UNICEF declara 2014 um ano devastador para as crianças

Dezembro 11, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Comunicado de imprensa da Unicef de 8 de dezembro de 2014.

Com 15 milhões de crianças a sofrer no meio de grandes conflitos, a UNICEF declara 2014 um ano devastador para as crianças.

NOVA IORQUE/GENEBRA, 8 de Dezembro de 2014 – O ano de 2014 tem sido um ano de horror, medo e desespero para milhões de crianças, dado que o agravamento dos conflitos no mundo as deixou expostas à violência extrema e suas consequências, recrutadas à força e deliberadamente visadas por grupos beligerantes, afirmou hoje a UNICEF. E no entanto muitas crises já não captam a atenção do mundo, advertiu o Fundo das Nações Unidas para a Infância. “Este tem sido um ano devastador para milhões de crianças,” afirmou Anthony Lake, Director Executivo da UNICEF. “Crianças têm sido assassinadas enquanto estudavam em salas de aula e enquanto dormiam nas suas camas; foram tornadas órfãs, sequestradas, torturadas, recrutadas, violadas e até vendidas como escravas. Nunca, no passado recente, tantas crianças estiveram sujeitas a tamanhas brutalidades.”

Chega aos 15 milhões o número de crianças que estão também a sofrer as consequências de conflitos violentos na República Centro-Africana, no Iraque, no Sudão do Sul, no Estado da Palestina, na Síria e na Ucrânia – incluindo as que são deslocadas internas ou vivem como refugiadas. No mundo, estima-se que 230 milhões de crianças vivam actualmente em países e áreas afectadas por conflitos armados.

Em 2014, centenas de crianças foram raptadas das suas escolas ou a caminho da escola. Dezenas de milhares foram recrutadas ou utilizadas por forces ou grupos armados. O número de ataques a instalações de Educação e Saúde, e a utilização de escolas para fins militares têm aumentado em muitos lugares.

  • Na República Centro-Africana, 2.3 milhões de crianças estão afectadas pelo conflito, estima-se que ascenda a 10.000 o número de crianças que têm sido recrutadas por grupos armados no decurso do último ano, e mais de 430 crianças foram mortas e mutiladas – três vezes mais que em 2013.
  • Em Gaza, 54.000 crianças ficaram sem casa em resultado do conflito que durou 50 dias no Verão, durante o qual também 538 crianças foram mortas, e mais de 3.370 ficaram feridas.
  • Na Síria, com mais de 7.3 milhões de crianças afectadas pelo conflito, incluindo 1.7 milhões de crianças refugiadas, as Nações Unidas verificaram pelo menos 35 ataques a escolas nos nove primeiros meses do ano, que causaram a morte a 105 crianças e ferimentos e quase 300 outras. No Iraque, onde se estima que 2.7 milhões de crianças estejam afectadas pelo conflito, calcula-se que pelo menos 700 crianças foram mutiladas, mortas ou até executadas neste ano. Em ambos os países, crianças foram vítimas ou testemunhas, e até mesmo envolvidas na prática de actos cuja violência tem sido cada vez mais brutal e extrema.
  • No Sudão do Sul, estima-se que 235.000 crianças menores de cinco anos estejam a sofrer de má nutrição aguda grave. Perto de 750.000 crianças foram deslocadas e mais de 320.000 vivem como refugiadas. Segundo dados verificados da ONU, mais de 600 crianças foram mortas e mais de 200 mutiladas neste ano, e cerca de 12.000 crianças estão actualmente a ser utilizadas por forças e grupos armados.

O próprio número de crises em 2014 significou que muitas foram rapidamente esquecidas ou receberam pouca atenção. Crises prolongadas, em países como o Afeganistão, a República Democrática do Congo, a Nigéria, o Paquistão, a Somália, o Sudão e o Iémen, continuaram a ceifar ainda mais vidas jovens e seus futuros.

Este ano também colocou novas ameaças significativas à saúde e bem-estar das crianças, em especial o surto de Ébola na Guiné, Libéria e Serra Leoa, que deixou órfãs milhares de crianças e um número estimado de cinco milhões de crianças fora da escola.

Apesar dos tremendos desafios que as crianças enfrentaram em 2014, houve esperança para milhões de crianças afectadas por conflitos e crises. Face a restrições de acesso, insegurança, e desafios de financiamento, as organizações humanitárias, incluindo a UNICEF, trabalharam em conjunto para proporcionar assistência que salvou vidas bem como outros serviços cruciais como apoio emocional e educação para ajudar crianças a crescer nalguns dos lugares mais perigosos do mundo.

  • Na República Centro-Africana, está em curso uma campanha para que 662.000 crianças retomem os seus estudos à medida que a situação de segurança o vá permitindo.
  • Perto de 68 milhões de doses de vacina oral contra a poliomielite foram entregues em países do Médio oriente para travar um surto desta doença no Iraque e na Síria.
  • No Sudão do Sul, mais de 70.000 crianças que sofriam de má nutrição grave foram tratadas.
  • Nos países atingidos pelo Ébola, o trabalho continua para combater o vírus nas comunidades locais através do apoio a centros comunitários de prestação de cuidados e unidades de tratamento do Ébola; através da formação de técnicos de saúde e campanhas de sensibilização para reduzir os riscos de transmissão; e através do apoio a crianças que ficaram órfãs devido ao vírus.

“É tristemente irónico que, no ano em que celebramos o 25º aniversário da Convenção sobre os Direitos da Criança e pudemos também celebrar tantos progressos para as crianças no mundo, os direitos de tantos milhões de outras crianças tenham sido violados de um modo tão brutal,” afirmou Lake. “A violência e o trauma fazem mais do que prejudicar crianças individualmente – comprometem a força das sociedades. O mundo pode e deve fazer mais para que 2015 seja um ano muito melhor para todas as crianças. Cada criança que cresça forte, em segurança, saudável e escolarizada é uma criança que pode avançar e contribuir para o futuro – o seu, o da sua família, o da sua comunidade, o da sua nação e, de facto, o nosso futuro comum.”

http://www.unicef.pt/

 

Mais de metade dos pais aceita perfis online abaixo da idade legal

Dezembro 11, 2014 às 5:45 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de dezembro de 2014.

Público

Catarina Gomes

Investigador defende os pais devem definir a monitorização dos tempos de utilização e dos conteúdos e a localização dos equipamentos.

A rede social Facebook proibe a criação de perfis a menores de 13 anos mas um estudo europeu revelou que mais de metade dos pais portugueses aceita que estes possam ser criados abaixo dessa idade, afirma o psicólogo clínico João Faria, lembrando os resultados do estudo europeu Net Children Go Mobile, com dados de 2013 e 2014. “Fiquei boquiaberto com este dado: ao aceitarem que os seus filhos criem perfis [com idades falsas], os pais estão a ser um modelo ensinando os filhos a contornar as regras da Internet.”

No estudo em causa são 38,5% os pais que dizem que os seus filhos de nove a 12 anos nunca poderão criar um perfil de Facebook, o que signfica que são cerca de 60% os que aceitam a prática, nota João Faria, que coordena o Núcleo de Intervenção na Internet e nas Telecomunicações, na Progresso Infantil-Centro de Desenvolvimento, um centro especializado em perturbações do desenvolvimento das crianças, em Carcavelos.

Os números do mesmo estudo – que teve como amostra 3.500 jovens europeus dos nove aos 16 anos em sete países europeus – mostram ainda que, em 2010, Portugal estava entre os países com níveis mais altos de uso da Internet no quarto, cerca de 67% diziam fazê-lo, estando ao mesmo nível que a Suécia, número que só era superado pela Dinamarca (74%). Na Bélgica e na Turquia encontravam-se os níveis mais baixo de uso da Internet no quarto, em 33%. Mas em 2013 e 2014 são menos (60%) os jovens portugueses que dizem aceder semanalmente à Internet no seu quarto. A média europeia é de 66%.

José Ilídio de Sá, autor da tese de doutoramento Bullying nas Escolas: Prevenção e Intervenção, realizada no Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, defende que, uma vez que um número significativo de situações de ciberagressão tem como palco, para a vítima ou para o agressor, o espaço da casa, “o papel das famílias assume particular relevância, sobretudo “no que diz respeito à vigilância e à monitorização dos padrões de uso e de consumo da Internet por parte dos jovens, e à definição de regras por parte dos pais”. Estas podem incluir e definir a monitorização dos tempos de utilização e dos conteúdos e a localização dos equipamentos, procurando, por esta via, inverter a “cultura do quarto” característica nestas faixas etárias, diz.

http://www.netchildrengomobile.eu/

Bullying nas escolas: prevenção e intervenção

 

Cyberbullying: quando o miúdo franzino pode tornar-se poderoso

Dezembro 11, 2014 às 5:29 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 7 de dezembro de 2014.

Fábio Teixeira

Catarina Gomes

As vítimas de bullying tornam-se muitas vezes agressores no cyberbullying. Estudo europeu de 2014 reporta que 5% dos miúdos portugueses dos 9 aos 16 anos dizem ter tido experiências de cyberbullying alguma vez na vida.

Maria tem 16 anos, é sociável, popular e bonita, uma excelente aluna, esteve no quadro de mérito na escola secundária onde frequenta o 10º ano. Tal como cerca de 70% dos adolescentes portugueses, tem um perfil numa rede social. Alguém pegou numa das fotografias que tinha no seu Facebook, em que estava numa festa de casamento, muito produzida, com sapatos de salto alto. Depois criou com essa imagem um perfil falso onde alguém a critica por não ter idade para andar com aquelas roupas, diz que dorme com muitos rapazes e chama-lhe “nomes feios, muito feios, começados por p.”, conta a mãe, funcionária pública de 48 anos, que anda há um ano em tribunal a tentar descobrir quem fez aquilo à filha. Maria foi vítima de cyberbullying.

É uma nova forma de violência que amplia as consequências do bullying presencial. Trata-se de usar a Internet como meio para difundir ameaças, difamações e violência psicológica. “O bullying são quatro ou cinco pessoas a assistir e a incentivar no momento. No cyberbullying a audiência é potencialmente infinita”, diz o psicólogo João Faria. Podem ser usadas as redes sociais, as sms, o twitter. O estudo europeu Net Children Go Mobile, reporta que 2% dos miúdos portugueses dos 9 aos 16 anos dizem ter tido experiências de cyberbullying alguma vez na vida (dados de 2010), número que subiu para os 5% em 2014. A média dos sete países europeus estudados é de 7%.

No bullying presencial “o perfil das vítimas é mais evidente”, são muitas vezes os mais fracos. “São os mais franzinos, os gordinhos, ou que usam óculos, ou tem dificuldades cognitivas. A vítima do cyberbullying é mais difusa”, diz a psicóloga do Hospital Amadora-Sintra Filipa Fonseca, que nos últimos dois anos tem começado a receber casos deste tipo. A vítima pode ser alguém como Maria (nome fictício). “Ela nunca teve problemas na escola, sempre teve imensos amigos”, conta a mãe.

O bully (agressor) também já não é necessariamente “o miúdo forte com as costas quentes, o miúdo franzino torna-se poderoso”, nota João Faria, psicólogo que coordena o Núcleo de Intervenção na Internet e nas Telecomunicações, na Progresso Infantil, um centro especializado em perturbações do desenvolvimento das crianças, em Carcavelos.

“Há muitas vezes uma inversão. As vítimas de bullying tornam-se muitas vezes agressores no cyberbullying.” E lembra um caso que acompanhou de um miúdo que sofria de uma perturbação do espectro do autismo, que tinha sido vítima de bullying na escola, que passava o tempo em casa, muito isolado. “Fez um vídeo demolidor dos seus agressores.”

Enquanto o bullying presencial acontece muitas vezes no espaço da escola e esta não pode desresponsabilizar-se, no caso do cyberbullying a experiência de João Faria é que as “escolas tentam sacudir a água do capote”. Afinal, as “agressões são muitas vezes feitas a partir de casa”. “As escolas querem desresponsabilizar-se, as famílias querem responsabilizar as escolas”. “Na era dos smartphones ainda torna mais complexo este fenómeno”, diz Jose Ilídio Sá, investigador do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, que fez a sua tese de doutoramento sobre este fenómeno.

Os perigos da rapidez

Iniciar um rumor já podia ser uma arma psicológica, a diferença é que na sua versão electrónica –  quer através da criação de falsos perfis ou tornando públicas fotografias de situações íntimas ou embaraçosas – tudo acontece muitas vezes “de forma impulsiva”. “Não reflectem e depois de colocar posts às vezes arrependem-se”, constata a psicóloga. Além da dimensão da audiência, outro dos grandes riscos “é a rapidez com que tudo é executado”, nota João Faria. “Qualquer zanga pode dar azo a difamações para os contactos”, junta Filipa Fonseca.

O problema é que “o mundo não os está a ajudar a esperar, está a empurrar para a impulsividade”, diz João Faria que dá um exemplo muito concreto, quando nos restaurantes se vê pais a darem às crianças um Ipad enquanto esperam pela comida. “Não estão a esperar. É preciso deixá-los estar com os seus pensamentos, a divagar.” Filipa Fonseca constata que “no campo social estão pouco habituados a esperar para resolver os seus problemas. É preciso treinar a espera”, alerta a psicóloga do Amadora-Sintra.

“É preciso trabalhar questões da auto-regulação, da impulsividade”, acrescenta. Há um termo novo que se chama regras de “netiqueta” e que trata de ensinar o respeito pelo outro online, como por exemplo mandar uma mensagem e não insistir logo para ter uma resposta imediata. “Pensa antes de publicar” é uma das mensagens de um cartaz criado por uma agência irlandesa, a Fuzion, depois de dois casos de bullying electrónico no país que conduziram ao suicídio. O site português de promoção do uso seguro da Internet por crianças, MiudosSegurosNa.Net, convida à sua divulgação.

Ver, comentar, fazer “gostos” numa página com difamações não é sentido por muitos como “cumplicidade”. “É preciso dizer-lhes que não são meros espectadores”, diz Filipa Fonseca. José Ilídio de Sá diz que existe “quase um pacto de silêncio. Os jovens acham que não se devem intrometer em contendas entre colegas” e temem que “ao queixarem-se poderão também ser objecto de agressão”. O investigador diz que se o jovem decide denunciar a professores ou à direcção da escola, e “nada acontece”, a confiança perde-se.

Medo de ficar sem computador

Nalguns casos, os miúdos não contam o que lhes está a acontecer. Às vezes não dizem nada aos pais precisamente com medo de ficarem sem o computador ou o smartphone, constata Filipa Fonseca. Não foi isso que aconteceu com Maria. Mal soube do perfil ligou à mãe e isso fez toda a diferença. “Temos uma relação muito próxima, muitas amigas dela diziam-lhe: ‘se fosse eu não contava aos meus pais’”.

O que os pais de Maria têm feito com a filha é desvalorizar o que aconteceu. Dizem-lhe “não ligues, não é importante, toda a gente sabe que aquilo é mentira”. “O que vale é que ela tem uma personalidade forte”, diz o pai, mas acrescenta que miúdos mais frágeis, “sem apoio familiar, podem ir-se abaixo”. No caso dela, desconfiam que terão sido raparigas, colegas da escola, a criar o perfil falso, por causa do tipo de linguagem e pela forma como comentam a roupa. Terá a ver com “invejas de namoricos de miúdos”, diz o pai.

Desde que aquilo aconteceu passaram a estar muito mais vigilantes ao seu uso da Internet, visitam regularmente o perfil da filha, de quem são “amigos”. E a filha passou a estar proibida de publicar determinadas fotografias no seu perfil, seja de fato de banho ou com decotes. “Esse tipo de fotos não são para as redes sociais.”

http://www.netchildrengomobile.eu/

 

I Congresso Luso-Brasileiro | Alienação Parental – invisibilidades jurídicas

Dezembro 11, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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ordem

O Conselho Distrital de Lisboa em parceria com o Instituto Brasileiro de Direito de Família promove o I Congresso Luso-Brasileiro Alienação Parental – invisibilidades jurídicas, que se realiza dos dia 29 e 30 de Janeiro de 2015 no Forum Lisboa..

A Associação Brasileira Criança Feliz, a Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica e a Alienação Parental Revista Digital Lusobrasileira são as entidades que aderiram à iniciativa.

As inscrições devem ser efectuadas para o e-mail
centro.estudos@cdl.oa.pt, com a ficha de inscrição preenchida até dia 27 de Janeiro de 2015.

Valor da inscrição: 1 dia: 20€ | 2 dias: 40€.  Veja
aqui o programa.

 

Aprender a ler reorganiza o nosso cérebro e melhora o desempenho visual

Dezembro 11, 2014 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do Público de 27 de novembro de 2014.

Ana Banha

Ana Gerschenfeld

Quando aprendemos a ler, uma dada área do nosso córtex visual passa a dedicar-se ao reconhecimento da escrita. E esta reorganização funcional do cérebro acontece seja qual for a idade em que se faz a aprendizagem da leitura – e parece ser idêntica em todas as línguas.

Nunca é tarde de mais para aprender a ler. Esta é uma das conclusões de um estudo publicado na última edição da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por uma equipa de investigadores de França, Bélgica, Portugal e Brasil.

Mais: a aprendizagem da leitura aumenta o desempenho visual das pessoas, permitindo-lhes detectar diferenças entre objectos de todo o tipo – e não apenas na escrita – mais depressa do que as pessoas totalmente iletradas.

Estes cientistas já tinham publicado, em 2010, na revista Science, um primeiro estudo sobre a forma como a aprendizagem da leitura deixa uma “marca” no cérebro humano. Na altura, compararam a actividade cerebral de pessoas analfabetas e de pessoas que sabiam ler através da técnica de ressonância magnética funcional. E concluíram que a aprendizagem da leitura reorganiza literalmente o sistema visual humano. Mais precisamente, mostraram que o facto de uma pessoa aprender a ler leva ao aparecimento, no seu córtex visual, de uma área, chamada VWFA (visual word form area) e especializada no reconhecimento das letras e das palavras escritas.

Todavia, escreve agora na PNAS a mesma equipa – que inclui José Morais, conhecido especialista português de psicologia experimental da Universidade Livre de Bruxelas; Paulo Ventura, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa; Stanislas Dehaene, reputado investigador do Collège de France; e vários outros neurocientistas, psicólogos e especialistas de cognição humana –, o estudo da Science não chegava para perceber quais eram as etapas do processamento da informação visual que eram alteradas pela aprendizagem da leitura. É esta lacuna que o actual artigo visa agora colmatar.

Diga-se antes de mais que um dos pioneiros da ideia de que o cérebro muda quando se aprende a ler é português: trata-se do neurocientista Alexandre Castro Caldas, actualmente director do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

Voltando ao actual estudo, os autores submeteram voluntários adultos brasileiros e portugueses – 24 que sabiam ler, 16 ex-analfabetos e nove totalmente iletrados – a testes de discriminação visual enquanto registavam a sua actividade cerebral. Só que, desta vez, essa actividade foi recolhida através de múltiplos eléctrodos aplicados no couro cabeludo – ou seja, por electroencefalografia, uma técnica mais precisa.

O teste consistia na apresentação sucessiva de pares de imagens pertencentes a seis categorias de objectos diferentes: sequências de letras (“pseudo-palavras”), sequências de caracteres que parecem escritos num alfabeto diferente (designadas por “falsas fontes”), rostos, casas, ferramentas e padrões axadrezados. Cada par de imagens continha duas imagens idênticas, duas imagens “em espelho” ou duas imagens diferentes de objectos da mesma categoria.

Como os processos de discriminação visual em estudo não são conscientes, não era pedido aos participantes para discriminarem conscientemente as imagens de cada par. De facto, “os participantes deviam simplesmente estar atentos [às imagens] e carregar num botão de cada vez que surgia uma imagem que não fazia parte do par (uma estrela preta)”, lê-se na PNAS.

Primeiro efeito da literacia: menos de 200 milissegundos após a apresentação de sequências de letras escritas, a actividade cerebral das pessoas que sabiam ler aumentava de forma espectacular na já referida área VWFA, especializada no tratamento visual da escrita e situada na zona lateral traseira do hemisfério esquerdo do cérebro (nas pessoas dextras). “O que isto significa é que os efeitos da literacia emergem muito cedo no processo de tratamento da informação visual”, disse Paulo Ventura em entrevista telefónica ao PÚBLICO.

Tigre da esquerda, tigre da direita

“Um outro efeito muito forte [da literacia] é o aumento da precisão da nossa discriminação dos objectos visuais”, acrescenta este cientista. Acontece que as pessoas que sabem ler discriminam melhor duas imagens semelhantes (mas não idênticas) do que as pessoas iletradas. E ainda um terceiro efeito detectado pelos cientistas tem a ver com as imagens “em espelho” – onde, mais uma vez, o desempenho de quem sabe ler é muito melhor do que o de quem não sabe. “Saber distinguir entre um ‘b’ e um ‘d’ e entre um ‘p’ e um ‘q’ basta para melhorar drasticamente a nossa discriminação das imagens em espelho”, frisa Paulo Ventura.

E de facto, os autores constataram que estas melhorias do desempenho visual associadas à literacia não se limitam às palavras escritas, estendendo-se também às outras categorias de imagens apresentadas. “A literacia melhora o processamento visual em geral”, diz Paulo Ventura.

E a seguir, brinda-nos com uma colorida analogia: “Por exemplo, se eu vir um tigre aproximar-se pela direita ou pela esquerda, o meu sistema visual detecta que se trata de um tigre, que é o que interessa (e depois localizo o tigre). Ora, nós usamos este sistema até começarmos a ir à escola, altura em que temos de aprender a distinguir entre pares de letras em espelho. E se eu antes tratava duas imagens em espelho como idênticas, quando aprendo a ler passo a discriminá-las – e passo a ver o tigre da esquerda e o tigre da direita como objectos diferentes.”

Ainda uma outra diferença foi observada pelos autores, desta vez ao nível do reconhecimento das caras, entre a actividade cerebral dos participantes letrados e iletrados. “A aprendizagem da leitura tem dois efeitos muito importantes no funcionamento das regiões cerebrais envolvidas no processamento visual”, resume por sua vez José Morais num email: “Aumenta a capacidade de discriminação de objectos muito para além da identificação das letras; e conduz a uma reorganização do processamento das caras.”

Reciclagem neuronal

O co-autor Stanislas Dehaene tem uma teoria acerca desta reorganização cerebral ligada às caras, como nos explica ainda Paulo Ventura: “As áreas do cérebro que respondem à identidade do rosto estão sobretudo no hemisfério direito e um pouco – muito pouco – no esquerdo.” E a teoria de Stanislas de Dehaene é que, na altura da aprendizagem da leitura, ocorre uma “reciclagem neuronal”.

Mais precisamente, segundo Dehaene, refere Paulo Ventura, “a invenção da leitura é demasiado recente (foi há uns 5000 anos) para ter tido impacto ao nível do genoma humano.” E o que isto quer dizer, frisa ainda este investigador, é que não fomos formatados para a leitura pela evolução – e que, por isso, quando aprendemos a ler, temos de “recrutar” para essa nova função uma área do cérebro que até ali servia para outra coisa – neste caso, para identificar rostos. “É como se essa área fosse invadida, reciclada para uma nova função”, diz Paulo Ventura.

Mais: a partir do momento em que aprendemos a ler, essa região especializada que é a VWFA, essa “zona cerebral das palavras escritas”, passa a existir. E é a mesma em todas as línguas – em português, em russo, hebraico, japonês, mandarim…

De facto, os resultados agora obtidos abonam em favor da ideia de reciclagem neuronal. Estudos anteriores já tinham observado que, quando lhes são apresentadas imagens de faces, as pessoas iletradas activam uma área do seu hemisfério cerebral esquerdo que “calha” justamente na área VWFA de reconhecimento da escrita usada pelas pessoas letradas. Ora, os autores do actual estudo constataram que, quando as pessoas letradas estão a discriminar duas faces, a actividade da região VWFA diminui. Mas, ao mesmo tempo, a actividade aumenta numa área homóloga do seu hemisfério cerebral direito. O que sugere efectivamente que uma componente do processamento visual dos rostos humanos terá sido “deslocada” de um hemisfério cerebral para o outro quando o lugar onde inicialmente residia ficou “ocupado” pela aprendizagem da leitura. Terá havido, portanto, reciclagem neuronal.

Quer isto dizer que quando aprendemos a ler, passamos a reconhecer menos bem as faces? “Não, antes pelo contrário”, responde Paulo Ventura. “Discriminamos melhor as faces, devido à melhoria [geral] do processamento da informação visual.”

Há ainda uma boa notícia a destacar neste trabalho: os autores terminam dizendo que os seu estudo confirma que, no cérebro dos ex-iletrados – aqueles que aprenderam a ler na idade adulta –, a área específica VWFA, que se activa com a leitura no hemisfério esquerdo, também existe. “Não interessa a idade em que se aprende a ler; a melhoria do processamento da informação visual pode ser adquirida aos seis anos ou em adulto”, diz Paulo Ventura. “Nunca é tarde para usufruir dos benefícios cerebrais que a leitura traz”.

 

 


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