“Há uma situação de emergência nalguns estratos da população”

Agosto 7, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Público a Pedro Graça no dia 4 de agosto de 2014.

Nelson Garrido

Fazia-nos falta uma Michelle Obama, admite o director do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direcção-Geral da Saúde, Pedro Graça. A mulher do presidente dos EUA elegeu a luta contra a obesidade infantil como uma das suas bandeiras. Por enquanto sem a ajuda de personalidades que possam estimular a promoção de uma alimentação saudável em Portugal, o nutricionista fala dos pais que criticam a alimentação das escolas mas dão dinheiro às crianças para irem comer a sítios piores. Pedro Graça acredita que uma das estratégias pode passar por taxar mais produtos de pior qualidade nutricional, como já fazem outros países. Dá mesmo o exemplo da Hungria, onde a indústria alterou os ingredientes mais perigosos de alguns alimentos.

Neste momento não sabemos com rigor o que é que os portugueses comem. Quando é que arrancam com um novo inquérito alimentar nacional, já que o primeiro data de 1980?

Não é bem assim, sabemos o que os portugueses comem, de forma indirecta. Estamos quase a começar o segundo inquérito, está neste momento a concurso para financiamento. Mas o inquérito não é o Santo Graal.

Os dados disponíveis apontam para a existência de 3,5 milhões de adultos com excesso de peso e um milhão de obesos. Este problema não exige uma resposta rápida, não é uma das mais importantes questões de saúde pública em Portugal?

É, só que é um pouco desvalorizado. Mas um programa de alimentação saudável não se consegue estruturar em dois ou três anos. Não somos o D. Sebastião, não podemos pensar que vamos resolver este problema em poucos anos. O programa ainda é um bebé, tem dois anos.

Portugal não está um pouco atrasado?

Em 1974, de uma reunião magna da Food and Agriculture Organization  saiu a determinação de os países terem uma política alimentar. Alguns países arrancaram, enquanto Portugal foi fazendo que fazia. Houve algumas iniciativas mas nunca concretizámos uma estratégia articulada. Entretanto, em 2011 surgiu esta possibilidade de termos nos programas prioritários o da alimentação. A obesidade é a ponta do icebergue, isto tem que ser pensado como um todo.

Como é que se combate, então, este problema tão complexo?

Há um texto de um homem que tem pensado muito nisto, o professor Philip James, que diz que a ideia de que as pessoas, depois de serem informadas, mudam por completo a sua alimentação é irrealista, porque estamos num ambiente obesogénico. A educação e capacitação do cidadão são fundamentais, mas não chega. Prova disso é o facto de, nas últimas décadas, termos tido pouco sucesso na mudança de hábitos alimentares, apesar do investimento feito.

Então é uma luta quase perdida?

Enquanto o alimento saudável for difícil de aceder, caro, de mau paladar e tudo o que é “tóxico” (rico em açúcar, sal e calorias) for barato, acessível e saboroso a situação nunca vai mudar, pelo menos para os mais frágeis, porque estes são os mais susceptíveis ao marketing e os que têm menos disponibilidade de tempo e de dinheiro. Como podemos então atacar este ambiente obesogénico? Os últimos documentos, como a Declaração de Viena [saída de uma conferência da Organização Mundial de Saúde], que Portugal assinou em 2013, defendem que a capacitação das pessoas é importante mas as autoridades públicas têm a obrigação de alterar o ambiente onde vivemos e compramos.

Quando o secretário de Estado-adjunto do ministro da Saúde admitiu a possibilidade de aumentar as taxas dos produtos com excesso de sal e açúcar foi contestado até por outros membros do Governo

Primeiro, é preciso perceber quais são os sectores onde as pessoas podem ser mais protegidas, como por exemplo os que lidam com crianças.

Quais são as prioridades?

O sal em excesso é terrível, mas também temos os problemas do açúcar a mais, com as cáries dentárias, da gordura, da caloria excessiva. A oferta nas cantinas escolares tem melhorado bastante. Mas o problema é que, mal se passa o portão da escola, há uma má oferta má que a escola não pode condicionar. É um paradoxo mas, à medida que a escola foi melhorando, a situação fora da escola foi piorando. Os pais, que criticam muito a alimentação escolar, permitem muitas vezes que as crianças levem dinheiro no bolso para irem comer onde querem.

O grupo das crianças é, portanto, prioritário…

Relativamente às crianças, já há consenso sobre a intervenção, tal como acontece com os idosos, um grupo muito esquecido e muito numeroso. Os locais que acolhem idosos devem ter a obrigação de oferecer alimentos saudáveis, esse passo tem que ser dado. Restam os outros grupos de cidadãos.

Que são o grosso da população. Insisto: faz sentido taxar mais os produtos com sal e açúcar em excesso?

A taxação de alimentos de pior qualidade nutricional foi uma das hipóteses que a própria Organização Mundial de Saúde equacionou. É uma sugestão que tem vários anos e há países que já fazem isso. Acho que, depois de bem estudada, é uma possibilidade, mas tem que ser cuidadosamente trabalhada. Por exemplo, a Hungria já adoptou esta política, em 2011, e avaliou os resultados em 2013. O que é que se concluiu? A maior parte dos fabricantes alimentares modificou drasticamente os ingredientes, pelo menos os mais perigosos. As pessoas dizem que a taxação vai afectar a indústria. Vamos pensar de outra maneira: alguns produtos serão reformulados, outros vão desaparecer. No final a indústria que oferecer produtos mais saudáveis vai ser mais competitiva a nível nacional e internacional.

E baixar taxas aos produtos mais saudáveis? Temos que incentivar aqueles produtos que são interessantes do ponto de vista nutricional – produtos hortícolas, fruta, etc. Agora se isso passa por uma diminuição de IVA ou por outra forma…Conseguir que passem a ser atractivos tem a ver também com educação e entretenimento.

Nos EUA, a mulher do presidente, Michelle Obama, elegeu o combate à obesidade infantil como uma das suas bandeiras e já há resultados positivos.

Nos EUA conseguiu-se alguma redução da obesidade infantil, mas isso deve-se a uma série de factores. Agora termos um líder de opinião seria importante. Não temos uma Michele Obama, bem nos faltava, devíamos ter role models, modelos a seguir. Quanto ao entretenimento, dou um exemplo de como pode ser importante: o Nutri Ventures é um programa nacional de puro entretenimento e dos mais vistos na nossa televisão pública e no canal Panda. O herói luta contra um indivíduo que ficou com a fórmula da alimentação, uma espécie de fast food. E anda à procura de reinos onde existem outros alimentos, reinos do pão, do leite, etc, e a tentar redescobrir os alimentos antigos. Percebeu-se que chegar às crianças passa pelo entretenimento. O Nutri Ventures mudou o paradigma da intervenção informativa. Agora, o paradigma da obesidade também está a mudar.

De que forma?

A obesidade aparece porque, nos últimos dois milhões de anos, o ser humano foi-se adaptando à carência alimentar. Tivemos sempre falta de comida e de energia. Nos últimos 50, 60 anos mudou tudo, passámos a ter, pela primeira vez, energia a mais. Agora, em algumas sociedades ocidentais, a obesidade tem tendência para estabilizar. Podemos pensar: estamos a vencer. Só que, por baixo dessa boa notícia, há uma coisa mais insidiosa: a obesidade está a subir na população mais pobre, enquanto regride na população com mais dinheiro. Em França e noutros países que têm estudado o problema provou-se que quando o rendimento da família é maior diminui a obesidade.

Como é que isto se explica?

A população com menor rendimento dorme em média menos, não tem tempo para se exercitar. Além disso, tem de optar por calorias baratas, como os bolos, chocolates, manteiga.

Com a crise, há pessoas a passar fome em Portugal? Vemos gente a remexer nos caixotes do lixo à procura de comida.

Há, de facto, uma situação de emergência nalguns estratos da população. Agora isto não é tão linear quanto se pensa. O grupo mais frágil vive há muitos anos numa situação de carência e já criou estratégias: acesso a bancos alimentares, pequenas hortas, a ajuda das famílias, doações, pedidos a amigos.

E os de meio, que representam a maior parte da população?

Temos situações muito distintas: as pessoas nas grandes cidades sem contacto com a família e as que têm ligações à família. O que distingue estes dois grupos é a rede. Quem tem rede está a conseguir, mas se os dois elementos do casal estão desempregados e não têm rede a situação torna-se difícil.

Então, admite que pode haver casos de fome?

Pode. Nós produzimos o livro Alimentação Inteligente – Como Fazer Compras a Baixo Preço. Estamos a divulgar algumas estratégias para ajudar este grupo.

É possível comer-se bem com pouco dinheiro?

Sim. Por exemplo, com um ou dois copos de leite por dia somos capazes de ingerir proteína de qualidade, diversas vitaminas e minerais. A nossa alimentação tradicional incorpora fontes proteicas baratas como o feijão, o grão, ervilhas, favas ou ainda os ovos, que são uma forma de substituir carne com qualidade.

A última balança alimentar indica que estamos a consumir menos carne.

Em média ainda consumimos carne a mais.

O exercício também é fundamental?

Meia hora a pé por dia é muito importante, podemos complementar com outras actividades ao fim-de-semana, como andar de bicicleta. Os japoneses fizeram uma coisa muito interessante: as empresas colocaram os seus parques de estacionamento um pouco mais longe. Aqueles 10 ou 15 minutos que andam a pé são importantes.

No Reino Unido uma cadeia de supermercados acaba de proibir a colocação de doces e chocolates junto às caixas. Faz sentido?

Não vejo por que não poderemos fazer coisas desse género cá. O programa tem vindo a apoiar uma série de iniciativas, temos trabalhado com grandes superfícies. Temos um projecto europeu para redução do sal, com uma espécie de selo, com os restaurantes. Chama-se FOOD. Os restaurantes aderentes têm que oferecer água na mesa, hortícolas na ementa, reduzir o sal. Em suma: é preciso modificar os hábitos alimentares. Conseguimos fazê-lo com pessoas que se encontram doentes, mas como chegar ao grande grosso da população que está saudável? Esse é o grande desafio.

O facto de a dieta mediterrânica ter sido considerada património mundial pela Unesco pode ajudar?

É preciso dar visibilidade a esse conceito. Há um património que está nos nossos avós, nas mulheres.

Algumas das comidas tradicionais são terríveis…

Mas podem ser ligeiramente modificadas. A dieta mediterrânica é essencialmente vegetariana, a carne e o peixe apareciam de vez em quando para fingir que lá estavam, porque não havia de facto proteína animal em quantidades nem dinheiro para a adquirir. É a dieta do possível face à carência. É a imaginação ao poder.

Em que é que vão apostar nos tempos mais próximos?

Primeiro, no diagnóstico, através do inquérito alimentar nacional, e, por outro lado, vamos trabalhar muito com a alimentação dos idosos. Em Setembro vamos também arrancar com a uniformização do tratamento da pré-obesidade.

O  que sobra para os grandes obesos, as pessoas que sofrem de obesidade mórbida? Há enormes listas de espera para as cirurgias. Sim. Nalguns locais a situação melhorou, mas não posso quantificar.

Mas, em geral, ficamos mal na fotografia a nível da Europa, sobretudo no excesso de peso e obesidade infantil.

Estamos mal, mas a par de outros países do Mediterrâneo. A situação portuguesa é parecida com a de Espanha, da Itália e da Grécia. Porquê? Com a redução da natalidade, os filhos são muito protegidos pelos pais. O Estado deve regular, mas o cidadão também deve ter capacidade de rejeitar produtos com má qualidade nutricional. Só vamos modificar o panorama quando conseguirmos que cada cidadão seja um agente da mudança. Que possa medir o sal que ingere, por exemplo. Tal como os diabéticos medem a glicemia. Estamos a tentar desenvolver aparelhos para este fim. E a informação de choque pode e deve ser passada ao mesmo tempo. Exemplo? Uma lata de refrigerante pode conter 3 ou 4 pacotes de açúcar. A alimentação é um acto cultural. Ensinar uma criança a comer bem é o mesmo que conseguir pôr um miúdo a gostar de alguma música clássica ou a ler um livro. É difícil, mas não impossível.

 

 

SCIENCE4 “US”

Agosto 7, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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No próximo dia 22 de Agosto de 2014, as crianças e jovens do Instituto de Apoio à Criança – Projecto Rua vão participar numa atividade promovida pela Science4You, no âmbito do Projeto Europa Sustentável, cuja missão é sensibilizar crianças e jovens para as questões relacionadas com o desenvolvimento sustentável na União Europeia.

A atividade irá consistir num torneio de jogos de tabuleiro pedagogicamente enquadrados pela temática em causa.

you

Relatório Consumo Alimentar e Nutricional de Crianças em Idade Pré-Escolar

Agosto 7, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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relatorio

O `Relatório Consumo Alimentar e Nutricional de Crianças em Idade Pré-Escolar´, de onde advêm os resultados que originaram o livro `Da mesa à horta: Aprendo a gostar de frutas e vegetais´, está disponível para consulta AQUI e para download AQUI.

Este relatório foi realizado com informação recolhida no âmbito da coorte Geração 21 (Coordenador Científico: Henrique Barros), desenvolvido no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, no âmbito do projeto `Hábitos alimentares em crianças em idade pré-escolar: uma abordagem longitudinal para identificar os determinantes e os efeitos na composição corporal´ (PTDC/SAU-ESA/108577/2008) (Investigadora Principal: Carla Lopes).

 

Jogar videojogos uma hora por dia torna as crianças mais felizes e sociais

Agosto 7, 2014 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 4 de agosto de 2014.

daniel rocha

Cláudia Bancaleiro

Estudo da Universidade de Oxford conclui que nenhum efeito positivo ou negativo é observado quando se joga de forma moderada.

Os videojogos são viciantes. Desligar a consola ou o computador pode ser uma tarefa difícil para as crianças, que podem acabar por estar várias horas absorvidas em desafios. Um estudo da Universidade de Oxford, Reino Unido, defende que a moderação é essencial e que jogar uma hora por dia pode ser positivo para os mais novos, tornando-os mais satisfeitos com a vida e com um comportamento mais social.

O estudo, publicado nesta segunda-feira no jornal Pediatrics, foi desenvolvido com o objectivo de determinar “como o tempo despendido a jogar videojogos contribui para uma variação significativa numa adaptação psicossocial positiva e negativa”. Para tal foram estudadas 5000 crianças britânicas, entre os dez e os 15 anos, e os seus hábitos de jogo. Dessa amostra, 75% afirmou que jogava diariamente.

Além da questão do tempo passado a jogar, os investigadores analisaram outros factores como a satisfação das crianças com a sua vida, o estado das suas relações com os amigos e colegas, se gostavam de ajudar pessoas em dificuldades ou ainda o seus níveis de hiperactividade e desatenção. Durante a leitura dos dados recolhidos, que foram combinados entre si e que incluíram as respostas de crianças que não jogavam de todo, a equipa da Universidade de Oxford tentou determinar níveis de adaptação psicossocial e social.

Os resultados revelaram que tanto os níveis baixos de empenho nos videojogos (quando a criança jogou menos de uma hora por dia), como os níveis elevados (mais de três horas de jogo), estavam “ligados a indicadores chave e à adaptação psicossocial”.

Assim, nos casos de baixo empenho nos jogos, as crianças revelaram ser mais felizes e terem interacções sociais mais positivas, tendo sido concluído o contrário quando os jovens passavam mais de três horas em frente a uma consola ou computador. Aqui, as crianças foram consideradas como tendo uma adaptação menor.

O estudo concluiu ainda que nenhum efeito positivo ou negativo foi observado quando as crianças jogaram de forma moderada (entre uma a três horas diárias), comparado com as que nunca jogaram ou com as que o faziam três ou mais horas por dia.

A investigação sugere que a influência dos videojogos nas crianças é diminuta quando comparada com factores como a funcionalidade do seu núcleo familiar, relacionamento com amigos e colegas de escola ou privação de bens materiais.

“As ligações entre diferentes níveis de empenho em jogos electrónicos e a adaptação psicossocial foram pequenas [menos de 1,6% de variação] mas estaticamente significativas”, é indicado nas conclusões do trabalho desenvolvido na Universidade de Oxford. Mais: “Os jogos estão constantemente mas não robustamente associados à adaptação tanto negativa como positiva da criança”.

O cientista comportamental Andrew Przybylski, que liderou a equipa de investigação, sustentou, em declarações à BBC, que esta investigação “pode dar um novo ponto de vista mais matizado”, principalmente quando este tema é geralmente reduzido à visão dos que consideram que os jogos podem ser benéficos e dos que consideram que apenas fomentam actos de violência.

“Estes dados sugerem que não existem efeitos negativos destacáveis em jogar, até que os jovens passem a marca das três horas num dia típico. Serão necessárias pesquisas adicionais para determinar se existe uma regra dura e rápida para que o tempo de jogo passe de uma influência positiva para negativa”, defendeu Przybylski ao site WebMD.


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