Curso de Livro Infantil, por Carla Maia de Almeida

Setembro 12, 2013 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Objetivos:

Este curso não é uma oficina de escrita nem está vocacionado para a formação do leitor e para as ações pedagógicas associadas à leitura. Pretende-se, sim, explorar o universo do livro infantil tomando-o como objeto total, privilegiando a componente literária, mas sem negligenciar outros campos como a ilustração, a edição ou a sua evolução histórica. Será dada ênfase ao livro para crianças e não para adolescentes, que consideramos integrado numa lógica de funcionamento própria. Serão mostrados e trazidos à discussão dezenas de títulos, sejam portugueses, traduções ou originais noutras línguas. Estas escolhas refletem o gosto pessoal e as idiossincrasias da formadora e não têm qualquer pretensão de exaustividade nem de doutrinação.

 Público-alvo:

Estudantes de literatura, edição e educação; professores, bibliotecários e educadores; pais e outros mediadores da leitura junto das crianças; ilustradores; livreiros. Todos os que gostam de ler livros para crianças.

 Formadora:

Carla Maia de Almeida nasceu em Matosinhos, a 12 de janeiro de 1969. É jornalista de imprensa desde 1992 e escreve atualmente na revista LER sobre livros infantojuvenis, área em que também faz traduções e formação. Licenciada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma Pós-Graduação em Livro Infantil pela Universidade Católica Portuguesa. Na Caminho, publicou O Gato e a Rainha Só (ilustrações de Júlio Vanzeler, 2005); Não Quero Usar Óculos (ilustrações de André Letria, 2008), também editado no Brasil pela Peirópolis; Ainda Falta Muito? (ilustrações de Alex Gozblau, 2009); e Onde Moram as Casas (ilustrações de Alexandre Esgaio, 2011). Publicou ainda um conto na coletânea Capuchinho Vermelho: Histórias Secretas e Outras Menos (Bags of Books, 2012) e A Lebre de Chumbo, uma edição da APCC — Associação para a Promoção Cultural da Criança (ilustrações de Alex Gozblau, 2012). Em abril de 2013, saiu Irmão Lobo, o seu primeiro romance juvenil, ilustrado por António Jorge Gonçalves com a chancela da Planeta Tangerina. Vive em Lisboa e tem um blogue chamado O Jardim Assombrado.

 Programa:

1.ª Sessão: Era uma vez um reino incerto

Introdução ao curso. Que coisa é essa da «literatura infantil?». Origens e desenvolvimento do livro para crianças em Portugal. Do livro de conceitos ao romance juvenil: diferentes géneros de um produto editorial específico mas pleno de ambiguidades. Breve panorama do mercado do livro infantil. A quem serve a crítica da literatura infantil.

 2.ª Sessão: Contar para dar nomes às coisas

Os contos como desdobramento da vida interior e construção de sentido. Contos de fadas, contos tradicionais ou contos maravilhosos? O lobo mau não é vegetariano — sobre a temida crueldade dos contos. Não há temas difíceis, apenas livros que funcionam (ou não). A importância de contar histórias e o impacto da tradição oral no livro infantil.

 3.ª Sessão: Some like it hot

Características e especificidades da tradução de livros para crianças. Alguns exemplos práticos. Autores estrangeiros — das coleções de clássicos da era de ouro das publicações juvenis aos autores contemporâneos e indispensáveis num Plano Pessoal de Leitura. Picture books: a nossa seleção incompleta.

 4.ª Sessão: A arte de iluminar as palavras

Breve História da ilustração de livros para crianças. Diferentes linguagens e técnicas de ilustração. A expansão do picture story book (ou álbum) como campo contemporâneo de experimentação estética. Relação entre texto e imagem. O elo perdido no virar da página de um picture story bookPop-ups e livros só com imagens são literatura?

 5.ª Sessão: Posso usar a palavra «vislumbrar»?

Escrever para crianças: a ilusão da facilidade. Transformar o simples em complexo e vice-versa. Ritmo, fluência, densidade e substância. As boas ideias caem do céu. A perceção cosmológica da criança segundo Bachelard. Os Dez Mandamentos do Escritor. Escritores de livros para crianças e autoimagem. Um PPL — Plano Pessoal de Leitura.

 6.ª Sessão: Isso não é para a tua idade!

Como escolher livros para crianças. Chaves de interpretação qualitativas para texto e ilustração. Erros mais frequentes. Orientação de leituras por idades, interesses temáticos e personalidade. Cativar o leitor relutante. A leitura literária como suporte de valores para o autoconhecimento e interação da criança com o mundo.

 Sugestões bibliográficas:

— A Emancipação da Literatura Infantil, Manuel António Teixeira Araújo (Campo das Letras);

— A Formação do Leitor Literário, Teresa Colomer (Global Editora);

— Breve História da Literatura para Crianças em Portugal, Natércia Rocha (Caminho);

— Children’s Literature, Peter Hunt (Blackwell Publishing);

— Contar Con Los Cuentos, Estrella Ortiz (Palabras del Candil);

— Illustrating Children’s Books, Martin Salisbury (A & C Black);

— Crítica, Teoria e Literatura Infantil, Peter Hunt (Cosac Naify);

— Poética da Literatura para Crianças, Zohar Shavit (Caminho);

— Psicanálise dos Contos de Fadas, Bruno Bettelheim (Bertrand);

— Mujeres Que Correm Com Los Lobos, Clarissa Pinkola Estés (Ediciones B);

— Words About Pictures, Perry Nodelman (Georgia).

 Dados técnicos:

N.º de sessões: 6.

Datas: 30 de setembro, 2, 7, 9, 14 e 16 de outubro de 2013.

Horário: 18.30-21.30.

Total de horas: 18.

Propina: 150,00 €.

Descontos: 10 % para todos os ex-alunos Booktailors e estudantes e para pagamentos em duas prestações. (Os descontos são acumuláveis.)

Promoções: Todos os formandos do curso terão direito a 10 % de desconto numa compra na livraria Cabeçudos. Saiba mais aqui.

Local: Bookoffice — Travessa das Pedras Negras, n.º 1, 3.º Dto. Lisboa.

 Para se inscrever, por favor envie CV (com a referência: LivInf VIII) para: formacao@booktailors.com.

A noiva-cadáver Crónica de Dulce Rocha na revista Visão

Setembro 12, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica quinzenal da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança, na revista Visão de 12 de setembro de 2013.

Estima-se que, entre 2011 e 2020, 140 milhões de menores de dezoito anos venham a contrair casamento e que desses, 50 milhões se casem antes dos 15.

Mais uma criança vítima de casamento forçado foi violada até à morte no Iémen. Tinha apenas oito anos e morreu devido a hemorragias internas na sequência das graves lesões causadas pelo homem de quarenta anos que a comprou.

Em finais de Julho deste ano, no Iémen, outra menina de onze anos, que ficou noiva, conseguiu fugir de casa dos pais e contou no “YouTube” que não podia aceitar que lhe roubassem a infância e o direito de frequentar a escola. Fez um apelo emocionante e denunciou mais uma vez uma prática ancestral no Iémen, que provoca múltiplas lesões físicas às crianças e leva muitas ao suicídio.

Já em 2011, a Human Rights Watch publicou um relatório sobre os casamentos forçados das meninas e adolescentes no Iémen e referia que esta prática violava um conjunto de Convenções internacionais ratificadas pelo País, designadamente a Convenção sobre os direitos da Criança, na medida em que priva as meninas do seu direito a um desenvolvimento saudável e à educação, colocando-as muitas vezes em situações em que correm perigo para a saúde ou mesmo para a vida como aquela de que agora se teve conhecimento.

O Relatório denominado “Como podem permitir o casamento de crianças tão novas”, salientava porém que, de acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para a População, no Mundo se estima que, entre 2011 e 2020, 140 milhões de menores de dezoito anos venham a contrair casamento e que desses, 50 milhões se casem antes dos 15.

No Yémen, em fevereiro de 2009 houve uma proposta para não ser admissível o casamento antes dos 17 anos, mas não foi aprovada, embora seja já possível anular os casamentos de crianças de 8 e 10 anos, por exemplo, com base nos artigos da Convenção sobre os Direitos da Criança.

Certo é que ciclicamente, notícias chocantes ameaçam inquietar-nos, seja porque foi violada uma jovem na Índia, assassinada ou condenada à morte no Paquistão, morta por violação no Yémen, mas depois tudo volta à tranquilidade, porque no fundo se acredita que apenas estamos perante  crueldades que só ocorrem em Países distantes…

A realidade é bem diversa, porém. As mulheres e as meninas  são desconsideradas por esse mundo fora, designadamente na Europa e nos Estados Unidos, na África e na América do Sul.

Lembremo-nos dos casos recentes em que uma adolescente de 14 anos no Rio de Janeiro se viu obrigada a filmar as investidas sexuais do seu padrasto, que já há quatro anos vinha perpetrando abusos sexuais contra ela, ou do caso da malograda Charice que foi violada pelo seu professor de 49 anos e que o Tribunal de Montana entendeu dever condenar apenas numa pena simbólica, pois achou que a vítima aparentava ter mais idade. Charice não resistiu à vergonha e haveria de cometer suicídio cerca de três anos depois, pouco antes de completar 17 anos.

Durante a minha atividade profissional tive múltiplos casos semelhantes aos que hoje aqui menciono e todos me causaram repulsa e muita revolta também.

Jamais esquecerei um caso que tive, em 1985, no Tribunal de Instrução Criminal de Almada, muito semelhante àquele que referi no início desta crónica.

Tratava-se de uma menina de sete anos, violada pelo pai, que lhe provocou rasgadura completa do períneo e graves lesões internas que quase a levaram à morte.

Valeu-lhe o facto de estar perto de Lisboa e de ter sido conduzida à Urgência do Hospital de Dona Estefânia, onde foi prontamente submetida a uma intervenção cirúrgica adequada por profissionais competentes.

Quando acordou da cirurgia que demorou quatro horas, não queria falar, cheia de medo. O pai dissera no Hospital que a filha estava a brincar no Parque Infantil e tinha caído do escorrega, o que obviamente, os médicos sabiam ser uma rotunda mentira, face à observação das graves e profundas lesões que a criança apresentava.  Quando falei com a mãe, ela contou-me que, logo tivera a certeza que fora o pai, pois havia sido justamente por causa das suas exigências de relações sexuais aberrantes que se tinha separado dele. Mais referiu, chorando convulsivamente, que tinha sido com a maior relutância que tinha  aceitado as visitas da criança ao pai, embora estivesse convencida que ele não ousaria fazer o que fez, sobretudo pela idade da menina.  Só naquela altura percebera porque é que a criança se recusava a ir às visitas quinzenais, culpabilizando-se por a ter obrigado, para cumprir as ordens do Tribunal na ação de regulação do exercício do poder paternal.

Neste caso, o Tribunal penal considerou que deveria condenar numa pena que refletisse a violação de bens jurídicos distintos tutelados por duas normas diversas. A pena, de doze anos de prisão, foi possível pela aplicação das regras do concurso real, pelo crime de maus tratos graves, porque a criança ficou com graves e irreversíveis lesões que a impediriam de procriar e pelo crime de violação agravado pela relação de paternidade com a vítima.

Na altura, lembro-me de ter achado leve a pena, pois era uma medida frequente nos crimes de roubo, ou tráfico de droga, sobretudo quando havia diversos crimes dessa natureza praticados pelos arguidos.

Todavia, passados quase trinta anos posso afirmar que esta foi, afinal, a pena mais elevada que conheci para crimes sexuais contra crianças.

Pobres crianças cujas vozes, por esse mundo fora, não são ouvidas. Até quando a sua dor continuará a ser desvalorizada,  a sua vontade ignorada  e a sua dignidade espezinhada?

Martin Luther King dizia que não o preocupava o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.Frase genial que nos deve interpelar e que não nos deixa ficar indiferentes.

Ban-Ki-Moon tem dedicado este ano grande parte das suas comunicações às crianças e às adolescentes, falando do seu sofrimento invisível.

Decorre uma Campanha da Unicef que pretende tornar visíveis estas violações de direitos humanos. Todos os contributos são necessários e todos somos convocados para fazer a nossa parte.  Porque o silêncio é a maior arma dos agressores.

 

 

 

 

Menina de oito anos morre na noite de núpcias

Setembro 12, 2013 às 12:30 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 12 de Setembro de 2013.

Dados das Nações Unidas citados na notícia:

By 2020, more than 140 million girls will have become child brides – UN

Reuters

Uma rapariga de oito anos, casada com um homem de 40, morreu, no passado sábado, no Iémen, depois de ter sofrido lesões sexuais graves durante a noite de núpcias.

A pequena Rawan foi agredida sexualmente pelo marido, durante a noite depois do casamento. A rutura dos orgãos genitais e do útero motivaram a morte da criança.

Segundo a Reuters, o episódio ocorreu na zona tribal de Haradh, no noroeste do país, e reacendeu a polémica em torno da idade mínima para o casamento.

Arwa Othman, diretora da Casa do Folclore e ativista dos direitos humanos, explica que foi procurada “ajuda médica, mas não foi possível salvar a vida da criança”.

Othman afirma que não foi levada a cabo nenhuma ação contra a família e contra o marido. Um polícia local da província de Haradh, que não se se quis identificar por não estar autorizado a falar à imprensa, negou a existência de qualquer incidente.

Dois residentes confirmaram a história à Reuters, contando que os chefes tribais têm tentado esconder o incidente, desde que a notícia chegou aos jornais.

De acordo com o jornal “Albawaba”, no Iémen, cerca de uma em cada quatro meninas são obrigadas a casar-se antes dos 15 anos. Muitas famílias pobres do país forçam o matrimónio das filhas para cobrir os custos que têm durante a sua infância e para conseguirem algum dinheiro.

O caso não é inédito. Em 2010, uma menina de 13 anos morreu com uma hemorrogia uterina depois de um casamento forçado. Já em julho deste ano, uma menina de 11 anos fugiu de casa para evitar que a família a obrigasse a casar.

Dados das Nações Unidas estimam que, de 2011 a 2020, mais de 140 milhões de raparigas se converterão em “meninas-noivas”. A mesma instituição avança que cerca de 14 por cento das raparigas se casam antes dos 15 e 52 por cento antes dos 18.

Em fevereiro de 2009, uma lei que estabelecia a idade mínima do matrimónio para os 17 anos foi revogada porque foi considerada “anti-islâmica”.

Aos 21 anos, 18% dos jovens já agrediram namorado

Setembro 12, 2013 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de Setembro de 2013.

infografia

Andrea Cunha Freitas

Estudo que acompanha três mil adolescentes nascidos em 1990 apresenta hoje resultados da última avaliação. Retrato tem indicadores preocupantes.

Têm 21 anos. E o retrato generalizado que se segue vem com um aviso: não há um perfil, um padrão único. Porém, percebemos que quase todos têm uma relação íntima com alguém (namoro), conduzem um veículo motorizado correndo alguns riscos, bebem álcool frequentemente, quase metade destes jovens fuma regularmente e outro tanto já experimentou cannabis. Passado uma década do início do projecto Epiteen (Epidemiological Health Investigation of Teenagers in Porto), os resultados da terceira avaliação a cerca de 3000 adolescentes (de ambos os sexos e de escolas do Porto) nascidos em 1990 são apresentados hoje.

“Há coisas boas e outras que merecem alguma atenção e preocupação. Mas a conclusão a retirar de muitos dos indicadores é que não podemos perder a oportunidade de intervir cedo porque há muitos comportamentos relacionados uns com os outros”, diz Elisabete Ramos, responsável pelo projecto Epiteen que quer “compreender de que forma os hábitos e comportamentos da adolescência se vão reflectir na saúde do adulto”.

De pequenino se torce o pepino, concorda a investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Medicina da UP, notando que essa tendência se reflecte nos indicadores avaliados. Elisabete Ramos dá o exemplo dos dados obtidos no capítulo da violência onde se percebe que “os adolescentes que se envolveram em lutas física aos 17 anos apresentavam uma maior probabilidade de se envolverem em actos de violência no relacionamento íntimo aos 21 anos”. “Essa é uma das grandes mais-valias deste trabalho que acompanha estes jovens e assim conseguimos perceber a relação entre as coisas”, sublinha.

Os dados mostram que, aos 21 anos, 90% dos 2942 participantes no estudo referiram estar num relação íntima (maioritariamente numa relação de namoro). Destes, 60% reportaram pelo menos um acto definido como agressão psicológica e que, segundo os investigadores, passa por insultar ou dizer palavrões ao companheiro. Por outro lado, um em cada três dos jovens de 21 anos reportaram pelo menos um acto de coerção sexual como, por exemplo, forçar um companheiro a ter relações sexuais quando ele não queria (neste caso, as raparigas são mais vítimas enquanto os rapazes são mais agressores). E 18% referiram um acto de violência física na relação que mantinham, como, por exemplo, “bater no companheiro ou atirar um objecto com a intenção de o magoar”. “Mais de metade dos que se envolvem nestes comportamentos são simultaneamente vítimas e agressores”, adianta a investigadora.

“É uma elevada percentagem de jovens que ainda numa fase de namoro já aceita este tipo de comportamentos violentos”, constata Elisabete Ramos, defendendo que estes resultados podem e devem servir para “programar prioridades de intervenção num trabalho em contexto escolar”. Mas, sublinha, “isso não quer dizer que seja tudo mau”. Na avaliação feita aos participantes há progressos. Há a boa notícia da diminuição da prevalência da obesidade, sobretudo se tivermos em conta que na última década este indicador aumentou de forma geral na população. Mas se olharmos para os consumos de álcool, voltamos a ficar preocupados. Aos 21 anos, 64% dos adolescentes referiram que já se tinham embriagado, sendo a média (entre estes) de sete vezes nos 12 meses anteriores. Aqui também há uma explicação: “Nesta média temos os que o fazem quase todos os fins-de-semana e os que o fizeram uma vez”, diz a investigadora.

O projecto começou no ano lectivo de 2003/2004 (quando os adolescentes tinham 13 anos). Estes adolescentes foram novamente avaliados aos 17 e agora aos 21 anos. A ideia é continuar a acompanhar estes jovens, mas também criar um novo grupo que permita mais e melhores comparações. “Vamos começar este ano lectivo a acompanhar um grupo de cerca de 2000 jovens nascidos em 2003, que agora completam 13 anos. Isso vai permitir perceber melhor o que mudou numa década”, diz Elisabete Ramos. Em cada avaliação, uma equipa de profissionais de saúde recolhe dados sobre comportamentos, efectuando medições objectivas (como a pressão arterial, o peso e a estatura, análises sanguíneas).

Prevenção do suicídio vai chegar às escolas já este ano lectivo

Setembro 12, 2013 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 9 de Setembro de 2013.

Natália Faria

Haverá 30 mil tentativas de suicídio por ano, dois terços das quais perpetrados por jovens.

A taxa de suicídio entre os adolescentes portugueses não é alarmante, mas os comportamentos autolesivos, como a intoxicação medicamentosa, sim. E porque, atingidas idades mais avançadas, estes tendem a aumentar de gravidade e a degenerar em actos suicidas, a Direcção-Geral de Saúde (DGS) vai replicar no ano lectivo 2013/14 um projecto de prevenção em várias escolas do país, já ao abrigo do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio que é terça-feira apresentado em Castelo Branco.

Trata-se de alargar o projecto + Contigo, que arrancou no ano lectivo de 2009/10, nalgumas escolas de Coimbra, resultado de uma parceria entre a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra e a Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro, estabelecida precisamente na sequência do suicídio de uma aluna de 13 anos. No ano lectivo 2011/12, o + Contigo já chegava a 741 estudantes do 3.º ciclo do ensino básico que contaram com a ajuda de 66 profissionais de saúde, 228 professores e assistentes e 153 encarregados de educação, aos quais coube trabalhar com os alunos a capacidade de resolução de problemas, o reforço da auto-estima, o combate ao estigma em saúde mental. “No final, registámos um aumento do bem-estar entre os jovens e uma melhoria dos casos de depressão”, adiantou ao PÚBLICO José Carlos Silva, professor na Escola de Enfermagem de Coimbra.

Ainda não há indicações precisas quanto ao número de escolas que irão aderir, até porque algumas estão ainda a candidatar-se. Será preciso assegurar a participação dos profissionais de saúde em cada uma das regiões (“este projecto só funciona em rede, nomeadamente com os centros de saúde e os profissionais de saúde mental”).

José Carlos Silva conta que já aconteceu vários alunos acabarem por ser encaminhados para assistência médica nos cuidados de saúde primários ou nos serviços de saúde mental que se aliaram ao projecto. Sem números oficiais quanto à dimensão do suicídio entre os jovens, José Carlos Silva lembra os dados da Organização Mundial de Saúde, segundo os quais por cada suicídio consumado ocorrem cerca de 30 tentativas. Em Portugal, e considerando que os dados oficiais apontam para pouco mais de mil suicídios por ano, haverá acima de 30.000 tentativas por ano. Destas, “cerca de dois terços são perpetradas por jovens, maioritariamente do sexo feminino”, segundo o também ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia e relator do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio.

Suicídios subnotificados

Apesar de só cerca de 25% destes jovens recorrerem aos serviços de saúde, após a ocorrência dos comportamentos autolesivos, José Carlos Silva lembra que o mais comum entre os jovens é a “intoxicação medicamentosa e por venenos”. E que “se os problemas que estão por detrás dos comportamentos não forem resolvidos nesta faixa etária, a probabilidade de estes jovens virem a cometer suicídio é mais elevada do que na população em geral”.

As mais recentes medidas de restrição ao consumo do álcool, que proibiram a venda de bebidas espirituosas a menores de 18 anos, mas deixaram de fora da interdição o vinho e a cerveja, também se inscrevem nesta lógica de prevenção. Mas o coordenador do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, Álvaro de Carvalho, gostava que o Governo tivesse ido mais longe. “Esta legislação terá tido o mérito de contribuir para lançar mais uma vez o alarme, mas não me parece que dê garantias de resultados práticos”, lamenta. A proposta inicial do Governo previa, entre outras coisas, a proibição do consumo e venda de qualquer bebida alcoólica antes dos 18 anos e o aumento dos respectivos preços.

Para esta e outras campanhas que até ao final do ano serão desenvolvidas, nomeadamente junto dos profissionais de saúde, Álvaro de Carvalho diz ter já garantido um financiamento de 300 mil euros. A importância da formação mede-se por um acontecimento recente: em Famalicão, uma jovem de 23 anos enforcou-se no final de Junho, horas depois de ter obtido alta do hospital onde dera entrada depois de uma primeira tentativa de suicídio.

Porque todos os especialistas concordam que o suicídio em Portugal está muito acima dos registos oficiais (1012 suicídios em 2011, e 1098 em 2010, segundo o Instituto Nacional de Estatística), o plano de prevenção do suicídio prevê também para este ano o funcionamento pleno das certidões de óbito electrónicas. A ideia é conseguir que menos suicídios surjam mascarados de mortes por causa indeterminada, seja por causa do estigma, de questões religiosas ou simplesmente para prevenir problemas com seguros.

Por estes dias, o sistema de Informação dos Certificados de Óbito, mediante o qual a DGS pretende pôr cobro à falta de rigor na determinação das causas de óbito em Portugal, encontra-se ainda em fase de experimentação no Norte e Centro do país e no Funchal. Mas a ideia é que “até ao final do ano abranja todo o território nacional, Açores incluídos”, adianta Álvaro de Carvalho.

Mas de pouco adiantará o país dotar-se de um sistema electrónico de registo dos óbitos se este não for acompanhado da formação dos profissionais responsáveis pela introdução dos dados no sistema, diz. “A DGS tem vindo a garantir essa formação de médicos, forças de segurança e funcionários do Ministério da Justiça…”


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