Quem sai aos seus…

Maio 19, 2014 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do site educare de 9 de maio de 2014.

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De acordo com a mais recente análise da OCDE aos resultados do PISA 2012, os filhos de profissionais mais qualificados obtêm melhores notas.

Andreia Lobo

A profissão dos pais tem impacto sobre o sucesso escolar dos alunos? Uma análise da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aos resultados do PISA 2012 revela que os filhos de profissionais mais qualificados obtêm melhores classificações nos testes realizados a leitura, matemática e ciência. Portugal está longe de conseguir equilibrar as assimetrias familiares. Nada que surpreenda as federações regionais das associações de pais.

Após dez anos de presença no movimento associativo de pais, Isidoro Roque não tem dúvidas: “Não é preciso fazer um grande esforço para perceber que o sucesso escolar é maior nas escolas onde os alunos pertencem à classe média”. Por isso, é sem surpresa que o presidente da Federação Regional de Lisboa das Associações de Pais vê as conclusões apresentadas pela OCDE, que atribuem melhores resultados aos filhos das famílias com empregos mais qualificados e, portanto, com mais recursos económicos.

O estudo compara os resultados obtidos, pelos alunos de 15 anos, nos testes feitos pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) – nas áreas da leitura, matemática e ciências – com as profissões dos seus pais. Foi usada uma classificação que agrupa nove ocupações com tarefas semelhantes. Os “gestores” surgem como os mais qualificados, seguidos pelos “profissionais”, onde constam trabalhadores nas áreas da saúde, ensino, ciência, negócios e administração. A estes sucedem-se os técnicos, os administrativos e vendedores, os trabalhadores da agricultura, pescas e florestas, os artesãos, os operadores e montadores de maquinaria, e, por último, as profissões “elementares”.

Isidoro Roque remete as suas observações para a tradicional divisão de classes: alta, média e baixa. Enquanto pai e líder associativo, não está convencido de que a escola garanta a igualdade de oportunidades aos filhos de uns e de outros. “A ideia é contribuir nesse sentido, mas têm de ser criadas as condições para isso.” As desigualdades marcam logo presença nos discursos, garante: “A escola é lecionada por pessoas que pertencem às classes mais altas. A forma de falar e se fazer entender é mais fácil para quem provém do mesmo tipo de classe.”

Analisando as classificações a Matemática, a OCDE conclui que os filhos dos “profissionais” lideram os resultados obtidos na maioria dos países, enquanto os estudantes cujos pais têm ocupações “elementares” têm os piores desempenhos. Portugal não foge à regra.

Porém, quando se trata desta disciplina, a relação entre profissões dos pais e o sucesso escolar dos filhos varia consideravelmente entre países, alerta a OCDE. Assim, os filhos dos trabalhadores de limpeza em Xangai, China, superam os filhos dos “profissionais” nos Estados Unidos. E os filhos dos “profissionais” na Alemanha têm em média melhores notas que os seus congéneres na Finlândia. Já na Colômbia, Indonésia, Itália, México, Peru e Suécia são os filhos dos “gestores” que pontuam mais a matemática.

Em Portugal, “mais do que a profissão dos pais, a diferença entre o sucesso e o insucesso tem a ver com o valor que o agregado familiar dá à aquisição de conhecimentos”, contrapõe Carlos Bastos, vice-presidente da Federação Regional de Pais de Aveiro.

As diferenças entre os resultados obtidos pelos alunos dos quatro principais grupos – “gestores”, “profissionais”, trabalhadores de maquinaria e profissões “elementares” – justificam-se “em parte com o rendimento auferido pelos pais, a sua formação e o tipo de atividade que desempenham”, concorda o dirigente associativo. No entanto, fatores como “o meio onde a escola está inserida e a escolaridade dos pais não podem ser postos de lado”.

Entre os países que mais promovem a igualdade, apesar das diferenças no seio familiar, a OCDE destaca a Finlândia e o Japão, pois “conseguem alcançar níveis elevados de desempenho, garantindo a mesma educação, oportunidades e estímulo, tanto aos filhos de pais com profissões ‘elementares’ como aos dos ‘profissionais’”.

Outra novidade apontada por este estudo é que as diferenças por detrás da proveniência dos alunos, sendo mais acentuadas no que toca aos resultados obtidos na matemática, são mais esbatidas nos resultados obtidos na leitura.

De acordo com a OCDE, as assimetrias entre países e economias estão relacionadas com as profissões dos pais, mas também com a própria estrutura do mercado de trabalho. Isso explica como na Finlândia o desempenho global dos estudantes a Matemática é melhor do que na Alemanha, ainda que os filhos dos “profissionais” e dos “gestores” alemães estejam entre os melhores do mundo a esta disciplina e superem, em larga medida, os resultados obtidos pelos filhos destes dois grupos profissionais na Finlândia.

Ao mesmo tempo, os filhos dos trabalhadores manuais – artífices, operadores e montadores de máquinas e ocupações “elementares” – na Finlândia superam os alunos alemães cujos pais têm as mesmas profissões. Em Portugal, por exemplo, obtêm piores resultados quando comparados com a Alemanha, Finlândia, Polónia, Bélgica, Holanda, Canadá e países asiáticos; mas superam os alunos dos trabalhadores manuais do Luxemburgo e Suécia e estão próximos dos resultados obtidos pelos seus congéneres franceses.

No Suécia, há menos dispersão nos resultados obtidos entre diferentes grupos profissionais nos testes de matemática, ainda que as classificações tenham sido inferiores às dos alunos portugueses. Tanto neste país como na Eslovénia, os filhos dos trabalhadores da agricultura, pescas e florestas conseguem alcançar a média dos resultados dos seus países; os portugueses ficam nos últimos lugares.

Fátima Custódio, presidente da Federação Regional do Algarve, acredita que em Portugal a relação entre sucesso escolar e a profissão dos pais assume contornos diferentes dos que baseiam este PISA. “A dicotomia acaba por ser entre os filhos dos pais que trabalham e os dos que estão sem emprego.”

Numa região onde predomina o emprego sazonal, “as questões financeiras têm cada vez maior impacto em situações mais picuinhas como a compra de material escolar e de livros e noutras mais graves como a alimentação”. E mesmo entre os filhos de quem tem emprego, Fátima Custódio lembra que “a diferença na remuneração é outro aspeto importante” quando se analisa o que está por detrás do sucesso ou insucesso escolar.

Proporcionar a mesma educação e estímulo a todos é a receita para suprir as assimetrias familiares capazes de influenciar o desempenho dos alunos, alerta a OCDE. Fátima Custódio concorda que esta é a melhor receita para acabar com as desigualdades. Mas no sistema educativo português poderá estar a faltar mais um ingrediente, adverte: “As escolas não têm apoios financeiros da parte da Segurança Social, do Ministério da Ciência e da Educação ou das autarquias para ultrapassar essas situações na totalidade.”

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