Alunos portugueses ajudaram a resgatar a memória de vítimas do nazismo

Novembro 2, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 31 de Outubro de 2012.

Por Clara Viana, com Lusa

Há dois anos, quando ainda existia a disciplina de Área de Projecto, entretanto extinta, os alunos do 12.º D da Escola Secundária de Vilela, concelho de Paredes, foram desafiados a procurar uma dimensão individual do Holocausto e fazer o que o escritor Daniel Mendelsohn já fizera na obra Os Desaparecidos – À Procura de Seis em Seis Milhões.
Seis milhões foi o número de judeus mortos no Holocausto, durante a II Guerra Mundial. Mendelsohn foi atrás do rasto de seis antepassados seus dados como desaparecidos durante este período. Os alunos da Escola Secundária de Vilela descobriram caras e histórias de outras seis vítimas do nazismo. O resultado está desde ontem patente na Fundação Calouste Gulbenkian, numa exposição inaugurada no âmbito da conferência Portugal e o Holocausto – Aprender com o Passado, Ensinar para o Futuro, que encerra hoje. Muitos judeus europeus procuraram refúgio em Portugal durante a II Guerra Mundial enquanto esperavam seguir para outras paragens. Alguns, poucos, ficaram por cá. Este resgate da memória foi feito com a ajuda de familiares das vítimas que residem em Portugal ou que falam português. Nalguns casos foi uma descoberta conjunta. Foi o que se passou com a sobrinha de Lilly Brodheim, uma judia austríaca, que foi presa em Viena em 1941, com 24 anos, e deportada ainda hoje “não se sabe para onde”. A sobrinha de Lilly, filha do seu irmão Erich, foi a ponte para o passado. O que sabia sobre a tia era muito pouco, mas foi nesta incursão com os alunos da Escola Secundária de Vilela que descobriu, por exemplo, o significado de uma fotografia de Lilly que o pai guardara durante toda a sua vida. Esta foto com uma dedicatória tinha-lhe sido dada pelo irmão, quando Erich fugiu da Áustria para Portugal, em 1940. Durante 38 meses esteve nas Caldas da Rainha, um dos lugares de residência fixa que o Estado Novo reservou aos judeus em fuga do nazismo. Nunca mais viu a irmã Lilly, que um ano depois foi deportada para o gueto de Opole, na Polónia. Sabe-se agora que conseguiu fugir para Viena, onde acabou por ser presa e deportada de novo, mas desta vez sem deixar rasto. Um ano depois, no campo de trânsito de Westerbork, onde milhares de judeus aguardavam o transporte para os campos de extermínio, Etty Hillesum, uma judia holandesa que morreu em Auschwitz aos 29 anos, deu início ao seu testemunho, através de uma série de cartas em que deu conta de como se passava a vida ali, na antessala da morte. Filomena Molder, professora da Universidade Nova de Lisboa, lembrou estas cartas que considera representarem “uma das extremas formas de experimentação do inconcebível”. Segundo esta filósofa, Etty tinha uma “capacidade quase demoníaca de escrever o que via” e fazia-o porque havia nela a “exigência de um testemunho”. Perguntas ainda por vir Há excertos que “são insuportáveis de ler”, admite Molder. Se havia palavras a evitar por Etty, não eram as do horror. Em tempos como aqueles, acrescenta Molder, ela dizia que há “certas palavras que se devem evitar porque senão desfazem-se na boca como veneno. Palavras como Deus, eternidade, bondade”. Etty projectou-se no futuro ao tornar dizível o “inexprimível”. Esta é também, segundo Isabel Gil, da Universidade Católica, uma responsabilidade que recai sobre os investigadores. “Temos uma função ética enquanto investigadores de dar continuidade aos estudos do holocausto e para isso é fundamental envolver a nova geração”, defendeu. Trata-se de garantir que Auschwitz continue a estar na memória dos que vierem depois de nós, mas não só. “Não temos ainda todas as perguntas sobre o Holocausto e muito menos todas as respostas”, frisou a investigadora, que também alertou para as “tentativas de simplificação” deste fenómeno. “Fazê-lo é uma forma de banalização e de garantir o caminho para a amnésia”, concluiu. Falando na abertura da conferência, o ex-presidente da República e alto-comissário das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Jorge Sampaio, defendeu que o ensino da História do século XX é fundamental para a “procura” de pontos para a resolução de conflitos. “O século XX ainda há pouco nos deixou e os seus medos já estão a ser empurrados para a memória espúria. O passado recente é o mais difícil de perceber e nós tratamos o século passado com ligeireza”, citou Jorge Sampaio, alertando que o “genocídio não foi um acidente da História, foi um produto de um estrato social”. A conferência, organizada pelo pela Embaixada dos EUA em Portugal, pela Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento e pela Gulbenkian, tem entre os seus objectivos o de apoiar o ensino do Holocausto em Portugal.com Lusa

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