Índia com 14 anos num barco que levou não sei quantos meses a chegar. Veio pelo Cabo da Boa Esperança. Foi para casa de um tio jesuíta, o padre Valente Cordeiro, que era um homem genial do ponto de vista intelectual, mas de uma vivência espartana. O meu pai habituou-se a isso. Uma coisa que procurou transmitir: a noção de coerência, consistência, rigor. E gosto pelo trabalho.

A partir de coisas que disse, a casa, a forma de se tratarem, percebo que era um quadro burguês. Mas não havia espaço para o desperdício. Que relação tinham com o dinheiro? Não. O meu pai era asceta. Tudo o que fosse para promover a pessoa intelectualmente, nunca regateou. Tudo o que fosse extra, dizia: “Façam pela vida.” Uma vez fui pintar paredes para a International House para ganhar uns dinheiros. Passava coisas à máquina. Sou completamente desprendido em relação ao dinheiro. Sinto que sou uma pessoa afortunada relativamente à esmagadora maioria dos portugueses. Não vou agora armar-me em falso pobre, não vou ser hipócrita. Mas o dinheiro, para mim, serve para o nosso conforto. Não consigo compreender aquelas pessoas que quanto mais têm mais querem.

Aprendeu a ouvir outros muito diferentes de si. Estou a pensar especificamente no Diário do André, um livro que escreveu recentemente sobre um rapaz institucionalizado, filho de uma prostituta, com um quadro social e afectivo oposto àquele que teve. Essa aprendizagem, de foco e atenção ao outro, começou onde? Creio que vem de ser muito tímido. Tive outra intercorrência: cresci muito tarde. Tinha a senha do talho mais atrasada.

Pareceu uma criança até que idade? Quando entrei na universidade era minúsculo. Nem fazia a barba. Felizmente, para não me sentir completamente nas ruas da amargura, tinha o meu melhor amigo, Carlos Ruah. Ele também cresceu tarde. Fizemos o liceu todo juntos. Depois fomos para Medicina. Unha com carne. Depois, de repente, dei um salto.

O que é que o fez crescer? É uma coisa que se chama atraso constitucional de maturação. É uma variante normal. Assim como há raparigas que no 4.º ano já têm o período (10%), há rapazes que crescem mais tarde. Dentro do crescer mais tarde, há uns que começam aos 12, 13 anos, e há outros que começam aos 16.

Entram razões emocionais nesse processo? Não. Na Revolução Industrial, verificou-se que as crianças que trabalhavam nas minas e nas fábricas e as que iam à escola tinham diferentes tamanhos. Não tinha que ver com carências alimentares. Tinha que ver com carências afectivas e sobrecarga de trabalho. Veio descobrir-se que quando uma criança está afectivamente ou fisicamente esgotada há uma paragem da hormona do crescimento. Neste caso, não era isso. Era uma variante normal.

Mas sofre-se muito, quando se é muito pequenino. Sofre. Nos meus livros, procurei falar muito nisso, porque é uma história por que passei. Não era o medo de não crescer, sabia que seria pouco provável. Não era o Peter Pan. Era ver passar oportunidades. A vida na adolescência faz-se muito de acordo com dinâmicas de grupo, e as dinâmicas de grupo têm muito que ver com símbolos de pertença. Vai-se à discoteca, já se bebe cerveja. Namoricos. Eu era outsider. Tinha uma timidez enorme, não tinha cabedal.

Curioso, não usou a palavra “sexualidade” quando falou de adolescência. Disse “namoricos”. Porque a palavra “sexualidade” decorre desde que nascemos até que morremos. A sexualidade não é apenas relações sexuais e não é só preservativos. É mais uma parte de relação afectiva. Em determinada altura, dei o grito do Ipiranga. “Ou me deixo levar por isto e vou ser infeliz, ou tenho de dar a volta.” A maneira que arranjei, que tenho recomendado a muitos jovens que passam pelo mesmo, era imaginar que eu não era eu. Quando tinha de me expor, imaginava que estava a representar um papel. Depois, fui-me habituando à exposição e agora já me reconheço como eu.

Tendemos a reproduzir os que nos são próximos. Não é pediatra por acaso, pois não? O meu avô era médico, o meu bisavô também. Tem sido por tradição, não por obrigação. Os meus quatro avós: três eram goeses. O meu pai foi um pediatra muito conhecido a nível internacional. Foi um dos fundadores da Unicef e da Pediatria Social. Começava a haver preocupações com o que estava para lá da doença. Prevenção, vacinas. Com o trabalhar de maneira pluridisciplinar, com psicólogos, antropólogos. E a visão da criança enquanto ser provido de direitos. Foi graças a ele, e estamos a falar dos anos 1970, não é da Idade Média, que os pais puderam estar ao pé das crianças no hospital. Antes disso, os pais iam ter com as crianças das três às quatro da tarde, através de um vidro. Era a cultura do “assepticismo”. Podiam transmitir doenças, os pais. Os médicos, não, mas os pais, sim.

Como é que se chamava o seu pai? Mário Cordeiro.

O retrato que dá do seu pai, a partir das coisas que diz, é de alguém próximo, sensível. Apesar da educação austera que recebeu. Era extremamente sensível. Não tocava nenhum instrumento musical, mas era um melómano. Desde cedo, pôs-nos a todos a aprender piano. Tínhamos um piano em casa e era mais fácil arranjar uma professora que despachasse todos. Levava-nos a concertos. Lembro-me de passar tardes nos concursos Vianna da Motta a fruir música. Naquela altura, pediam-se autógrafos a todos os pianistas. Eram um troféu de caça. É evidente que o meu pai preferia música clássica. Mas uma vez foi a Londres e trouxe o Hair. Outra vez, o Abbey Road dos Beatles. Lembro-me de chegar ao liceu com o álbum…, faz de conta que não mostro, mas a mostrar.

Já alguma vez foi a Abbey Road, em Londres, e atravessou a passadeira, em frente ao estúdio onde o disco foi gravado? Não.

Não é muito longe da casa onde Freud morreu e onde viveu o último ano de vida. E que visitei com a minha mulher há três anos. Se quisesse definir a sensação de paz e serenidade, foi a nossa visita à casa de Freud. Mas não era a paz de cemitério. Era a compreensão das pessoas, de poder perspectivar o que os outros são. A não emissão de juízos de valor, de rótulos.

Qual foi o objecto que mais o impressionou? O divã, a colecção de arqueologia, os livros? O divã é o divã. Gostei muito da sala, do escritório. Gostei do tear da filha [Anna, que está no andar de cima]. A análise é uma arqueologia da mente. Mesmo que não se faça psicanálise, nem psicoterapia, o tentar descobrir dentro de nós a nossa arqueologia, escavar… Nomeadamente nos sonhos, nos actos falhados, nas nossas raízes. Sem perder a noção científica. Não é por acaso que Freud era neurologista e arqueólogo. Sem essas duas vertentes, não teria conseguido.

O que é que o seu gabinete de trabalho diz de si? O de Freud diz muito sobre ele. Este gabinete não está totalmente feito à minha medida porque é partilhado. O que diz mais é a música (a primeira coisa que faço quando chego é pôr música). São os livros, os livros. Os brinquedos pacificam as crianças. E a mim também.

Gosta do Winnie The Pooh, especialmente? Tem aqui, sobre a secretária, uma imagem do ursinho. É uma personagem simpática. Gosto do Burro porque tenho pena dele, por causa do seu sofrimento, da sua angústia. O Tigre, sendo um tigre, é frágil. O Piglet quer é amizade e brincadeira.

Estávamos a falar do seu pai, que trazia discos de Londres. É um pai muito diferente do pai que ele foi? Os meus irmãos mais velhos referem que, em relação a eles, o meu pai era mais rígido, mais espartano. Em relação a mim, não me posso queixar. Talvez porque passaram 14 anos entre o nascimento do meu irmão mais velho e o meu. Nunca me tocou. Nunca me ralhou, nunca me lembro de me ter levantado a voz. Mas o olhar dizia tudo. Já sabia que o olhar era: “Não gostei.” Eu sentia: “Falhei.”

Teve cinco filhos com uma grande diferença de idade entre eles. O seu filho mais velho, teve-o com que idade? Tive-o com 23. Hoje tem 35. Os mais novos, os gémeos, têm 11. Recuso liminarmente quando algumas pessoas dizem: “Ai, agora és um pai-avô.” Eu sou avô, tenho cinco netos. E sou pai, tenho cinco filhos. Uma coisa é ser avô e a outra é ser pai. Não me vejo, em relação aos mais pequenos, a assumir-me menos como pai e mais como avô. Tenha a idade que tiver.

Ser avô passa por ser mais permissivo com os netos?, não ter a mesma responsabilidade? Exacto. A responsabilidade educativa é dos pais. Também não defendo que os avós deixem fazer tudo e que aproveitem para minar o caminho dos pais. Devem ajudar os pais. E aquele mínimo de valores que os pais definem, os avós têm a obrigação de respeitar. Mas pode-se ter uma relação mais despreocupada. Até no quotidiano. Com os meus netos, não tenho de me preocupar com o que comem ao pequeno-almoço, o que almoçaram ou se vão mais tarde para a cama. Com os meus filhos, tenho.

Afinal, foi um pai muito diferente do seu filho mais velho do que é agora, dos gémeos? Não acho que tenha sido, na matriz. É evidente que os tempos são outros. Dou-lhe um exemplo: quando o Pedro e a Filipa chegaram à adolescência, apareceram os Game Boy. Quer eu quer a mãe dissemos: “Não há Game Boy para ninguém.” Fui muito impositivo: “Não quero.” Achei, e continuo a achar, que crianças e adolescentes são seres que têm cinco sentidos. Reduzir tudo a uma coisa meramente visual, é redutor da capacidade humana. Eu gosto de livros. Gosto também do cheiro dos livros. E muitos livros numa sala produzem o cheiro de livros.

Os seus filhos mais pequenos não têm telemóvel, imagino. Telemóvel têm, mas não fui eu que dei. Não têm iPad e não têm consolas. Não vejo interesse. E é viciante. Crianças e adolescentes são seres que têm de ser generalistas, plurissensoriais. Pôr a mão na massa. Numa altura em que o mundo é cada vez mais artificial, o contacto com a natureza é fundamental. Uma das coisas que estive a fazer com o meu filho Tomás, em Outubro, foi recolher folhas, espalmá-las naqueles livros pesadíssimos, fazer colagens. Para mim, é mais engraçado, para eles, é mais engraçado.

Ao perguntar se foi um pai muito diferente, também estou a perguntar se é um pai menos ansioso. Os pais, sobretudo em relação ao primeiro filho, têm a preocupação de fazer tudo bem. E ficam muito contristados quando alguma coisa corre mal. Li no seu livro que uma criança descarregou sobre a mãe: “A mãe é má, má e feia.” Eles nunca disseram: “O pai é mau e feio”? É preciso saber interpretar porque é que dizem. Há duas maneiras de dizer: “O pai é mau” ou “a mãe é má”. Uma pode ser mesmo sentida, vem cá do fundo. É uma negação do vínculo que assusta. Outra pode ser mais no sentido: “Gostava tanto de fazer aquilo. Se não existisse essa tábua da lei (que o pai é), podia extravasar o meu impulso.” É a velha luta freudiana entre o id e o superego. O pai representa o superego, o obstáculo. O miúdo chateia-se por ter aquele gendarme interno. E é mais agradável projectá-lo em algo externo. Esse jogo é muito interessante. Interessa-me cada vez mais perceber porque é que existem princípios éticos na humanidade, por que é que vingaram. É claro que há um sistema de controlo social, legislativo, jurídico. Mas esse apareceu para dar corpo institucional a um sentido ético.

Esse interesse, em si, está ligado a uma convicção religiosa? Não. Fui educado na religião católica até aos 17, 18 anos. Nunca fui beato, mas era católico. A determinada altura comecei a pensar que não precisava de intermediário entre mim e Deus. Acredito num desígnio cósmico na humanidade, nos mistérios da natureza, no Big Bang. A religião, nomeadamente a católica, acaba por renegar em muita coisa os princípios anunciados por Cristo. Há muitos vendilhões do templo por aí. A exclusão das mulheres da vida da Igreja, o celibato dos padres: não tem nada que ver com Cristo, são coisas que aparecem já no século XIII.

Educar não parece muito difícil para si. Como as crianças se transformaram numa espécie de bem raro, também a educação ficou transformada numa coisa dificílima. As crianças deixaram de estar naturalmente ali, que era o que acontecia nas famílias numerosas não há muitos anos, para passarem a ser os pequenos ditadores, os reis da casa. Criou-se esse mito da criança ditadora. Nem sempre é assim. Às vezes são os pais que se antecipam ao desejo da criança. Eles dão e a criança não recusa. Dão o chocolate antes de a criança pedir. Muitas vezes nem sequer expressou o desejo: já o teve. A educação: não é ser uma coisa difícil, é ter momentos terríveis. Momentos de dúvida. Momentos em que nós, que não somos de plástico, não sabemos lidar com a situação, não sabemos compreender o outro, em que o outro não está em estado emocional para dialogar. Finalmente, em caso de conflito de interesses e impossibilidade de consenso, é preciso impor regras. É talvez a base da educação.

Mesmo que as crianças não entendam os motivos da proibição? Muitas vezes vemos educar como sinónimo de proibir, limitar. Não é. Educar pode ser estimular e dar.

Pode esboçar alguns princípios básicos? Primeira coisa, transformar conceitos abstractos, como respeito, amor, solidariedade, dignidade, rigor, que não se medem, não se pesam, em exemplos que mostram: “Ah, isto é respeito.” Cumprimentar o vizinho que vem no elevador, segurar a porta para o senhor que vai entrar, perguntar se quer ajuda para levar o saco. Perguntar se a sua mãe, que está doente, está melhor. Algumas pessoas dirão aos filhos: “Tens de respeitar a professora, o vizinho, a avó.” Mas depois não consubstanciam isto. Para crianças que aos seis, sete, oito estão na fase do concreto, que não têm ainda a fase simbólica completamente estabelecida, é difícil perceber. A segunda coisa é ser-se muito coerente e avisar: se isto vier a acontecer, haverá aquela consequência. E explicar porquê. Outra é analisar os comportamentos e não a pessoa. É necessário que nós, enquanto pais, façamos o percurso de passar de vítimas com vontade de linchar o outro, e de humilhar, de descarregar tudo o que somos, para o estatuto de juiz que aprecia os factos. Se houve ou não houve dolo, se há atenuantes ou agravantes. Implica uma maturidade psico-afectiva muito grande. Caso contrário, estamos a dizer aos nossos filhos: “Não gostamos de ti.” Quando o que temos que dizer é: “Amo-te, mas não gostei nada do teu comportamento.”

Quando se fala de sanção, e se explica, está-se a introduzir a palavra justiça. Sim. Que faz parte da ética, do conceito do bem e do mal. Mas qualquer justiça desproporcionada é má.

Temos uma expressão para isso em português: “Perdeu a razão pela maneira como falou/agiu.” Não estou de acordo com esse adágio. Não se perde a razão. Pode-se é expressar mal a razão.

Surpreende-me que tenha tido vários casamentos. Não gosto de falar muito do passado. Já fiz as pazes com a maior parte dele e aprendi com os erros e sucessos. Gosto de dizer que tenho um excelente casamento. O meu pai e a minha mãe viveram um amor muito romântico. Neste meu casamento, que é o terceiro, revejo muito a cumplicidade conjugal que o meu pai e a minha mãe viviam. Há uma tendência, porque as personagens são as mesmas, para a relação conjugal e a relação parental se confundirem.

Que quer isso dizer, exactamente? O homem e a mulher confundirem-se com o [papel de] pai e [de] mãe. Foi uma coisa que fui descobrindo. E isso inquina um bocado. Os filhos podem inquinar a relação homem-mulher. Requerem tanta coisa. Precisam de coisas, este lufa-lufa das escolas, mais as 500 actividades… A minha mulher e eu não temos problemas em dizer: “Ao sábado, meninos, não há actividades nenhumas.” Sábado é para acordar e ver onde nos leva o vento e o tempo. O que apetecer. Alguns pais sacrificam-se demasiado.

Teve coragem para ter a vida que queria ter, sem medo que isso pusesse em risco a estabilidade das crianças, a harmonia da vida familiar, os chavões aos quais estamos subordinados. Não foi fácil. As relações devem durar aquilo que duram. Nem mais um minuto nem menos um minuto. Pode durar, foi o caso dos meus pais, até o meu pai morrer. E podem durar muito menos tempo. Disso sabem os intervenientes e mais ninguém. Fui aprendendo que não são os filhos que devem manter uma relação conjugal.

Muitas vezes, eles são usados e mencionados para justificar a manutenção de um casamento. Cada vez mais reflicto, com base na minha experiência, e não só, que isso não conduz a nada. Depois sobra uma coisa: a relação parental. O conflito conjugal pode estender-se à parte parental ou não, conforme o que sobrou da espuma dos dias e a personalidade das pessoas. Tudo seria bom se houvesse, como dizem as Miss Universo, paz e amor, mas a vida real infelizmente não é assim. Há jogos de interesses, pressões, e as crianças podem muitas vezes ser objecto de manipulação.

O melhor que se pode fazer a uma criança é dar-lhe um exemplo de uma vida feliz e escolhida? É. É dar o exemplo de uma pessoa digna, solidária socialmente, um compromisso de existência em relação aos outros.

Retomo uma questão que vem de trás: podia não ser pediatra? Podia. Sempre tive uma tendência natural para a Pediatria por lidar com crianças, por o meu pai lidar com crianças. As minhas irmãs mais velhas — uma é educadora, outra é assistente social —, no início de vida, resolveram fazer um infantário. Como tínhamos uma casa grande, o meu pai cedeu uma parte para fazer um infantário, no jardim. Eu adorava chegar do liceu e ir brincar com os miúdos. Foi sempre uma pulsão enorme.

Uma pulsão que o põe em contacto com a sua infância? Não só. Serve-me para colmatar a angústia existencial. Sempre tive uma ideia completamente estúpida: no dia em que fiz dez anos — lembro-me disto como se fosse ontem — acordei e declarei, oficialmente, que morria aos 54 anos. E convenci-me disso. Não tinha nada factual, mas projectei a minha vida toda no sentido da existência de 54 anos. Não consigo conformar-me que vivamos tão pouco tempo face àquilo que temos para fazer.

Tem no armário em frente a si uma fotografia da sua mulher. Também é pediatra? É jurista. Encontro na minha mulher o gosto por pequenas coisas, frugais.

Tem uma cara de miúda. Realmente parece, mas faz 50 anos no fim da semana. É uma madrasta exemplar para os miúdos, e isso foi muito bom, também, para mim.

Qual é que é o cheiro da sua infância? Os bebés têm um cheiro especial. As nossas memórias têm um cheiro. Há vários. A terra molhada. A relva acabada de cortar. O cheiro dos livros. O quarto da minha avó com o cheiro de alfazema. O chocolate quente da noite de Natal.

 

 

 

 

 

Crianças de guerra

Janeiro 9, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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artigo do Expresso de 2 de janeiro de 2015.

O relatório citado no artigo é o seguinte:

Rule of Terror: Living under ISIS in Syria

Instrução religiosa e militar, lavagem ao cérebro, a escolha entre morrer no campo de batalha ou como bombista suicida. É o destino de muitos menores na Síria e no Iraque.

Luís M. Faria

Os relatos já são bastantes, em publicações que vão desde sites como o warincontext.org ao “New York Times”. O Estado Islâmico (EI) ensina crianças a decapitar, utilizando métodos diferentes conforme a idade do aluno. Se for muito novo (digamos, 10, 11 anos), a instrução é feita primeiro com vídeos onde se veem exemplos reais e a seguir a criança replica o procedimento num boneco. Quando o aluno tem mais de 16 anos também há vídeos, mas a prova final, em princípio, é efetuada em condições realistas – por exemplo, envolvendo soldados sírios ou iraquianos que tenham sido capturados pelo EI.

No conflito sírio, como noutros pelo mundo fora, há mais que um grupo a usar crianças, mas o Estado Islâmico levou essa prática a níveis inéditos. Para os líderes do movimento, é perfeitamente islâmico sacrificar a vida de meninos. Nos territórios que controla, o EI rapta crianças em grande número para doutrinar. Também acontece os pais entregarem-nas, por dinheiro ou por a escola islâmica ser a única que resta no local. Ao estudo da sharia, a lei islâmica, que pode levar semanas, segue-se o treino militar. As crianças podem tornar-se soldados, bombistas suicidas – conseguem entrar onde mais ninguém entra -, ou envolver-se nalguma atividade de apoio, como dar sangue a outros combatentes. Algumas são enviadas para a frente com este último objetivo.

Mesmo longe dos combates, a brutalização é constante. Em outubro, um relatório da ONU resumiu a situação nas zonas sírias controladas pelo EI: “As crianças têm sido vítimas, perpetradores e testemunhas de execuções pelo ISIS. Meninos com idade inferior a 18 foram executados – decapitados ou abatidos a tiro – por alegada filiação noutros grupos armados. Combatentes do ISIS com menos de 18 anos de idade terão desempenhado o papel de carrasco. Um soldado de 16 anos de idade, supostamente, cortou as gargantas de dois soldados capturados na base aérea de Tabqa em finais de agosto de 2014, em Slouk (Ar-Raqqah). As crianças encontram-se muitas vezes presentes na multidão durante as execuções e não podem escapar à visão dos cadáveres exibidos publicamente ao longo dos dias seguintes”.

“Um pai de Dayr Az-Zawr afirmou que a primeira vez que viu o corpo de um homem pendurado numa cruz em Al-Mayadin, no final de julho de 2014, ficou vários minutos paralisado pelo horror da cena, antes de perceber que o seu filho de sete anos estava com ele, também a olhar para o corpo”, continua o relatório. “Nessa noite, o seu filho não conseguiu dormir e acordou repetidamente em pânico. O pai descreveu que sentia uma culpa imensa por ter exposto o seu filho a uma tal crueldade”.

A fuga

Alguns casos recentes de jovens que conseguiram fugir deitaram luz na situação dos membros mais jovens do Estado Islâmico. Uma das histórias mais impressionantes é a de Usaid Barho, um adolescente sírio de Manjib, próximo de Aleppo. Usaid aderiu ao EI por uma variedade de razões: disseram-lhe numa mesquita que todos os xiitas eram infiéis e que era preciso matá-los – depressa, antes que aparecessem onde morava para lhe violarem a mãe. Os estímulos incluíram a própria fé no Islão, o entusiasmo da cruzada, o espírito de grupo, a perspetiva de escapar ao aborrecimento.

Usaid foi e iniciou o seu treino. Mas diz que se apercebeu do contraste entre a ideologia radical do grupo e a prática dos seus membros, concretamente os homens, vários dos quais fumavam ou até faziam sexo uns com os outros. A matança constante de inocentes também o repugnava. Desiludido, Usaid começou a pensar em sair, ciente de que essa decisão, se alguma vez a exprimisse, podia levar à sua execução imediata pelo EI. Resolveu ser astuto. Após um mês de instrução militar, quando lhe deram a opção entre ser combatente ou bombista suicida, escolheu bombista. Garante que o fez porque isso tornava muito mais fácil a fuga. Se optasse por ser soldado e desertasse no campo de batalha, matavam-no logo. Como bombista, as possibilidades eram maiores.

Cumpridas as preparações que faltavam, chegou o dia marcado para o seu sacrifício, que devia ter lugar no Iraque. Vestiram-lhe o colete e levaram-no à mesquita xiita onde Usaid devia cumprir a sua missão. Mas quando chegou à porta, abriu o casaco e disse: “Tenho um colete suicida, mas não me quero fazer explodir”. Alarme, confusão, gritos. Um guarda tirou-lhe o colete e ele foi levado para a cadeia. Interrogado, as autoridades parecem não ter ficado totalmente convencidas com a sua versão, a julgar pelo facto de o terem mostrado algemado na televisão e lhe terem chamado terrorista. Mas o porta-voz do Ministério do Interior chama-lhe “vítima do Estado Islâmico” e o agente que o interrogou diz que o apoiará se ele chegar a ser julgado.

Habituar crianças à violência extrema

Outras histórias sobre o recrutamento de crianças foram publicadas recentemente no Wall Street Journal, um diário americano. O artigo abre com uma cena em que crianças assistem à decapitação de soldados sírios. Algumas chegam mesmo a participar. O relato de um dos entrevistados, com 17 anos, sugere que esse tipo de evento é habitual. Num vídeo do Estado Islâmico, aparecem oito crianças a insultar um cadáver. O entrevistado conta que antes as crianças de sete anos eram obrigadas a ir à escola; agora têm de lutar. Pela sua parte, a luta começou em 2011, nas fileiras do Exército Livre da Síria. Continuou na frente Nusra, parte da Al-Qaeda, e acabou no Estado Islâmico, conforme cada um desses grupos foi controlando a cidade de Deir Ezzour. (O jovem de 17 anos acabou por deixar o EI, mas o seu irmão mais novo, com dez anos, a quem ele levou para lá, mantém-se um recruta empenhado).

O relatório da ONU diz que “a educação é usada como uma ferramenta de doutrinação, concebida para alimentar uma nova geração de apoiantes. Em muitas zonas, o currículo escolar foi alterado para refletir as prioridades ideológicas e o treino de armas. Campos de treino foram estabelecidos ao longo das áreas que o EI controla”. Dá o exemplo de um campo onde 350 rapazes com idades entre 5 e 16 anos recebem instrução militar e acrescenta: “O grupo armado também dirige deliberadamente propaganda a crianças. Na cidade de Raqah, reúnem as crianças para exibições de vídeos que retratam execuções em massa de soldados governamentais, dessensibilizando-os à violência extrema”.

“Ao usar, recrutar à força e alistar crianças para funções ativas de combate, o grupo comete abusos e crimes de guerra em grande escala, de uma forma sistemática e organizada”, conclui o relatório.

Veja o videoclip da nova ‘Versão Mundial’ de Imagine de John Lennon e ajude a Unicef

Janeiro 9, 2015 às 6:00 am | Publicado em Divulgação, Vídeos | Deixe um comentário
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Veja o videoclip da nova ‘Versão Mundial’ de #IMAGINE de John Lennon aqui >> http://touchcast.com/imagine/
Você também pode fazer parte desta iniciativa. Faça download gratuido da app e cante #IMAGINE com John Lennon pela UNICEF. Por cada canção com upload completo será feito um donativo de $1 à UNICEF para apoiar os direitos da criança.
Cante com a UNICEF em http://imagine.unicef.org/
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