Ask.fm. O site perigoso em que os miúdos se insultam mortalmente

Agosto 22, 2013 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 22 de Agosto de 2013.

Por Marta F. Reis

O suicídio de uma adolescente levou empresa a mudar regras, mas só a partir de Setembro. Na comunidade portuguesa as ofensas são comuns

Não é uma tradução. É uma pergunta recebida na segunda-feira por uma adolescente portuguesa de 13 anos na rede social Ask.fm: “Eras capaz de te matar?” Ana (nome fictício) respondeu: “Eras capaz de dizer quem és?” Não é preciso navegar muito pelo site para chegar a perfis de miúdos mais novos, com conteúdos ofensivos e até “perversos”, para usar o adjectivo com que o primeiro-ministro britânico David Cameron classificou o site após o suicídio de uma adolescente de 14 anos, que terá sido vítima de bullying online nesta plataforma.

A empresa que gere o Ask.fm anunciou esta semana que pretende tornar o site mais seguro, com informação para pais e botões mais visíveis para denunciar agressões. As intenções são conhecidas menos de um mês depois da morte de Hannah Smith, a quinta associada a bullying nesta rede social, mas as alterações só entrarão em vigor em Setembro.

Apesar da polémica, as perguntas inofensivas e até filosóficas na rede social, como “achas que o dinheiro pode comprar o amor?” continuam a coexistir com insultos e exposições de privacidade, mesmo por quem nem tem idade para ter conta no Ask.fm, só para maiores de 13 anos.

A comunidade portuguesa na rede não é excepção. Uma rapariga de 11 anos, do Norte do país, publica diariamente vídeos de resposta a desafios como “mostra os lábios pintados” ou “como estás vestida”. Dois gémeos de 16 anos fazem o mesmo. “Puta é quem te fez as orelhas”, responde outra adolescente às críticas de um anónimo que dá a entender ser uma ex-amiga a quem roubou o namorado.

Na parte institucional dedicada à segurança, e enquanto não mudam as regras, há notas de preocupação: recomenda-se a denúncia de conteúdos ofensivos e que se fale com adultos se forem alvo de agressões. Por outro lado, é possível alterar as configurações para só receber perguntas identificadas. Mas alguém o faz numa rede social em que o objectivo é perguntar e responder e o anonimato – na gíria da rede social “anon” – faz parte do desfile de perguntas, elogios e críticas em que assenta a dinâmica da rede. Esta solução não passou pela cabeça de Pedro (nome fictício). Tem 15 anos e é um dos adolescentes que contactámos através da rede social. Aderiu em 2012 e já foi ofendido por anónimos: “Chatearam-me por ter acabado com a minha namorada e no dia seguinte terem–me visto com outra rapariga”, conta. Chamaram-lhe “player”, insulto para quem anda sempre a trocar de companhia. “Não fiquei abalado, tenho uma maneira de ver simples: quem critica em anónimo desce a um nível baixo e não me afecta muito.” Se no seu caso a distinção basta, já teve de aconselhar a melhor amiga a desactivar a conta por causa dos insultos. “Os pais não têm noção do que se diz, muitos nem têm conhecimento de que a rede existe e não podem ajudar os filhos”, diz.

O ask.fm pode ser seguro? A pergunta foi feita pelo “The Guardian” após a morte de Hannah Smith, de 14 anos. Em Inglaterra, além do apelo de Cameron ao boicote deste tipo de sites, o Partido Trabalhista quer uma comissão parlamentar para propor medidas, a começar por mais informação nas escolas. Mas como evitar que um site com atmosfera de recreio, como descreveu o jornal britânico, não seja perigoso? E que isso, se acontece nesta rede social, não aconteça noutras? Tânia Paias, psicóloga especialista em ciberbullying, diz ao i que mais que haver um espaço online de perguntas e respostas, adultos e educadores devem ter uma função mediadora das discussões, o que implica ter noção de que existem. “Eles falam de temas de forma aberta, mas apresentam muitas vezes as questões sem filtro e são muito permeáveis”, avisa. Os pais devem fazer um esforço por estar a par, mesmo que não gostem de tecnologias.

A capacidade de prevenir situações prejudiciais vai depender da relação de confiança com os filhos, sendo o ideal fomentá-la desde cedo, recomenda a psicóloga. Nas páginas no Ask.fm, e apesar da linguagem com bolinha, à pergunta sobre em quem mais confiam, muitos dos adolescentes portugueses respondem “os pais”. “Mesmo que mais tarde haja um afastamento, deve aproveitar-se a maior abertura no início da adolescência para criar laços de confiança.” Para os dissuadir e proteger de comportamentos abusivos, explica Paias, mais que proibir, é preferível uma sensibilização construtiva: apesar da interacção anónima, é possível chegar ao IP do utilizador. “Esse argumento pode servir para os dissuadir de se vingar de um colega só porque estão anónimos.” Outra sugestão é explicar que estão a deixar uma marca. “Houve uma campanha em que um vidente adivinhava gostos e experiências dos jovens. Quando se desmontava o esquema, percebia-se que usava o que tinham escrito nas redes sociais. Eles são sensíveis a este tipo de imagens.”

Para Tito de Morais, fundador do projecto de sensibilização MiudosSegurosna.Net, a facilidade com que os conteúdos partilhados nesta rede saem do controlo do jovens é dos maiores riscos. As novas regras, entre as quais passar a dar resposta a denúncias em 24 horas, pecam por tardias, diz o especialista, considerando que este é o caso típico de uma rede que cresceu sem investir em segurança e moderação. Tito de Morais lembra o vídeo que circulou nas redes sociais, em que uma jovem portuguesa dizia, no Ask.fm, “adorar pila”. A jovem mantém a conta e ainda recebe provocações. “És puta”, lia-se ontem. “Vadia. Puta é a tua mãe e nng abre boca”, respondeu. Apesar de haver um botão para denunciar o conteúdo como “spam”, “discurso de ódio”, “violência” ou “conteúdo pornográfico”, clicar nestas opções não tem efeito imediato.

E se só o caso de Hannah Smith parece ter feito a empresa alterar as regras do jogo, já há outras aplicações a fazer soar o alarme lá fora, avisa o especialista, que entende que não se deve “demonizar” sites de pergunta e resposta como o Ask.fm, mas antes estar atento a ambientes que podem ter uso indevido por parte dos jovens. É o caso do snapchat, serviço de troca de mensagens fotográficas que por vezes os adolescentes usam para trocar fotografias mais íntimas com amigos e que acabam a circular na net. Outra aplicação que pode tornar-se preocupante se começar a ser usada pelos internautas mais jovens, avisa, chama-se Bang with Friend. Visa o encontro de parceiros para relações sexuais entre os amigos do Facebook e tem mais de 50 mil utilizadores.

 

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