Não existe leite mau. Amamentar é uma arte mas aprende-se

Julho 8, 2014 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do i de 27 de junho de 2014.

rodrigo cabrita

Por Marta F. Reis

Neonatologista abriu este mês a primeira clínica de amamentação do país. Muitas mulheres desistem por falta de informação e apoio, diz fundadora

“Vamos esperar que ela abra a boca um bocadinho mais. Vai abrir várias vezes um pouco, mas há um momento em que abre mais e é aí que aproveitamos.” É como a certeza de que a sétima onda é maior que as outras e Alexandra, com Laura ao colo, confia no que a médica diz mesmo que isso implique resistir ao impulso de aproveitar cada aproximação. A bebé de 21 dias vai entreabrindo os lábios colada ao seu peito mas ainda não chegou o sinal de que vai pegar bem a mama, o desafio com que a mãe pela primeira vez aos 37 anos se debate há duas semanas. Não é sabedoria de algibeira, é um dos sinais subtis de “prontidão para mamar”. Elsa Paulino, pediatra neonatologista e uma das 16 consultoras de amamentação no país reconhecida pelo Conselho Internacional de Examinadores de Consultores em Lactação, está ao lado, a respirar calma para cima das duas. O gabinete está a meia-luz, com um fraldário, almofadas floridas e quadros na parede. Como se fosse um quarto. E, mesmo sendo uma consulta, há entre os conselhos o silêncio da intimidade entre mãe e filha.

Em Junho, Elsa Paulino inaugurou em Lisboa a primeira clínica de amamentação do país, dedicada ao treino antes e depois do parto. E a mostrar às mães (e aos pais) que com pequenos truques pode ser um momento perfeito, como diz a montra do espaço que quase passa despercebido no número 13 da Rua Professor Simões Raposo, no Lumiar.

Alexandra, enfermeira de profissão, estava determinada a amamentar a sua filha até quando fosse possível. A certeza de que o leite materno ajuda a reforçar o sistema imunitário dos bebés e prevenir doenças vem dos livros, mas tinha outro argumento de força. Nasceu em 77, numa altura em que amamentar era pôr à prova a conquista de emancipação das mulheres. “Dizia-se que os leites artificiais faziam melhor ao bebé.” Mas como então a família de Cantanhede estava em Angola, a escassez de fórmulas cedo começou a ser compensada com colheradas de leite condensado diluído em água. “Apesar de ter feito as vacinas, tive sarampo, rubéola, varicela, papeira. Em miúda estava sempre doente, com amigdalites, otites. Tive dores de fugir”, conta Alexandra. A irmã, dois anos mais nova, foi amamentada e não teve nada. “Não sei se foi disso, mas com o que fui sabendo mais tarde liguei as duas coisas e não quis isso para a minha filha.”

Laura nasceu, tiveram alta e começou o pesadelo. A mama gretada, caroços, dor. E a bebé de 38 semanas com 2900 gramas a perder peso. “Estava estoirada, adormecia com ela no peito. Cheguei a acordar agarrada a uma almofada de sonhar que estava a dar de mamar”, conta Alexandra, que de cada vez que Laura faz como deve ser e lhe abocanha toda a auréola do mamilo recupera tranquilidade. Cinco dias após o nascimento, semana em que perdeu oito quilos entre nervos e lágrimas, voltou ao médico para pedir ajuda. Sugeriram-lhe que tentasse tirar leite com a bomba e experimentar com o biberão. Recusou, com receio que o leite começasse a secar. Pediu conselho às amigas, cada uma deu a sua opinião. Eram manhas da menina e devia experimentar a bomba. No limite, ouviu falar da clínica. “A própria enfermeira quando cheguei olhou para mim e viu que eu estava morta, física e emocionalmente. Sentia-me uma incompetente.”

Ainda antes dos conselhos, tranquilizaram-na. “Disseram-me que não era a única.” Depois de uma primeira consulta, vai na terceira de revisão. Em dois dias a filha recuperou 120 gramas. Na primeira semana, 480. Elsa Paulino estima que 50% das mães passem por dificuldades logo nos primeiros dias, quando o leite “sobe” – entre o 3.o e 5.o triplica para dar resposta ao recém-nascido. “Como não estão a dar bem de mamar e o filho não sorve bem, a mama fica tensa e começa a haver problemas.” Para a especialista, esta realidade e o facto de muitas mulheres acabarem por desistir por falta de apoio explica ainda a reduzida percentagem de mulheres que amamentam em exclusivo nos primeiros seis meses, a recomendação da Organização Mundial de Saúde. Segundo os últimos dados do Registo de Aleitamento Materno, em Portugal 74,5% das mulheres saem da maternidade a amamentar. À sexta semana, são 65% e aos seis meses já só quatro em cada dez mantém a alimentação exclusiva com leite materno.

Para vencer as estatísticas, há mitos a derrubar. “O leite secou ou não presta são coisas que não existem. Muito do que acontece de mau na amamentação são falhas nossas”, diz Elsa Paulino. Divide as dificuldades em três grupos. Ter falta de segurança é o primeiro, o mais simples de resolver. O segundo, onde inclui Alexandra, é aquele em que é necessário adaptar a mãe ao bebé. Compressão mamária para ajudar a sucção ou técnicas de correcção da pega e da posição são alguns passos. A criança até parece mamar bem, mas doer deve ser um dos sinais de alerta. “A maioria das mulheres que nunca amamentou coloca mal o filho. Estamos formatados para o biberão: brincamos com nenucos e vêm com eles acoplados. Não mamam virados para cima no colo mas para o peito.”

O terceiro grupo, mais raro, é o mais difícil de trabalhar. Inclui antecedentes de cirurgia mamária ou fenda do palato. Mas mesmo essas situações podem ter sucesso. “Não somos os únicos a fazê–lo. Há profissionais nos hospitais, em centros de saúde e associações como a SOS Amamentação. Somos uma alternativa”, resume a médica, que acredita que o Estado tem de facilitar mais a vida às mães. Mesmo em coisas simples. “Se a recomendação é leite materno em exclusivo até aos seis meses, a licença da mãe devia ter essa duração sem penalizações”, defende. Hoje o sexto mês é possível mas é pago a 80%.

No novo espaço, a primeira consulta custa 60 euros e as seguintes 30. Têm planeadas formações por fases, do pré- -parto ao regresso ao trabalho. Para pais e profissionais. “Há lacunas nos currículos sobre as vantagens da amamentação”, diz a médica, por experiência própria. Teve quatro filhos mas só amamentou até aos oito meses “por falta de conhecimento”. O leite materno deve estar na dieta até aos dois anos. Mas também as formações para o parto não dizem tudo, diz Alexandra, que teve o cuidado de aprofundar o tema antes de Laura nascer. Foi para casa com a ideia de que tinha de dar de mamar de três em três horas e pôs o despertador a marcar o que se revelou uma luta com a filha. “É outra ideia que nos ficou da moda dos biberões e das fórmulas adaptadas de leite de vaca. O leite humano tem um baixo teor de gordura. Ao contrário de outras espécies que mamam de 12 em 12 horas, as mamadas têm de ser curtas e frequentes, às vezes de uma em uma hora”, diz Elsa Paulino. A habituação é difícil, reconhece a médica, mas, quando deixa de haver dificuldades e se entra na rotina, as mães que amamentam acabam por ser mais relaxadas. “Não estão presas por horas, não têm de andar com biberões e esterilizadores.” Alexandra agora já se sente capaz. Saber e paciência são os segredos e arranjam-se. “Dá trabalho mas não tenho mais nada para fazer. Estou de licença para cuidar dela.”

 

 

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