Ali ensinam aos pediatras que nódoas negras em sítios estranhos podem não ser leucemia

Junho 9, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 8 de junho de 2014.

Nuno Ferreira Santos

Catarina Gomes

O núcleo de apoio às crianças e jovens em risco do Hospital Amadora-Sintra é o que mais sinaliza casos de maus-tratos infantis no país. Para detectar os que aparecem escondidos, os médicos têm que tentar sair dos seus mundos e pensar no imponderável. Ficam na desconfortável posição de descortinar, em feridas gravadas na pele com formas geométricas, abusos de pais e mães.

Num dia entram pelas urgências pediátricas do Hospital Amadora-Sintra uma 200 crianças, cada médico de serviço pode chegar a observar 40. A menina de dois anos que lhe apareceu no gabinete com a mãe chegava-lhe com queda de cabelo, peladas em sítios diferentes da cabeça, sinais de emagrecimento, vómitos. O pediatra tratou de pedir análises para perceber se a perda de peso se deveria a falta de vitaminas, poderia estar relacionada com um problema de absorção de alimentos. Remeteu-a para um colega de gastrenterologia. Quanto à alopécia (queda de cabelo), que podia ser devida a uma doença auto-imune, teria que ser vista por um dermatologista.

Quatro meses depois a mesma criança voltou às urgências. Só que agora vinha ao colo de um bombeiro. Tinha o corpo preenchido de negro, eram visíveis as marcas das cordas com que havia sido amarrada a uma cadeira, tinha pequeninas feridas dos palitos que lhe eram espetados na pele. Durante o dia a mãe deixava-a com o namorado que, como estava desempregado, lhe tomava conta dela juntamente com o seu filho. Mas a ele não batia. A própria mãe também era vítima de violência e não conseguia defender a filha. Quando viu a menina, o pediatra que a tinha observado aquela primeira vez ficou como nunca o tinha visto a colega Helena Almeida.“Perturbado.”

“Sentimo-nos horríveis quando deixamos passar um caso destes”, diz Helena Almeida, presidente do núcleo de apoio às crianças e jovens em risco do Hospital Amadora-Sintra. Mesmo quando aparentemente se fez tudo ao nosso alcance. Há casos, como este, que se tornaram bandeira no núcleo, porque o ideal seria que viessem à memória de todos os médicos que trabalham nas urgências pediátricas sempre que vêem uma criança e pensam, como ensinaram à maioria nas faculdades de medicina, sobretudo às gerações mais velhas, a pensar em causas orgânicas – explica a pediatra Maria de Lurdes Torre, outras das médicas que integra o núcleo, e que faz parte de uma secção nova da Sociedade Portuguesa de Pediatria, chamada Medicina Social, por tratar de patologias com origem fora do organismo, na sociedade.

A queda de cabelo não era devida a uma doença auto-imune, os cabelos eram arrancados pelo namorado da mãe, e a perda de peso era porque a menina estava deprimida, recorda Helena Almeida. O caso desta criança, chamemos-lhe Carina, é hoje um dos que estão descritos num powerpoint para que os profissionais de saúde aprendam com ele. Todos os pediatras do Amadora-Sintra têm de fazer formação em maus tratos.

No último slide surge a face ferida de Carina. “A grande preocupação foi a alopécia…” E é como se a frase de Maria de Lurdes Torre ficasse pendurada no ar, porque se instala o silêncio na sala de formação. “O senhor foi preso”, diz a assistente social Patrícia Santos, preenchendo a incómoda ausência de ruído. “A menina está na escola, muito vivaça, está muito bem”, junta, como num convite à descompressão, a psicóloga Filipa Fonseca, também deste núcleo que junta 11 profissionais de várias áreas. Ficou a viver com a avó.

“A esta miúda safámo-la, é a recompensa. Não tirámos tudo o que está para trás, mas a partir de agora pode ter uma vida melhor”, observa Helena Almeida. E é como se o mantra desta formação sobre maus tratos infantis fosse uma frase que Maria de Lurdes Torre diz à margem da sessão: “Não era evidente, eu fiz o melhor que pude, isto não era linear. Acontece a todas as pessoas”. É assim que conseguem seguir em frente. Depois, tentam ir à raiz dos erros nestes casos “mascarados”.

O que os membros do núcleo procuram fazer durante as quatro manhãs de formação por ano é ensinar aquela plateia a contrariar vícios de raciocínio. Helena Almeida chama-lhe “uma guerra de aprendizagem”. Porque é que que um hematoma num sítio fora do normal para uma queda de criança há-de primeiro ser investigado como leucemia?, exemplifica Maria de Lurdes Torre. Porque é que se pensa numa doença rara antes de se pensar em maus tratos?

E porque é que o facto de o pai estar muito nervoso durante a consulta não há-de constar na ficha de observação clínica da criança? Porque os médicos são ensinados a deixarem a subjectividade de lado, a serem o mais científicos possível, e isso significa desvalorizar o facto de o progenitor, que trouxe a criança “por ter caído das escadas”, não parar de bater com o pé no chão durante a consulta. O processo clínico não é visto como sítio para impressões, sentimentos, para o não dito. Nos maus tratos é essa informação, “esses feelings”, como lhes chama, que podem fazer a diferença, elucida a médica, que é também chefe de serviço da urgência e dos cuidados intensivos pediátricos desta unidade dos arredores de Lisboa.

Lurdes Torre lembra-se do caso de um menino de dois anos e meio trazido às urgências por ter caído do sofá. Tinha ferimentos que condiziam com a queda e a idade certa para ser irrequieto. Ia observar as feridas da queda, mas depois pensou naquela mãe, com um comportamento que lhe pareceu desadequado perante uma situação que não era grave, “chorava muito”, e decidiu observá-lo sem a presença dos pais. Nem sequer se tinha aproximado dos genitais quando o menino disse “na pilinha não, o pai aperta a pilinha”. Estava há poucas semanas em casa dos novos pais, adoptivos, e que, por isso, tinham passado por todos os crivos e mais alguns para serem poderem cuidar daquele menino tão desejado. Para a médica, este caso também serve de lembrete de como até os pais mais insuspeitos podem ser agressores. Biológicos e adoptivos, pobres e ricos.

Em 2013 estavam em 20% os casos de maus-tratos infantis detectados no hospital que já tinham passado pelas urgências pediátricas pelo menos uma vez, menos de metade do que sucedia até 2005. O objectivo é que cheguem a 10%.

Outro “caso paradigmático” é aquele a que a enfermeira Joana Romeiro chama “a história da abelha”. A menina chegou com a perna direita muito inchada porque, segundo a mãe, havia sido picada por uma abelha. Fez-se um raio X e tinha uma fractura.

Os slides seguintes mostram outras radiografias que seccionam o esqueleto da mesma criança: perna esquerda, uma fractura; braço direito duas, braço esquerdo uma fractura. Depois uma Tomografia Axial Computadorizada mostra um hematoma craniano. Cinco fracturas, seis meses de vida. Tinha passado 13 vezes pelas urgências. No powerpoint podem ler-se os motivos das visitas ao hospital, que incluem muitos dos clássicos destas idades: obstrução nasal, cólica de recém nascido, bronquiolite. Em torno do quarto mês a menina da picada veio por um traumatismo craniano, porque tinha sido deixada cair por uma irmã. A seguir veio por dermatite seborreica.

“O que é teríamos feito diferente? Onde errámos?”. Nenhum dos formandos responde. Talvez a suposta queda do colo da irmã, que pareceu verosímil ao médico que a atendeu, pudesse ter sido investigada, sugere Lurdes Torre. Descobriu-se então que a família era de risco: os pais tinham atraso cognitivo, o tio era toxicodependente, o avó alcoólico. A criança esteve 19 dias internada, foi retirada à família e colocada numa instituição de acolhimento.

Durante a formação Helena Almeida aconselha os profissionais de saúde a “saírem dos seus pés, do seu olhar”. É como se dissesse que é preciso que consigam sair de si mesmos, do mundo que lhes é familiar e onde os pais não agridem os filhos. Só assim poderão aceitar como plausíveis hipóteses que lhes surgem como impensáveis. Pedir análises para detectar infecções sexualmente transmissíveis numa bebé? Sim, se houver suspeitas de abuso, como já lhes aconteceu com um bebé que tinha clamídia, preconiza. “Os médicos fogem destes casos”, diz, porque consomem muito tempo numa urgência, é verdade, mas também porque “vão contra a nossa estrutura moral, os nossos princípios mais básicos. Preferimos pensar que não existem.”

Os profissionais de saúde que hoje ali estão sentados saberão todos que as queimaduras têm um centro necrótico, como surge num slide. Mas será que estão preparados para descortinar formas geométricas em feridas gravadas na pele de crianças? Uma meia-lua pode ser a marca de uma frigideira, um rectângulo incompleto pode revelar tareia de cinto, vários pontinhos muito juntos, os pelos duros de uma escova de cabelos. “As feridas acidentais não têm padrões, não sugerem figuras”, termina Helena Almeida.

A presidente do núcleo aconselha-os a não terem medo “de suspeitar a mais”, mesmo que isso implique muitos recursos. “Não deixem é passar casos”. Têm que colher indícios e depois deixar a justiça fazer o seu trabalho.

O caso seguinte é o de uma adolescente de 12 anos que diz ter sido abusada sexualmente pelo namorado de 23, que conheceu online. A família corrobora a história. A Judiciária intervém e nada descobre sobre o pretenso agressor, que nunca existiu. Veio 17 vezes às urgências, passou dezenas de horas em consultas médicas e exames. No fim, descobriu-se que tinha problemas psiquiátricos, com antecedentes de doença mental na família. “Era tudo confabulação”, recorda outro médico do serviço.

A lição a tirar de casos que passaram desapercebidos e dos que eram mais do que pareciam é que mais vale pecar por excesso, defende a presidente do núcleo. Quem pensa nesta afirmação como uma aproximação a uma realidade que se costuma associar aos Estados Unidos, em que se tornaram mediáticos casos de crianças tirados injustamente às famílias, pode afastar esse cenário, comenta Helena Almeida. “Estamos muito longe disso”. Prova disso, sublinha, é que mais de metade dos casos de maus-tratos, excluídos os casos de negligência, são sinalizados pelos hospitais. Há 44 núcleos hospitalares idênticos no país, este é o que mais sinaliza – no ano passado deram a conhecer 234 casos, 60% são maus tratos físicos, 35% são de abuso sexual. A idade média é de 9 anos.

“Não deviam ser os hospitais os grandes declarantes”, nota, porque isso significa que “só são identificados os maus tratos quando é grave, quando há abuso sexual com penetração, quando há fracturas. Estamos a apanhar as situações claramente visíveis, a ponta do icebergue”. Nos países é que a cultura da detecção dos maus-tratos está mais desenvolvida, casos da Inglaterra e da Holanda, é mais nas escolas que se detecta”.

O principal agressor nos casos de maus tratos é o pai (32%), depois a mãe (20,8%), seguida dos conhecidos que não fazem parte da família (12%). Pessoas próximas da criança, portanto. Mas se os profissionais de saúde estiverem à espera que sejam os miúdos a tornar evidente que são vítimas, com comportamentos hostis contra os seus abusadores, precisam de perceber que isso nem sempre é verdade, explica Helena Almeida. “As crianças estão preparadas para gostar dos adultos que tomam conta delas. A mãe gosta de mim e bate-me, então bater é sinal de afecto.”

Lembra-se que havia uma menina que gostava muito da ama onde a mãe a deixava todos os dias. Por isso a mãe defendia-a, não acreditava que lhe pudesse fazer mal, se a filha se mostrava tão contente quando lá ficava. Uma criança de quatro anos chegou-lhes às urgências com uma fractura do baço, outra, de meses, com uma perna partida, outra com uma fractura do braço. O núcleo conseguiu montar o puzzle e encontrar o fio condutor: tinham em comum a mesma ama, aquela de quem a menina tanto gostava.

Às vezes querem saber o que aconteceu a seguir, aos meninos, mas também ao agressor. É difícil acompanhar as histórias até ao fim, estão sempre a ser interrompidos por “outros casos a chegar”, diz. No caso dos três meninos souberam na imprensa: “Ama detida por agressões a bebés”. “Não é prémio, é consolação”, diz Helena Almeida.

Exemplos de possíveis sinais de alerta

Fracturas Em crianças com menos de 2 meses, entre 80% das fracturas são causadas por maus tratos;

Abaixo dos 3 anos a probabilidade desce para 25%

Uma criança que cai dificilmente apresenta fracturas nas costelas

Queimaduras Cada objecto ou acção deixa uma marca específica que os médicos aprendem a reconhecer. “As feridas acidentais não têm padrões, não sugerem figuras geométricas”

Abuso sexual Em crianças mais novas: Temores nocturnos Obediência exagera ao adultos e preocupação em agradar Dificuldade de relacionamento com outras crianças Interesse e conhecimento desadequado sobre questões sexuais

Nos jovens: Dormir com roupa vestida Recusa em tomar banho Auto-mutilação

Fonte: Núcleo Hospitalar de Apoio às Crianças e Jovens em Risco do Hospital Fernando da Fonseca

 

1 Gosto em Escola de Condução Elite = 0,10€ para o Instituto de Apoio à Criança

Junho 9, 2014 às 3:00 pm | Publicado em Campanhas em Defesa dos Direitos da Criança | Deixe um comentário
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1 Gosto em Escola de Condução Elite = 0,10€ para o Instituto de Apoio à Criança.

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Os filhos no Facebook

Junho 9, 2014 às 2:55 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Notícias Magazine de 1 de junho de 2014.

Jorge Simão

Jorge Simão

Por: Ana Pago

Estaremos a expor demasiado as nossas crianças no Facebook?

Os pais sempre fizeram álbuns de fotografias das suas crianças para recordar mais tarde e para mostrar à família e amigos. Mas o papel passou a digital, os amigos extravasam o grupo restrito que ia a casa e as imagens íntimas acabam a correr mundo. Estaremos a expor demasiado as nossas crianças no Facebook?

A primeira muda de fralda, o sono na maternidade, o consolo do banho. A chegada a casa em triunfo (e com algum receio), os primeiros dentes, os primei­ros passos, as festas de aniversário. Não vai longe o tempo em que os pais acreditavam que um álbum de capa dura e folhas de seda, com um caracol de cabelo para tocarem mais tarde, seria útil aos filhos quando qui­sessem desatar os nós da infância. Não se falava tanto em pedofi­lia, rapto, bullying, e uma fotografia dificilmente daria uma dor de cabeça para a vida inteira. Não vivíamos numa era de partilha ao minuto. E se a prática faz hoje as delícias dos amigos, que acompa­nham na rede as diabruras dos pequenos e as tramas familiares, por outro lado levanta uma questão com tantas respostas quantas as pessoas que discordam ou concordam com ela: estaremos a ex­por demasiado as nossas crianças no Facebook?

«Vivemos uma ditadura da maioria, em que é quase escandalo­so não partilhar a nossa vida e a dos nossos filhos nas redes sociais, e esquecemo-nos de que estas não são desprovidas de interesses comerciais», alerta Cristina Ponte, professora do departamento de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL). Quanto maior o número de pessoas identificadas na rede, maior é a possibi­lidade de se obter algoritmos que identifiquem perfis de consumi­dores. Ainda assim, as vantagens são inegáveis: fácil de usar e mais divertido do que o e-mail, o Facebook facilita contactos, aproxima amigos e permite que familiares queridos que vivem longe acom­panhem o crescimento dos pequenos (há outras redes sociais, co­mo o Twitter ou o Instagram, onde o fenómeno também se verifi­ca, mas o Facebook é, de longe, o caso mais flagrante).

O problema surge quando os pais postam todos os momentos, sem pensar que as imagens permanecem online e poderão reper­cutir-se nos mais novos. «As pessoas partilham uma foto e não lhes ocorre que tudo o que pomos na internet fica lá, sem termos forma de controlar se alguma vez será eliminado», explica Cristina Pon­te que, além de subdiretora adjunta na FCSH, coordena em Portu­gal o projeto EU Kids Online, responsável por ampliar o conheci­mento sobre usos, riscos e segurança na internet das crianças eu­ropeias. «É muito fácil alguém procurar conteúdos de terceiros na rede e é igualmente fácil disseminá-los. Inclusive fora de contex­to e para audiências que não os amigos a quem a fotografia se des­tinava. É um fenómeno muito novo, sobretudo para os utilizado­res mais velhos, que não cresceram nesta dinâmica. E apercebe­mo-nos de que a preocupação das crianças nas redes sociais não é o contacto com estranhos, mas o cyberbullying e a má imagem. Am­bos decorrentes, muitas vezes, de fotos que familiares publicaram sem supor que teriam esse efeito.»

Inês Mestre, mãe de duas filhas de 4 e 6 anos, percebe bem quan­do a investigadora diz que é legítimo pensar do ponto de vista dos pequenos – será que irão gostar mais tarde? Será que ao crescerem com toda esta exposição vão saber lidar com isso? – antes de se pu­blicar uma imagem no Facebook. «Nós, os pais, enfrentamos desa­fios a um nível global, com a internet a permitir que a nossa vida e a das nossas crianças chegue a qualquer pessoa de qualquer parte do mundo, especialmente se formos nós a oferecê-la», diz a profes­sora de babyoga, que nem quando viveu dois anos nos EUA se sen­tiu tentada a carregar fotografias das meninas no Facebook. «Per­cebo que quem partilha tem as melhores intenções, sobretudo se se trata de imagens queridas dos filhos. Mas, infelizmente, nem to­das as pessoas são iguais.»

Inês não é contra o Facebook. Pelo contrário, acha-o «fantás­tico» para manter contacto com as pessoas, divulgar projetos, mensagens, conceitos e negócios, partilhar experiências e ter grupos de apoio. «Eu uso-o nessas vertentes todas», diz. Apenas não se serve dele para expor de forma pública a sua vida privada, o que inclui naturalmente as suas filhas. «Percebo que se quei­ra partilhar algumas ocasiões engraçadas com as pessoas próxi­mas: eu própria, quando estive fora, enviava fotos por e-mail para dividir esses momentos. Mas não entendo a necessidade de gri­tar ao mundo tudo o que fazemos. E alguns familiares e amigos já puseram fotos das minhas filhas no Facebook, mas retiraram–nas depois de eu ter pedido.»

Manuel Costa Henriques, consultor de hotelaria e pai de uma menina de 6 anos, também prefere recorrer ao e-mail para enviar instantes íntimos à família e aos amigos chegados. «Há quem diga que sou paranoico por não pôr fotografias do rosto da minha filha nas redes sociais, admito. Mas quando leio notícias do aumento de raptos de crianças e da existência de pedófilos online a colecionar imagens, penso: “Alguma vez ia arriscar, nem que fosse apenas 0,01 por cento de hipóteses, de deixar acontecer algum mal ao mais im­portante da minha vida por andar aí a revelar-lhe cara e detalhes da vida?” É dever dos pais protegerem os filhos e, ao colocarmos fo­tografias deles na internet, estamos a expô-los a perigos que mui­tas vezes nem imaginamos», justifica.

Manuel também é sensível à noção de que os mais novos têm di­reito à sua privacidade e vão crescer, arriscando-se a querer apa­gar imagens que ficam para sempre na internet. «Tudo o que colo­co nas redes sociais é público, porque efetivamente tudo o que ali publicamos passa a pertencer à rede social e, em última análise, ao acesso público. Muitas pessoas pensam que colocando fotografias privadas só as vê quem elas quiserem, mas basta alguém partilhá-las ou “gostar” para irem parar onde não era suposto. Se lerem bem as políticas de privacidade do Facebook, vão perceber que nada ali é cem por cento privado e eles assumem isso.»

Sara Pereira, Luís Pereira e Manuel Pinto são investigadores do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universida­de do Minho. No booklet Internet e redes sociais: tudo o que vem à rede é peixe?, que elaboraram, os autores sublinham a necessidade de os internautas perceberem que as informações publicadas podem ser lidas ao minuto por um público extenso e permanecem disponíveis na rede mesmo depois de removidas por quem as carregou, razão pela qual toda a gente deve ter o cuidado para nunca comprome­ter a privacidade de outros. Um estudo recente da AVG, uma em­presa de programas de segurança online sediada na Holanda, re­velou ainda que pais, tios e avós publicam imagens dos seus bebés, fazendo que 82 por cento das crianças tenham fotografias suas na internet antes de completarem 2 anos. Mais: são os pais quem reve­la maior quantidade de dados pessoais dos filhos, mediante parti­lha de fotografias e outros conteúdos de «elevada intimidade», e os ajudam a criar perfis no Facebook antes dos 13 anos (a idade em que podem abrir conta na rede social).

«Muitos têm o cuidado de supervisionar o que os menores publi­cam nos seus murais, ao mesmo tempo que eles próprios não colo­cam demasiadas fotografias nem imagens muito explícitas. Mas depois lá surge uma atividade em que a criança participa com os co­legas e é muito fácil outros pais partilharem-na», diz Sara Pereira, ciente da dificuldade de se fechar todas as portas quando cada uti­lizador se multiplica por centenas de amigos num efeito bola de ne­ve. «No limite, importa saber que tipo de fotografias é que se deve, ou não, postar no Facebook.» Fazer a distinção entre espaço públi­co e privado, coisa que nem sempre acontece. «Se vamos à piscina com os nossos filhos, por exemplo, é natural querermos partilhar o momento. Mas a verdade é que nunca sabemos quem está do ou­tro lado. E a imagem de uma criança em biquíni ou a fazer pose po­de ganhar um significado diferente se for retirada daquele contex­to de amigos para ser colocada noutro site, comprometendo a sua privacidade e intimidade.»

Tito de Morais, fundador do site MiúdosSegurosNa.Net para aju­dar famílias, escolas e comunidades a promover a segurança online dos mais novos, recorda-se de um caso: em agosto de 2008, quan­do falava no Messenger com a responsável de uma organização de proteção infantil, esbarrou num classificado anunciando a venda por cem euros em Lisboa, para atos sexuais ou outros, de uma meni­na loura de 2 anos. A descrição continha ainda uma frase referente aos genitais da criança e um número de telemóvel, tendo o anúncio sido imediatamente denunciado à Polícia Judiciária e ao site onde fora colocado (e removido ao fim de três horas, depois de se apurar tratar-se de uma brincadeira de péssimo gosto). Tito nunca soube se os pais da menina tiveram conhecimento do caso, mas o certo é que a fotografia foi copiada de um blogue que criaram para a filha e não chegaram a desativar.

«No caso do Facebook, o facto de as pessoas pensarem que só tem acesso às imagens publicadas quem se encontra ligado ao seu perfil cria uma falsa sensação de segurança», constata o autor, sublinhan­do que o mais seguro, para lá de quaisquer definições de privacida­de, é partirmos do princípio de que aquilo que dizemos e fazemos em privado se pode tornar público, mesmo o que não publicamos. «En­quanto uma foto tipo passe, se tiver o meu nome por baixo, é mera­mente identificativa, a mesma foto colocada na página dos crimino­sos mais procurados pelo FBI assume um significado completamen­te diferente. Por outro lado, temos tendência a esquecer-nos de que nem todos olhamos da mesma maneira para a imagem de um bebé ou de uma criança: felizmente, a generalidade das pessoas fá-lo com carinho e ternura, mas há quem o faça com outros sentimentos, no­meadamente como objeto de desejo sexual.»

Dados da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas e da Polícia Judiciária revelam que, só no ano passado, a somar a 89 ca­sos de crianças com menos de 9 anos desaparecidas, foram refe­renciados 1326 casos de abuso sexual de menores, dos quais 49 víti­mas de tráfico e 17 referentes a investigações de tráfico para explo­ração sexual. A própria Polícia de Segurança Pública, empenhada em alertar para a questão da segurança das crianças no Facebook, pôs a circular a imagem de um bebé de rosto cortado por uma fai­xa negra, sentado nu numa bacia de pedra, com a seguinte mensa­gem: «Sabe que ele fica cá para sempre? Pense primeiro se preten­de divulgar a foto e, se o fizer, tenha em atenção as suas políticas de segurança e privacidade.» Porque a internet é uma ferramenta po­derosa, que tanto pode ser usada de forma inspiradora como des­truidora, Tito de Morais é de opinião que tudo o que seja de cariz íntimo não deve ser registado, já que as redes sociais «concentram num único local oportunidades – e riscos – antes dispersas por di­versos serviços e plataformas».

Sofia Tojo é um desses casos que não partilham no Facebook aquilo que lhe parece imprudente nas interações ao vivo. «Se vou na rua com os meus filhos, não admito que ninguém que eu não conheça lhes tire fotos. Por isso também me parece despropo­sitado alguém ter acesso a imagens deles e poder usá-las para o que quiser», diz a professora, mãe de um casal de 4 e 7 anos. Lidar com crianças e adolescentes todos os dias na escola faz que o ins­tinto de proteção fale mais alto também na sua página de Face­book, onde partilha desenhos que os filhos fazem em vez de ima­gens pessoais. «Com os amigos chegados encontro-me em festas, jantares, piqueniques ou idas ao parque. Sou fundamentalista na questão dos afetos: não há nada como o convívio, o abraço, a con­versa sem horas para terminar», diz, determinada a impor os seus limites enquanto o fenómeno das redes sociais for «uma coisa re­cente e mal balizada, que dá asas à necessidade humana de saber da vida dos outros».

Tito de Morais confirma o perigo e percebe que muitos pais se deixem guiar pelo medo, mas ressalva que, como em tudo na vida, a virtude está no meio: nem encher o mural de fotografias das nos­sas crianças, que no futuro irão apreciar o facto de terem controlo sobre a sua identidade online; nem render-se ao pânico de publicar o que quer que seja, uma vez que há muitos familiares que vivem a largos quilómetros de distância e gostam de ver crescer os reben­tos, ainda que seja via Facebook.

Tânia Sousa, designer gráfica e mãe de uma menina, não sabe co­mo faria sem o Facebook para viver em família, ela que tem a única cunhada e as sobrinhas em França e seis tias «com toda a prole» no Norte. «Quando se justifica, quando há momentos que acho engra­çado dividir com quem me é próximo, vou postando fotos da Bia», diz, sempre com o cuidado de manter a lista encurtada para os ami­gos e não aberta aos conhecidos, como teve em tempos. «É a forma mais prática de se partilhar coisas e, se as pessoas não gostam de fazê-lo, então não faz sentido aderirem ao serviço. A não ser que se­jam do tipo que gosta de coscuvilhar a vida dos outros sem querer que se saiba nada da sua.» O fundador do MiúdosSegurosNa.Net concede ser impossível eliminar todos os riscos, mas garante que podemos minimizá-los optando por publicações privadas ou res­tritas, num grupo secreto apenas acessível a quem quisermos e on­de os conteúdos não são partilháveis (ver caixa).

Sandra Pereira não receia, caso contrário não publicaria as foto­grafias de Maria, 11 anos, e Diogo, 7 meses. Mas recusa pedidos de amizade de desconhecidos e já lhe aconteceu pedir a um familiar que retirasse a partilha que fez de uma fotografia dos filhos por não lhe conhecer os amigos. «Posto sempre que me apetece, não resis­to. Como tenho família em várias zonas do país, incluindo a minha irmã na Madeira, é uma forma de seguirem, ainda que ao longe, o crescimento dos meus filhos», diz a jornalista, para quem o segredo é ser conscienciosa. «Respeito quem não partilhe, mas penso que é tudo uma questão de termos cuidado com as imagens que colo­camos. Hoje em dia é quase impossível mantermo-nos anónimos, da maneira como somos observados pelo Google Earth ou por câ­maras de vigilância nas ruas e em centros comerciais…» Resta-lhe – e a todos nós – partilhar as crianças com sobriedade, protegen­do-lhes a privacidade para que elas mesmas possam dar cabo dela quando crescerem.

DICAS PARA A SEGURANÇA DE TODOS – E NÃO APENAS DAS CRIANÇAS

_APRENDA A USAR O FACEBOOK. Tal como não passaria pela cabeça de ninguém usar uma serra elétrica à toa, o Facebook é uma ferramenta útil desde que manuseada com responsabilidade. Tirar um pequeno curso de redes sociais ou aprender com amigos que percebam do assunto pode ser boa ideia.

_NÃO DIVULGUE PORMENORES DA SUA VIDA PESSOAL. Muitos utilizadores partilham demasiada informação que pode ser usada para fins menos próprios. Dizer, por exemplo, que vai de férias na próxima semana pode significar para alguns que a sua casa estará vazia em breve. Se entretanto já tiver publicado imagens que dão indicações do lugar onde mora, o risco aumenta.

_NÃO PUBLIQUE FOTOGRAFIAS EM ÁLBUNS ABERTOS PARA TODOS. Quanto mais pessoas virem uma determinada imagem, mais hipóteses ela tem de cair nas mãos erradas. Uma boa razão para ajustar as configurações de privacidade e agrupar os seus amigos em listas, de modo a garantir que só as partilha com aqueles em quem mais confia e não com os amigos dos amigos, ou com aqueles amigos que adicionou sem conhecer na vida real.

_PROTEJA AS PASTAS DE FOTOGRAFIAS COM PASSWORD. Ninguém está livre de ser assaltado ou de perder os aparelhos onde guarda as fotografias de família. Arquivá-las em ficheiros protegidos por uma palavra-passe dificulta o acesso de estranhos às mesmas.

_MANTENHA AS PARTILHAS CONTROLADAS. Na medida do possível, e após assegurar-se de que tem os perfis de segurança configurados para que só os seus amigos possam ver o que publica, peça-lhes para não partilharem fotografias suas e/ou das suas crianças. Não hesite em pedir-lhes para removerem um post caso o considere inadequado.

AS FOTOGRAFIAS QUE NUNCA DEVEM SER POSTADAS

_AS DE CRIANÇAS NUAS, DE FRALDAS OU NO BANHO. Inocentes aos olhos da maioria das pessoas, podem tornar-se um prato cheio para utilizadores maldosos que as ponham a circular em redes criminosas ou façam um uso ainda mais abusivo das informações obtidas nas redes sociais.

_AS DE CRIANÇAS COM UNIFORMES ESCOLARES. Através de uma farda é possível identificar a escola que uma criança frequenta, por vezes até o ano. Se além disso o Facebook divulgar o nome dos pais, dos menores e uma série de outros dados pessoais, não é descabido pensar que possam surgir sarilhos.

_AS QUE PODEM CAUSAR CONSTRANGIMENTO. Por muito engraçada que uma imagem possa parecer quando é tirada, os pais devem lembrar-se de que as suas crianças não gostarão de se ver expostas ao ridículo. Imagens embaraçosas à solta na rede podem vir a ser usadas em situações de bullying.

_AS DOS FILHOS DOS OUTROS. Qualquer pai tem o direito de exigir que uma fotografia do filho seja retirada do Facebook quando postada sem autorização. Lembre-se de perguntar aos outros pais se pode publicar imagens em que as crianças deles apareçam (ex.: visitas de estudo ou festas de aniversário).

_AS DE CRIANÇAS COM OBJETOS DE VALOR. Os amigos ficarão contentes com o seu sucesso e a alegria da pequenada, mas para quê chamar a atenção para os bens materiais da família? Ou fazer o seu filho correr riscos desnecessários porque recebeu um iPad e publicou uma fotografia a exibi-lo?

_AS QUE PERMITEM IDENTIFICAR O LOCAL ONDE FOI TIRADA. Os smartphones e algumas câmaras vêm equipados com um geolocalizador que identifica e torna público o lugar onde cada fotografia é tirada. Desative-o para não correr o risco de as imagens darem a terceiros informações que só lhe interessam a si.

_AS DE ALTA RESOLUÇÃO. Uma vez que perdemos o controlo de uma imagem quando a colocamos na web, é preferível partilhar com os amigos as de baixa resolução, menos fáceis de editar, manipular e utilizar.

_AS QUE FORNECEM PISTAS SOBRE A SUA MORADA. Prédios, uma loja conhecida e outros pontos de referência do lugar exato onde moramos devem ser evitados. Há coisas que é preferível manter na esfera privada.

«AS DEFINIÇÕES DE PRIVACIDADE EXISTEM PARA NOSSA PROTEÇÃO»

Entrevista a Teresa Andrade, psícóloga infantil, professora na Escola Superior Egas Moniz e formadora na área do luto.

 Quais os riscos de se partilhar fotografias de crianças no Facebook?_Os maiores decorrem da possível utiliza­ção por pessoas que possam estar ligadas a redes de pedofilia ou tornar as crianças mais vulneráveis a raptos para outros fins, seja adoção ilegal seja para chantagear ou exercer vingança sobre os pais. As imagens são uma parte do problema, mas todas as informações objetivas relacionadas com a criança e a família (nome do colégio, jardim onde vai brincar, locais de ativida­des extracurriculares, nome dos amigos, brinquedos favoritos, praia onde vai com os avós e outros), são elementos que permi­tem a qualquer pessoa aproximar-se com facilidade.

Pensarmos nos «amigos» da rede social como amigos reais cria uma sensação de segurança perigosa?_As definições de privacidade existem para nossa proteção. E há pouca atenção a isso face a conteúdos relacionados com as crianças. Achamos que todos os que acedem à informação são iguais a nós e não é verdade. Depois, quando chegamos aos 500 amigos, já nem nos lembramos de quem pode ver o que postamos.

Que imagens não devem ser publicadas em nenhuma circunstância?_As que identifiquem demasiados detalhes da criança, as que a mostrem despida ou explicitem locais exatos e rotinas, as que envolvam mais crianças associadas em cir­cunstâncias idênticas, como uma festa. As que exponham visivelmente posses e bens e criem a ilusão de que as pessoas estão muito bem economicamente.

Como podemos ensinar as crianças a dis­tinguir o que é público do que é privado?_Há que educar os pais para os perigos da exposição dos mais novos. Depois é essencial sensibilizar a criança, mostrar-lhe exemplos de situações que acontecem dia­riamente a pequenos que se expõem dema­siado, e dizer-lhe que são casos que podem suceder a qualquer um. A educação na escola também é fundamental, assim como ir divulgando a mensagem na televisão, em canais próprios para as crianças.

Links úteis:

A média de idade para as crianças adquirirem presença online é de seis meses e acontece por intermédio dos pais. Mais de 70 por cento das mães admitem ainda que posta(ra)m imagens dos filhos para partilhá-las com familiares e amigos. Tudo aqui

Como é que as crianças até aos oito anos utilizam a internet? Quais os riscos que correm? O que fazem as famílias? Conclusões do projeto EU Kids Online para ler aqui

A pergunta que fica na cabeça dos pais, depois de terem consciência de todas as ameaças que rondam os filhos quando estão ligados, é seguramente: «Como vou controlar isto?» Muitas dicas úteis para discutir em família aqui

No Facebook, o facto de as pessoas pensarem que só tem acesso às imagens publicadas quem se encontra ligado ao seu perfil cria uma falsa sensação de segurança. Há fotos que nunca deve publicar. Saiba quais aqui

O pior caso de que Tito de Morais se recorda levou-o a escrever o artigo Blogs de Bebés e Segurança, onde relata o caso aqui

Os smartphones vêm equipados com um geolocalizador que identifica e torna público no Facebook o lugar onde cada foto é tirada. Saiba porque o deve desativar aqui  e como fazê-lo aqui

 

 

Seminário 25 de Abril e as Crianças – Evolução / Desafios com a participação de Cláudia Outeiro do IAC

Junho 9, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Dra. Cláudia Manata do Outeiro do IAC-CEDI (Centro de Estudos, Documentação e Informação sobre a Criança), irá participar no Seminário 25 de Abril e as Crianças – Evolução / Desafios no Painel 2 – Realidade de vida das crianças e as politicas de protecção.

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Dez mitos sobre a alimentação infantil

Junho 9, 2014 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Artigo da Pais & Filhos de 14 de fevereiro de 2014.

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A alimentação é fundamental para que qualquer um possa ser saudável. Quando temos filhos, essa importância aumenta, pois ficamos responsáveis, durante muitos anos, pela alimentação de outros numa fase crucial do seu crescimento e desenvolvimento.

 A alimentação das crianças ocupa um lugar muito importante no dia-a-dia de todos os pais e mães. Mas não é tarefa fácil, a de ensinar hábitos alimentares corretos e saudáveis. Exige algum conhecimento, força de vontade, persistência e muito carinho. E esta tarefa é ainda complicada pelas mil opiniões que circulam sobre o que se deve e não deve dar de comer, quais os hábitos mais saudáveis, quais as regras mais importantes. «Aos meus filhos faço assim…» ou «No meu tempo era assado…» são frases que, apesar de muito bem intencionadas, muitas vezes complicam a vida aos pais. E se a avó diz «está tão magrinho…» parece que o mundo desaba e que está a passar aos pais um atestado de incompetência.

A alimentação das crianças obedece a regras muito simples e a uma quantidade enorme de bom senso. Apesar disto, existem ainda muitos boatos e mitos sobre alguns aspetos da alimentação das crianças.

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1º Mito: A ceia é fundamental

Errado. No bebé mais pequeno, que come de 3 em 3 ou de 4 em 4 horas, não podemos falar de ceia. Após o nascimento, a criança demora alguns meses até adquirir um horário de refeições semelhante ao dos adultos. Mas, a partir dos seis meses, a ceia pode ser dispensada. Não quer dizer que seja proibida, apenas que só deve ser dada se a criança a pedir e que esta não deve ser acordada de propósito para que possa beber um leitinho. Este esquema pode manter-se até cerca de um ano de idade. Nessa altura, já a criança come de tudo, com refeições completas. Os seus dentes estão na fase de erupção mais acelerada e devem ser cuidados com carinho, o que inclui a escovagem de manhã e à noite, antes de ir para a cama. Por esta altura, o mais correcto é abolir a ceia. A partir dos doze meses de idade, o leite à noite pouco acrescenta em termos de calorias. O que a criança deixa de ingerir à noite acaba por compensar durante o dia. E o leite à noite fica na superfície dos dentes acabando por facilitar o aparecimento de cáries. Em resumo, a partir dos doze meses, a ceia, não sendo proibida, pode ser evitada.

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2º Mito: A cenoura deve ser a base de todas as sopas

Errado. A cenoura é conhecida por ser de paladar saboroso e de fácil digestão. Por isso, é muitas vezes aconselhada como primeiro legume, a par da batata. Para além disso, é rica em vitamina A, que é fundamental para o desenvolvimento da visão – quem não ouviu já que «a cenoura faz os olhos bonitos»? Mas, após as primeiras sopas, nada justifica que a cenoura tenha uma presença obrigatória nas refeições da criança. Pode ser substituída por outro legume, nomeadamente a abóbora, como base da sopa. Para além disso, o excesso de cenoura leva a que algumas crianças acumulem na pele o pigmento alaranjado, ficando com o nariz e zona em torno da boca da cor da cenoura.

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3º Mito: A criança deve manter sempre o mesmo esquema de alimentos

Errado. A preocupação dos pais deve ser a de oferecer à criança alimentos diversificados e de boa qualidade, e não a de manter um esquema alimentar monótono, em que a criança come sempre a mesma coisa. A criança deve ser estimulada a experimentar, pois a curiosidade é fundamental na nossa vida. «E se ela não quiser experimentar?», perguntam-me alguns pais. Nesses casos, a regra número um é não fazer da hora da refeição uma guerra. A criança deve ser educada de forma a provar de tudo e a ter liberdade para depois dizer que não gosta. O que não pode é recusar-se a experimentar um alimento novo que lhe surge à frente. A função dos pais é levarem-na a provar o novo mantimento e depois respeitarem a sua vontade.

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4º Mito: A educação faz-se falando com a criança

Errado. A educação faz-se pelo exemplo. Nunca observei uma criança com hábitos alimentares saudáveis quando os seus pais não os têm. A criança aprende observando, imitando aqueles que admira. Como pode uma mãe dar salada a um filho, se o pai, sentado na cadeira ao lado, recusa igualmente comê-la? Com que autoridade pode um pai dizer à criança que deve comer uma peça de fruta, quando a mãe diz ao mesmo tempo que nessa refeição não vai comer nada de sobremesa? É importante que as regras sejam ensinadas, mas é mais importante ainda que as regras sejam praticadas por todos os que convivem com a criança. Não existe outra forma de educar. E isto é válido não apenas para a alimentação, mas para muitos outros aspetos da educação infantil.

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5º Mito: Os gelados são guloseimas

Nem todos. Existem gelados de água e gelados de leite. É verdade que os primeiros são verdadeiras guloseimas, feitas com água, um aroma e açúcar. Mas os gelados de leite têm habitualmente grande qualidade e fornecem à criança uma quantidade de cálcio apreciável. Nos dias mais quentes, substituir o leite ou sumo do lanche por um gelado de leite ou nata não tem qualquer inconveniente. E pode até servir para quebrar a rotina da criança.

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6º Mito: A maioria das crianças obesas não vão tornar-se adultos obesos

Errado. Os estudos científicos mais recentes mostram exatamente o contrário: cerca de 70% das crianças obesas vêm a ser adultos obesos. Muitos pais não têm consciência (ou preferem não pensar nisso), mas a verdade é que existe uma relação muito grande entre a obesidade infantil e a obesidade em adulto. E um adulto obeso é um adulto com maior tendência para sofrer de hipertensão, enfarte do coração e tromboses cerebrais. Por estas razões, não percebo por que muitos pais e mães encolhem os ombros quando o seu filho de seis ou sete anos tem um peso que ultrapassa todas as curvas de percentis. Pensam que, com a adolescência, tudo voltará ao normal. Mas, como já vimos, na maioria dos casos não é assim. Deve ser preocupação dos pais que as crianças tenham um peso adequado ao longo de toda a sua vida. Se necessário, com a ajuda do pediatra ou, nos casos mais renitentes, de um dietista.

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 7º Mito: As papas devem ser evitadas porque engordam

Errado. A papa láctea representa um alimento privilegiado para fazer a transição entre uma alimentação exclusivamente à base de leite, como é aquela até aos quatro a seis meses, e uma alimentação em que, para além do leite, entram outros alimentos. Por esta razão, é muitas vezes o primeiro alimento que os bebés tomam quando iniciam a diversificação alimentar. Tem a vantagem de ainda ter leite, mas possuir já uma nova consistência, servindo de passaporte para a introdução do puré de legumes

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8º Mito: As crianças não podem comer entre as refeições

Errado. A preocupação dos pais deve ser a de manter alguma rotina em relação às principais refeições: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar. Nestas refeições, as crianças devem comer a horas certas e os alimentos certos com leite ou derivados ao pequeno-almoço e lanche e carne ou peixe ao almoço e jantar. Não existe qualquer inconveniente em que a criança coma um pequeno snack a meio da manhã ou a meio da tarde. O que está errado é a criança comer um grande snack que vai substituir a refeição principal que se segue. Da mesma forma, é importante que essa mini-refeição seja à base de leite, sumo ou cereais e está errado que esse snack seja constituído por guloseimas, como tantas vezes acontece. Desde que aquilo que a criança come a meio da manhã ou da tarde seja correto, nas quantidades corretas e com qualidade, nada impede que tal possa acontecer.

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9º Mito: A criança deve comer tudo passado enquanto não tiver dentes

Errado. Os dentes começam a surgir por volta dos seis meses. Mas podem surgir antes, ou mesmo alguns meses depois. Muitas crianças têm o seu primeiro dente aos nove, doze ou mesmo quinze meses, sem que isso represente necessariamente um problema. Por outro lado, a partir dos seis meses, a criança pode começar a comer alguns alimentos para além do leite, papas ou purés, como pedaços de pão, bolachas ou pedacinhos de banana. Para estes alimentos, de mastigação fácil, a criança utiliza as gengivas, não os dentes. Os dentes anteriores, que são os que surgem primeiro, servem principalmente para rasgar, não para mastigar. Não faz por isso qualquer sentido que a criança não possa comer pedaços de alimentos enquanto não tiver dentes.

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10º Mito: Todas as crianças deveriam tomar suplementos de vitaminas

Errado. O único suplemento que uma criança saudável necessita é o da vitamina D durante o primeiro ano de vida para facilitar o seu crescimento e a constituição de ossos fortes e resistentes. Após os doze meses, se a criança tem um regime alimentar sadio e equilibrado, não necessita de qualquer suplemento. Uma criança que tenha hábitos alimentares adequados consegue retirar dos alimentos as quantidades de que necessita de todas as vitaminas.

 

 

APDC apela ao boicote às marcas que usam crianças indevidamente na publicidade

Junho 9, 2014 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do site netconsumo  de 1 de junho de 2014.

A Associação Portuguesa de Direito de Consumo – apDC – une-se a uma só voz à Comissão da Criança e Consumo da instituição para apelar ao boicote a empresas e marcas que usam indevidamente crianças na sua publicidade.

“O recurso a crianças em conteúdos promocionais que não lhes são especificamente dirigidos é ilegal e indigno”, frisa Paulo Morais, presidente da Comissão.

A Associação Portuguesa do Direito do Consumo – apDC vem hoje, Dia Mundial da Criança, apelar à população para boicotar as marcas e empresas que recorrem às crianças na sua publicidade sem que os produtos publicitados sejam referentes à faixa etária infantil. Paulo Morais, professor universitário e presidente da Comissão da Criança & Consumo, reforça o apelo da apDC lembrando que “a utilização de crianças em anúncios publicitários só é legalmente permitida quando os produtos ou serviços têm uma conexão direta com aquela faixa etária.

” Vai neste sentido o código da publicidade ao afirmar expressamente que “os menores só podem ser intervenientes principais nas mensagens publicitárias em que se verifique existir uma relação direta entre eles e o produto ou serviço veiculado”, como podem ser o caso de fraldas, brinquedos ou jogos.

O Comité Económico e Social Europeu defende precisamente, em recente parecer, que “a publicidade que se serve abusivamente de crianças para finalidades que nada têm a ver com assuntos que diretamente lhes respeitem, ofende a dignidade humana e atenta contra a sua integridade física e mental e deve ser banida”. “E, no entanto, a ilegalidade é regra”, frisa Paulo Morais. Exemplos não faltam.

O detergente “Fairy” é promovido como se fosse um brinquedo, o Continente apresenta-se como marca confiável, comparando a relação que mantém com os seus clientes com a vinculação entre um filho de tenra idade e a sua mãe. Insistem também nestas más práticas empresas e marcas como a EDP, o SKIP, a Coca-Cola ou a sociedade Ponto Verde, entre outros.

“Dada a impunidade com que atuam estas empresas e marcas e a inércia das autoridades, vimos apelar à população em geral a um boicote sistemático às empresas que utilizam crianças na sua publicidade a promover, de forma ilegal, produtos e serviços que em nada estão relacionados com a sua faixa etária”, destaca Paulo Morais.

 

 


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