Avós e netos adolescentes: uma cumplicidade construída!

Dezembro 7, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Sofia N. Silva no Público de 28 de Novembro de 2013.

O avô foi ver o meu treino de futebol! Aproveitei a boleia para te vir dar um beijinho!

Gonçalo: Olá avó!
Avó Maria: Olá meu querido! Que bom que vieste!
Gonçalo: O avô foi ver o meu treino de futebol! Aproveitei a boleia para te vir dar um beijinho!
Avó Maria: Eu sei! E por isso fui comprar as bolachas que adoras à Sardinheira...
Gonçalo: O quê?! A velha caixa já estava vazia, desde a última vez? Estiveram cá os mânfios dos meus primos!
Avó Maria: Sim… Mas muito diferente de quando vocês eram todos mais novos, em que tínhamos que ter o frigorífico sempre cheio!
Gonçalo: E a velha caixa tem resisitido ao longo dos anos… brutal!
Avó Maria: Muitos anos… a caixa já veio de casa da minha mãe…
Gonçalo: Tens saudades da tua mãe?
Avó Maria: Muitas…
Gonçalo: Por isso vais muitas vezes à caixa das bolachas…
A avó Maria sorri.
Gonçalo: Avó, um dia posso ficar com esta caixa?
Avó Maria: Se tens gosto nisso… acho que tenho que cheguem para distribuir por todos…
Gonçalo: Já que aqui estou, podes tirar-me umas dúvidas de matemática? Eu sei que não tínhamos combinado…
Avó Maria: Claro que sim, meu querido. Temos só que terminar a horas de eu me arranjar para ir ao cinema com o avô. Por falar nisso, onde é que ele está?
Gonçalo: No escritório a ver os emails, claro! Eu tenho uns avós muito à frente! Ele é emails, cinemas, teatros, livros!
Avó Maria: Então, muitas dúvidas?
Gonçalo: Algumas.. Não tenho estudado muito…
Avó Maria: Ai não? Porquê?
Gonçalo: Oh avó, por nada especial… é muita coisa nesta altura…
Avó Maria: Muito bem. Vamos então!
Gonçalo: Avó…
Avó Maria: Sim?
Gonçalo: Tenho tido menos tempo agora porque… tenho uma namorada…
Avó Maria: Ai, sim? Que bom Gonçalo! Estás feliz?
Gonçalo: Estou avó. Mas parece que tenho menos vontade de estudar…
Avó Maria: É natural…
Gonçalo: Achas?!
Avó Maria: Acho! Mas também acho que deves contrariar um bocadinho essa falta de vontade!
Gonçalo: Prometo que vou contrariar! Mas não contes nada à mãe, senão já sei que não vai parar de me chatear e dizer que baixei as notas por causa da miúda, que ainda por cima está sempre a dizer para eu ir estudar!
Avó Maria: Achas que a tua mãe não sabe como são essas coisas?
Gonçalo: Ás vezes não parece! Oh avó, eu vou contar, mas a seu tempo!
Avó Maria: Claro que sim, meu querido. Tudo tem o seu tempo. Mas fico feliz pelo teu voto de confiança. Mas agora convém vermos as dúvidas, não?
Gonçalo: És o máximo avó! Bute lá!

Neste diálogo da avó Maria com o neto Gonçalo podemos encantar-nos com a unicidade desta relação que pela sua construção permitiu a manutenção dos afectos, partilhas e cumplicidade!

Na realidade, a cumplicidade de avós e netos durante a fase da adolescência vai depender, mais ou menos, do estilo de relação que foi desenvolvido nos anos anteriores, ao longo da infância dos netos, agora adolescentes. A intensidade do contacto, a participação activa na vida uns dos outros e o desenvolvimento de um estilo de relações próximas entre as gerações dentro de uma família têm grande influência na forma como avós e netos vão construindo a sua relação. Como qualquer relação de outra natureza, esta também tem de ser construída e alimentada para que possa continuar a ter lugar nesta nova etapa!

Com a entrada dos netos na adolescência é de esperar que a frequência dos encontros possa diminuir. Há, nesta fase de ciclo de vida, uma intensificação da relação com os pares, o desejo de conhecer novos contextos e desenvolver novos interesses, o despoletar das primeiras relações amorosas e o envolvimento em actividades fora da família que são sentidas como importantes e atractivos desafios! A conquista de alguma autonomia também facilita este novo contexto, ao qual pais, filhos e avós se têm de adaptar para a construção de uma nova forma de viver as suas relações.

A diminuição da frequência dos encontros não significa a diminuição na intensidade e intimidade da relação. Antes pelo contrário, nesta altura os encontros com os avós não dependem tão exclusivamente da interferência dos pais, bem como a generalidade das relações do adolescente. A vontade de estar com os avós depende mais da iniciativa do próprio, conferindo um cunho de maior autenticidade e voluntarismo neste investimento!

Os primeiros anos desta relação ficaram marcados pelas brincadeiras, saídas, ensinamentos e cuidados por parte dos avós aos netos. Nesta nova fase, a relação passa a ter um espaço mais ocupado por conversas, escuta activa e apoio dos avós aos netos, sobretudo na gestão por vezes necessária e desejável dos conflitos tão comuns entre pais e filhos, que agora tendem a acentuar-se.

Os avós são olhados como referências pelos netos, embora sejam distinguidos de forma muito clara relativamente a outros adultos de referência, que orientam e avaliam, como os pais ou professores, o que naturalmente confere um grande sentido de liberdade a esta relação! Sobretudo, num momento do ciclo de vida em que a conquista deste valor assume o seu expoente máximo.

Esta é uma relação onde há menos confronto, onde a necessidade de afirmação, diferenciação e conquista de autonomia não tem tanto lugar, nem necessidade para existir, como na relação pais/filhos. O grande movimento de autonomização é feito relativamente aos pais, que mantêm a importante função de impôr regras e limites, que o adolescente agora contesta e questiona, neste caminho difícil, mas desejado, para a construção e conquista da sua identidade.

A adolescência é uma fase de grande turbulência e questionar interiores, onde a relação com os avós pode representar apaziguamento e tranquilidade, pela maior disponibilidade física e emocional que os avós podem geralmente dedicar, pela fase do ciclo de vida em que se encontram. Torna-se mais fácil, pela natureza desta relação, os desabafos ou as confidências, as queixas relativamente aos pais, e os “conselhos” são geralmente aceites de forma  mais tranquila, e muitas vezes, até procurados. É o respeito dos avós pela intimidade dos netos que estes mais valorizam, levando-os a confiar e aproximar-se.

É uma relação de trocas e suporte mútuo – os avós têm o desejo de desenvolver a sua continuidade através dos netos, procurando transmitir os seus valores, onde se destaca o comprometimento nas relações e a valorização dos afectos; em contraste, a adolescência é um período em que a novidade e o estabelecimento de relações fora da família é muito valorizado. No entanto, a garantia de que o “colo” dos avós está sempre lá, transmite a segurança tão importante e fundamental, para que os afastamentos esperados e desejados nesta fase possam acontecer de forma mais tranquila.

Os avós têm que ter uma grande atenção na gestão do seu lugar na vida dos netos e da família. As alianças criadas com os netos não devem contribuir para aumentar o “gap” entre pais e filhos, correndo o risco de aumentar ainda mais os sentimentos de poder do adolescente, que também têm nesta fase que ser refreados.

Os avós que se colocam na posição de “guardiões dos segredos”, criam alianças que podem aprisionar avós e netos, tornando redutora a função desta relação. Há segredos que não podem ser mantidos ou escondidos da esfera parental, como são as questões relacionadas com drogas ou álcool.

Não interferir nas decisões educativas dos pais e evitar tomar partidos nas situações de conflito será a postura mais correcta a adoptar. Podem sim, assumir a importante função de mediadores e conciliadores das duas gerações: pais e filhos. Afinal, qual é a geração que poderá ter maior conhecimento, sabedoria e experiência relativamente às outras duas?

Sofia Nunes Silva é psicóloga clínica e terapeuta familiar.

 

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