Qual a importância de brincar?

Dezembro 24, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://educarparacrescer.abril.com.br  de 5 de dezembro de 2014.

Aline Casassa

Especialistas explicam o que está por trás de uma singela brincadeira de faz de conta, de uma repetida construção com blocos ou de uma disputa de pega-pega

 

Texto Adriana Fonseca

Já se sabe que a brincadeira ocupa um lugar especial na vida da criança na primeira infância! Mas, você já parou para se perguntar por que é dada tanta importância a uma atividade aparentemente tão simples? Na verdade, essa “coisa de criança” a que não damos muito bola durante nosso corrido dia a dia é capaz de ajudar a criança a desenvolver muitas de suas habilidades motoras e cognitivas, como atenção, memória, imitação e criatividade.

 

 

“A criança, porém, não brinca para aprender alguma coisa, ela brinca porque quer”, ressalta Maria Paula Zurawski, doutoranda e mestre em Educação pela FEUSP, graduada em Artes Cênicas pela ECA-USP, atriz do Grupo Furunfunfum de teatro para criança e professora dos cursos de Pedagogia e de Pós Graduação em Educação Infantil do Instituto Vera Cruz -SP. “É sempre bom lembrar isso aos pais e às escolas: não adianta querer que a criança brinque disso ou daquilo para aprender algo, ou que ela aprenda isso ou aquilo por meio da brincadeira: o jogo simbólico, o faz de conta, ocorre somente porque a criança quer, por vontade própria, estar na brincadeira”. Ela lembra que o pedagogo Vigotski, no livro O papel do brinquedo no desenvolvimento (1998), vê na brincadeira uma nova forma da criança criar: “Ensina-a a desejar, rela¬cionando seus desejos a um “eu” fictício, ao seu papel no jogo e suas regras”. Qual é o espaço que a brincadeira tem hoje na vida das crianças? Vera Tchipschin Francisco – psicanalista, pedagoga e membro-fundadora da Gesto Psicanálise – aponta  que a brincadeira ocupa um lugar especial na vida da criança, porque está em um espaço intermediário entre o imaginário e o real, pois incorpora elementos da realidade que são misturados com a fantasia. É um espaço privilegiado para a criança poder elaborar situações difíceis que ela viveu, incluir e realizar desejos na brincadeira e poder lidar com emoções variadas e antagônicas  como o amor e o ódio, coragem e medo, alegria e tristeza. Além de ter uma função no mundo interior da criança, o brincar desempenha também uma função no universo exterior, pois criança acaba interferindo no mundo com sua brincadeira. É por meio do brincar que a criança pequena aprende a superar os obstáculos da vida real que se apresentam a ela de maneira intensa durante seu crescimento. Há muito que conquistar motoramente, intelectualmente e socialmente. Maria Paula Zurawski explica: “O mundo mudou muito e a falta dos espaços de brincadeiras dos quais os mais velhos se recordam em suas memórias de infância (o quintal, a rua, o ar livre) cria uma série de juízos de valor para a brincadeira infantil – como se ela estivesse ameaçada de desaparecer.  O fato é que as crianças continuam a brincar, é que o mundo mudou e a brincadeira também.”. Portanto, devemos refletir sobre o lugar o significado que a brincadeira ocupa hoje na vida das crianças.

 

  1. Para começar a brincar

Estimule seu filho a brincar desde os primeiros meses, por meio de jogos de exercício: tire-o do berço e coloque no chão e incentive-o em cada tentativa dele em manipular objetos, repetir sons e esconder seu rosto atrás da fraldinha. O primeiro tipo de brincadeira que seu bebê realiza é a de imitação. Ao tentar copiar você, tem de colocar muito em jogo. Apesar disso, é visível a satisfação e o divertimento ao ouvir seu próprio gritinho ou mostrar seu rosto, atrás da fralda. Paula Zurawski ressalta a importância de canções, trovinhas e acalantos na vida da criança. Eles fazem parte da nossa própria cultura, alimentam o brincar infantil e devem estar presentes desde os primeiros anos.

 

  1. Incentivar as brincadeiras de faz-de-conta

Por volta dos dois anos, seu filho está pronto para as brincadeiras de faz-de-conta, em que passa a reviver situações que demonstram sua forma de ver o mundo. Por isso, crie espaço em sua rotina para isso e observe o que ele está revelando. Além da brincadeira de imitação, em que poderá encenar acontecimentos da vida real, e colocará sua criatividade em ação, misturando elementos do mundo real com fantasias do mundo imaginado. “É bom também que as crianças possam frequentar espaços interessantes, onde haja brinquedos – bonecas, carrinhos, homenzinhos e outros”, diz Paula. Mas também ressalta a importância terem a seu alcance “materiais não estruturados, aqueles que podem “virar e desvirar” infinitas coisas na brincadeira infantil – tecidos, blocos, cordas, caixotes…”. Fique atenta, pois por meio desse jogo de faz de conta, seu filho assimila a realidade, realiza sonhos, mostra incômodos, reproduz e representa situações similares a vida real. Uma boa ideia é observar as brincadeiras que inventa, reparar que papéis escolhe com maior frequência, qual é o tom dos diálogos e quando termina. “Observar as crianças é sempre interessante, é uma delícia, e os pais devem, sim, observar seus filhos, mas não como “espiões” do que pode estar passando pela cabeça deles. Devem ser observadores cuidadosos, acompanhar seus filhos, estar com eles, levá-los a passear em lugares bonitos e interessantes, jogar jogos com eles, ler histórias, contar histórias, conversar muito, escolher brinquedos que respeitem a criatividade das crianças”. Esta é, na opinião de Paula, a melhor intervenção.

 

  1. Apresentar os jogos com regras

Por volta dos quatro anos, seu filho está hábil para participar de jogos com regras, pois está pronto para atividades mais socializadoras. Propicie a ele o convívio entre meninos e meninas igualmente. As crianças pequenas não fazem essa separação, somos nós, adultos, que o fazemos. Na brincadeira em grupo é necessário compartilhar ideias e brinquedos, negociar papéis e cooperar com os amigos, para que se garanta a diversão para todos. Esse tipo de brincadeira torna-se uma ótima oportunidade para se treinar a convivência social. Os conflitos serão inerentes a ela, mas podem ser vistos como uma coisa boa e construtiva. Faz parte do desenvolvimento infantil lidar com desacordos e impasses causados, geralmente, pela vontade de se fazer valer a sua opinião perante um grupo de indivíduos. Vera Tschiptschin Francisco explica que é comum os pais se sentirem pessoalmente atingidos por gestos agressivos de outras crianças contra seu filho, “pois o filho é um projeto dos pais, do que poderiam ter sido, sem frustações, sem falhas. Sentem como se o “empurrão” durante uma brincadeira de pega-pega, por exemplo, tivesse sido contra eles mesmos. Os pais precisam cuidar e fazer o exercício de se ver o filho com um individuo diferente. Ele não é uma continuidade dos pais, precisa viver frustações para entender o mundo real”. Completa, ainda, que é preciso se afastar, (sempre reforçando que está lá se for preciso) observar e deixar a crianças ter a chance de agir sozinha nessas situações. Paula Zurawski aponta que ” brincar é jogo, é convívio, é chegar a acordos (do que vamos brincar? Posso ser a mamãe? Eu era o Batman, tá?). Brincar com outras crianças traz sempre uma “revolução” de ideias, de atitudes. O melhor brinquedo para uma criança é outra criança”. Em contrapartida, deixa claro que apesar da criança que brinca ter mais oportunidades de aprender com o outro, de discutir, de brigar, de ceder, de perder e de ganhar, enfim, de viver experiências sociais importantes, a brincadeira tem valor por si mesma, não é somente um instrumento para que as crianças sejam bem resolvidas ou bem sucedidas na vida.

 

  1. Dar espaço para a brincadeira individual

Deve-se dar espaço também às brincadeiras individuais. Por meio delas, se exercita a perseverança e a vontade de não desistir, de refazer, de montar de novo. Os jogos de montar e construção com blocos são ótimas atividades para se exercitar isso. Vera Tschintschin Francisco diz que é preciso valorizar a brincadeira individual. Explica que “muitos pais se angustiam ao perceber seu filho brincando sozinho. Concluem que isso significa que a criança não consegue interagir com os outros e forçam um convívio com outras crianças. Mas com isso estão impedindo que o filho viva uma experiência de privacidade, de ter um espaço privado, que é fundamental para a formação da concepção de mundo. Paula Zurawski concorda que “brincar sozinho pode ser muito legal. É mesmo um momento precioso. Crianças podem ficar um bom tempo brincando sozinhas, montando cenários e situações, pondo e dispondo seus bonecos, bichos, carros, criando vozes e diálogos entre personagens ou mesmo construindo coisas. Assim, gostar de brincar sozinho não é necessariamente preocupante”. Lembra, porém, que é importante observar as crianças brincando e ver se estão se comunicando, desenvolvendo enredos e se divertindo. Isso dará bons indícios se a brincadeira está valendo a pena.

 

  1. Proporcionar ambientes variados

Sempre incentive atividades físicas em ambientes variados, como aulas ao ar livre, brincadeiras na piscina e proximidade da natureza. Pais e educadores podem organizar ambientes que favoreçam a brincadeira, explica Paula. “Se as crianças puderem brincar frequentemente em espaços abertos e nos quais tenham contato com a natureza e a exploração de habilidades corporais, como correr, pular, subir em árvores, cavar buracos, mexer com água, esconder-se, é certo que seu “repertório brincante” crescerá. Da mesma forma, a leitura de histórias, que convidam a sentir emoções e a imaginar lugares, personagens, situações diferentes, também podem enriquecer a brincadeira”. Tudo é importante desde que esteja misturado e garanta uma diversidade de situações e universos para as crianças explorarem, sentirem, agirem e reagirem!

 

 

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