Porque devem os pais pôr os filhos a chorar?

Novembro 28, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público Life&Style de 20 de Novembro de 2012.

Por Bárbara Wong

A ideia de fazer tudo para que os filhos sejam felizes, evitando que chorem, está ultrapassada. A teoria de disciplinar sem que a criança chore está desactualizada, diz Gordon Neufeld, psicólogo clínico canadiano que esteve em Portugal no final da semana.

“As crianças precisam da tristeza, da tragédia para crescerem. Precisam de ter as suas lágrimas”, defende. Nos primeiros meses e anos de vida, o “não” dito pelos pais ajuda a disciplinar, em vez de estragar a criança. “Estamos a perder isso na nossa sociedade, não admira que as crianças estejam estragadas com mimos. Afinal, elas são sempre as vencedoras”, continua o investigador que esteve em Lisboa a convite da empresa BeFamily, do Fórum Europeu das Mulheres, da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas e da Associação Portuguesa de Imprensa.

Na conferência sob o lema “Vínculos Fortes, Filhos Felizes”, Neufeld defende que só se atinge o bem-estar através da educação e que esta deve estar a cargo das famílias e não do Estado. E para garantir o bem-estar de qualquer ser humano ou sociedade é necessário preencher seis necessidades.

A primeira é o “aprender a crescer” e para isso há que chorar, é preciso que a criança seja confrontada, que viva conflitos, de maneira a amadurecer, a tornar-se resiliente, a saber viver em sociedade.

A segunda necessidade é a de a criança criar vínculos profundos com os adultos, estabelecer relações fortes. Como é que se faz? “Ganhando o coração dos filhos. É preciso amarmos e eles amarem-nos. Temos de ter o seu coração, mas perdemos essa noção”, lamenta o especialista que conta que, quando lhe entram na consulta pais preocupados com o comportamento violento dos filhos, a primeira pergunta que faz é: “Tem o coração do seu filho?”, uma questão que poucos compreendem, confidencia.

E dá um exemplo: Qual é a principal preocupação dos pais quanto à escola? Não é saber qual a formação do professor ou se este é competente. O que os pais querem saber é se a criança gosta do docente e vice-versa. “E esta relação permite prever o sucesso académico da criança”, sublinha Neufeld, reforçando a importância de “estabelecer ligações”.

E esta ligação deve ser contínua – a terceira necessidade –, de maneira a evitar problemas. Neufeld recorda que o maior medo das crianças é o da separação. Quando estão longe dos pais, as crianças começam a ficar ansiosas e esse sentimento pode crescer com elas, daí a permanente procura de contacto, por exemplo, entre os adolescentes com as mensagens enviadas por telemóvel ou nas redes sociais, muitas vezes, ligando-se a pessoas que nem conhecem, alerta o especialista.

O canadiano recomenda que os pais estabeleçam pontes com os seus filhos. Quando a hora da separação se aproxima, há que assegurar que o reencontro vai acontecer. Antes de sair da escola, dizer “até logo”; à hora de deitar, prometer “vou sonhar contigo”.

Mas a separação não é só física, há palavras que separam como “tu és a minha morte” ou “tu és a minha vergonha”. Mesmo quando há problemas graves para resolver, a frase “não te preocupes, serei sempre teu pai” ajuda a lembrar que a relação entre pai e filho é mais importante do que o problema. Hold on to your kids é o nome do livro que escreveu e onde defende esta teoria.

A importância de brincar

A quarta necessidade a ter em conta para garantir o bem-estar dos filhos é a necessidade de descansar. Cabe aos adultos providenciar o descanso e este passa por os pais serem pessoas seguras e que assegurem a relação com os filhos.

As crianças precisam que os pais assumam a responsabilidade da relação, que mantenham e alimentem a relação, de modo a que elas possam descansar e, nesse período, desenvolver outras competências. Uma criança que está ansiosa pela atenção dos pais não está atenta na escola, por exemplo.

Brincar é a quinta necessidade a suprir. Não há mamífero que não brinque e é nesse contexto que se desenvolve, aponta Neufeld. E brincar não é estar à frente de uma consola ou de um computador; é “movimentar-se livremente num espaço limitado”, não é algo que se aprenda ou que se ensine. E, neste ponto, Neufeld critica o facto de as crianças irem cada vez mais cedo para a escola, o que não promove o desenvolvimento da brincadeira. “Os ecrãs estão a sufocar a brincadeira e as crianças não têm tempo suficiente para brincarem”, nota o psicólogo clínico que, nas últimas semanas, fez um périplo por vários países europeus, tendo sido ouvido no Parlamento Europeu, em Bruxelas sobre “qualidade na infância”.

Por fim, a sexta necessidade é a de ter capacidade de sentir as emoções, de ter um “coração sensível”. “Estamos tão focados em questões de comportamento, de aprendizagem, de educação; em definir o que são traumas; que nos esquecemos do que são os sentimentos. As crianças estão a perder os sentimentos quando dizem ‘não quero saber’, ‘isso não me interessa’, estão a perder os seus corações sensíveis”, diz Neufeld.

Em resumo, é necessário que os pais criem uma forte relação emocional com os filhos, de maneira a que estes sejam saudáveis. Os pais são os primeiros e são insubstituíveis na educação dos filhos e são eles que devem ser responsáveis pelo seu desenvolvimento integral e felicidade. Se assim for, estarão também a contribuir para o bem-estar da sociedade.

Instituição algarvia desenvolve projeto para deficientes inspirado em fato usado pela NASA

Novembro 28, 2012 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da RTP de 16 de Novembro de 2012.

Foto retirada daqui

Uma instituição algarvia está a desenvolver um projeto que visa capacitar crianças com paralisia cerebral através de um fato inspirado em tecnologia usada por astronautas da agência espacial americana NASA, disse hoje à Lusa a promotora do projeto.

Segundo a diretora da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC) de Faro, o projeto “Vamos ser astronautas” destina-se a crianças com paralisia cerebral e outros distúrbios neurológicos.

O projeto consiste na utilização de um fato originalmente usado por astronautas em voos espaciais e posteriormente adaptado à reabilitação de pessoas com paralisia cerebral.

Este fato ajuda a neutralizar os efeitos nocivos da ausência de gravidade, tais como, a atrofia muscular, a perda de densidade óssea ou alterações do controlo motor.

De acordo com Graciete Campos, o impacto da ausência de gravidade nos astronautas é semelhante às alterações neuromotoras nos pacientes com paralisia cerebral, o que levou uma equipa de reabilitação do Brasil a criar o fato ortopédico dinâmico “Pediasuit“.

A utilização do fato em exercícios ajuda a normalizar o tónus muscular, diminuindo os movimentos descontrolados e melhorando a postura e simetria corporais, entre outros benefícios.

O tratamento consiste em colocar as crianças ou jovens vestidas com os fatos – compostos por chapéu, colete, calção, joelheiras e calçado, interligados por elásticos -, dentro de estruturas metálicas de suporte específicas, onde são desenvolvidas as atividades terapêuticas.

“O objetivo é criar uma unidade de suporte para alinhar o corpo o mais próximo do normal possível, restabelecendo o correto alinhamento postural”, explicou à Lusa Cristina Sobral, uma das terapeutas da APPC/Faro que vai receber formação para ministrar o tratamento.

O tratamento é intensivo e especialmente indicado dos zero aos dez anos, idade em que há uma maior plasticidade cerebral, o que permite às crianças integrarem melhor a informação, explicou a terapeuta.

Graciete Campos sublinhou que a implementação do projeto só é possível graças a um prémio a que a instituição se candidatou, no valor de 50 mil euros, que será atribuído por uma instituição bancária até ao final do ano.

Este dinheiro contempla a formação dos técnicos da instituição e a aquisição de todo o material necessário para a implementação do projeto.

As crianças podem ser particularmente cruéis

Novembro 28, 2012 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Sónia Seixas ao Mirante no dia 21 de Novembro de 2012.

O fenómeno de maltratos entre crianças e jovens no meio escolar tem vindo a ganhar visibilidade na opinião pública e a subdirectora da Escola Superior de Educação de Santarém, Sónia Seixas, decidiu dar o seu contributo para uma melhor compreensão dessa problemática com a publicação de um livro de que é co-autora. Porque o assunto é sério e pode ter consequências irreparáveis.

O bullying (termo anglófono que pode ser traduzido como maltrato entre iguais) no meio escolar pode levar as vítimas a soluções radicais como o suicídio. Pelo que a escola deve apostar no diagnóstico e prevenção desse tipo de comportamentos violentos entre crianças e jovens, que podem ir da marginalização ou segregação à violência física e verbal. Sónia Seixas, subdirectora da Escola Superior de Educação de Santarém (ESES) e co-autora de um livro sobre a problemática recentemente editado, quer deixar o seu contributo para a causa.

“Alguns miúdos não conseguem encontrar mecanismos protectores e utilizam o suicídio como forma de escape. São situações de bullying muito graves, não obrigatoriamente de violência física, mas de segregação, de marginalização. Um adolescente não conseguir integrar-se num grupo de pares é avassalador para a sua vida. E os jovens vivem o presente, não estão a imaginar que daí a 5 ou 10 anos estão noutro sítio”, opina.

Sónia Seixas diz ser difícil afirmar que as crianças de hoje são mais propensas a este tipo de comportamentos do que há algumas décadas. Entre as várias manifestações de bullying as mais comuns são as verbais, como a troça, a provocação. “São vivências de humilhação, de isolamento, de vergonha que se podem transformar em fobia. As crianças podem ser particularmente cruéis, sobretudo quando não conhecem limites ou quando não lhes foi explicado o que é certo ou o que é errado”.

A professora residente em Santarém e o seu colega Luís Fernandes, docente em Beja, acham que os professores sentem falta de instrumentos com que trabalhar e decidiram criar este manual destinado à classe docente. “Plano Bullying – Como apagar o bullying da escola” não é um livro de receitas mas tem lá os ingredientes todos, diz Sónia Seixas reconhecendo que algumas escolas ainda preferem viver em negação, até para evitarem a má publicidade, em vez de enfrentarem o problema de frente.

“As crianças hoje quase não sabem brincar”

Sónia Seixas, 42 anos, considera que o acesso a conteúdos violentos na Internet e na televisão pode ter influência nesse fenómeno, embora não seja determinante. “Se a violência e a agressividade entram pela vida das crianças e dos jovens através da Internet, da TV ou dos jogos, muitas vezes sem supervisão, isso faz com que o fenómeno da violência se torne mais banal. E a escola é onde eles estão a maior parte do dia, pelo que é natural que se manifestarem comportamentos violentos eles tenham um nível de incidência superior na escola”. E acrescenta: “As crianças hoje quase não sabem brincar se não tiverem uma maquineta. Não sabem o que hão-de fazer. E alguns miúdos que não têm o que fazer por vezes distraem-se implicando com os outros”.

O bullying pode nascer de uma série de variáveis como a banalização da violência na sociedade, e de factores sociais e familiares como a ausência de “dois grandes adubos no crescimento da criança”: o afecto e a disciplina. “Têm que andar os dois a par. E muitas vezes há pouco tempo para a demonstração dos afectos e para a implementação de disciplina”.

A investigadora reconhece que este é um problema que sempre existiu mas há novas configurações, como o ciberbullying. “Hoje, os meios tecnológicos ao dispor podem ser usados para agredir os outros. O que entra na Internet fica lá, não há forma de apagar”. O que mudou, diz, foi a atitude perante o fenómeno, que começou a ser estudado do ponto de vista científico. “Há também uma maior sensibilização para os direitos das crianças”, complementa.

Professora, investigadora e subdirectora

Sónia Raquel Seixas nasceu em Lisboa em 1970. É licenciada em Antropologia Social e em Psicologia Educacional e doutorada em Psicologia Pedagógica com uma tese sobre comportamentos de bullying e saúde. É professora adjunta da Escola Superior de Educação de Santarém desde 2000 e subdirectora da mesma escola desde Fevereiro de 2010. Casada e mãe de uma filha, tem-se dedicado na última década à investigação e divulgação científica sobre o bullying, através de publicações, comunicações e acções de formação. O livro “Plano Bullying – Como apagar o bullying da escola” foi apresentado pela primeira vez no dia 20 de Outubro na FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama em Lisboa. Na sexta-feira, 9 de Novembro, houve nova apresentação na Escola Superior de Educação de Santarém, inserida nas comemorações do Dia da Escola.


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