Adoção tardia – reportagem especial da SIC

Dezembro 20, 2014 às 4:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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reportagem especial da SIC de 11 de dezembro de 2014.

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sic

Quando se inicia um processo de adoção em Portugal é perguntado que tipo de criança gostariam de ter em casa. A maioria dos adotantes prefere as mais pequenas. Independentemente da idade, há crianças que depois de rejeitadas pelos pais biológicos, são rejeitadas pelos adotivos. No entanto, há também quem, para não separar irmãos, os adote a todos de uma só vez.

O poder do “Não”

Dezembro 20, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.paisefilhos.pt  de 10 de dezembro de 2014.

nao

Escrito por Teresa Diogo

As crianças precisam de regras e limites para se sentirem seguras e crescerem saudáveis. Saber dizer “não” nem sempre é fácil e chega a ser extenuante, mas é essencial. Na medida e na hora certa.

Os pais querem o melhor para os seus filhos e desejam, acima de tudo, que sejam felizes. Por vezes, este desejo tão natural choca com a necessidade de lhes dizerem que não. Para alguns pais, esta é uma das facetas da parentalidade mais difíceis de gerir e muitos têm dificuldade em assumi-la com assertividade, coerência e eficácia. Mas dizer que não, tal como dizer que sim, faz parte da função primordial dos pais, por mais que possa parecer doloroso ou até desnecessário.
“O ‘não’ é como o sal da cozinha: nem de mais, nem de menos”, defende o psicólogo Eduardo Sá, alertando que o perigo, à conta do receio dos pais, “é estarmos a criar crianças insonsas”. E isto é “dramático”. Porque “pais bonzinhos são um bocadinho inimigos de crianças saudáveis, por mais que o façam com toda a boa-fé do mundo”. O “não” é o que torna as crianças num “motor de alta cilindrada, com uma caxa de velocidades à medida, que lhes permite ir dos zero aos 100 num instante”. 

Saber dizer não é “uma das maiores competências que os pais devem ter, tal como o saber dizer sim”, acrescenta o psicólogo Rui Brasil. Esta dicotomia “é um dos fatores mais estruturantes da personalidade da criança, nomeadamente ao nível de comportamento, tal como o bem e o mal estão para os valores éticos e o quente e o frio para os sentidos. Estas permitem que cada um de nós aprenda a autorregular-se, a posicionar-se perante uma situação ou a fazer uma escolha”, explica.
O problema é que, quando se trata de colocar limites, muitas famílias sentem-se desorientadas e não é raro ouvirmos mães e pais a reclamarem das exigências dos seus “pequenos ditadores”. Na verdade, estas dificuldades parentais parecem ser resultado da profunda alteração geracional no que toca à colocação de limites e regras às crianças. Na geração dos nossos avós, a educação dos filhos era feita na vertical, sem que houvesse lugar a que os filhos questionassem a autoridade dos pais. A geração seguinte, cansada de autoritarismo, optou pelo extremo oposto, tornando-se por vezes demasiado permissiva. Pais e filhos passaram a ocupar o mesmo patamar de igualdade. Porém, o que as crianças precisam mesmo é de pais que cumpram a sua função, sem confundir autoridade com autoritarismo.

“Os pais têm que ser pais e não amigos. Têm que impor, ditar, estabelecer regras e limites, definir orientações, apontar estratégias. Não têm que pedir por favor aos meninos que aprendam a ser gente ao longo do seu crescimento: têm que fazer deles gente. Com tantas regras quanto amor”, defende Rui Brasil. Porque, caso contrário, acrescenta Eduardo Sá, as crianças limitam-se a fazer, e muito bem, o seu papel: “Esticam-nos e metem-nos no bolso”. E sem darmos conta, “de principezinhos passamos a ter pequenos ditadores e de pequenos ditadores adolescentes tiranos”. É por isso que os pais devem ter a noção de que “a autoridade faz muito bem à vida democrática” e tem uma função essencial. “Se for sensata, compatibiliza as regras da sociedade com os ritmos e o equipamento de base das crianças e isso é tão bom que faz com que elas ganhem asas e saibam voar”.

Regras bem definidas


Já todos ouvimos que as crianças precisam de regras e limites para crescerem saudáveis e em harmonia consigo próprias e com o mundo que as rodeia. Contudo, para alguns pais parece persistir a ideia de que elas sofrem psicologicamente com isso. “É exatamente o contrário”, adverte o pediatra Paulo Oom. “A criança com regras sente-se mais segura”. Por isso, defende que “para educar corretamente uma criança, temos que a frustrar de vez em quando e isto para alguns pais é quase uma barbaridade”. É claro que isto não significa “frustrar pelo gozo de frustrar ou por maldade ou só para contrariar”. Significa “única e exclusivamente que as crianças têm de ouvir um ‘não’”. E mais importante do que ouvir um “não” “é o que a criança faz a seguir a ouvir um ‘não’: é importante que perceba porque é que ouviu aquele ‘não’ e que alternativas é que tem naquele momento para fazer outras coisas que não impliquem aquilo que ela queria fazer e que os pais não deixaram”. Paulo Oom lembra que uma criança que nunca ouve um “não” é uma criança que “não tem limites e como não está habituada a ter regras vai dar-se mal na escola e mais tarde no emprego”.

 O pediatra espanhol Carlos González, conhecido por defender uma educação mais permissiva, também concorda que “existem muitos motivos para os pais dizerem não aos seus filhos”, mas acredita que “não é preciso gritar, nem fazer ameaças”. Acima de tudo, é essencial “dizê-lo com naturalidade, com respeito, sem exageros e, sobretudo, dar o exemplo às crianças”. A questão, considera, é que por vezes os pais passam o dia inteiro a proibir coisas que “não são assim tão importantes (‘Não te sentes assim, senta-te direito’, ‘Não ponhas o dedo no nariz’, ‘Não apanhes isso do chão’, ‘Não passes por dentro da poça’…) e o ‘não’ torna-se música de fundo”. Resultado: “Acabam por não obedecer a nada”. Por isso, defende que o “não” deve ser um recurso bem gerido e que, embora em muitas situações seja irrevogável, há outras em que os pais até podem ceder. “Se dizemos ao nosso filho que não pode brincar com a faca ou que não pode pegar no bebé, é óbvio que não podemos ceder, por muito que ele se zangue, mas há outras situações em que podemos ser mais flexíveis: se ele insiste em jogar durante mais cinco minutos ou se não quer vestir aquela camisola, por que não haveremos de ceder?”, questiona. Até porque “uma pessoa que nunca cede é intransigente e não é esse o exemplo que queremos dar aos nossos filhos”.
Para Mikaela Övén, formadora e coach parental, o problema é que muitas vezes os pais têm dificuldade em exprimir os seus limites. Por várias razões: “Uma das principais é porque não tivemos pessoas a darem o exemplo quando éramos crianças. Ouvimos ‘nãos’ duros e autoritários, ‘nãos’ porque sim, e acredito que muitos pais hoje em dia querem fazer algo diferente, mas não sabem muito bem como”. Para esta defensora da parentalidade consciente, “o importante é a criança poder conhecer os limites das pessoas à sua volta e para isso essas pessoas têm de saber comunicar os seus limites. Em geral, somos bastante maus a comunicar os nossos limites pessoais (principalmente as mulheres) e isso não é um bom exemplo para os nossos filhos”, sublinha. Por isso, defende que “um ‘não’ congruente é um ‘não’ meu, um ‘não’ que digo porque estou a assumir responsabilidade pessoal pelos meus limites, pelos meus valores, e não porque acho que o devo dizer, porque tenho medo do que os outros possam pensar ou porque alguém me disse que deveria dizer que não. Para o meu filho acreditar no meu ‘não’, tenho de ser eu a acreditar nele em primeiro lugar”.

No mesmo sentido, o psicólogo Rui Brasil sugere que os pais se concentrem no seu papel de pais e educadores: “Isso passa por educar com tempo, com paciência, estabelecendo limites e regras de forma consistente e sem contradições, sem nunca deixar de dar colo e mimo”. E para que as coisas funcionem é preciso “incorporar a regra em nós”. Porque “ninguém sabe ou pode educar os seus filhos com maior preparação que os próprios pais”. Mas para isso é preciso que “as regras para educar sejam nossas”, porque se são “do pediatra, do psicólogo, da internet ou da amiga, não estão interiorizadas, são externas e os pais tornam-se pares dos filhos (‘os amigos’) e não a sua figura de referência e de autoridade”. Assim, em primeiro lugar, é fundamental que os pais estabeleçam as suas próprias regras, “com recurso a algumas figuras de confiança e de referência mas, efetivamente, as suas regras”.
Por outro lado, Mikaela Övén sugere que as regras sejam comunicadas numa linguagem pessoal de “eu quero/eu não quero”, para que a criança “fique a conhecer os nossos limites e aprenda a relacionar-se com eles”. É muito mais fácil para a criança “perceber quando digo: ‘Eu não quero que ponhas os pés na mesa, para mim é importante manter o espaço onde comemos limpo e os teus pés estão sujos’, do que quando digo ‘Não se põe os pés na mesa! Tira imediatamente daí’.” Além disso, defende que a comunicação deve ser feita na primeira pessoa (“eu” e não ”a mamã/o papá”) porque “uma linguagem próxima, pessoal e autêntica é feita na primeira pessoa”. Por fim, refere a coach parental, é importante lembrar que a criança tem direito a fazer “luto” do “não”. “Quando uma criança ouve um ‘não’ muitas vezes chora e demonstra desagrado, e isso é natural. Ficar frustrado não é mau. O importante é manter o ‘não’ desde que seja congruente (se não mais vale mudar!) e respeitar a reação da criança sem julgamentos.” E sem esquecer que para a criança respeitar um “não” é fundamental que os ”nãos” dela também sejam respeitados. “O que fazemos muitas vezes quando uma criança não quer dar um beijinho? Pois, desrespeitamos esse limite pessoal, esse ‘não’ da criança e muitas vezes ela é obrigada a dar tal beijinho…”

Mal-educado, reguila ou mimado?

mbora seja frequente rotular as crianças de hoje de mal-educadas e mimadas, é importante distinguir má educação de mimo. “Má educação é algo a combater e a prevenir, já o mimo não só é preciso como é essencial para o crescimento e desenvolvimento afetivo das crianças”, sublinha o psicólogo Rui Brasil, lembrando que “uma criança é alguém que está a estruturar a sua personalidade, a organizar os seus pensamentos, valores e as suas atitudes, e que por isso tenta perceber, interpretar e dominar o ambiente onde se insere”. Neste processo de inclusão no mundo, é natural que “coloque em causa as regras estabelecidas, que negoceie, que lute pela prevalência das suas vontades e desejos, num constante desafio face aos adultos que lhe são próximos”. O problema é que hoje parece não haver lugar para crianças “reguilas ou traquinas”, que acabam por ser, erradamente, catalogadas de “mal-educadas”. “Ser reguila é positivo, assenta na ideia de destemor, de não ter medo de explorar o mundo, de expressar emoções”. Rui Brasil acredita que “devíamos educar mais miúdos reguilas, que sabem ouvir ‘não’, que aprendem a lidar com a frustração, que sabem esperar, que sabem que as suas necessidades e desejos não podem ser todos atendidos”.

Dicas para estabelecer limites

Na incansável tarefa de definir limites, é importante ter em mente aquilo que deve estar na base de todo o processo. O psicólogo Rui Brasil sugere algumas dicas, que ajudam a reter o essencial e permitem aos pais ser mais assertivos.
As regras devem ser consistentes no tempo: uma regra deve ser sempre igual. A consistência ajuda a criança a organizar-se e a criar uma rotina, sem a qual pode entrar em ansiedade por não entender e dominar o seu contexto. As regras podem conter limites e exceções: “Vamos para a cama às 9h, menos ao sábado que podemos ir às 10h”. Assim, a criança já sabe o que é esperado dela. Todos os comportamentos têm consequências: para termos adultos responsáveis e autoconfiantes, precisamos de crianças com regras (e suas consequências) interiorizadas. No processo educativo deve haver espaço para a responsabilização e punição, mas também para a negociação (que promove o sentido crítico) e recompensa.
As regras podem ser positivas: o uso excessivo de uma palavra torna-se uma rotina e não surpreende e, em consequência, perde o seu valor. Se não queremos que o “Não” adquira a natureza de barulho de fundo, por que não colocar as regras pela positiva? “Correr é só no jardim” substitui um “Não corras”; “Porque estás a empurrar o teu irmão?” em vez de “Não empurres o teu irmão”. O questionamento da criança é uma estratégia eficaz, já que a coloca num papel ativo.
O amor é incondicional, os comportamentos é que são condenáveis: o que os pais não gostam é do comportamento que o filho tem em determinada situação e não dos filhos. É essencial que as crianças percebam desde sempre que o amor dos pais é inquestionável e não depende de qualquer atitude ou comportamento que os filhos demonstrem.

Da repreensão à palmada

Os pais que recorrem à palmada “como única forma de educar os seus filhos são pais que estão condenados ao fracasso”, defende o pediatra Paulo Oom. A razão é simples: “Cada vez vão ter que bater mais vezes ou com mais força e, mais do que isso, vão criando e entrando num beco sem saída, que é a adolescência”. Para este especialista, a palmada deve ser sempre o último recurso para terminar um comportamento que não é de todo aceitável e reservado apenas para “situações muito pontuais e muito graves”. Situações que “colocam a saúde ou a vida da criança em risco”. Além disso, sublinha, “a palmada vale mais pelo gesto do que propriamente pela intensidade”. Deve ser um gesto tão raro que a criança “percebe que aquilo que fez foi suficientemente grave para não poder repetir no futuro”. Na opinião de Paulo Oom, a disciplina faz-se “90 por cento pela positiva e 10 por cento pela negativa”. Ou seja, na grande maioria das vezes faz-se “explicando à criança o que esperamos dela e dando-lhe o exemplo, para que ela tendencialmente siga aquilo que os pais ou cuidadores dizem”. Nos restantes casos, “é preciso que os pais digam não, que repreendam, que ponham de castigo”.

 

 

 

 


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