Como falar da morte a uma criança de oito anos?

Março 13, 2014 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do site Educare de 28 de Fevereiro de 2014.

caminhada

Sara R. Oliveira

A Caminhada dos Elefantes” é um espetáculo de Miguel Fragata e Inês Barahona que aborda um assunto delicado através de uma história e de pequenos objetos. Antes do palco, escutaram cerca de 600 crianças, dos seis aos 12 anos, e quiseram perceber como os adultos pensam que os mais pequenos pensam a morte.

“Neste espetáculo, não vamos falar da morte. Se fosse para falar da morte vocês não estavam aqui, ninguém vos tinha deixado vir. Porque ninguém quer falar sobre a morte.” É assim que começa o espetáculo “A Caminhada dos Elefantes” idealizado por Miguel Fragata e Inês Barahona, acompanhado de perto pela psicoterapeuta Madalena Paiva Gomes, e sustentado numa história verdadeira lida, por acaso, num jornal. A aventura do sul-africano Lawrence Anthony que dedicou a sua vida à salvação de elefantes, que salvou do abate uma manada considerada agressiva, fez clique. Lawrence morreria de ataque cardíaco, em 2012, a quilómetros de distância dos elefantes que sempre protegeu. Os animais iniciaram uma longa caminhada, de 12 horas, até casa de Lawrence. Ali permaneceram dois dias e duas noites sem comerem e emitindo barulhos com a barriga semelhantes a um longo choro que sai da alma. Como uma bela e inexplicável homenagem. O ator Miguel Fragata entra em cena e avisa que a morte e suas cambiantes são palavras proibidas no espetáculo em que usa pequenos objetos que manipula como se fossem brinquedos. O cenário assemelha-se a casulos, a iluminação não é muito intensa. A plateia tem carta branca para reagir sempre que escuta uma palavra que não pode ser dita e então é desafiada a substituí-la – e aí surgem partida, desaparecimento, bater as botas. O espetáculo é para miúdos e graúdos de forma a juntar duas gerações, pais e filhos, a dialogar sobre a existência e a perda. O que significa estar vivo e, de repente, já não estar. Não há respostas pré-feitas, fechadas. Não há uma mensagem explícita a transmitir. Há vários caminhos e possibilidades. Há espaço para falar da morte, mesmo sem a mencionar diretamente, como uma coisa natural.

No ano passado, entre junho e outubro, Miguel Fragata e Inês Barahona foram a várias escolas para ouvirem crianças do 1.º ciclo, com idades compreendidas entre os seis e os 12 anos. Chegaram cheios de pinças e muitos cuidados. Escutaram com atenção as indicações da psicoterapeuta sobre a melhor maneira de abordar o assunto e perceberam até onde podiam ir, quais os limites a não ultrapassar. Rapidamente perceberam que os mais pequenos tinham muito a dizer. “Percebemos que a relação das crianças com a morte era uma coisa muito simples, muito básica”, recorda Miguel Fragata ao EDUCARE.PT. Perceberiam, entretanto, que crianças de seis anos não têm perceção do que é a morte; que aos sete e oito anos, começam a perceber que as coisas não duram para sempre, que as pessoas também morrem; com 10 e 11 anos, já têm noção do assunto e têm medo da morte.

“O problema começa quando, de facto, vivem a experiência da morte de alguém próximo e se apercebem que a maneira como os adultos lidam com a morte é problemática. Que é uma situação desconfortável. E o tabu começa a instalar-se.” Miguel Fragata e Inês Barahona encontravam-se com os grupos de crianças em três ou quatro encontros. No primeiro, tentavam perceber como o tema seria recebido e de que forma poderia ser abordado.

No segundo encontro, fazia-se um trabalho de encenação de um funeral de um passarinho verdadeiro que tinha morrido, distribuíam-se tarefas entre os mais pequenos que tinham de escolher os panos ou escrever palavras de despedida. Falava-se de rituais de muitos sítios, de muitas culturas. Invariavelmente, as crianças que recentemente tinham passado pela experiência de morte de alguém próximo ou de um animal de estimação e que, por alguma razão, não tenham tido oportunidade de se despedirem, choravam. Depois do funeral, passavam para um momento de homenagem, de celebração da vida de quem tinha partido. Num terceiro encontro, os mais pequenos eram convidados a assistir ao que era o espetáculo naquele dia e a darem as suas opiniões que muito contribuíram para o “esquema” final. “Falávamos sobre o que funcionava e o que não funcionava”. Vestiam o fato de críticos de teatro. E tudo ajudou na conceção de “A Caminhada dos Elefantes”.

A alma pode ser vermelha, branca ou transparente
Neste percurso, Miguel Fragata e Inês Barahona ouviram muitas histórias, várias teorias. Miguel recorda algumas. Então se ninguém morre, a casa de banho estará sempre cheia e fica sem espaço, ouviu de um miúdo. O mesmo que disse que os corpos quando morrem apodrecem, como os frangos que são guardados no frigorífico durante dias e dias. E se quem morre vai para o céu, como é que o corpo sai debaixo da terra, onde é enterrado? Com asas, foi uma das possibilidades. Ou vai só a alma e o corpo fica na terra. E a alma pode ser vermelha, branca ou transparente. Nos encontros com os mais pequenos, foi ainda criada uma mala de ferramentas para lidar com a morte e fazer o luto. As crianças sugeriram o conteúdo: lenços de papel para limpar as lágrimas; comprar animais de estimação e dar o mesmo nome da pessoa desaparecida; cozinhar o prato preferido de quem partiu, colocá-lo à mesa e jantar.

Os adultos também entraram nesta caminhada. Como explicar a morte a uma criança de oito anos? Foi esta a pergunta que fizeram a adultos de várias formações, áreas e credos. “Queríamos perceber como os adultos pensam que as crianças pensam a morte”, revela o ator. Os adultos utilizam imagens da natureza, dos ciclos, que a terra precisa de ser renovar, para explicar a morte. Outros usam metáforas que a morte é um sono profundo ou uma viagem muito longa. Outros recorrem à imagem que a pessoa que partiu se transformou numa estrelinha que brilha no céu.

“A Caminhada dos Elefantes” está a fazer a sua própria caminhada. Estreou em novembro do ano passado na Moita e já passou por vários teatros em Lisboa, Sobral, Sesimbra, Estarreja, Almada, Santarém, Montijo. Em março, fará uma digressão pelo Norte. Braga, Guimarães, Viseu, Ovar, são alguns dos locais que estão na lista. Em maio, Miguel Fragata, ator e que tem trabalhado como co-criador de peças de teatro e dança, e Inês Barahona, mestre em Estética e Filosofia e que está habituada a lidar com o público escolar e familiar – no ano passado, encenou “A Verdadeira História da Ciência” na Gulbenkian – estarão mais a sul.

https://www.facebook.com/acaminhada.doselefantes

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