Quer ajudar o seu filho a melhorar? A ciência dá uma mão

Outubro 22, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

texto do Observador de 12 de outubro de 2014.

getty images

Ana Pimentel

São dez dicas que assentam em estudos científicos para ajudar pais a estimular o desenvolvimento cognitivo dos filhos. Eric Barker explica que até uma guloseima na hora certa pode ser boa opção.

Eric Barker, cronista da Time e especialista na área do comportamento humano, dez dicas sobre como é que os pais podem ajudar os filhos a desenvolverem as capacidades cognitivas. Tudo com base numa extensa recolha de artigos científicos feitos nos últimos anos.

  1. Ter aulas de música

Não serve só para entreter. A ciência explica: o Quoficiente de Inteligência (QI) das crianças que têm aulas de música aumenta em maior escala do que as que estão em grupos de controlo. Na investigação em causa, o efeito foi relativamente pequeno, mas a verdade é que a música ajuda pequenos e graúdos, de acordo com vários estudos, porque potencia a aprendizagem. Um estudo da Universidade de Northwestern dá conta de que o treino musical também ajuda os avós das crianças, porque compensa alguns dos efeitos do envelhecimento.

  1. Fazer exercício físico

Ler é bom, mas correr e brincar também. Estar em boa forma aumenta a capacidade de aprendizagem. Depois de fazerem exercício físico, os mais novos aprendem vocabulário novo 20% mais depressa, de acordo com um estudo alemão de 2007, publicado por John J. Ratey, em Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain. No estudo, os investigadores também concluíram que, depois de três meses de exercício, o fluxo sanguíneo na parte do cérebro focada na memória e aprendizagem aumentava 30%.

  1. Não leia para os seus filhos. Leia com eles

Tem crianças que estão a aprender a ler? Se lhes quiser ler uma história, não deixe que fiquem apenas a ver as ilustrações dos livros. Chame a sua atenção para as palavras, leia com eles. A investigação comprova que aumenta as suas competências de leitura, de acordo com o livro Unlocking the door: Is parents’ reading to children the key to early literacy development?, dos psicólogos Linda M. Phillips, Stephen P. Norris, Jim Canadian Anderson.

  1. Evite privá-los do sono

Uma hora de sono a menos transforma o cérebro de um miúdo de seis anos num de quatro, de acordo com o livro de Po Bronson, NurtureShock: New Thinking About Children Hardcover. A perda de uma hora de sono é equivalente à perda de dois anos de maturação e desenvolvimento cognitivo, segundo o estudo. Mais: o investigador concluiu que os adolescentes que têm uma média escolar de 5 (escala de 1 a 5, naturalmente) dormem mais 15 minutos do que os estudantes com média de 4, que, por sua vez, dormem mais do que os que têm média de 3.

  1.  Promova a autodisciplina e a força de vontade 

A autodisciplina determina mais quem tem sucesso na vida do que os níveis de QI. De acordo com o livro de Charles Duhigg’s, The Power of Habit: Why We Do What We Do in Life and Business, há dezenas de estudos que comprovam que a força de vontade é o fator mais importante para o sucesso individual. Os alunos com maior força de vontade têm maior probabilidade de obter notas mais elevadas e entrarem em escolas mais exigentes. Além disso, faltam menos e passam menos tempo a ver televisão. “A autodisciplina tem um efeito maior sobre o desempenho académico do que o talento intelectual”, escreveram os investigadores.

Em How Children Succeed: Grit, Curiosity, and the Hidden Power of Character Hardcover, Paul Tough escreveu que pessoas com maior consciência, interesse e curiosidade conseguem notas mais elevadas na escola e na universidade, cometem menos crimes, ficam casados mais tempo e vivem também mais. Além disso, têm menos enfartes, pressão sanguínea mais baixa e menor incidência de Alzheimer.

Contudo, a característica que mais determina o sucesso, segundo os investigadores citados por Daniel H. Pink, em Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us, não é cognitiva nem física: é a determinação, a capacidade de se manterem perseverantes e apaixonados por objetivos de longo prazo.

  1. Lembre-se que a aprendizagem é um processo ativo

Esqueça os jogos para estimular o cérebro. John Medina, no livro Brain Rules for Baby: How to Raise a Smart and Happy Child from Zero to Five, conclui que este tipo de jogos não têm um efeito positivo no vocabulário das crianças entre os 17 e os 24 meses. Segundo Dan Coyle, autor de The Talent Code, os nossos cérebros aprendem enquanto fazemos coisas e não quando apenas ouvimos falar delas. Quem quiser decorar uma passagem, é melhor que passe apenas 30% do tempo a lê-la e 70% a testar o conhecimento.

  1. Não diga ‘nunca’ às guloseimas. Na hora certa, podem ser boa opção

Parece que a cafeína e o açúcar podem impulsionar o cérebro, segundo o estudo Glucose and caffeine effects on sustained attention: an exploratory FMRI study, de 2010. As conclusões sugerem que a combinação entre estas duas substâncias pode aumentar a eficiência da atenção. Sumos e doces podem ser uma boa opção para as crianças, enquanto estiverem a estudar.

  1. Seja um pai feliz. Crianças felizes têm mais sucesso no futuro

Crianças mais felizes têm maior probabilidade de se tornarem adultos com mais sucesso. Christine Carter, explica em Raising Happiness: 10 Simple Steps for More Joyful Kids and Happier Parents, que a felicidade é uma vantagem tremenda num mundo que enfatiza o desempenho. Em média, as pessoas mais felizes têm mais sucesso no amor e no trabalho do que as infelizes. Têm empregos com mais prestígio e salários mais elevados. O primeiro passo passa por ser um pai feliz.

  1. Sim, os amigos são importantes

A genética tem um grande efeito nas crianças, mas os grupos de pares também. De acordo com o estudo do economista Bruce Sacerdote, quando os estudantes da Universidade de Dartmouth com notas mais baixa começaram a partilhar o quarto da residência universitária com estudantes que tinham avaliações mais elevadas, as suas notas aumentaram. Eric Barker conclui que viver num bom bairro, ter aulas em escolas com solidez e certificar-se que as crianças se dão com aquilo que os pais consideram os “bons miúdos” pode fazer uma grande diferença.

10. Acredite nos seus filhos. Nada é mais importante 

Acreditar que os seus filhos são mais inteligentes do que a média pode fazer a diferença. De acordo com Arthur Aron, em The Heart of Social Psychology: A Backstage View of a Passionate Science, há um estudo que comprova que quando os professores eram levados a crer que determinadas crianças eram mais inteligentes do que as restantes, o seu desempenho escolar aumentava.

 

 

Violência doméstica deixou 107 crianças órfãs de mãe

Outubro 22, 2014 às 6:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

notícia do i de 22 de outubro de 2014.

Eduardo Martins

Eduardo Martins

Por Marta F. Reis

UMAR começou a compilar dados sobre filhos de vítimas de violência doméstica e avisa que em Portugal ninguém sabe o que lhes acontece

No mesmo dia, Joana viu o pai esfaquear mortalmente a mãe e a irmã, atacá-la no peito com uma faca e mutilar-se a ele próprio antes de a GNR entrar no apartamento da família em Soure. A adolescente de 13 anos ficou com um pulmão perfurado, mas ontem a sua situação clínica estava a evoluir favoravelmente. Como Joana, nos últimos dois anos a violência doméstica deixou 107 crianças órfãs de mãe, revelam dados da UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta. “É um número brutal, e ninguém sabe o que lhes acontece”, disse ao i Elisabete Brasil, responsável pelo Observatório de Mulheres Assassinadas, gerida pela associação não-governamental.

À excepção dos relatórios da UMAR, nenhum balanço oficial da violência doméstica faz referência aos filhos das vítimas mortais e ao seu percurso. O relatório nacional das comissões de protecção de crianças e jovens mostra que a exposição à violência doméstica esteve por detrás de mais de 5215 casos sinalizados em 2013 e que foram reportados maus-tratos físicos a 161 crianças neste contexto. Mas o que acontece aos menores que vêem a família destruída de um momento para o outro é algo que não tem sido objecto de análise.

Até 2012, a União de Mulheres Alternativa e Resposta também só recolhia informação sobre outras pessoas que presenciam o episódio de violência fatal, situações em que muita vezes estão menores envolvidos. A percepção de que os casos mais trágicos de violência doméstica não fazem apenas vítimas directas levou a tornar o levantamento, feito a partir de relatos na comunicação social, mais exaustivo, explica Elisabete Brasil: “Começámos a juntar informação pois pensamos que deverá haver maior intervenção nesta área. Por vezes as crianças ficam órfãs de mãe e pai, quando o homicídio é seguido de suicídio. Mas mesmo em situações em que o pai não morre pode ser uma perda dupla: ficam sem mãe mas perdem para sempre o pai, que devia ser um pilar nas suas vidas.”

Numa altura em que tem aumentado o apoio às mulheres vítimas de violência, com mais casas de abrigo, a responsável não recorda qualquer proposta no sentido de aumentar a protecção a estas crianças, que nestas situações são entregues a familiares directos ou postas à guarda de instituições geralmente após um processo de protecção judicial. “É um tema que tem sido esquecido. Após essa decisão, não têm qualquer apoio especializado, apenas o que estiver disponível nas suas comunidades e tanto nas escolas como nos cuidados de saúde é muitas vezes insuficiente para as necessidades”, diz a responsável.

Álvaro Carvalho, director do Programa Nacional para a Saúde Mental na Direcção Geral da Saúde, admitiu ao i não ter percepção do número de órfãos em resultado da violência doméstica e que há um défice de serviços especializados nesta área. Só existe um serviço de psicologia especializado em violência no contexto familiar no antigo Hospital Sobral Cid, hoje no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. “Tem de haver um reforço nas competências ao nível dos cuidados primários e estão a ser definidos indicadores que poderão ajudar a despistar estas situações, que muitas vezes ainda são mantidas em segredo”, afirma o psiquiatra, explicando que o trauma pode ter consequências a prazo. “O acompanhamento é importante, pois por vezes os ciclos de violência repetem-se. Não é linear que assim seja, mas há uma associação entre sofrer maus-tratos em criança e replicá-los em adulto. As próprias pessoas podem pensar que esquecem, mas numa situação desfavorável, como uma depressão ou problema financeiro, pode vir ao de cima.”

Para Elisabete Brasil, além de maior sensibilização, poderia ser útil a criação de um estatuto próprio para estes órfãos. “Em alguns casos temos contacto de familiares que ficam com as crianças e têm problemas em incluí-las nos seus agregados, mas são questões mais deste foro que de acompanhamento e auxílio na superação do trauma. Não conseguimos ter uma ideia global sobre como atravessam esta fase”, lamenta.

Segundo os dados da UMAR, o homicídio em Soure fez subir para 30 as vítimas de violência doméstica este ano. Em 2013, a UMAR contabilizou 37 mulheres assassinadas e, em 2012, 41. No ano passado, as participações de violência doméstica às polícias aumentaram depois de um período de quebra e este ano a tendência tornou a repetir-se no primeiro semestre, com um aumento de 2,4% nas queixas.

 

 

Piadas sobre a gaguez são “bullying inconsciente”

Outubro 22, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Notícia do P3 do Público de 21 de outubro de 2014.

Jessica Rinaldi Reuters

A gaguez pode ser tratada de várias formas e quanto mais precoce for o diagnóstico e a intervenção, melhores são as perspectivas do tratamento

Texto de Lusa

A gaguez continua a ser vista em Portugal como piada e, em muitos casos, chega mesmo a ser “bullying inconsciente” contra crianças e jovens, que não encontram nas escolas terapeutas suficientes para responder a esta perturbação da fala.

O diagnóstico foi feito à agência Lusa pela Associação Portuguesa de Gagos (APG) na véspera do Dia Internacional de Consciencialização para a Gaguez, que se assinala no dia 22 de Outubro. “Em Portugal ainda há muito a utilização da gaguez para a piada, para o riso fácil, às vezes sem consciência do impacto que isso tem na pessoa que gagueja”, disse à agência Lusa, o sociólogo Daniel Neves da Costa, da APG.

 Estigma social nos adultos e uma espécie de “bullying inconsciente” sobre as crianças e jovens em idade escolar contam-se entre os principais impactos da gaguez, que se estima atinja cerca de 100 mil portugueses. Existem “formas de bullying e opressão das crianças e jovens que gagejam de uma forma muito inconsciente”, sublinhou, adiantando que o número de terapeutas da fala nas escolas é insuficiente.

 “Nestes últimos anos com todos os cortes e restrições no ensino especial têm surgido dificuldades acrescidas”, no acesso aos terapeutas da fala, disse o sociólogo. A cobertura do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não existe em todo o país, o que leva muitos pais a recorreram à associação, criada em 2005, para aconselhamento sobre terapeutas e terapias.

 A gaguez pode ser tratada de várias formas e, segundo Daniel Neves da Costa, quanto mais precoce for o diagnóstico e a intervenção, melhores são as perspectivas do tratamento. O problema é que quando os pais recorrem aos médicos de família existe uma tendência de os aconselhar a deixarem passar algum tempo na expectativa que a gaguez desapareça. “Isso é um dos problemas que a APG está a tentar resolver junto da comunidade médica”, disse.

 Terapia da fala, instrumentos electrónicos e medicação podem ajudar a um discurso mais fluente, mas a APG lembra que não existem “curas milagrosas” para a gaguez. Debater todas estas terapêuticas para disponibilizar melhor informação às famílias é o que se pretende com mais uma edição das jornadas sobre a gaguez, a promover no sábado.

 A gaguez, que atinge cerca 1% da população mundial, é uma perturbação da fluência da fala caracterizada por repetições, prolongamento de letras ou sílabas, pausas inesperadas e bloqueios. As causas da gaguez podem ser genéticas (60% das pessoas com gaguez têm um familiar gago), neurológicas (os gagos usam áreas neuronais distintas) e psicossociais (condições do desenvolvimento linguístico na infância). Em cada cinco pessoas que sofrem de gaguez, quatro são homens e apenas uma é mulher e na maioria das crianças, a gaguez surge entre os 2 os 5 anos.

 Marilyn Monroe, Bruce Willis ou Anthony Quinn (actores), Winston Churchil ou Joe Biden (políticos), Charles Darwin ou Isaac Newton (cientistas) são algumas celebridades com gaguez. Também em Portugal existem vários exemplos, sendo os mais conhecidos os da escritora Maria João Seixas, do músico Mário Lajinha ou do radialista da TSF Mário Dias, que quando se senta ao microfone vê a gaguez desaparecer como por milagre. Para Daniel Neves da Costa, a explicação é simples e encontra-se na neurologia: “Os circuitos neuronais que o ser humano usa para produzir fala expontânea são diferentes daqueles que usa quando está a cantar, a ler ou a dizer um texto memorizado e a gaguez ocorre principalpemnte nos momentos de fala expontânea”.

 

 

 

 

Campanha de sensibilização contra o tráfico de seres humanos

Outubro 22, 2014 às 11:25 am | Publicado em Divulgação, Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

O IAC, enquanto membro da Rede de Apoio e Proteção a Vítimas de Tráfico (RAPVT), associa-se à campanha de sensibilização que pretende alertar a população para o crime do tráfico de seres humanos, nomeadamente na vertente de exploração laboral. Esta campanha está a ser promovida pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e encontra-se atualmente a ser divulgada pelos media.

tra

2

3

 

 

Crianças com gaguez podem ser alvo de bullying

Outubro 22, 2014 às 10:55 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Notícia do Açoriano Oriental de 13 de outubro de 2014.

clicar na imagem

Untitled-2

 

 

 

Mário Cordeiro: “Não devemos ser escravos dos nossos filhos”

Outubro 22, 2014 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Entrevista de Mário Cordeiro ao Observador no dia 10 de setembro de 2014.

Ana Cristina Marques

Ao Observador, o pediatra discute como educar uma criança: a importância do amor, dos castigos e do tempo que tanto pais como filhos devem reclamar para si. Mas há também dicas para a rentrée escolar.

Mário Cordeiro foi pai e avô cinco vezes. Como se isso não bastasse, lida com crianças numa base diária no consultório situado na Avenida Guerra Junqueiro, em Lisboa. É um dos pediatras mais conhecidos na esfera nacional e o currículo atesta essa realidade: é membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da British Association for Community Child Health. Os livros que escreveu são, muito provavelmente, os responsáveis máximos pela fama já alcançada. O Grande Livro do Bebé vai na décima edição mas é a obra mais recente, que chegou às livrarias na última sexta-feira, o motivo de conversa com o Observador.

Intitulado Educar com Amor (Esfera dos Livros), promete ser um guia de afetos para que os filhos cresçam felizes e equilibrados. Para Mário Cordeiro, aos pais cabe a missão de ensinar as crianças, mas nem por isso a escola  foge à mesma responsabilidade: a boa educação do filho é o resultado de um esforço comum. E o que dizer dos castigos? Devem ser justos e aplicados tendo em conta o ato praticado e não a criança enquanto pessoa.

Porque hoje em dia é mais difícil criar uma família, o pediatra diz que é essencial existir tempo tanto para os pais como para os filhos. Acima de tudo, as crianças não podem escravizar os progenitores e devem tentar ser autónomas. Mais do que “lições”, oferece conselhos gerais e, em particular, relacionados com o regresso às aulas: retomar os ritmos uma semana antes da rentrée e aproveitar esse período para ver manuais, mochilas e horários são algumas das sugestões.

educar

Porquê este título? O que é Educar com Amor? Pode parecer redundante, mas se fosse “10 maneiras de educar” poderia soar a receita. E isto não é uma receita. O que defendo é que não há educação sem amor, nem amor sem educação. Educar é dar armas para o percurso de vida das crianças. Além disso, é conseguir que estas percebam que a vida delas não vai gravitar à volta do seu umbigo. Daí a velha máxima que os nossos direitos acabam quando pisamos os direitos dos outros. É uma expressão banalizada, mas tem uma profundidade enorme. Compatibilizar o puzzle dos desejos de sete mil milhões de pessoas é muito complicado. E, por isso, a educação é realmente uma preparação para que a pessoa seja feliz, descubra os seus talentos, seja bem-sucedida a vários níveis e perceba que há limites.

Qual é o peso do afeto quando se educa uma criança? O amor tem de estar sempre presente. Para que as relações entre pais e filhos sejam saudáveis estas devem ser marcadas pelo amor oblativo, o amor que não se cobra e que existe apenas porque sim. No limite é dizer-se “eu não preciso de ti para nada, mas gosto de estar contigo”. O amor dos pais pelos filhos não tem razão de ser, a não ser o próprio amor. Mas isto não quer dizer que as crianças possam fazer tudo que querem. Calma! E mesmo quando estamos tristes e desiludidos com os nossos filhos, não podemos esquecer que os amamos. Eles têm de saber isso para poderem replicar o comportamento.

Castigar também é sinal de amor? Claro. Castigar, no fundo, é mostrar à criança que fez mal, avaliar se esta sabia que estava a agir erradamente e, acima de tudo, estabelecer uma pena. Os pais devem agir como juízes ou árbitros. O futebol, como a vida, é um desporto de contacto em que há conflitos de interesses e tem de haver quem estabeleça regras justas — embora também haja regras estúpidas. Como pais temos de castigar os atos, não as pessoas. Um filho nosso é sempre um filho nosso. E ele é sempre querido, o que fez é que pode estar profundamente errado. Ele, como pessoa, não está em julgamento, mas sim a sua ação.

Como é que se distingue uma coisa da outra? O filho está chateado e atira um livro do pai ou da mãe para o chão. Expressou, assim, a sua raiva e isto é não está bem. O que está errado, a pessoa ou a ação? Se for a criança, digo que ela é estúpida, que é horrível, que não gosto dela; aí a criança sente-se esmagada. Ao invés, devo dizer: “Tu és querida, adoro-te, mas o que fizeste é indecente”. Só depois dou-lhe um castigo. Assim estou a dizer-lhe que ela fez uma coisa má, mas não a estou a atacar enquanto pessoa. Um bom árbitro é aquele que deixa jogar, mas que analisa — há agravantes e atenuantes. O nosso filho continua a ser querido, mas deve ser castigado. O castigo tem de ir apenas na proporção do mal que ele fez.

– A palavra “querido” é recorrente no livro e no discurso… Vem do verbo querer. “Querido” expressa “eu quero-te”. O querer é uma coisa pessoal, é o cumulo da vontade. Quando uma pessoa diz “eu quero-te” é um ato voluntário, possessivo no bom sentido. Daí a criança sentir-se desejada e querida. O maior medo das crianças, nas várias idades (mas sobretudo nas mais pequenas), é o abandono. As crianças não têm uma noção sistémica da vida. São tão inocentes e ingénuas que acreditam nos adultos (e ainda bem). Por isso, quando um pai diz “não gosto de ti”, a consequência lógica para as crianças é pensar “ele vai-se desfazer de mim”. Temos de evitar isso. As crianças sentem-se dependentes dos pais e têm medo que estes desapareçam.

– Escreve que os pais não dizem “amo o meu filho”, mas sim “adoro o meu filho”. Qual é a diferença? Gosta-se das coisas, adoram-se os deuses e amam-se as pessoas. Aprecia-se comida, não se ama o que se come. A adoração é unilateral, da qual não se pede responsabilidade. Já amar é diferente, é bidirecional e envolve sentimentos recíprocos — quanto mais se dá, mais se tem.

– Há pais que não amam os filhos? É um juízo de valor dizer que não amam as crianças, mas há muitos pais que não o demonstram. E o não demonstrar para uma criança é igual a não amar. Voltando às metáforas futebolísticas, é como um jogador que sabe meter muitos golos, mas não mete nenhum.

– Também há amor quando não há paciência por parte dos pais? Na sociedade de hoje há uma interação constante entre as pessoas. O que é que acontece a determinada altura? Há uma necessidade de cuidarmos de nós próprios, de respirarmos e de descansarmos. Quando a pessoa chega a casa, não é que a família e o filho a irritem, mas há um conflito de interesses. O interesse dos filhos, que lá estão, é saltar para cima dos pais e, portanto, gera-se ali uma confusão. É uma vida tramada, aquela que as pessoas levam. No fundo é preciso tempo para pais e para filhos, para cada um viver individualmente. Eu entusiasmo progressivamente os pais que são meus pacientes a ganhar algum tempo para si próprios —- exceto no período de contemplação [em que a criança acabou de nascer]. Para que servem as madrinhas e os padrinhos? Precisamente para carregarem um pouco do fardo quando é preciso. Acho igualmente importante que as crianças sejam cada vez mais autónomas e que possam passar algum tempo sem os pais.

– É mais difícil ser-se pai hoje em dia? Talvez existissem mais estereótipos nas gerações anteriores, isto é, o pai fazia assim e a mãe fazia assado. Não gosto de generalizar, mas de grosso modo era assim. Antes os filhos eram os “menores”, e porquê? A expressão não tem que ver com o tamanho, mas sim com menorização. O pai, por exemplo, estava quase proibido de mostrar publicamente o afeto. Agora é raro ter uma consulta em que não venha o pai e a mãe. E eu fomento isso. Antes, o homem surgia na vida da criança para a brincadeira, para a estimular, enquanto a mãe cuidava. As crianças eram um boneco que se dividia entre um e o outro nas diferentes ocasiões. Hoje os pais são mais próximos das crianças.

– Quando é que a preocupação de um pai é excessiva? Não devemos ser escravos dos nossos filhos. Eles não nos podem sugar a vida, têm de se habituar a ser autónomos e, de igual modo, saber precisar de nós. É aí que estou em desacordo com o Carlos González — em relação ao Estivill temos divergências quanto ao método do sono, do desamparo e de deixar a criança chorar, mas isso é outra história (o desamparo não faz bem a ninguém e é o contrário do amor). Em relação ao González, li que quando um filho nosso quer uma coisa temos de desligar a televisão para o ouvir. Calma! Se há direitos dos filhos, também há direitos dos pais.

– O que define uma boa educação? Gosto mais de falar em ensino e em aprendizagem. Há o ensinar, que implica informação, sabedoria e modelo. O aprender é desenvolver talentos e conhecimentos, ouvir experiências e, através delas, desenvolver sabedoria. Um bom educador é a pessoa que, na medida do possível, tenta ser coerente, consistente e justo. Mas também saber que podem haver reações àquilo que ensina, tal como a rejeição.

– Que valores devem ser transmitidos às crianças? Respeito, amor, responsabilidade, empatia, partilha e solidariedade. Mas os valores são coisas abstratas para uma criança, pelo que é preciso dar exemplos práticos. Até aos cinco, seis, anos a criança está numa fase em que predomina o concreto.

 

“Ensina-se e aprende-se de todo o lado, tanto com os pais como na escola”

– Quais os conselhos que dá aos pais no regresso às aulas? Depende das idades, se é a primeira vez que a criança vai para a escola ou se há mudanças de ciclo. É bom conversar sobre o que vai acontecer, sobretudo quando na primeira classe, e explicar alguns medos: “É natural que não conheças ninguém; que penses que a professora esteja a olhar só para ti; que dos 26 não és obrigado a gostar de todos e que, a pouco e pouco, vais vendo quem tem mais que ver contigo…”. Explicar também que é preciso ser-se organizado e metódico, saber enquadrar todas as tarefas do dia-a-dia nos vários dias. Outra coisa que é muito importante: a criança pensa que ao ir para a escola, no momento em que entra, já está a ler e a fazer contas, sente-se pressionada. Digo sempre no consultório “a última letra do abecedário geralmente é aprendida em maio, até lá tens muito tempo”. Dar uma semanada também é importante; sugiro dois euros por semana. Implica ser-se responsável: “Trabalhaste uma semana, tens aqui uma semanada. O esforço foi recompensado e o teu poder aquisitivo está na razão direta do teu trabalho”.

– Das férias para as aulas há uma mudança de hábitos muito grande… Advogo uma semana antes de começar as aulas para retomar os ritmos. Acho que é bom aproveitar esse período para ver os manuais, as mochilas, os horários, para comprar o material… E ir deitando o filho mais cedo. Trata-se de um reset tranquilo — não pode ser instantâneo.

– O que é que um pai pode exigir de uma criança: qual o equilíbrio entre o trabalho e o ócio? Exigir que cumpra [as obrigações], mas dar alguma liberdade à criança de gerir a sua vida. Sobretudo que não exija ao filho que entre no quadro de honra, que acho que é uma coisa a abater — é muito injusta, como se a honra se medisse por notas! Cada um deve-se comparar consigo próprio, tentar a excelência de si mesmo. Nós não temos competência para tudo, ponto, e temos de meter isso na cabeça dos pais e dos filhos. Em vez de carrascos, os pais devem ser juízes/árbitros.

– Quais são os maiores desafios de uma criança quando a aprender? É encarar, na maior parte das vezes, uma escola nova e habituar-se ao estar na sala de aula. O impulso de levantar e falar é tolerado no jardim-de-infância, mas não ali [aulas da primeira classe]. Por outro lado, trabalhar em grupo, adaptar-se a outros meninos e ao relacionamento com as auxiliares, que é fundamental no meio disto tudo. O pai deve observar tudo e fazer-se sócio da associação de pais para poder intervir e tentar mudar o que se pode mudar, compreender e ajudar onde pode.

– O pai educa, a escola ensina? Ensina-se e aprende-se de todo o lado, tanto com os pais como na escola. Sempre que há um momento relacional, há uma ocasião de ensino e de aprendizagem. A escola deve ensinar, não apenas a nível académico, mas também social e relacional. O mesmo com os pais. Um não substitui o outro.

 

 

 

 


Entries e comentários feeds.