E se no Natal as crianças recebessem mais valores e menos prendas?

Dezembro 23, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Público de 23 de dezembro de 2014.

DR

Cláudia Bancaleiro

Os brinquedos ainda fazem parte do Natal dos mais pequenos. Mas, há pais que equilibram os presentes com princípios morais.

O Natal está mesmo quase e as crianças decoraram há muito o nome do carro ou da boneca que querem. Os pais ficam com a tarefa de encontrar o “tal” brinquedo para mais uma época que querem memorável, pelo menos para os mais pequenos. Presentear é uma tradição e se a crise económica a veio quebrar, numa tendência minimalista forçada, há um lado do Natal que pode ser explorado, o dos valores e da partilha. Mas as crianças querem mesmo saber de questões morais?

Caleb, 11 anos, Davis, 8, e Beckham, 5, filhos de Lisa e John Henderson não vão receber prendas este Natal. “Os nossos filhos têm sido ingratos. Esperam sempre muito, mesmo quando o seu comportamento é desrespeitoso. Avisámos, ou o comportamento mudava ou haveria consequências. Trabalhamos pacientemente com eles durante vários meses e adivinhem, muito pouco mudou”, contou Lisa no seu blogue Over the Big Moon.

Numa troca de comentários com leitores do seu blogue, que consideraram a medida excessiva, Lisa lamentou que os “pais pareçam estar mais preocupados com o que os seus filhos pensam de si do que em torná-los futuros membros da sociedade”. A mãe está mais preocupada que os filhos “compreendam que comportamento e escolhas importam”. “Quero que tenham consciência dos outros e de como são abençoados”.

Esta consciência parece estar presente em Leonor, 9 anos, que este Natal tem grandes hipóteses de receber entre as “enciclopédias, qualquer coisa da Sience4You e Lego Friends”, que pediu. “Tem a ver com as notas da escola e com o seu comportamento”, conta a mãe Sandra Correia, gestora de contas. “Geralmente pode fazer uma lista com três a cinco brinquedos. Ela tem noção do esforço financeiro que implica o Natal”. Ao receber o que pede, os pais querem que Leonor saiba que é “merecedora do que ganha”.

Nesta altura, Leonor é “mais solidária”, diz Sandra. “Na escola fazem sempre imensas acções de voluntariado associadas a esta época, em que ela participa. Os meus pais têm uma formação católica e passaram esse espírito para a Leonor. Somos uma família com muita tradição de Natal”.

Os pais de Manuel, 9 anos, Micaela Neto, fotojornalista, e Carlos Moreira, técnico de informática, afirmam que o filho “não tem tudo o que quer”. “Conversamos muito com ele sobre isso e não é tarefa fácil, porque existem sempre amigos que têm tudo”, conta a mãe de uma família que já adoptou uma “postura mais minimalista de consumo no Natal”. “Mas podemos fazer sempre melhor”, acredita Micaela.

Micaela e Carlos condicionam os pedidos de Manuel de “maneira a não pedir uma coisa cara”, até porque há ainda uma irmã de 3 anos. Também a quantidade de prendas tem regras. O Manuel recebe uma prenda do Pai Natal, mais um pequeno presente dos pais. Avós e tios juntam-se por vezes para comprar uma prenda melhor e na casa dos avós maternos junta-se ao “sorteio do amigo secreto”, no qual Manuel participa ao receber e dar uma prenda comprada com o seu dinheiro.

Minimalismo para recuperar valores

Joshua Becker e a mulher optaram por uma vida com pouco. Limparam a casa em que vivem no Arizona, EUA, e doaram o que foi possível. A experiência levou-o a escrever livros e a criar o site Becoming Minimalist. A visão de Becker sobre o Natal é partilhada com o PÚBLICO num email onde afirma que “parece haver um aumento da filosofia minimalista no mundo”, incluindo com o “aumento da ‘economia de partilha’”.

Becker não contesta o acto de dar presentes, mas a forma. “Ao darmos presentes conseguimos comunicar o nosso amor, apreço ou gratidão. Esta é uma prática que encontramos em toda a história humana. Infelizmente, essa prática de troca de presentes tornou-se tão comercializada que começou a perder o seu significado”.

Critica ainda os dias impostos para presentear. “O acto de oferecer deve marcar a nossa atitude na vida e não apenas a prática de épocas específicas. Muitas vezes, o maior presente que podemos dar é o nosso tempo, atenção e amor”. A filosofia de Becker é posta em prática com os dois filhos, de 8 e 11 anos, que recebem “uma coisa que querem, uma coisa que precisam e uma experiência que podem partilhar com a família”.

O pediatra Mário Cordeiro é também defensor do equilíbrio e que se “deve ser frugal e contido nos presentes, não apenas pela crise, mas porque dar um presente é isso: dizer a alguém que ‘estamos presentes’ na vida dessa pessoa cada vez que ela usar ou olhar para o que ofertámos”.

Mário Cordeiro não tem dúvidas que o “excesso de brinquedos é contraproducente, porque deixa de se dar o valor específico de cada um”. “É importante mudarmos o paradigma e essa mudança começa nas gerações mais novas: frugalidade, ou seja, poder ter, sim, mas ter apenas aquilo que é necessário, importante e ao qual se dá uso”, reforça.

Se ter muitos brinquedos no quarto é “redundante, desperdício, exagero”, condicionar a quantidade não deve ser visto no “aspecto de racionamento, mas de contenção, de permitir espaço para valores e actividades ‘de custo zero’”, completa o pediatra.

Alexandre, professor, e Ana, decoradora, já têm esta prática. Valores como “a família, amizade e a solidariedade” fazem parte da vida das filhas, Mariana, 15 anos, e Bernarda, 10. À semelhança das outras famílias com que o PÚBLICO falou, nesta casa é habitual dar roupa ou brinquedos a instituições, até porque as filhas “têm mais do que precisam”, assume Alexandre. No entanto, este pai sublinha que “’minimalista’ não é um termo explicável às crianças, especialmente no Natal”. “Tentamos ser justos”. Assim, as irmãs podem fazer pedidos distribuídos entre familiares que escolhem o que lhes oferecer. “Se os pedidos forem razoáveis, quer dizer que os presentes que recebem são merecidos”, resume o pai.

Hugo, de 9 anos, também sabe os valores associados ao Natal, garantem o pai, João Barroso, gestor de produto, e a mãe, Adelaide Moreira, professora de Educação Visual e Tecnológica. Não há um limite para as prendas que pode receber mas há um limite de orçamento. “Apenas lhe vamos dizendo que determinados produtos não poderão ser contemplados, por serem demasiado caros, ou por não representarem uma real necessidade. Tentamos transmitir-lhe algumas noções de bom senso e contenção, explicando que há limites e que há prioridades”, conta João.

João reconhece que o filho tem muitos brinquedos mas não considera que seja em excesso. “Desde que sejam criteriosamente escolhidos, e que não prevaleçam em detrimento de outros bens de primeira necessidade, geralmente discordo da ideia de que as crianças têm excesso de brinquedos”. Quando o quarto do Hugo precisa de uma “limpeza”, João conta que reforça com o filho o estímulo do “prazer de partilhar e de ajudar outras crianças que infelizmente não têm as condições de vida que tem”.

Educar com a partilha

“Por princípio geral, é importante que as crianças percebam em cada idade que não podem ter tudo, que não devem fazer tudo”, considera José Morgado, professor do Departamento de Educação do Instituto Superior de Psicologia Aplicada. O psicólogo indica que os “limites são um bem de primeira necessidade para as crianças” e explicar aos mais pequenos a “partilha” e “construção de valores” deve fazer parte da educação.

O professor admite, no entanto, que “não é fácil definir o que são ‘muitos brinquedos’”. André, de 5 anos, admite que tem muitos e este ano a sua lista desejos parece pequena: “um skate, um microscópio, um kit experiências e legos”. “Sabe que não pode ter tudo. Faz uma lista dos brinquedos de que gosta mais e elimina os mais caros. Depois distribuímos os pedidos pelos familiares”, explica o pai Ricardo, psicólogo. André começa a tarefa de escolher as prendas meses antes do Natal e “termina numa lista de mais ou menos seis a sete prendas”, incluindo o “fato do próximo Carnaval”.

Antes de receber, Ricardo e Raquel, professora de Português, trabalham com o filho a selecção de brinquedos a doar. O pai confirma a tendência de um minimalismo na quantidade de prendas recebidas pelo filho e a insistência junto deste que “existem muitos meninos e famílias que têm dificuldades”. “E ele percebe”.

“Os filhos não dão valor a nada”

Coach e formadora nas áreas comportamentais e parentais, Magda Dias aborda a questão nos workshops que organiza. “A ideia de dar prendas para fazer com que a criança se sinta amada e que é querida pelos pais acontece. Logicamente que visto fora de contexto, e posto desta forma, percebemos que não fará sentido, mas dentro do contexto de certos pais parece ser a única forma que conhecem para lidarem com determinadas situações”, realça.

Autora do blogue Mum’s the boss e do site Parentalidade Positiva já ouviu pais dizerem que os “filhos não dão valor a nada”. E que por muito que se explique que há meninos desfavorecidos, a “verdade é que os miúdos não desarmam e dizem ‘hoje ainda não me deste nada!’”.

“Não há fórmulas milagre” para lidar com estes comportamentos mas “há formas de plantar sementes a médio prazo” e é nesse sentido que Magda Dias sugere a criação de um caderno da gratidão, uma ideia que também usa em casa, com Carmen, de 5 anos, e de Gaspar, de 1. No caderno, deve registar-se o que fez a criança feliz num determinado dia. “Ao plantar esta semente, e ao fazê-lo três vezes por semana, está a ajudar o filho a criar este hábito – e quando estamos gratos rapidamente concluímos que não precisamos de coisas nem de nos compararmos por termos coisas”. A formadora sugere ainda o calendário do Advento, uma forma de trabalhar o “vínculo com os filhos e ensinar valores importantes como a fraternidade, o espírito de equipa, o respeito”. Dentro desta agenda de família escolhem-se dias para fazer decorações, oferecer bolachas caseiras ou dizer o que se gosta na família.

Dar presentes é positivo mas o psicólogo José Morgado observa que deve ser feito de forma “equilibrada, não excessiva e as crianças devem ser envolvidas de acordo com a idade nas discussões e decisões sobre o que é razoável”. “Contribui para a sua autonomia e entendimento de limites e circunstâncias”, remata.

Mário Cordeiro alerta que “andar aflito porque ‘o menino quer isto ou aquilo’ e depois o menino fica muito zangado se não tem o que pediu, é uma expressão de abdicação do amor parental e uma claudicação perante a omnipotência ditatorial das crianças”. “Isso não é ‘estar presente na vida do outro’ através de um amor oblativo, mas sim ser escravo dos desejos imperiais infantis”, defende.

Perguntámos às crianças como reagiriam se os pais lhes dissessem que vão receber apenas uma prenda. Todos se mostraram compreensivos. As posições dividiram-se quando se colocou a hipótese de não receberem nada e mas partilharem. A Mariana diz que “isso não é Natal” e a Bernarda diz que não percebe. A Leonor acede com a frase “Natal é uma época de partilha”. O Hugo acrescenta que “fica muito feliz por dar a meninos que necessitam”. Manuel admite a tristeza de não receber nada mas aceita dar o que não precisa. O André, aos 5 anos, acha engraçada a possibilidade de partilha e dispara sem problemas uma lista do que está disposto a dar.

 

 

 

 

Pobreza nas escolas. Cinco mil livros, um por cada aluno

Dezembro 23, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 12 de dezembro de 2014.

Por Sara Amorim Queirós

Jorge Ascenção é o homem por detrás da iniciativa que também inclui um site para crianças

Cinco mil livros escolares serão oferecidos a cinco mil crianças do 4º ano que os necessitem. São como presentes de Natal que serão entregues às famílias mais carenciadas. Cada uma delas foi escolhida pelas associações de pais das escolas de todo o país, que pediram para os manuais serem enviados pela Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), que junto com a editora EDUMAIS começou esta iniciativa.

A ideia partiu desta editora especializada na área da educação. E chegou ao presidente da CONFAP “numa reunião relaxada em Lisboa”, conta Jorge Ascenção. A parceria surgiu com o objectivo de lançar um site que permitiria aos alunos do 4º ano ter acesso a exercícios explicados das disciplinas sujeitas a exames nacionais: Estudo do Meio, Matemática e Português. “A criação do site foi apoiada pelo Fundo Social Europeu”, explica ao i o dirigente a confederação. E foi assim que nasceu  o www.cadernovirtual.pt – pode ser usado por todos os alunos sem custos. Isto é, todas as crianças com acesso à internet.

Este ano, a parceria foi reforçada e a EDUMAIS, com o financiamento do Fundo Social Europeu, decidiu oferecer cinco mil livros da  editora. São manuais por estrear com exercícios, que serão distribuídos pelas associações de pais que os solicitem e que depois vão ser distribuídos pelos alunos carenciados.

Esta é uma das parcerias criadas com o objectivo de “apoiar e orientar” as crianças e também “criar o gosto pelas matérias”, diz o presidente da CONFAP, que também é pai de um aluno da Escola Secundária Rio Tinto, e representante da associação de pais nessa escola.

Conta, no entanto, que é complicado estas iniciativas sobreviverem só com o apoio das associações de pais. “E difícil os pais, por exemplo, criarem uma empresa”, pode “haver um conjunto de encarregados de educação com os conhecimentos para montar essa logística, mas manter isso já é outra história”, explica ao i. Por isso as associações de pais tentam estabelecer parcerias com entidades que estejam interessadas em colaborar.

O trabalho de Jorge Ascenção, como presidente da CONFAP, é estabelecer contactos para possibilitar estas parcerias e protocolos para que estas iniciativas se concretizem. São projectos que podem ir desde parcerias com outras editoras, a sinergias com instituições para que as crianças sejam acolhidas antes e depois da escola, enquanto os pais trabalham.

Jorge Ascenção, que também é presidente da Federação das Associações de Pais do Concelho de Gondomar e representante da associação de pais na Escola Secundária de Rio Tinto e garante: “O acesso à educação a todos tem que ser mais do que uma ideia, tem de ser uma prática”, e para isso é “preciso boa vontade”. Por isso o objectivo deste cinco mil livros oferecidos é “chegarem a todo o país”, e também, nos próximos anos, expandir para outros anos de escolaridade.

 

 

 

A escola, as selfies e os amigos (incluindo os virtuais)

Dezembro 23, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 19 de dezembro de 2014.

Paulo Pimenta

Andreia Sanches

Retrato da adolescência em 2014. A maioria não apresenta dependência patológica da utilização da Internet e 17% têm amigos virtuais.

Gostam da escola (é o que dizem 73% dos adolescentes), gostam dos colegas (87%), gostam menos dos professores (53,9%). Mas do que gostam menos, mesmo, é das aulas (só 39% gostam). A “matéria” é “muito difícil”, “aborrecida” e “demasiada” — é o diagnóstico feito por mais de seis em cada dez dos mais de 6000 adolescentes inquiridos.

A relação difícil (mais difícil do que noutros países) com a escola não é uma novidade. Já tinha sido identificada noutras análises semelhantes a esta para a Organização Mundial de Saúde (OMS), como nota a equipa da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, e do Centro da Malária e Doenças Tropicais, da Nova de Lisboa, que elaborou o estudo A Saúde dos Adolescentes Portugueses, feito de quatro em quatro anos, desde 1998. “O papel da escola na vida e no futuro dos adolescentes é pois um problema diversas vezes apontado e sem evolução positiva desde 1998”, concluem os investigadores.

E quando acabarem o secundário, o que vão fazer estes jovens — muitos dos quais (25%) confessam que se preocupam com o futuro quase todos os dias? Metade (54,9%) conta ir para uma universidade ou instituto politécnico. Há quatro anos eram mais os que queriam prosseguir: 63,5%.

Os mais de 6000 inquéritos realizados permitem encontrar resposta para muitas outras perguntas: o que consomem, como passam o tempo, como se vêem a si próprios e como avaliam a relação com os pais? É um breve retrato da adolescência em 2014 o que se segue.

Comece-se pelo fim. Os adolescentes portugueses tendem a dar nota muito positiva à relação que têm com a família (8,8 numa escala de 0 a 10), sendo que os rapazes tendem a sentir-se mais satisfeitos. Uma nuance: a “classificação” que os adolescentes dão aos pais vai piorando com a idade.

Mais de metade gastam entre uma e três horas a ver televisão durante a semana. São, aliás, cada vez menos os que passam mais tempo do que isso à frente do velho ecrã.

O computador (só 3,5% dizem não ter um em casa) é outro ecrã de eleição. Cerca de metade dos adolescentes utiliza-o entre uma a três horas por dia para conversar, navegar na Internet, enviar e-mails, para fazer os trabalhos de casa. E 38% utilizam-no, no mesmo número de horas, para jogar.

Preocupante? Os investigadores concluíram que a maioria dos jovens não apresenta comportamentos de dependência patológica da utilização da Internet. Numa escala de 9 a 45, sendo 45 “elevada dependência”, o nível médio dos rapazes é 18,99 e o das raparigas 16,6.

O corpo ideal

Quase um em cada cinco fala diariamente com os amigos pelo Skype ou pelo FaceTime. Sinal dos tempos: o estudo deste ano questionou pela primeira vez os jovens sobre quantas vezes se fotografam e enviam as suas “selfies” aos amigos ou as publicam online. E 3,2% fazem-no diariamente (outros 15,6% semanalmente). As raparigas são mais dadas às “selfies”.

Os amigos são sobretudo reais mas passaram também a ser virtuais. Dos jovens que disseram ter pelo menos um amigo (sem discriminar se era de carne e osso ou não) 17% têm pelo menos um amigo virtual.

Quanto ao chamado cyberbullying (o bullying exercido nas redes sociais de que tanto se tem falado), é uma realidade para cerca de 11% dos adolescentes: 5,5% dizem que foram vítimas, 2% assumem-se como provocadores e 3,4 % já desempenharam os dois papéis.

Mais físicas são as “lutas” em que se envolveram 20% dos alunos no último ano (mais os rapazes). Para além disso, um terço (34%) diz que nos últimos dois meses foi provocado na escola mais do que uma vez por semana.

Outros aspectos importantes na vida de muitos adolescentes? Apenas mais dois: os SMS (mais de um em cada três diz que envia 20 ou mais diárias) e a aparência (quase dois terços apresentam um índice de massa corporal dentro do parâmetro normal). Metade (53,4%) considera ter um “corpo ideal”, sendo que os rapazes são mais seguros e consideram mais frequentemente ter um corpo perfeito do que as meninas.

Tomar o pequeno-almoço todos os dias é a regra (79,8% afirmam fazê-lo, ainda assim, menos do que há quatro anos, quando eram 84%). Quanto ao tipo de alimentação, mais de metade dos adolescentes inquiridos refere comer fruta e vegetais pelo menos uma vez por semana.

Outra boa notícia: são mais (55%) do que há quatro anos os que dizem que fazem actividade física três vezes ou mais por semana. Os adolescentes de 2014 mexem-se mais.

A Saúde dos Adolescentes Portugueses foi feito por uma equipa coordenada pela investigadora Margarida Gaspar de Matos. Recebeu o financiamento da Direcção-Geral de Saúde. E deverá integrar o grande retrato internacional da adolescência, conhecido por Health Behaviour in School-aged Children, da OMS, no qual participam mais 42 países.

 

 

Um em cada cinco adolescentes já se magoou para lidar com a tristeza

Dezembro 23, 2014 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 20 de dezembro de 2014.

público

Andreia Sanches

No último ano, 20% provocaram lesões a si próprios para lidar com emoções negativas. Uso do preservativo cai a pique: só 70% disseram que usaram da última vez que tiveram relações, contra 90% há quatro anos. Dados de um grande inquérito à adolescência divulgado nesta sexta-feira.

A grande maioria diz-se feliz. Mas há um número crescente de adolescentes que se queixam de sintomas que revelam mal-estar. Quase um em cada três diz que se sente deprimido mais do que uma vez por semana. Eram 13% em 2010. Perto de um em cada quatro diz sentir medo frequentemente. Três vezes mais do que há quatro anos. E um em cada cinco alunos do 8.º e 10.º anos magoou a si próprio nos últimos 12 meses, de propósito, sobretudo cortando-se nos braços, nas pernas, na barriga… Contaram que se sentiam “tristes”, “fartos”, “desiludidos” quando o fizeram.

 

Em relação ao último grande retrato que tinha sido feito dos adolescentes portugueses, há quatro anos, é um aumento de quase cinco pontos percentuais do grupo dos que fazem mal a si próprios.

Foram inquiridos desta vez 6026 alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos, de Portugal continental, com idades entre os 10 e os 20 anos (a média de idades é 14 anos). A amostra aleatória estratificada por região é representativa destes anos de escolaridade.

Chama-se A Saúde dos Adolescentes Portugueses e deverá integrar o grande retrato internacional da adolescência, conhecido por Health Behaviour in School-aged Children, da Organização Mundial de Saúde (OMS), que é repetido a cada quatro anos. A recolha de dados foi realizada através de um questionário online preenchido em contexto de sala de aula.

publico3Margarida Gaspar de Matos, a investigadora que desde 1998 coordena a equipa que faz esta análise para a OMS, que segue o mesmo formato em 43 países, diz que o inquérito deste ano surge numa altura “especialmente relevante, uma vez que permite estimar o impacto da recessão económica na saúde dos adolescentes”. E o impacto foi grande, acredita.

Um comunicado de quinta-feira, onde se anunciava a divulgação do estudo, já alertava: “O decréscimo global desde 2010, da sua saúde percebida tanto ao nível de sintomas físicos como de sintomas psicológicos de mal-estar, sugere que a saúde mental dos adolescentes é um assunto subestimado e a carecer de atenção urgente.”

Os números tornados públicos nesta sexta-feira confirmam. Olhe-se para as auto-lesões entre rapazes e raparigas (a pergunta relacionada com este tema só foi colocada aos alunos do 8.º e 10.º anos): 16,3% dos rapazes e 23,7% das raparigas magoaram-se de propósito, nos últimos 12 meses (destas, 6,6% fizeram-no quatro vezes ou mais).

Estas práticas que passam por cortes, apertões e queimaduras são feitas, em geral, quando os jovens estão sós (75,8% dos casos). Nos restantes casos, a auto-lesão é feita na companhia de amigos ou namorados.

Alguns jovens relatam que se auto-lesionam “para acalmar”, por exemplo. Mas é um engano. A aparente sensação de alívio que algumas destas práticas provocam dura segundos e esvai-se. “Depois ficam ainda mais tristes”, diz a investigadora, psicóloga clínica, que trabalha com adolescentes. Diz que é  fundamental alertar os jovens para a necessidade de procurarem ajuda quando não conseguem gerir os sentimentos negativos.

Dói a cabeça, o estômago, as costas Mas para além dos sintomas psicológicos, também os relatos de sintomas físicos de mal-estar se agravaram. Ter dores de cabeça mais do que uma vez por semana é algo que faz parte da vida de 36% dos adolescentes quando, há quatro anos, era relatado por apenas 13,5%.

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Quase um quarto dos inquiridos relatam dores de estômago com a mesma periodicidade. Há quatro anos, apenas 5%. A descrição de tonturas, dores nas costas, no pescoço, nos ombros aumentou igualmente.

Margarida Gaspar de Matos diz que “estava à espera” disto. E porquê? “Estes jovens foram apanhados no meio de uma recessão económica para a qual penso que ninguém estava preparado. É a falta de expectativas, a preocupação com o futuro… muito miúdos dizem-me que o que lhes interessa é tirar um curso que dê para emigrar mas que não querem emigrar e sentem-se tristíssimos”, explica. Depois, muitos relatam que os pais estão mais nervosos. “E isto reflecte-se nos conflitos em casa.” O stress, o medo, a desconfiança fazem doer.

A equipa de Margarida Matos vai agora investigar as causas para vários dos números. Há outras pistas a explorar. O impacto da falta de sono, por exemplo. “E a falta de sono pode estar associada ao uso de novas tecnologias que é omnipresente na vida dos adolescentes.” Cerca de um terço (33,8%) dos jovens dormem menos do que oito horas por dia. O que é mau, garante. Estudos vários mostram como quem dorme pouco tem mais sintomas físicos, mais dificuldades na escola, mais propensão para consumos de substâncias nocivas.

Sexo desprotegido Preocupantes são considerados também os resultados encontrados no capítulo da sexualidade, para o qual, uma vez mais, e para a maioria das perguntas, só foram inquiridos alunos dos 8.º e 10.º anos.

Menos adolescentes iniciaram a sua vida sexual: 16,1% disseram que já tinham tido relações; há quatro anos a percentagem era de 21,8%. Contudo, há uma diminuição do uso de preservativo e um aumento das relações sexuais associadas ao consumo de álcool.

Números: mais de um em cada cinco não usaram preservativo na sua “primeira vez” e 7,9% não sabem se usaram ou não.

E na última relação sexual que tiveram, o que aconteceu? Não foi muito diferente: 20,3 % não usaram preservativo e 9,3% não sabem. A possibilidade de responder “não sei” foi introduzida este ano, por ordem da OMS, e um dos objectivos é “captar” os alunos que estavam sob o efeito de álcool e de drogas e não se lembram — sendo que perto de 16% dos alunos dizem que tiveram relações sob o efeito do álcool ou drogas.

Resumindo: há quatro anos 95,2% dos adolescentes diziam ter usado preservativo na última vez em que tinham estado com alguém, contra 70,4% agora.

E como justificam os jovens o facto de não usarem preservativo? Algumas respostas: “Não ter pensado nisso” (42%); “Não ter preservativo” (31,8%); “Os preservativos são muito caros” (26,1%); ter “bebido álcool em excesso” (23,9%).

“É de ficar alarmado, sim”, reconhece a coordenadora do estudo. Associa os dados ao “desinvestimento das políticas públicas na questão do VIH/Sida” e a àquele que foi o comportamento dos técnicos de saúde durante anos. “Amavelmente, andámos a dizer às pessoas infectadas que a vida não acabava, que a doença é uma doença crónica. E as outras pessoas passaram a achar que se apanharem VIH tomam uns comprimidos e é uma doença crónica. Não faz mal. Foi uma má mensagem dos técnicos de saúde — a começar por mim que disse isto centena de vezes. Foi contraproducente, mas não nos apercebemos.”

Margarida Matos não tem dúvidas de que, a continuar assim, as infecções entre os jovens vão aumentar. O cenário só não é pior porque eles estão a adiar mais o início da vida sexual. “Mas do ponto de vista da saúde pública preferia que não tivesse baixado o número de jovens a iniciar a vida sexual e que tivesse aumentado o uso do preservativo.”

Sobre o que pensam da sua “primeira vez”, que memória guardam, 45% dos adolescentes acham que aconteceu na altura certa. “E os outros?” Margarida Matos não esconde que ficou inquieta.

“Esta situação remete para a necessidade de a educação sexual sair do âmbito da prevenção do risco sexual e passar a abordar a sexualidade em termos de competências pessoais, de relações interpessoais, de equidade de género e de direitos humanos”, no fundo, dando armas aos jovens para escolherem livremente. “Já ninguém se devia sentir mal, ou pressionado, no século XXI, por ser a única ou o único da turma a não ter tido relações.”

O estudo é claro: 13,2% dos que já tiveram relações dizem que preferiam que tivesse sido mais tarde; 5,2% (7,5% das raparigas) dizem que na verdade não queriam realmente ter tido.

“Colas” e “charros” O estudo A Saúde dos Adolescentes Portugueses foi conduzido pela equipa da Associação Aventura Social, que inclui membros da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, e do Centro da Malária e Doenças Tropicais, da Nova de Lisboa, com o financiamento da Direcção-Geral da Saúde. Não tráz apenas más notícias.

Desde logo, continua a assistir-se ao decréscimo do consumo do tabaco. A dois níveis: por um lado, 92,5% dos adolescentes dizem que nunca fumaram (contra 88% há quatro anos); e o número dos que relatam fumar todos os dias baixou de 4,5% para 2,6%.

Houve uma alteração metodológica na recolha de informação relacionada com o consumo do álcool, mas a tendência também parece ser para uma redução do consumo, nomeadamente o excessivo.

A esmagadora maioria dos adolescentes (93,7%) continua a dizer que nunca consumiu drogas. Enquanto a marijuana mantém uma posição estável (8,8% dos alunos dos 8.º e 10.º anos dizem que já consumiram).

Há, contudo, uma mudança: esta já não é a substância mais “experimentada” — os “solventes” e “colas” parecem estar a tornar-se mais populares (9,7%) quando se pergunta “já experimentaste?”

De resto, há algumas ligeiras subidas em drogas mais pesadas: 2% dizem que já experimentaram heroína (1,4% em 2010) e 2,4% cocaína (1,9% em 2010). O primeiro “charro” (para os que fumam) acontece em média aos 13,9 anos. E entre os que dizem já ter consumido álcool, a idade de iniciação foi aos 12,8. A primeira bebedeira aconteceu mais tarde (13,94 anos, em média). Mas estamos sempre a falar de minorias (83% dos adolescentes dizem que nunca se embriagaram).

Margarida Matos diz que são boas notícias. Mas num contexto de aumento dos sintomas de mal-estar, sublinha: “Há uns anos bebiam, fumavam, agora isso diminui, o que é muito bom, mas temos de ajudar estes jovens a descomprimir de algum modo, a gerir as emoções e o stress, ainda por cima numa altura de precariedade”. Porque “todas as sociedades tem as suas ‘práticas de descompressão’ e é preciso trabalhar algo para a substituição” — pode ser voluntariado, uma prática desportiva.

Por outro lado, lamenta que “com o fim das áreas curriculares não disciplinares, que eram espaços na escola onde os miúdos tinham acesso a adultos de referência”, tenha deixado de existir um espaço para os miúdos falarem com os professores fora das aulas. “Se eles não têm em casa uma família disponível e atenta, não têm com quem conversar e não são ajudados a gerir o seu stress e as suas angústias.”

 

 


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