Estudo conclui que emoções expressadas online são contagiantes

Março 23, 2014 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 13 de Março de 2014.

Thirry Roge Reuters

Cláudia Bancaleiro

As emoções manifestadas por uma pessoa no Facebook podem provocar os mesmos sentimentos numa outra.

Para uns o dia não começou bem, ficou preso no trânsito ou deprimido com a chegada da chuva. Para outros é dia de aniversário, receberam elogios do chefe ou finalmente vão de férias. Situações como estas criam emoções negativas ou positivas e, se falarmos em redes sociais, a sua partilha pode provocar os mesmos sentimentos noutras pessoas e levar à publicação de um post no Facebook num tom sorridente ou amuado. Esta é a conclusão de um estudo que afirma que as redes sociais podem “aumentar a intensidade da sincronia emocional global”.

O estudo de investigadores das universidades da Califórnia e Yale e do Facebook, determinou que, à semelhança de um contacto frente a frente entre duas pessoas, uma interacção online permite que uma emoção descrita num post por uma pessoa passe a ser sentida e partilhada por outra que o lê. O que se torna mais difícil de concluir é se as essas correlações resultam na passagem de emoções a terceiros, através de uma espécie de contágio, ou se ocorrem por ter sido escolhida uma pessoa ou grupos que naquele momento partilham as mesmas emoções de quem emite o sentimento.

James Fowler, professor de medicina genética e de ciência política na Universidade da Califórnia e um dos autores do estudo, explicou ao Wall Street Journal que, acima de tudo, o objectivo do estudo foi determinar “se as alterações emocionais numa pessoa provocam alterações emocionais noutra”. “E foi isso que encontrámos”, afirmou.

Para o estudo, divulgado na revista científica Plos One, foram analisadas milhões de mensagens publicadas no Facebook entre Janeiro de 2009 e Março de 2012, num total de 1180 dias. Para cada dia foram analisados mais de 100 milhões de utilizadores de 100 das cidades mais populosas dos Estados Unidos e observadas as actualizações feitas nas suas cronologias. Aqui, foram apenas escolhidas as mensagens que pudessem ser consideradas uma manifestação pessoal, deixando de fora quaisquer formas directas de comunicação no Facebook.

Os investigadores garantem que não houve qualquer acesso à informação pessoal dos utilizadores, tendo o Facebook tornado anónima a origem de todos os dados usados. Para a sua busca, os investigadores recorreram a um sistema de análise de texto automatizado para que não tivessem acesso ao conteúdo das mensagens escritas mas apenas a palavras que traduzissem emoções negativas ou positivas, como triste ou contente.

A felicidade é mais contagiante que a tristeza
Para analisar as alterações nas emoções de uma pessoa e se essas mesmas alterações tiveram impacto num amigo no Facebook, os investigadores utilizaram como instigadora a queda de chuva. Porém, foram excluídos posts que se referiam directamente ao estado do tempo. “Queríamos mensagens em que chovia no local onde estava o utilizador, mas que o levasse a escrever posts negativos que não fossem sobre a meteorologia”, explicou James Fowler também ao Wall Street Journal.

O estudo concluiu que, em média, um dia de chuva diminuiu em 1,19% o número de posts positivos dos utilizadores, mas aumentou o número das mensagens negativas em 1,16%, diferenças percentuais pequenas mas consideradas “significativas” pelos investigadores.

Ao escrever um post emocionalmente negativo, o utilizador acabou por influenciar um ou dois amigos noutras cidades onde o tempo estava seco, por exemplo. Assim, enquanto cada mensagem positiva resultou num aumento de 1,75% de posts positivos escritos pelos amigos do autor do post, mensagens em que foi manifestada tristeza levaram, por sua vez, à criação de mais 1,29% posts negativos.

O estudo dá ainda o exemplo de dados recolhidos sobre um dia de chuva em Nova Iorque. A queda de chuva provocou directamente mais 1500 posts negativos entre utilizadores nova-iorquinos e cerca de 700 negativos entre os seus amigos que escreviam a partir de outra cidade.

“Por outras palavras, o efeito total da queda de chuva na expressão de emoções é cerca de 150% maior do que esperaríamos se fosse apenas medido o efeito directo nos utilizadores e ignorado o efeito indirecto nos seus amigos”, escrevem os investigadores. “E, de forma intrigante, apesar de a chuva ser o ímpeto para este contágio, as mensagens positivas parecem ser mais contagiantes que as negativas”, sublinham.

“Este é o primeiro estudo que demonstra que o mundo online pode estar a criar uma sincronia emocional global. Isso significa que devemos esperar e prepararmo-nos para uma maior volatilidade nas coisas que são afectadas pelas emoções, como sistemas políticos ou mercados financeiros”, defende o documento publicado na Plos One.

Crianças com problemas de saúde mental sem acompanhamento

Março 23, 2014 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 18 de março de 2014.

nelson garrido

Catarina Gomes

Projecto que só existe naquela região do país e que foi considerado exemplo de boas práticas está suspenso há mais de dois meses.

João (nome fictício) foi várias vezes abandonado pela família, viveu até aos 10 anos numa instituição, até Ana Martins o conseguir adoptar. O seu percurso de vida, diz a mãe, explica muitos dos seus problemas: “Teve uma depressão, tem dificuldade em concentrar-se, em aprender, tem baixa auto-estima, quando alguém grita ele acha que estão a gritar com ele”.

João foi desde os seis anos acompanhado por uma equipa no centro de saúde de Loulé, com médico de família, psicólogo, enfermeiro, terapeuta ocupacional, com supervisão de um pedopsiquiatra que ia de Lisboa ao Algarve de dois em dois meses. Os chamados Grupos de Apoio à Saúde Mental Infantil receberam dois prémios de boas práticas e foram apontados como exemplo a expandir a todo o país. O protocolo que lhes servia de suporte está suspenso há mais de dois meses. A Administração Regional de Saúde do Algarve (ARSA) responde que existe uma proposta para a realização de um novo protocolo igual ao actual.

O funcionamento destas equipas multidisciplinares está suspenso desde o final de Dezembro. Resta às famílias de crianças com problemas de saúde mental rumar a Lisboa, mas uma viagem para dois de autocarro não fica por menos de 45 euros, diz Ana Martins, fora o resto das despesas. Muitas crianças poderão deixar de ter acompanhamento, alerta o pedopsiquiatra Augusto Carreira, que criou este programa que funciona há 13 anos.

Face à  inexistência de pedopsiquiatras na região algarvia foi criado em 2001 este protocolo entre a Administração Regional de Saúde do Algarve e o Departamento de Pedopsiquiatria do Hospital Pediátrico de D. Estefânia, em Lisboa. Os pedopsiquiatras da unidade lisboeta iam ao Algarve de dois em dois meses analisar os casos de crianças com problemas de saúde mental sinalizadas pelos médicos de família. Estavam envolvidas oito equipas a funcionar em centros de saúde de todo o Algarve, constituídas por psicólogos, medicina de família, enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e da fala, a quem foi dada formação específica na área da saúde mental infantil pelo hospital da capital.

Os pedopsiquiatras de Lisboa davam directrizes aos médicos de família  na prescrição de medicamentos e terapias a seguir. Estavam envolvidos 68 profissionais e até 2012 tinham sido seguidos 3700 meninos dos 3 aos 12 anos, refere um relatório disponível no site da ARSA. O mesmo documento diz que o programa trouxe várias vantagens, entre elas “não retirar a criança do seu ambiente natural”, evitar deslocações a Lisboa, diminuir a despesa do Sistema Nacional de Saúde e proporcionar melhor adesão das crianças e família às terapêuticas.

A experiência, que não existe em mais nenhuma região do país, foi considerada exemplar. Recebeu em 2008 o Prémio João dos Santos, instituído pela Associação Portuguesa de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, em 2009 recebeu o prémio “Prevenção da Doença” instituído pelo Alto Comissariado para a Saúde. No Relatório da Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental, que traça o rumo que deve ser seguido nesta área até 2016 na área da infância e da adolescência, as equipas do Algarve são dadas como exemplo a expandir às outras regiões do país.

Augusto Carreira, o pedopsiquiatra que coordena o programa diz que não entende a decisão que deixa sem assistência todas as crianças com problemas de saúde mental da região até aos 13 anos. “É uma decisão injustificável”. Informa que existe apenas uma pedopsiquiatra no Hospital de Faro que apenas assiste adolescentes daquela parte do Algarve e que está de baixa por doença. “Há centenas de crianças, muitas medicadas, que estão sem supervisão. As pessoas não vêm a Lisboa, estão ao abandono”.


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