Brincar. Os filhos querem, mas os pais não têm tempo

Outubro 1, 2013 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do i de 14 de setembro de 2013.

O relatório mencionado na notícia é o seguinte:

Play Report : International Summary of Research Results

Press Release Ikea

António Pedro Santos

António Pedro Santos

Por Diogo Pombo

É em Portugal que pais de crianças até aos 12 anos são mais superprotectores e sem tempo para brincar com os filhos

O filho vê os pais como a melhor fonte de entretenimento e brincadeira. Esse continua a ser o reflexo visto a partir dos 73% de crianças portuguesas entre os sete e os 12 anos que, na hora de escolher, preferiam brincar com os pais a estar sentados diante da televisão. Os especialistas em psicologia infantil não costumam poupar nas palavras para enaltecer a importância dos pais quando o momento é reservado à brincadeira, mas os números em Portugal não ajudam: 61% dos pais portugueses que participaram no relatório “Play Report” admitiram “não ter tempo suficiente para brincar com os filhos”. É a percentagem mais elevada entre os 25 países analisados pelo estudo.

Os pais portugueses são superprotectores, temem muito pela segurança dos filhos e reconhecem não ter tempo suficiente para brincar com eles. Estes seriam os três traços marcantes do retrato dos pais em Portugal caso as cores fossem restritas às categorias em que o país acabou a liderar no relatório.

As percentagens não enganam: 78% dos pais estão “muito preocupados” com a segurança dos filhos, reconhecendo ser “superprotectores”, apesar de 73% confessarem que “gostariam” de ver os filhos brincar mais vezes ao ar livre. Do lado das crianças, 87% das inquiridas entre os sete e os 12 anos até revelaram sentir que os seus progenitores se “preocupavam em demasia” com elas. No total, quase 8 mil pais e 3116 crianças, espalhados por 25 países, responderam ao inquérito online que serviu de base ao estudo. Realizado entre Outubro e Novembro de 2009, mas só agora divulgado, o estudo não revelou porém o número total de participantes portugueses.

Talvez por aí se justifique a surpresa de Maria de Jesus Candeias ao saber que, “numa semana típica”, os pais em Portugal afirmaram brincar, em média, 14,7 horas com os seus filhos. “Acho mesmo muito, os pais não conseguem isso. Na prática, a percepção que tenho é que para se aproximarem desse número de horas os pais têm de ser excepcionais”, argumentou esta psicoterapeuta infantil ao i.

Tempo para brincar A média apontada pelo estudo, prosseguiu a especialista, significaria que os pais “passam mais de uma hora por dia” a brincar com os filhos, duração que “infelizmente não corresponde à realidade”. Quanto à tal superprotecção, a psicoterapeuta condena os pais que “se preocupam muito mas não estão ao pé dos filhos” e que resumem antes as horas de convívio apontadas pelos progenitores não a brincar, mas a “rotinas domésticas”, como dar-lhes banho, o jantar ou pô-los na cama.

Para confrontar os números, o i sondou dois casais e uma mãe portugueses com filhos até aos 12 anos de idade. E um dos casos até se enquadrou na média do estudo. “Antes da idade escolar passava duas horas por dia com eles. Tentava ir passear, jogar à bola ou estar no jardim”, contou Madalena Pina. Casada e com três filhos, cingiu-se aos casos de Francisco e Matilde, hoje com dez e 11 anos e já com grande parte dos seus dias preenchidos na escola. “Agora acompanho-os todos os dias às actividades, o que me ocupa três horas por dia”, assegurou, sublinhando o facto de “ser mãe a tempo inteiro” para justificar “todo o tempo” que “felizmente” tem “para brincar com os filhos”.

No caso de Lara Franco, o tempo dedicado a Bernardo, de cinco anos, “é suficiente” pois abdica “de um trabalho mais estável e bem pago” para o conseguir. Depois do jantar, o hábito manda “sempre” que haja “uma sessão de cócegas” e brincadeira. E “caso não tenha trabalho para fazer, todo o tempo do mundo lhe é dedicado”, garante a mãe solteira, entre idas a museus, passeios, brinquedos, tintas e fotografias. Em tudo Lara tenta “puxar pela imaginação” do filho e aí “brincar é uma parte fundamental”. Um raciocínio similar à definição de brincar mais votada pelos pais que participaram no relatório internacional – “Brincar é estimular a imaginação do meu filho”.

Rita e Gonçalo Belo Mendes contabilizaram ambos em dez horas o tempo médio que por semana gastam a brincar ora com Manuel ora com a Mafalda, os dois filhos. Tal como Madalena Pina, o casal concordou que a imaginação é o principal impulso vindo do acto de brincar. “É apenas um dos aspectos que tento fomentar, além da partilha, da superação, da disciplina e do gosto por ajudar os outros”, diz Gonçalo Mendes. Ser “atencioso com os outros” foi o segundo factor que mais pais (46%) revelaram aspirar para os seus filhos – atrás da “felicidade”, com 72%, e à frente do “sucesso financeiro”, que registou 45%.

O melhor barómetro para medir o tempo dedicado pelos pais à brincadeira está nos próprios filhos. E nas suas queixas. “De todas as vezes que o meu filho me pediu atenção foi mais por capricho do que outra coisa qualquer”, contou Lara Franco, “descansada” quanto ao tempo que dedica ao filho. Já Gonçalo Mendes não classificou as queixas que recebe “exactamente como um desabafo”, mas antes como resultado de “quando se cansam de brincar sozinhos e pedem” para os pais se juntarem. Duas em cada cinco crianças que participaram no inquérito “gostariam” que os pais passassem mais tempo” a brincar com elas e, quanto a isto, Madalena Pina defendeu que “as crianças hoje em dia são muito exigentes e requerem muita atenção”.

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