Mariana conta o que é viver com o peso de ter perdido a mãe às mãos do seu próprio pai

Novembro 19, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do i de 14 de novembro de 2014.

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Por Rosa Ramos

Ricardo planeou o crime e foi condenado a 15 anos de cadeia. Cumpriu metade da pena e, 13 anos depois, ainda não pagou a indemnização

Mariana continua a ver o rosto do pai em cada esquina. Passaram 13 anos desde a manhã em que a mãe foi encontrada morta numa rua pouco movimentada, dentro de um carro com um dos vidros partido. Uma mulher, registou a PSP, “de raça caucasiana aparentando ter cerca de 40 anos”. Horas depois, os inspectores da PJ concluíam, na nota de serviço enviada ao coordenador dos homicídios, que dificilmente o crime teria ocorrido ali.

Na noite anterior o pai foi buscá-la mais tarde a casa dos avós. Avisou que tinha trabalho para fazer na empresa e pediu se lhe podiam dar o jantar. Ao fim da tarde a filha quis telefonar à mãe. “Estou a ir para casa”, disse-lhe Helena. Nem meia hora depois, quando Mariana – mais ansiosa que o normal – voltou a pedir aos avós para fazer outra chamada, o telemóvel já não dava sinal.

Ricardo apareceu em casa dos pais pouco antes da meia-noite. Jantou normalmente e Mariana recorda-se de se sentir agitada: a mãe nunca desligava o telemóvel e costumavam telefonar-se pelo menos quatro vezes por dia. Entrou no carro do pai e a caminho de casa só pensava em vê-la. Mas quando abriu a porta do apartamento, num dos bairros mais caros de Lisboa, as luzes estavam apagadas e não havia ninguém em casa. O pai disse-lhe que não sabia dela, que se fosse deitar porque no dia seguinte tinha escola e a mãe haveria de chegar entretanto. A caminho da cama, de pijama, Mariana ainda tentou abrir a porta do quarto dos pais, mas estava trancada à chave. Ricardo, irritado, insistiu que fosse dormir.

Mariana passou boa parte da noite em claro: em 10 anos a mãe nunca lhe tinha falhado e só podia ter acontecido alguma coisa séria. “Dei voltas na cama e, ainda hoje não sei porquê, pensei que a minha mãe nunca mais ia voltar e no que iam dizer os meus colegas da escola quando soubessem que eu já não tinha mãe.” Antes de adormecer deixou de remoer naquilo: a mãe ia voltar com certeza e aqueles pensamentos eram “estúpidos”.

Na manhã seguinte o pai levou-a à escola – um dos melhores colégios de Lisboa. Tudo parecia normal, à excepção de a mãe ainda não ter aparecido. Nas aulas confidenciou à melhor amiga que pressentia algo de grave. E quando, à hora de almoço, viu a avó paterna à porta da escola desatou aos soluços. “A minha mãe não vai voltar, pois não?” A avó abraçou-a, chorou e levou-a para casa.

O limbo A família inteira estava reunida no apartamento. Avós, primos, tios. Alguns vieram de longe até Lisboa. A mãe tinha sido assaltada durante a noite e não ia voltar. Mariana ficou sozinha no quarto. Da sala chegavam palavras soltas e o choro do avô materno. Pouco tempo depois, Ricardo era preso preventivamente, ficando ainda assim com a guarda da filha. O tribunal considerou que retirar Mariana do colégio e de Lisboa iria agravar ainda mais o sofrimento da perda da mãe. Além disso, os avós maternos, já na casa dos 70 anos, viviam no Porto e estavam, também eles, a tentar digerir a morte de Helena.

A vida de Mariana levou uma volta gigante. Todos os fins-de-semana visitava o pai. Na cadeia, Ricardo perguntava-lhe como ia a escola e queria saber o que tinha feito durante a semana. Repetia que estava inocente e que era normal estar preso por ser a pessoa mais próxima da mãe. Prometia que o assunto seria esclarecido em breve. Mariana acreditava e sofria não só pela mãe, mas também pelo pai, trancado na prisão.

Em casa dos avós o tema era tabu. O avô dizia-lhe só que nunca se esquecesse que o pai gostava muito dela. Mesmo assim, e com 11 anos, percebia que havia peças soltas. A família materna cortara relações com a paterna, havia discussões constantes e, nas férias de Verão, no Porto, encontrou dezenas de fotografias rasgadas ao meio. A avó tinha-se desfeito de todas as imagens de Ricardo. Nas conversas que ia apanhando aqui e ali só se falava do grande dia. O dia em que o juiz ia dizer se o pai era ou não culpado.

Mariana acreditava que não. Era verdade que os pais tinham uma relação estranha, se a comparasse com a dos pais das amigas. Ricardo sempre dormira no sofá. Nunca saíam os três juntos, nem aos fins-de-semana. Mariana passeava ou com o pai ou com a mãe. Em casa ou havia muitos silêncios ou discussões. “Sempre por minha causa. Discutiam quem passava mais tempo comigo e quem me ia levar aqui ou ali.” O pai desdobrava-se em cuidados com ela. Quando a levava à casa de banho, desinfectava as sanitas com álcool antes de a sentar.

Não lhe faltavam presentes e uma boa educação. Às vezes faltava era afecto. A família do lado paterno, riquíssima, era muito fria. Ninguém se abraçava ou beijava. E o pai – que as amigas da mãe descreveram à PJ como sendo “doente” por Mariana – também não era expansivo nos afectos: “A única pessoa que eu abraçava e deixava abraçar-me e beijar-me era minha mãe.”

No dia “D”, a avó materna telefonou- -lhe à hora de almoço. Tinha chegado o dia de que todos falavam e o pai foi condenado a 15 anos de prisão e ao pagamento de 100 mil euros de indemnização. “Quando um juiz diz que uma pessoa é culpada é porque a pessoa é mesmo culpada, não é, avó?” A avó respondeu que sim. “E os juízes nunca se enganam, pois não?”

O jogo Mariana passou a ser uma peça de um tabuleiro de xadrez em que o jogo se tornou demasiado complicado. Uma parte da família puxava para um lado, a outra parte para outro. O assunto da morte da mãe tornou-se, em absoluto, um tabu. A família em peso fingia que nada tinha acontecido e os avós paternos repetiam todos os dias: “Não te esqueças que o teu pai te adora.” Aos fins-de-semana, na cadeia, Ricardo continuava a jurar-lhe que era tudo um equívoco. “Não te preocupes, eu vou sair daqui. Há outras soluções, outras maneiras.”

As “soluções” eram os recursos – que subiram até ao Tribunal dos Direitos Humanos – e a mudança constante de estabelecimento prisional. “Quanto pior fosse a prisão onde ele estava, mais hipóteses tinha de se destacar pelo bom comportamento. Ganhava prémios, e assim poderia sair mais cedo.” Havia dias em que Mariana pensava que o pai podia estar realmente inocente. Noutros duvidava. Noutros ainda tinha a certeza de que era um monstro. Às vezes gostava dele. Uma das melhores amigas, uma miúda com 13 anos, disse-lhe um dia: “Vais ter de te começar a preparar para perceber como são realmente as coisas.” Aquilo caiu-lhe mal. Deixou de falar à amiga e chorou sozinha. Onde estava a verdade e qual era a mentira? Pelo meio, esforçava-se para, no meio da batalha, não magoar ninguém. Nem o pai, nem os avós maternos, nem os paternos: “Com 13 anos, queria cuidar de toda a gente.”

A certeza chegou pouco tempo depois nos corredores de um centro comercial. Numa tarde em que foi ao cinema com os amigos da escola, deu de caras com quatro páginas numa revista cor-de-rosa com a descrição pormenorizada de como o pai tinha matado a mãe. O artigo era ilustrado com fotografias do pai no elevador de casa, antes e depois do crime. Sempre com a mesma expressão. Mariana jurou odiá-lo para sempre.

A guerra Os avós paternos continuavam a obrigá-la a ir vê-lo à cadeia. Mariana inventava tudo para escapar. Punha o termómetro no candeeiro da mesa-de–cabeceira do quarto para fingir febre, chorava, suplicava, mas o avô arrancava-a sempre da cama. Com o tempo, deixou de se arranjar. Vestia o que estivesse à mão. Era indiferente. A vida era um inferno.

Aos 13 anos fartou-se e decidiu fugir para casa dos avós maternos, no Porto, onde passava as férias. Planeou tudo, com o pragmatismo de um adulto. Avisou a directora de turma que não contasse com a inscrição dela no ano lectivo seguinte e despediu-se das melhores amigas. Quando os avós a foram buscar à porta do colégio, já com as malas feitas e o cão, Mariana desprendeu as mãos das mãos da melhor amiga, chorou e tirou uma “fotografia mental” da fachada do colégio. “Adeus, nunca me vou esquecer de ti.”

No fim das férias, os avós paternos começaram a telefonar e a perguntar quando regressava. Enquanto isso, os pais de Helena visitavam em segredo escolas e psicólogos. Com o ano lectivo prestes a arrancar, Mariana ganhou coragem e anunciou ao avô de Lisboa: “Não vou voltar nunca.” O avô perguntou se tinha a certeza, ofereceu-se para ir ao Porto falar com ela, mas ela recusava. “Não queria vê-los nunca mais.” Pelo meio andava de psicólogo em psicólogo. Diziam, todos, não conseguir ajudar: Mariana sentava-se nos consultórios mas ninguém lhe arrancava uma palavra.

Os avós maternos deram entrada com os papéis no tribunal para conseguir a guarda da neta. O juiz concordou, mas o pai, da cadeia e representado pelos avós paternos, recorreu. Os avós do Porto voltaram a recorrer. O pai recorreu novamente. “Foi assim durante quatro anos.” Uma guerra fria, mediada por advogados e juízes de batinas pretas. Sempre que havia um novo pedido, Mariana era chamada à barra do tribunal, bombardeada dezenas de vezes com as mesmas perguntas: gostas mais de que avós, não tens saudades do colégio e dos amigos de Lisboa, como é a tua casa no Porto? Os dois lados da família cruzavam-se nos corredores, mudos, antes das audiências.

Mariana deixara de ir ver o pai à cadeia, mas ainda lhe atendia o telefone. “Um dia supliquei-lhe que parasse com aquilo porque não me estava a fazer bem. Por favor, pára de meter recursos, deixa-me viver, deixa-me ter paz.” Do outro lado da linha ouvia: “Um pai nunca desiste de uma filha.” Pelo meio, uma das advogadas da família paterna decidiu abandonar o caso. Não aguentava fazer parte daquilo. “Fui muito exposta nos tribunais, demasiado exposta. A regulação não podia ter demorado tanto tempo e os recursos do meu pai nunca deveriam ter sido sequer considerados.” Afinal o homem que exigia a guarda da filha tinha sido mesmo o homem que lhe tinha roubado a mãe. E a infância.

Morrer por dentro Mariana tornou – se uma adolescente complicada. Discutia com os avós maternos, que a proibiam de estar com o primeiro namorado. “Foi tão doloroso… Ele era a única coisa que eu tinha de bom na minha vida.” A avó morria de medo que a neta cometesse algum erro, engravidasse, se metesse em sarilhos. “Talvez por saber que qualquer deslize seria suficiente para o tribunal decidir que eu teria de ir para casa dos meus avós paternos.” Os anos foram passando e os contactos com a família de Lisboa começaram a ser cada vez menos frequentes. Do pai ou da família dele nunca chegou ajuda para os estudos. No Natal, os avós mandavam-lhe um presente pelo correio. Ricardo continuava a ligar da cadeia. Queria saber dela, como corria a vida. Sobre a morte da mãe, nem uma palavra. Apesar de o ver como um monstro, demorou desligar-se. “Ainda hoje não compreendo porquê. Simplesmente não conseguia cortar de vez.”

Num desses telefonemas ganhou coragem e disse-lhe: “Já chega de fingir que não se passou nada. Ambos sabemos o que se passou e tu também sabes que eu sei. Se quiseres voltar a ver-me, diz- -me agora o que se passou na tua cabeça naquela noite porque eu preciso de saber. Tens de falar.” Respondeu-lhe que não queria falar disso ao telefone. Foi a última vez que Mariana ouviu a voz do pai.

A saída da cadeia A história de Mariana é feita de coincidências, acontecimentos inexplicáveis e demasiadas montanhas-russas. Num Verão, de férias no estrangeiro com um casal amigo dos pais, chegou, por SMS, a notícia que durante anos temera. Ricardo tinha acabado de enviar uma mensagem ao amigo anunciando que saíra da prisão. Tinham passado sete anos e meio desde o homicídio.

“Foi uma sorte ter sabido. Nunca ninguém, até hoje, do tribunal ou dos advogados, me informou da saída do meu pai”, diz Mariana. O que se seguiu foi um inferno psicológico. Até porque, meses antes, tinha ido ao tribunal consultar o processo do homicídio da mãe. Leu tudo. Como o pai premeditou e preparou o crime durante muito tempo. Como embrulhou o cadáver na roupa da cama do quarto de casal. Como tentara comprar uma arma duas semanas antes. E a confissão de como matou a mulher, que falava sistematicamente em divórcio, para não perder a filha.

Ricardo não suportava a ideia de passar a ver filha de 15 em 15 dias. “No fundo a razão do homicídio fui eu. Eu fui a causa daquilo.” Depois de folhear as centenas de páginas do processo, dividido por seis volumes, Mariana teve só uma certeza: “Percebi que nunca seria capaz de ser uma pessoa normal e passei a olhar para a vida de maneira diferente, com frieza.” Só não encontrou a resposta à pergunta que ainda hoje a persegue: “Porque é que o meu pai fez aquilo? Nunca vou ter uma explicação e nunca vou ser capaz de entrar na cabeça dele.”

Depois de sair da cadeia, Ricardo nunca abordou a filha, mas Mariana tinha medo. Medo de que a procurasse ou fizesse mal ao tio ou aos avós. Medo de que desse cabo dos namorados dela, com ciúmes. Medo de que estivesse à porta sempre que saía de casa. Medo de ser raptada. Medo de o confrontar. Todos os dias via a cara do pai nas pessoas que passavam na rua. “E o silêncio dele assustava-me ainda mais, como se estivesse iminente um qualquer plano para qualquer coisa.”

A perseguição Pouco depois da libertação de Ricardo, Mariana regressou a Lisboa para fazer a faculdade. Arrendou uma casa com duas amigas e, dias depois de ter feito anos, encontrou uma caixa enorme à porta do apartamento. Lá dentro havia um colar, cartas e fotografias de pai e filha. Felizes na neve, na praia, em viagens que fizeram. Entrou em pânico. Como sabia ele a rua, o prédio e o andar onde ela vivia?

Não muito tempo depois, uma das colegas de casa – que sabia da história – ligou–lhe aflita. “Está um homem a bater compulsivamente à porta e não quer dizer quem é.” Pela descrição, só podia ser o pai. Ao fim de alguns minutos, o homem foi-se embora. A primeira coisa em que pensou foi mudar de casa: “Mas caí rapidamente em mim e percebi que ele descobriria sempre onde encontrar-me.” O episódio repetiu-se, meses depois. Tocaram à porta do prédio e, minutos mais tarde, as duas colegas viram, pelo óculo da porta, um homem no vão das escadas com uma caixa. Tocou à campainha e depois desapareceu. Mariana ligou à polícia. “Se alguma coisa me acontecesse, ficava pelo menos o registo da ocorrência.” O pai nunca mais voltou a aparecer.

O fim que nunca chega Mariana lembra-se todos os dias da noite em que tinha 10 anos. Várias vezes ao dia, pequenas coisas lembram-lhe Helena ou o pai. Olha com estranheza para as notícias recorrentes de homens que matam as mulheres. A vida que já viveu é tão comprida e tão maior que as estatísticas que não consegue rever-se nelas.

Apega-se demasiado aos namorados, as amigas dizem que tem fases de grande melancolia. A indemnização, 13 anos depois, ainda não chegou e a casa do crime continua por vender. O pai arrendou-a e está a receber as rendas. Mariana passou mais de metade da vida em tribunais e ainda não conseguiu ver-se livre das salas de julgamento. Há processos a correr relacionados com a herança da mãe e a divisão de bens com o pai. Há dias que correm bem e Mariana é feliz. Noutros, e sempre que chega mais uma carta dos advogados, vai-se abaixo. “Desabo completamente outra vez.” A vida vai acontecendo. Terminou a licenciatura, arranjou emprego e quer sair do país, talvez criar um projecto de voluntariado.

Dos avós paternos nunca mais soube nada. Os maternos têm mais de 80 anos e é por eles que não se vai embora. “Não quero que morram sem receberem aquilo a que têm direito, porque por mim mandava o dinheiro à fava.” Diz que não quer casar, não acredita no casamento. “É uma coisa que não tem a ver comigo.” Mariana tem 23 anos é uma mulher bonita. Herdou os olhos verdes da mãe e quer, acima de tudo, deixar de sentir ódio e rancor. E conseguir parar de pensar, por um dia que seja, em como teria sido a vida se o pai não tivesse assassinado a mãe naquela noite de quarta-feira. No Natal e nos anos, o pai continua a mandar- -lhe emails. O último dizia: “Feliz Natal. Felicidades, pai.”

Todos os nomes usados nesta reportagem são fictícios

 

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