Os bebés já sabem muito quando nascem

Outubro 17, 2012 às 12:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 5 de Outubro de 2012.

A psicóloga Elizabeth Spelke prova que possuímos capacidades cognitivas inatas quando nascemos.

Muitas formas do conhecimento humano são inatas, nascem connosco, revelam as experiências pioneiras feitas no laboratório de Elizabeth Spelke, investigadora e professora de psicologia na Universidade de Harvard (EUA), que foi esta semana uma das oradoras do Simpósio de Neurociências na Fundação Champalimaud, em Lisboa.

Nos últimos 20 anos, Spelke mudou profundamente a maneira como a comunidade científica encara a mente dos bebés, que antes era definida como algo que só adquire conhecimento através da experiência, da educação e da socialização.

Para saber os segredos da cognição humana e da organização da mente, a cientista prefere investigar os bebés e não os adultos. “A mente humana é extremamente complicada, em especial a adulta, onde há uma grande variabilidade nas pessoas que vivem em diferentes culturas e circunstâncias”, justifica a psicóloga. “Mas quando olhamos para as crianças, há menos diversidade e vemos de uma forma mais clara as nossas capacidades cognitivas fundamentais.”

Por outro lado, “os segredos da mente humana só serão revelados através de uma visão multidisciplinar que não inclua apenas a investigação que eu faço”, explica. Para isso é necessário responder a questões cruciais sobre a relação entre a inteligência humana e a de outros animais, porque as técnicas mais poderosas para estudar o cérebro humano só podem ser aplicadas em animais.

Propriedades básicas

“Quando comparamos as capacidades cognitivas de um humano

Elizabeth Spelke diz que investigar a mente dos bebés permite ver as nossas capacidades cognitivas fundamentais adulto com as dos animais, há uma enorme diferença, mas se o fizermos com bebés vemos mais as semelhanças, encontramos as propriedades básicas das nossas mentes, que evoluíram em grande medida antes de emergirmos como uma espécie, e que tornam hoje possível a inteligência e a aprendizagem”, salienta Elizabeth Spelke.

Mas afinal o que sabem realmente os bebés nos primeiros meses de vida, que capacidades inatas possuem? “Consideremos, por exemplo, a capacidade para seguir e reconhecer objetos. Os bebés parecem ter sido ‘construídos’ para dividir o mundo percetível que veem em partes relacionadas que estão separadas uma a uma e que se movem como se estivessem ligadas, de uma forma contínua, mesmo quando estão fora de vista.”

Partilham o nosso esquema conceptual, embora não reconheçam quase todos os objetos numa cena. “Os bebés têm alguma sensibilidade para as faces humanas, para os corpos humanos e dos animais, mas não para simples artefactos como mesas, cadeiras, chávenas, etc. Mostram algumas das nossas capacidades, mas não todas”.

Do concreto ao abstrato

A investigadora esclarece que “isto também é verdade quando nos movemos de um domínio concreto de reconhecimento de objetos percetíveis para domínios abstratos, como os números”. Uma boa parte da investigação que Spelke tem feito é precisamente sobre estes conceitos abstratos e concluiu que “bebés com um ou dois dias de vida, acabados de nascer, são sensíveis aos números, mas apenas a números aproximados”. Conseguem distinguir um grupo de quatro objetos de um conjunto de 12, que diferem numa razão de 3 para 1.

“As nossas experiências provam que a base desta discriminação é o número, embora numa representação muito imprecisa.” Nas experiências são mostradas diferentes imagens aos bebés e deduzem-se quais as mais apelativas pelo tempo que dura a sua atenção sobre elas.

Quando as crianças crescem, a representação fica progressivamente mais precisa e por volta dos quatro anos começam a usar este sistema para construir representações simbólicas únicas dos números. Além de objetos e de números, os bebés também têm noções básicas de geometria — tema da intervenção de Elizabeth Spelke no Simpósio de Neurociências — e de cognição social.

Virgílio Azevedo

vazevedo@expresso.impresa.pt

 

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