Deixe o rapaz descer o escorrega sozinho!

Abril 11, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Life & Style do Público de 4 de abril de 2014.

Miguel Manso

Por Rita Pimenta

Proteger as crianças, sim. Atrofiá-las, não. Se é do tipo enervadinho, sempre com medo que algo de mal lhes aconteça, não leve os miúdos ao parque. Arranje alguém mais descontraído que os deixe brincar à vontade. E cair de vez em quando.

Os parques infantis existem para que as crianças corram, saltem, gritem, ponham à prova as suas capacidades físicas, desafiem medos, ultrapassem obstáculos, brinquem com outras crianças e até se zanguem com elas. Tudo a bem do seu desenvolvimento.

Se é óbvio que os adultos devem estar atentos aos riscos, também devem dar espaço para que o miúdo explore, falhe, chore, caia, se magoe e se levante. Crescer é assim.

Pelo “facto de existirem cada vez mais famílias com filhos únicos e pais tardios, a tendência é termos, cada vez mais, pais protectores dos seus filhos, que por serem tão ansiosamente desejados e vistos como um ‘projecto’ a incluir numa sociedade cada vez mais competitiva, são mais protegidos e salvaguardados das experiências do dia-a-dia”, diz a psicóloga Maria José Mandim. E acrescenta: “No entanto, quando a protecção se torna excessiva, compromete o desenvolvimento da criança. É importante deixarmos queestas tenham tempo de exploração, para um desenvolvimento saudável.”

Especializada em neuropsicologia, esta colaboradora do Centro de Desenvolvimento Infantil Diferenças, descreve algumas consequências da superprotecção: “Acaba por criar uma enorme ansiedade nas crianças, tornando-as adultos inseguros; contribui para a perda de autonomia, não permitindo que desenvolvam mecanismos de resolução de problemas e tomada de decisões ao longo da vida, gerando dificuldades no relacionamento com os outros.”

Sem preparação “para enfrentar o mundo à sua volta”, a criança “não conseguirá lidar com as frustrações”, o que lhe “provocará dificuldades ao nível do desenvolvimento emocional”.

Segundo Maria José Mandim, que acompanha crianças e jovens, mas também ajuda adultos e idosos na cidade da Maia, a protecção excessiva “limita as possibilidades de acção e criatividade”.

Poucos vão a pé para a escola

A justificação para estes receios dos pais é quase sempre a de que o mundo se tornou mais perigoso. Mas o perigo, dizem os especialistas em educação, é deixarmo-nos dominar por esse medo e transmiti-lo aos nossos filhos.

Nalguns países, a preocupação excessiva com a segurança “tornou os parques infantis bastante maçadores, sem desafios ou estímulos para as crianças”. Opinião de Ellen Sandseter, educadora de infância em Queen Maud University College, Trondheim (Noruega), que fez uma tese de mestrado sobre os adolescentes e a sua necessidade de correrem riscos. Concluiu que alguns jovens, se não puderem alimentar esse desejo de formas socialmente aceitáveis, acabarão por ter comportamentos muito mais imprudentes e mesmo perigosos.

Esta educadora, ainda segundo o artigo do The Atlantic, concluiu que mesmo as crianças mais pequenas têm necessidade de experimentar o perigo e a excitação. “Mas não significa que o que fazem seja realmente perigoso. Simplesmente, têm a sensação de que estão a correr riscos. Ficam assustados, mas depois superam o medo.” E gostam disso.

A emoção de decidir sozinho

Para esta educadora e também mãe, este último ponto é dos mais importantes para as crianças e para o seu desenvolvimento: “Quando são deixadas sozinhas, têm de assumir a responsabilidade dos seus actos e arcar com as consequências das suas decisões – uma experiência emocionante.” E afinal aquela que mais se repetirá nas suas vidas de adultos.

É também por isso que Maria José Mandim reforça a ideia de que “a aprendizagem ao longo da vida ocorre por tentativa e erro, por meio de experiências”. Assim, “para evitar exageros, é necessário os pais procurarem o bom senso para equilibrar a protecção no sentido de apoiarem os filhos em situações stressantes e perigosas, mas não os privando da vivência das experiências dessas situações”.

Conclusão (e não culpabilização): “Devemos ser pais atentos, mas não obsessivos. Há que encontrar um equilíbrio entre proteger e dar espaço para o crescimento.” Por vezes, cai-se.

 

 

Serão os tablets e smartphones úteis à aprendizagem?

Abril 11, 2014 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 6 de abril de 2014.

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As crianças que ficam para trás

Abril 11, 2014 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Público de 6 de abril de 2014.

Renato Cruz dos Santos

Ana Cristina Pereira

Deixar o território nacional é tão vulgar que o mundo académico mal se debruça sobre os efeitos nas crianças que ficam para trás. Mas eles notam-se em escolas como a EB 2/3 de Cinfães.

Ninguém precisa de lhe fazer um desenho. Vítor sabe. Tem abusado da paciência dos professores e mais ainda da paciência da mãe, agora que o pai não está por perto. “O meu pai acerta-me o passo, se eu me porto mal e tudo. Ele não facilita tanto as coisas como a minha mãe.”

A assistente social Ana Sofia Lopes, que trabalha no gabinete de apoio à família na EB 2/3 de Cinfães, até ficou de boca aberta ao ouvi-lo. Apetecia-lhe gravar a conversa para mostrar à mãe. “Ele falou o que é verdade mas que a maior parte das vezes tem dificuldade em assumir”, comentará – no fim, só no fim, não vão as suas palavras influenciar o discurso do rapaz, alto para os seus 12 anos.

O fluxo migratório entra na escola de muitas maneiras. Há décadas que é assim neste concelho do interior de Portugal, limite do distrito de Viseu, o Douro verde, antes de se tornar vinhateiro. Sem indústria, agarrado ao que resta da agricultura e da criação de gado, presta serviços, exporta gente. Não vai há muito, os homens saíam em carrinhas no domingo à noite e regressavam na sexta à noite. Andavam a construir Portugal e, nalguns casos, Espanha. A crise, primeiro em Portugal, depois em Espanha, paralisou o sector. Avançaram para a Suíça, para a Alemanha, para Angola, para o Brasil…

Técnico de análise de solos, o pai de Vítor vivia naquele vai-e-vem. Ficava a semana fora, mas ao fim-de-semana estava em casa com ele, com o irmão e com a mãe, que trabalha num concelho vizinho. “Tínhamos uma vida fantástica”, dirá ela, Manuela, daqui a pouco. “À sexta-feira, quando ele vinha, sentávamo-nos na varanda para vê-lo chegar. Enchíamos a casa de balões.” Faliu a empresa que empregava o pai. Com a ida para Angola, a ausência dele já não se podia disfarçar. De repente, só se podia juntar à mulher e aos filhos no Natal e no Verão. O comportamento de Vítor alterou-se. Até parece que anda a testar os limites da paciência alheia. Por vezes não faz os deveres, atrasa-se, não traz o material escolar, tarda o início das aulas. Não é violento. Prega partidas. Ri-se. Um dia, por exemplo, trouxe um perfume e empestou a sala de aula.

O fluxo migratório poupa muitas crianças às agruras da pobreza, mas faz os seus estragos. Isso vê-se no pátio desta escola, onde a leveza da música substituiu o tradicional grito estridente da campainha e há sempre um cesto de fruta ao alcance de quem tem fome ou vontade de comer.

Para compensar a ausência, há pais que parecem querer dar o mundo inteiro aos filhos – roupas de marca, telemóveis de última geração, jogos electrónicos. Dir-se-ia que outros lhes tiraram, se não o chão, pelo menos o tapete. A distância implodiu casamentos. Alguns homens que refizeram vida lá fora mal falam com as suas crianças – nalguns casos até lhes ficam com o abono. São estas famílias, de repente sem rendimentos, por vezes com empréstimos, que mais preocupam o director da escola, António Pereira. Mesmo alunos com forte vínculo afectivo e estabilidade financeira, como Vítor, não ficam imunes à ausência paterna.

A saída de portugueses do território nacional está longe de ser recente. “Remonta aos Descobrimentos. A presença-ausência dos pais faz parte da cultura portuguesa”, enfatiza Fabrizia Raguso, professora auxiliar da Universidade Católica Portuguesa especializada em psicologia da família. “Está tão enraizada que é encarada como normal”. Talvez por isso tenha merecido tão pouca atenção do mundo académico. Ninguém, na Europa, tem discutido tanto este assunto como a Roménia. Desde a queda do regime comunista, em 1989, perdeu 3,5 milhões de habitantes. Este êxodo, acentuado com a entrada na União Europeia, criou aquilo a que alguns sociólogos chamam “os órfãos dos morangos”, numa referência a uma das principais ocupações dos romenos no estrangeiro, a agricultura. Um estudo da Fundação Soros indica que as crianças romenas que ficaram para trás – muitas ao cuidado de avós nem sempre preparados para as exigências do mundo moderno – são mais propensas a ter baixo aproveitamento escolar, a consumir tabaco e álcool, a cometer pequenos crimes. No extremo oposto, algumas tentam, a todo o custo, ser os melhores alunos da turma, na esperança de fazer voltar os pais. 

Supõem-se que o fenómeno assuma especial gravidade na Roménia, país predominantemente rural, no qual os laços familiares tendem a ser estreitíssimos, mas não será de descurar noutras geografias, como Portugal. “Há sempre um mal-estar”, sublinha a mesma investigadora.  A maior parte das crianças, diz, não consegue compreender a razão pela qual o pai, a mãe ou ambos abalam. Muitos adultos tendem a esconder tudo o que as pode perturbar. As crianças são apanhadas de surpresa. Nalgumas instala-se um sentimento de abandono, de rejeição, de culpa que coloca em risco a sua capacidade futura de estabelecer vínculos afectivos. Fundamental, avisa Fabrizia Raguso, é partilhar com elas a situação familiar e envolvê-las no processo de decisão.

Não será o mesmo que nos anos 1960 e 70. Até pela facilidade de circulação, agora as famílias mais depressa levam as crianças. Havia uma semana que dali, da EB 2/3 de Cinfães, partira um rapaz para a Bélgica. O pai já lá estava. A mãe seguira-o com os filhos. O director da escola tentou em vão convencê-la a deixar o rapaz, pelo menos, terminar o ano lectivo. “Tem 16 anos e fica a 3 meses de terminar o 9.º ano”, insurgiu-se. “Fica sem nada! Fica com o 6.º ano. Está em falta. Para todos os efeitos está em abandono. ”António Pereira ainda não fez as contas às saídas deste ano lectivo, mas lembra-se bem das do anterior: a emigração levou-lhe 12 alunos. Eram mais novos do que aquele. Partiram com a promessa parental de que seriam matriculados noutra escola. Aqui, na EB 2/3 de Cinfães, ninguém controla a promessa. Resta, volvidos oito dias, avisar a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens.

O rapaz que partiu para a Bélgica não estava contente. Essa é, pelo menos, a ideia de Avelino, seu colega de turma. “Se o meu pai dissesse para irmos para o Brasil, eu não ia”, diz ele. A minha mãe não sei, mas eu não ia. Pelo menos até acabar a escola. Até ter o 12.º. Vejo na escola o meu futuro.”

Também está a aprender a lidar com a ausência do pai este rapaz de 14 anos e raciocínio ágil. O pai acabara a obra em Espanha. Só estava há um mês em casa, talvez nem isso. Uma noite, ao jantar, anunciou que o patrão lhe propusera ida para o Brasil. “Ele disse que ia aceitar. Percebi que ia vê-lo de mais em mais tempo. Não fiquei contente. Quem pode ficar contente com uma notícia destas?” Não é que Avelino não perceba o porquê desta partida do pai para um país para onde o avô já emigrara. “Ele tem de ganhar a vida. Tem de emigrar. É assim que a maioria dos homens faz.” Mesmo assim não consegue evitar uma certa angústia. E sabe que anda a abusar da paciência alheia, como Vítor.

Qualquer asneira de Vítor num instante chega aos ouvidos da mãe, professora, atenta e a residir a uns minutos da escola. Ela chama-lhe a atenção: “Por que fizeste isso?” Quando ela se zanga, ele grita: “Quero o meu pai! Eu quero aqui o meu pai!” E ela percebe naquelas palavras um vazio, uma saudade.

Manuela ainda se lembra de quando o pai dela emigrou, tinha ela a idade de Vítor. Mas naquele tempo os papéis eram mais rígidos – por tradição as mães davam colo, os pais proviam ao sustento, exerciam autoridade sobre os filhos, dos quais mantinham até alguma distância afectiva. Não era como hoje, em que, correndo bem, as mães têm empregos e os pais trocam fraldas. Vítor estava habituado às boas notas. No primeiro trimestre deste ano lectivo teve sete negativas. “Era muito agarrado ao pai”, dirá a mãe. “O pai ir embora foi uma coisa… também tem a ver com a idade. Ele tinha onze anos e pouco quando o pai foi para Angola…” Tem necessidade de experimentar, de explorar, de se afirmar. E ela acredita que esta passagem da família para o mundo seria mais suave se o pai aqui estivesse. “Nunca lhe ralha. Tudo o que o pai diz, ele aceita.”

A emigração provoca alterações na estrutura familiar, nota Joana Cristina Cardoso Soares, que fez, na Universidade Católica, um mestrado intitulado “Emigração paterna e representações mentais de família: estudo exploratório com filhos jovens adultos”.

“Há nos filhos, por um lado, a negação do sofrimento, a valorização do sacrifício do pai, a tentativa de transmitir a ideia de que a família é normal. E, por outro lado, a importância da ausência do pai”, diz Fabrizia  Raguso, que a orientou. “O pai é uma figura presente pela ausência”, explica. “A sua figura é muito idealizada. Fica associado a experiências lúdicas: vem nas férias, traz prendas. Ele chega e a vida assume um ritmo diferente. Mais conflituosa é a relação com a mãe, que tem de assumir o duplo papel.”

Os telemóveis e a Internet ajudam. A família de Vítor que o diga. Havendo rede no Huambo, onde ele está, o contacto é diário. Havendo tensão, o rapaz até pode antecipar a conversa entre os pais. Telefona-lhe a prepará-lo: “Se a mãe te disser que me portei mal, foi só um bocadinho.” E ela por vezes nem toca no assunto, para não o inquietar, para não lhe tornar a ausência ainda mais dura. O fundamental, parece-lhe, é que não se percam uns dos outros, apesar das distâncias.

 

 

 

Formação Profissional em Animação Socio-Cultural à Borla

Abril 11, 2014 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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gersendeforestier@hotmail.fr
Gersende Forestier
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