O que não deve (nunca) dizer aos seus filhos

Julho 8, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto da Activa de 27 de junho de 2014.

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‘Não é preciso ter medo’ ou ‘se gostasses de mim não te portavas dessa maneira’ são frases que diz sem pensar e à pressa? Mas o seu filho não as esquece. Nunca desvalorize o poder das palavras: elas podem ser a diferença entre uma criança alegre e confiante e um miúdo inseguro e infeliz.

Catarina Fonseca/ACTIVA

Já quase toda a gente ouviu sair-lhe uma destas afirmações da boca sem estragos de maior, mas convém prevenir. Se podemos dizer coisas agradáveis às nossas crianças, para que havemos de estragar-lhes o dia com os exemplos que se seguem?

1 És mesmo idiota. Esta é óbvia. Serve mais para aliviar quem a diz do que para corrigir o que quer que seja. Apontar uma falta nunca ajudou ninguém a melhorar. Acha mesmo que a criança vai cair em si e dizer: ‘A mãe tem razão, sou mesmo idiota, tenho de me emendar?’ Não. Irá pensar: ‘Ela tem razão, sou mesmo idiota, não há nada a fazer.’ Resultado: uma criança progressivamente mais. pois, mais idiota. Mesmo que ele tenha tirado o dia para lhe enfernizar o juízo, pense que não estão em pé de igualdade. Quem é o adulto? Há sempre uma razão por trás do mau comportamento, e sem perceber qual é ninguém consegue impedir que a coisa se repita. Por isso tente perceber o que se passa e aprenda a conversar civilizadamente em vez de deitar todo o ‘vapor’ cá para fora em forma de insultos.

2 O teu irmão é que se porta bem. Tal como no exemplo acima, não ajuda ninguém a tornar-se melhor, só causa ressentimentos entre irmãos. Além de ser injusto para o ‘irmão mau’, também e nisto nunca ninguém repara é injusto para o ‘irmão bom’. Irmãos são pessoas diferentes, com reacções diferentes, por muito que venham dos mesmos pais e tenham a mesma educação. Portanto, reconheça e aceite diferenças sem fazer comparações.

3 Não dói nada. Diz-se geralmente antes de a temida agulha da enfermeira avançar para o braço da ‘vítima’, para impedir que a ‘vítima’ fuja pela janela, se desfaça em gemidos ou atire a enfermeira à parede com um movimento bem aplicado. Pode resultar da primeira vez, enquanto a ‘vítima’ ainda confia em si, mas, se lhe doer, acabou-se. Nunca mais irá confiar. Não lhe diga que não dói quando é mentira. Explique que pode doer um bocadinho mas que passa depressa e que depois vão passear os dois e comer um gelado.

4 Não é preciso ter medo. Claro que é preciso ter medo. É preciso ter medo do escuro, medo do lobo mau, medo de ficar sem os pais, para aprendermos que podemos sobreviver e controlar as nossas emoções, mesmo que nos pareçam assustadoras. É mais fácil negar, mas isso não faz com que o medo desapareça, pelo contrário: só faz com que fique trancado no escuro com uma criança aterrorizada com vergonha do que sente e sem saber resolvê-lo. Claro que a nós um cortinado a balouçar ao vento ou um móvel que estala não nos fazem tremer, mas os mais pequenos ainda não têm capacidade para lidar com esses fantasmas. O importante é ter boa memória: lembra-se das sombras que a deixavam aterrorizada no corredor da avó? Pense que a sua criança pode ter medos idênticos. Dê-lhe colo e tente conversar. Se ela ainda não souber pôr tudo em palavras, fique-se pelo colo. Já não é pouco.

5 Se gostasses de mim, não te portavas dessa maneira. Já ouviu falar em chantagem emocional? Pois está mesmo em frente dela. Uma pessoa não pode portar-se de certa maneira para agradar aos outros, mas porque percebe que é a melhor maneira de se comportar. Isto não lhe ensina nada sobre o mundo, só faz com que ele se sinta culpado porque pensa que a felicidade da mãe depende dele.

6 A sopa não fica aí. Obrigar a comer não é só uma inutilidade: é um perigo. Enfiar comida na boca das crias é um instinto pré-histórico de que temos dificuldade em libertar-nos, mas raciocine: nenhuma criança saudável com comida para comer alguma vez morreu de fome. Não se ganha nada em forçá-lo a comer se não lhe apetecer: só uma cena de faca e alguidar e uma relação difícil com a comida. Não lhe apetece mais ao almoço? Come melhor ao jantar. Qual é o drama? Afinal, todos nós temos dias em que temos menos apetite, e as crianças passam por muitas fases naturais de oscilação de fome: há alturas em que comem tudo o que lhes passa pela frente e outras em que passam dias a depenicar. Se ele não tem fome, não o obrigue a comer e não faça comentários: tire-lhe o prato e pronto. Claro que, se não tem fome para o almoço, também não passa a tarde a comer bolachas.

7 Não tens idade para perceber. Toda a gente tem idade para perceber tudo, desde que se explique bem explicadinho. Claro que às vezes pode não ser preciso ir lá com todos os pormenores mais sádicos; uma explicação simples basta. Quando não têm as respostas de que precisam, as crianças podem sentir-se postas de lado e excluídas da família, ou podem imaginar coisas ainda mais terríveis do que a realidade, ou ter ainda mais medo de qualquer coisa demasiado terrível para se falar. Mas quem tem idade para fazer uma pergunta também tem idade para ouvir uma resposta. Que a gente não a saiba, ou não a queira dar, já é outra história muito diferente.

8 Já não gosto de ti. Porque é que temos de tornar tudo numa acusação pessoal? O que está errado é o comportamento, não a criança em si, e é isso que ela tem de perceber: que os pais vão sempre gostar dele, faça ele o que fizer. Mas que, enfim, como o resto do mundo não é mãe dele, ele tem de aprender a portar-se de maneira mais civilizada.

9 Tu cais! Frase pronunciada pelo menos 10 vezes por dia por 90% dos pais portugueses. Já é quase uma imagem de marca, como as sardinhas e o galo de Barcelos; sai-nos da boca à velocidade da luz, mesmo quando jurámos nunca mais a pronunciar. Admira como este povo, a ouvir ‘tu cais!’ desde os dois dias, chegou ao Brasil, mas se calhar as mãezinhas dos descobridores não lhes diziam isto. Ainda por cima, geralmente não funciona como um aviso, funciona como uma profecia. ‘Ó João! Tu cais!’ e trás! Se a coisa é mesmo perigosa, não o deixe fazê-la e está o assunto arrumado. Se o risco é só de cair e arranhar um joelho, deixe-o correr. É a arranhar os joelhos que se descobre o mundo. E que se descobre que às vezes temos mesmo de cair. Ah, e claro que os igualmente clássicos ‘eu bem te disse!’ ou ‘eu avisei-te’ depois do caldo entornado também não são grande ajuda. Quer dizer, se o desgraçado já está no chão, fisica ou metaforicamente falando, já não adianta bater mais, pois não?

10 Vai lá fazer a cama do teu irmão. É tão machista que nem tem explicação. E porque é que não há-de ser o irmão a fazer a cama da irmã? Se queremos contribuir para a igualdade dos sexos, temos de começar na nossa própria casa, e com coisas aparentemente tão insignificantes como esta.

11 Isso é coisa de menina. Ou: ‘Os rapazes não brincam com bonecas.’ É mais comum que os rapazes tenham brincadeiras ‘de rapaz’, mas cada vez mais se vêem rapazes a empurrar carrinhos de bonecas, por exemplo. Os rapazes têm muito a aprender com brincadeiras ‘de rapariga’, e vice-versa. Aliás, não é ilógico que lhes ralhemos quando brincam com bonecas e depois lhes exijamos que sejam excelentes pais e saibam mudar fraldas?

12 Que é que fizeste hoje? Não parece ofensiva por aí além. Pelo contrário, até soa a pai ou mãe a tentar simpaticamente fazer conversa com a sua criança depois da escola. Problema: 99% dos miúdos não respondem. Ou a pergunta é, simplesmente, demasiado vaga (por onde começar a responder?) ou então acham que os pais se estão a meter onde não são chamados e que o que eles fizeram hoje só a eles diz respeito. O que se percebe: a vida das crianças já é tão ordenada, regulada, posta e disposta por outros que não é de admirar que queiram preservar só para eles aquele bocadinho do dia que os pais não conhecem. Veja-o como um sinal de maturidade da sua criança: ela está a aprender que é uma pessoa separada de si, e isso implica perceber que lhe pode esconder coisas. Isso também implica que exerça esse direito, pelo menos até se habituar a ele. Solução: substitua a invasão por troca. Espere por uma ocasião mais descontraída e conte-lhe um bocadinho do seu dia. Vai ver como ele devolve e conta um bocadinho do dia dele.

OLHE O TOM!

Às vezes, mais do que o que se diz, é o tom com que se diz. Muitas vezes o humor pode ajudar a resolver uma situação, mas, cuidado, não confunda humor com sarcasmo. Humor é dizer qualquer coisa como: ‘Olha, parece que os teus sapatos têm corda e andam sozinhos’ e não ofende a criança. Sarcasmo é: ‘Isso, meu filho. Continua a correr assim, continua, que vais bem!’ Humor é feito com a criança, sarcasmo à custa dela, e os mais pequenos percebem isso muito bem. Escusado será dizer que não se critica uma criança em público. Geralmente, quando estamos mais cansados, as nossas frustrações vêm todas ao de cima, entre as quais as que têm a ver com as crianças. Gostávamos que elas fossem mais altas, mais giras, mais desembaraçadas, menos patetas, e tudo isso nos sai em momentos de neura. Mas é possível aprender a conhecer-se e a prever esses momentos. É possível construir um ‘sismógrafo’ particular, um detector de neuras, e accionar, quando preciso, os mecanismos de defesa: vá apanhar ar à rua, coma um bombom (só um, olhe os quilos!), tome um banho quente, telefone a uma amiga.

TRÊS COISAS QUE DEVEMOS DIZER-LHES

És tão giro, tão esperto e tão boa pessoa. aquilo a que certos psiclogoschamam ‘hipnotizarda maneira certa’: se o disser,a criança vai comeara acreditar que verdade.Ao contrrio do que se pensa,elogiar não ‘estraga’ as crianças. O que estraga elogiar sem razo (dizer-lhe que lindssima quando,enfim, no a cara da CludiaSchiffer) e não impor limites é quando preciso. Além disso, as pessoas sobrevalorizam certas coisas, como as boas notas e o visual, e ligam pouco a dotes importantes,como um bom coração ou a vontade de ajudar os outros.

Gosto muito de ti. Pode parecer lamechas e além disso pensamos que é óbvio que ele sabe que os pais gostam dele. Até pode ser,mas sempre bom ouvir.Dizemos muitas vezes que os homens não mostram os seus sentimentos e nunca dizem ‘amo-te’, mas nós também pouco o dizemos aos nossos filhos…Mesmo quando eles reviram os olhos,no fundo gostam de ouvir.

Vamos passear? De vezem quando, deixe a louça por lavar e a casa desarrumada e vá apanhar ar com a sua criança. Claro que não podemos viver no caos,mas quando morrermos não é a casa arrumada que vamos recordar com mais ternura…

 

 

 

 

O que falha na escola inclusiva

Julho 8, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Inês Teotónio Pereira publicado no i de 5 de julho de 2014.

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Em Portugal existe o princípio da escola inclusiva, segundo o qual todos, independentemente de dificuldades ou deficiências, têm o seu lugar na escola

No final da década de 70, um estudo sobre o sistema educativo publicado em Inglaterra concluía que, “ao longo da escolaridade básica, uma em cada cinco crianças apresentará, em algum momento, necessidades educativas que implicam a adequação do processo de ensino e aprendizagem”. Ora, tendo eu seis filhos e tendo em conta esta média, a probabilidade de um deles apresentar as referidas necessidades educativas era grande. E assim foi, um deles tem dislexia grave. Com ele entrei no mundo das necessidades educativas especiais e da escola inclusiva. Passámos por tudo: diagnósticos, relatórios, consultas várias, avaliações, plano educativo individual, ensino especial, etc. Uma viagem acima de tudo técnica, com linguagem própria, cheia de obstáculos, angústias, siglas e muito, muito difusa. No mundo da educação especial as definições são abrangentes, pouco consensuais e o universo é amplo: vai da deficiência às dificuldades de aprendizagem; vai das necessidades educativas que têm origem na deficiência a um simples problema fonológico. Em Portugal existem 62 100 famílias que, tal como a minha, viajam por este mundo. Uma viagem alucinante e quase sempre solitária.

Em Portugal existe o princípio da escola inclusiva, segundo o qual todos, independentemente de dificuldades ou deficiências, têm o seu lugar na escola. O princípio está correcto e é unanimemente aceite, mas será que na prática a escola portuguesa é mesmo inclusiva? Ainda não. Na educação especial cada caso é um caso único, que precisa de respostas rápidas, intervenções eficazes e objectivos consistentes. É verdade que todos os alunos têm acesso à escola, mas não é verdade que todos estejam incluídos, ou seja, que as suas necessidades tenham resposta e que façam um percurso evolutivo dentro da escola pública. Muitos ficam pelo caminho, pois a escola não os integra verdadeiramente. A verdade é que os meios que muitas escolas disponibilizam não são suficientes, e na educação especial quem tem dinheiro tem meio caminho andado. Também é real o fatalismo com que se tende a marcar o destino destas crianças, ou porque são apenas rotulados de maus alunos ou porque se considera estupidamente que não serão produtivos.

E quais são as principais lacunas deste sistema chamado inclusivo? Começam logo por aquilo a que tecnicamente se chama enquadramento. Se a criança tem uma deficiência ou uma dificuldade permanente, tem direito a ser enquadrada na chamada escola inclusiva e o privilégio de ter acesso aos planos de intervenção e aos meios que existem. Mas, se o seu problema for temporário e “curável”, só a sensibilidade do professor, a insistência dos pais, o dinheiro ou a sorte a conseguem enquadrar. Se nenhuma destas variáveis existir, as necessidades temporárias podem tornar-se permanentes, o insucesso escolar inevitável e o abandono escolar um risco. Nesta fronteira estão milhares de famílias. Famílias em que os filhos apresentam dificuldades de aprendizagem mas não têm dinheiro para pagar uma avaliação externa e têm o azar de o professor continuar à espera do clique.

Quando as necessidades são reais e diagnosticadas a tempo, diz a doutrina, a lei e o bom senso que têm direito a um percurso escolar digno, consistente e que responda às suas necessidades concretas. Mas também aqui a distância entre a teoria e a prática é grande. São muitos os alunos que frequentam a escola para cumprirem a escolaridade obrigatória e apenas para a cumprirem. O que no final dos 12 anos levam para casa é pouco, quer em termos de competências adquiridas quer em termos de autonomia. O diagnóstico da nossa escola inclusiva está feito e é mais ou menos consensual. Há umas semanas o Conselho Nacional de Educação sistematizou em pormenor o que falha e aquilo que é urgente fazer. A boa notícia é que não implica gastar mais dinheiro: apenas mais formação dos professores, uma gestão eficaz dos meios já existentes, alterações legislativas pontuais, mais e melhor coordenação entre as entidades da Saúde, da Segurança Social e da Educação e muito bom senso. Depois, sim, podemos dizer que a escola portuguesa é realmente inclusiva.

 

Ana Isabel Cabral: “A Copa já agravou em mais de 160% a exploração sexual de crianças”

Julho 8, 2014 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Entrevista vídeo a Isabel Cabral pelo Euronews no dia 12 de junho de 2014.

Visualizar a entrevista aqui

Ana Isabel Cabral é a coordenadora do programa Vira Vida, apoiado pelo SESI, o Serviço Social das Indústrias do Brasil.

Nesta entrevista, evoca os problemas da exploração sexual de menores, no Brasil, e em particular em Fortaleza, a capital da região do Ceará, no Nordeste. Um fenómeno agravado pelo Mundial de futebol.

Copyright © 2014 euronews

 http://www.viravida.org.br/programa

euro

 

Não existe leite mau. Amamentar é uma arte mas aprende-se

Julho 8, 2014 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do i de 27 de junho de 2014.

rodrigo cabrita

Por Marta F. Reis

Neonatologista abriu este mês a primeira clínica de amamentação do país. Muitas mulheres desistem por falta de informação e apoio, diz fundadora

“Vamos esperar que ela abra a boca um bocadinho mais. Vai abrir várias vezes um pouco, mas há um momento em que abre mais e é aí que aproveitamos.” É como a certeza de que a sétima onda é maior que as outras e Alexandra, com Laura ao colo, confia no que a médica diz mesmo que isso implique resistir ao impulso de aproveitar cada aproximação. A bebé de 21 dias vai entreabrindo os lábios colada ao seu peito mas ainda não chegou o sinal de que vai pegar bem a mama, o desafio com que a mãe pela primeira vez aos 37 anos se debate há duas semanas. Não é sabedoria de algibeira, é um dos sinais subtis de “prontidão para mamar”. Elsa Paulino, pediatra neonatologista e uma das 16 consultoras de amamentação no país reconhecida pelo Conselho Internacional de Examinadores de Consultores em Lactação, está ao lado, a respirar calma para cima das duas. O gabinete está a meia-luz, com um fraldário, almofadas floridas e quadros na parede. Como se fosse um quarto. E, mesmo sendo uma consulta, há entre os conselhos o silêncio da intimidade entre mãe e filha.

Em Junho, Elsa Paulino inaugurou em Lisboa a primeira clínica de amamentação do país, dedicada ao treino antes e depois do parto. E a mostrar às mães (e aos pais) que com pequenos truques pode ser um momento perfeito, como diz a montra do espaço que quase passa despercebido no número 13 da Rua Professor Simões Raposo, no Lumiar.

Alexandra, enfermeira de profissão, estava determinada a amamentar a sua filha até quando fosse possível. A certeza de que o leite materno ajuda a reforçar o sistema imunitário dos bebés e prevenir doenças vem dos livros, mas tinha outro argumento de força. Nasceu em 77, numa altura em que amamentar era pôr à prova a conquista de emancipação das mulheres. “Dizia-se que os leites artificiais faziam melhor ao bebé.” Mas como então a família de Cantanhede estava em Angola, a escassez de fórmulas cedo começou a ser compensada com colheradas de leite condensado diluído em água. “Apesar de ter feito as vacinas, tive sarampo, rubéola, varicela, papeira. Em miúda estava sempre doente, com amigdalites, otites. Tive dores de fugir”, conta Alexandra. A irmã, dois anos mais nova, foi amamentada e não teve nada. “Não sei se foi disso, mas com o que fui sabendo mais tarde liguei as duas coisas e não quis isso para a minha filha.”

Laura nasceu, tiveram alta e começou o pesadelo. A mama gretada, caroços, dor. E a bebé de 38 semanas com 2900 gramas a perder peso. “Estava estoirada, adormecia com ela no peito. Cheguei a acordar agarrada a uma almofada de sonhar que estava a dar de mamar”, conta Alexandra, que de cada vez que Laura faz como deve ser e lhe abocanha toda a auréola do mamilo recupera tranquilidade. Cinco dias após o nascimento, semana em que perdeu oito quilos entre nervos e lágrimas, voltou ao médico para pedir ajuda. Sugeriram-lhe que tentasse tirar leite com a bomba e experimentar com o biberão. Recusou, com receio que o leite começasse a secar. Pediu conselho às amigas, cada uma deu a sua opinião. Eram manhas da menina e devia experimentar a bomba. No limite, ouviu falar da clínica. “A própria enfermeira quando cheguei olhou para mim e viu que eu estava morta, física e emocionalmente. Sentia-me uma incompetente.”

Ainda antes dos conselhos, tranquilizaram-na. “Disseram-me que não era a única.” Depois de uma primeira consulta, vai na terceira de revisão. Em dois dias a filha recuperou 120 gramas. Na primeira semana, 480. Elsa Paulino estima que 50% das mães passem por dificuldades logo nos primeiros dias, quando o leite “sobe” – entre o 3.o e 5.o triplica para dar resposta ao recém-nascido. “Como não estão a dar bem de mamar e o filho não sorve bem, a mama fica tensa e começa a haver problemas.” Para a especialista, esta realidade e o facto de muitas mulheres acabarem por desistir por falta de apoio explica ainda a reduzida percentagem de mulheres que amamentam em exclusivo nos primeiros seis meses, a recomendação da Organização Mundial de Saúde. Segundo os últimos dados do Registo de Aleitamento Materno, em Portugal 74,5% das mulheres saem da maternidade a amamentar. À sexta semana, são 65% e aos seis meses já só quatro em cada dez mantém a alimentação exclusiva com leite materno.

Para vencer as estatísticas, há mitos a derrubar. “O leite secou ou não presta são coisas que não existem. Muito do que acontece de mau na amamentação são falhas nossas”, diz Elsa Paulino. Divide as dificuldades em três grupos. Ter falta de segurança é o primeiro, o mais simples de resolver. O segundo, onde inclui Alexandra, é aquele em que é necessário adaptar a mãe ao bebé. Compressão mamária para ajudar a sucção ou técnicas de correcção da pega e da posição são alguns passos. A criança até parece mamar bem, mas doer deve ser um dos sinais de alerta. “A maioria das mulheres que nunca amamentou coloca mal o filho. Estamos formatados para o biberão: brincamos com nenucos e vêm com eles acoplados. Não mamam virados para cima no colo mas para o peito.”

O terceiro grupo, mais raro, é o mais difícil de trabalhar. Inclui antecedentes de cirurgia mamária ou fenda do palato. Mas mesmo essas situações podem ter sucesso. “Não somos os únicos a fazê–lo. Há profissionais nos hospitais, em centros de saúde e associações como a SOS Amamentação. Somos uma alternativa”, resume a médica, que acredita que o Estado tem de facilitar mais a vida às mães. Mesmo em coisas simples. “Se a recomendação é leite materno em exclusivo até aos seis meses, a licença da mãe devia ter essa duração sem penalizações”, defende. Hoje o sexto mês é possível mas é pago a 80%.

No novo espaço, a primeira consulta custa 60 euros e as seguintes 30. Têm planeadas formações por fases, do pré- -parto ao regresso ao trabalho. Para pais e profissionais. “Há lacunas nos currículos sobre as vantagens da amamentação”, diz a médica, por experiência própria. Teve quatro filhos mas só amamentou até aos oito meses “por falta de conhecimento”. O leite materno deve estar na dieta até aos dois anos. Mas também as formações para o parto não dizem tudo, diz Alexandra, que teve o cuidado de aprofundar o tema antes de Laura nascer. Foi para casa com a ideia de que tinha de dar de mamar de três em três horas e pôs o despertador a marcar o que se revelou uma luta com a filha. “É outra ideia que nos ficou da moda dos biberões e das fórmulas adaptadas de leite de vaca. O leite humano tem um baixo teor de gordura. Ao contrário de outras espécies que mamam de 12 em 12 horas, as mamadas têm de ser curtas e frequentes, às vezes de uma em uma hora”, diz Elsa Paulino. A habituação é difícil, reconhece a médica, mas, quando deixa de haver dificuldades e se entra na rotina, as mães que amamentam acabam por ser mais relaxadas. “Não estão presas por horas, não têm de andar com biberões e esterilizadores.” Alexandra agora já se sente capaz. Saber e paciência são os segredos e arranjam-se. “Dá trabalho mas não tenho mais nada para fazer. Estou de licença para cuidar dela.”

 

 


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