Crianças tecnológicas. Tablets estão a chegar às salas de aulas

Setembro 9, 2013 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 31 de Agosto de 2013.

Por Marta F. Reis

O i esteve num colégio que arranca este ano com tablets no primeiro ciclo. E numa sala de pré-escolar onde as novas tecnologias não deixam ninguém atrapalhado

“Acho que acabei de descobrir uma coisa que nem sei bem o que é.” Guilherme, de sete anos, navega pelo Espaço numa aplicação no iPad. No ecrã, um pedregulho com poeira à volta. Toca num painel para saber a resposta. “Ah, é um comets”, diz. A aplicação está em inglês, mas isso não atrapalha a experiência na sala de aula, um exemplo das muitas que vão ter no próximo ano lectivo. Agora é uma nave espacial, apontamos. “É um satélite”, corrige.

As aulas começam dia 9 no Colégio da Fonte Velha, em Sintra, um dos três do mesmo grupo educativo que este ano arranca com uma parceria com a Apple, que vai reforçar o uso de novas tecnologias na sala de aula. Guilherme e outros colegas do primeiro ciclo mostram as aplicações que já têm instaladas. Mapas-múndi onde podem navegar por diferentes eras geológicas ou conhecer culturas distantes, aplicações com exercícios de matemática ou instrumentos musicais são alguns dos exemplos que sacam em menos de nada, cada um a querer mostrar que tem mais aplicações do que o outro. Mariana conta que nas férias a mãe já a ensinou a tocar os parabéns e o pau ao gato no xilofone do tablet. E alguma vez viste um xilofone a sério, perguntamos. “Tenho um em casa, mas não dá tanto jeito.”

A empresa que lançou o tablet há três anos tem vários projectos destes espalhados pelo mundo e em Março lançou o desafio às escolas nacionais. O grupo educativo com oferta de pré-escolar e primeiro ciclo em Sintra, e que este ano arranca com um colégio que terá todos os ciclos em Braga, foi o primeiro a agarrar o desafio e começa este ano a usar tablets. No pré-escolar, estarão nas salas para apoio aos educadores. A partir do primeiro ciclo, cada aluno terá o seu. A maioria já os usava em casa, para brincar. Vasco, de sete anos, diz ter começado aos três, a jogar “Subways Surfs.” Todos sabem de que é que ele está a falar, menos as jornalistas. “Agora é para brincar e para aprender”, resume Vasco. “Vamos aprender mais.”

Sofia Homem Cristo, directora curricular, chama-lhe o início da desmaterialização do ensino. Podiam ter optado por um formato radical, onde se eliminaria manuais escolares ou cadernos, mas entenderam que ainda não é altura. “Talvez daqui a dez anos”, diz. Para isso, defende, é preciso isto generalizar-se a todas as escolas, é preciso uma mudança maior no ensino, para uma aprendizagem mais activa. “Começámos a fazer esse trabalho nos colégios. Além dos currículos normais, incentivamos a investigação e trabalho em grupo desde o pré-escolar”, diz. Nas salas de aula, as carteiras não estão viradas para o quadro, mas em grupos. Apesar de dizer estarem já num paradigma diferente, onde cada sugestão dos alunos pode tornar-se matéria de ensino – há dois anos um ataque de soluços levou a sala dos 4 anos a estudar o sistema nervoso central – optaram por ir com calma. Materiais convencionais e avançados vão assim conviver em todas as disciplinas, mesmo em educação musical. Quer dizer que os alunos vão deixar de tocar piano a sério? “Não, mas por vezes vão poder tocar todos ao mesmo tempo, algo que até aqui não era possível. Vão poder experimentar outros instrumentos que não temos fisicamente, como bateria ou guitarra eléctrica. Vem aumentar as experiências e o potencial de aprendizagem”, defende a responsável.

Nesta revolução, há outros elementos que podem causar estranheza. Sofia conta que vão poder usar uma aplicação que serve de microscópio e ampliar animais 20 mil vezes. E deixam de usar o microscópio real, insistimos, ou de dissecar uma rã? “Se calhar as crianças não precisam de manter um animal para ter essa experiência. Podemos ir para a serra de Sintra e aumentar animais e plantas vivos. Ganhamos mais do que perdemos.” Perdem o herbário em papel, por exemplo. Em vésperas de o programa arrancar a sério, não há espaço para nostalgia? “Esta é a tendência. Houve dúvidas e medos dos pais, até sobre se os filhos conseguiam adaptar-se. Por isso começámos a trabalhar em Maio, para que todos soubessem utilizar os aparelhos e para que fossem eles a instalar as aplicações que os filhos vão usar. A nostalgia não nos vai dar de comer daqui a 20 anos. Eles têm de dominar as tecnologias, têm de saber falar um bom inglês. O ensino tem de se ir adaptando.”

Entre os sinais de mudança, há estudos, ideias, mas poucas respostas. Ainda esta semana, resultados da participação portuguesa no projecto EU Kids Online, revelaram que as crianças até aos oito anos usam cada vez mais internet. “Ainda não estão estudados os seus aspectos positivos e negativos”, concluíram os autores.

Nos Estados Unidos, peso pesado da indústria das aplicações, a desmaterialização do ensino vai mais avançada. Amy Jordan liderou entre 1996 e 2013 o departamento de media e desenvolvimento de crianças da Universidade da Pensilvânia, um dos pólos académicos mais especializados no tema.

Ao i, resume o que se pensa sobre esta geração tão cedo habituada a ecrãs tácteis, aplicações e internet. “Como qualquer tecnologia, os efeitos dependem de como é usada. As crianças que têm acesso a aparelhos de ecrã táctil podem usá-los para aprender e explorar o mundo, sobretudo se houver um pai ou professor a guiá-los”, diz. “Mas se as crianças não tiverem espaço para ficarem aborrecidas, então estes aparelhos podem tirar-lhes a capacidade de ser criativos na forma como utilizam o seu tempo para brincar. Há também preocupações com o acesso a conteúdos pouco apropriados ou que no futuro estas crianças tenham mais dificuldade em concentrar-se em tarefas difíceis.”

Nos EUA, há uma recomendação oficial: gadgets não devem ser usados por crianças com menos de dois anos. Amy Jordan concorda. “A Associação Americana de Pediatria fez essa recomendação com base em décadas de investigação sobre a forma como as crianças precisam de interagir fisicamente com o ambiente que as rodeia e de ter feedback de pessoas reais para se desenvolverem.” A partir daí, defende que a integração deve ser progressiva. “Uma das coisas interessantes acerca das novas tecnologias é que mudaram tanta coisa na forma como vivemos mas não mudaram ainda a educação. Devemos reconhecer que já têm um papel significativo na vida das crianças e que estes aparelhos podem ser aproveitados para tornar a aprendizagem mais cativante.” Só quem nunca viu uma criança de três anos pegar num tablet é que duvida da naturalidade com que dominam a máquina.

Estamos na sala do pré-escolar do colégio O Barco do Mimo, dos três aos cinco. Gabriel, de três, aprende em segundos a vencer o jogo que levamos no tablet, que implica fazer a personagem deslizar por túneis e prender-se a lianas para ganhar moedas. Se no colégio de Sintra este tipo de gratificações dos jogos vão servir para aumentar o interesse em matérias curriculares, com aplicações que dão bónus por bom raciocínio matemático ou uma redacção bem feita, ali são, por agora, uma experiência lúdica. Mas a tecnologia está presente como ferramenta de ensino, conta Vanessa Marques, educadora de infância de 38 anos. Na sala, há um portátil para comunicar com os pais mas também para pesquisar temas que vão surgindo. “Dantes muitas vezes não podíamos dar uma resposta imediata. Agora há uma trovoada ou um deles diz que no fim-de-semana esteve numa duna e podemos dar logo resposta à curiosidade, com imagens e sons.”

Mostramos o iPad e perguntamos o que é. “Um tablet”, respondem em uníssono. E serve para quê? “Para brincar.” Seguem–se os jogos preferidos. Inês, de cinco anos, gosta de vestir bonecas no telemóvel do pai. Catarina, de três, gosta de pintar animais. Mais do que nos livros? “Sim”, arrancamos, porque há mais desenhos e mais cores. Miguel, de quatros anos, dispara que só gosta de jogos de guerra. “Só jogo com o meu pai e matamos os maus.” Outra aplicação popular dá para cortar melancias. “É o ninja da fruta”, diz Vanessa, que domina o assunto. Tem uma filha de dois anos que, na hora de dormir, pede a chucha, o iPad e o leite. “Usamos para ler histórias”, diz a educadora, que agora lê menos vezes as histórias em livro, outra tendência partilhado pelas crianças na sala. “Pede para ver a mesma história uma vez, duas vezes e às vezes negociamos a terceira. Depois digo que o iPad vai dormir e ela responde logo que ele não faz óó. Mas adormece mais rápido do que dantes.”

Se o que mudará mesmo ainda está a ser estudado, Vanessa vai recolhendo sinais. “O recurso à internet para explicar o que os rodeia faz com que tenham mais cedo contacto com o mundo real quando dantes usávamos bonecos. Como as aplicações e os jogos não simplificam a linguagem, podem começar a falar mais tarde mas usam menos linguagem de bebé”, conta. São cada vez mais exigentes com as perguntas e sente-se que a famosa idade dos porquês começa mais cedo. E com a ajuda da internet na sala, sabem mais. “Com a idade deles não sabia que havia flores que comiam moscas ou o que era um icebergue. Noto que os que têm menos contacto com tecnologias conseguem concentrar-se mais tempo em actividades manuais. Por outro lado, o uso parece desenvolver um raciocínio mais rápido. ”

Certo é que de tablet ou telefone na mão, a conversa flui menos. “Pode ser o efeito novidade, mas ficam imersos”, diz Vanessa. Na sala do primeiro ciclo em Sintra, a experiência é a mesma. Num inquérito que fazemos junto de 18 pais, essa é das preocupações mais consensuais: que os miúdos se viciem. Mas a maioria entende que os efeitos no desenvolvimento cognitivo são sobretudo positivos, ainda que o lado social possa sofrer. No que estão diferentes? Das características que pomos à discussão – se estão mais criativos, concentrados, sociáveis, perspicazes, hiperactivos, sedentários, espertos ou birrentos – as que colhem mais consenso são a criatividade, a perspicácia e o sedentarismo. Certo é que quando estes pais eram pequenos, eram uma raridade os pais preocupados com a tecnologia. E agora todos têm de pensar nisso. Vanessa Faria Lopes, de 38 anos, é mãe de dois alunos que este ano terão tablets na sala. O maior receio? “A velocidade a que eles vão evoluir e se vamos ser capazes de acompanhar”, diz.

 

 

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