Quando o divórcio dos pais separa avós e netos

Setembro 15, 2012 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 19 de Agosto de 2012.

Por Maria João Lopes

Fernanda, de 65 anos, tem uma neta de seis anos que nunca viu. O filho e a mulher divorciaram-se e ela não chegou a conhecer a mais nova de três netos. Teresa, de 73 anos, tem uma neta adolescente que se esforçou por ir vendo, mas as dificuldades que enfrentou foram tantas que hoje sente que a adolescente a vê como uma estranha. Ivone, de 62 anos, perdeu um filho e, depois da morte dele, foi cada vez mais complicado estar com os netos. Hoje vivem no estrangeiro com a mãe e há mais de um ano que Ivone nada sabe deles.

Uma das consequências mais silenciosas dos divórcios em que os pais não se entendem é o afastamento entre as crianças e os avós de um dos lados da família. Para além dos divórcios, há casos em que a morte de um dos cônjuges também pode conduzir a essa separação.

“Os meus netos cresceram longe de mim”, diz Fernanda, uma antiga empregada de escritório agora reformada. Hoje, após o divórcio dos pais das crianças, vê o neto mais velho e a do meio de 15 em 15 dias. A mais nova nunca a viu: “Tem agora seis anos, não a conheço”, lamenta.

A relação, marcada pelos desentendimentos entre os pais das crianças, com sucessivas idas a tribunal, não ajudou na criação de laços: entre os 17 meses e os oito anos do neto mais velho, Fernanda nunca o viu. A neta do meio, que Fernanda só conheceu quando ela tinha sete anos, nem lhe chama avó, apenas “a mãe do pai”. “Nunca me abraçam com ternura”, admite.

Alguns avós nesta situação contactados pelo PÚBLICO não quiseram dar um testemunho. Dizem-se cansados e arrasados psicologicamente. Alegam que estão fartos de lutas, de idas a tribunal, que já não lhes apetece repetir até à exaustão as mesmas histórias. Alguns desistem. Outros não baixam os braços e socorrem-se de advogados ou contactam associações. Mas o sentimento de desânimo é frequente. Alguns falam numa “catástrofe” que lhes aconteceu e “dá cabo” deles.

“O meu filho e a minha nora separaram-se seis meses depois de a menina nascer, embora o divórcio só ficasse oficializado dois anos depois. Eles não se entendem. Andam sempre em tribunal. E eu estou cansada e triste”, admite Teresa.

Apesar de cada testemunho ter contornos próprios, em comum têm inúmeros episódios familiares conturbados: pais que não se entendem, acusações mútuas, sogros, genros e noras que se defendem como podem. Fernanda admite que é difícil, mesmo para os avós, lidar com um divórcio em que os pais ficam de costas voltadas. Mas ressalva: “As crianças não têm de ser penalizadas porque os adultos não se entendem, porque fazem mal uns aos outros, porque simplesmente não gostam uns dos outros”.

Justiça lenta

O caso de Ivone, também empregada de escritório reformada, é diferente. O filho morreu e, a partir de então, começou a ver cada vez menos os netos. Já recorreu a psicólogos para os desabafos e a advogados para as questões jurídicas. Apesar de já quase não acreditar em nada nem ninguém, mantém viva uma pequena esperança de voltar a ver os netos, que foram viver para o estrangeiro com a mãe. Ivone nem sabe exactamente onde – há um ano que não tem notícias deles: “Sinto-me revoltada, impotente. Revoltada com a sociedade, com os tribunais… Mas não perdi a esperança de ver os meus netos”, diz.

Fernanda, por exemplo, explica que a sua situação era dificultada pelo facto de tanto ela como o filho trabalharem numa empresa na qual o sogro pertencia ao conselho de administração: “Tive sempre medo de falar”, justifica.

Apesar de defender que a mãe das crianças “não tem o direito” de lhe “tirar” os netos, limita-se a aguardar que os pais consigam chegar a consensos e tudo se componha: “Os pais andam sempre em tribunal, mas eu tenho esperança que tudo se resolva pelo melhor um dia. Sei que há uma lei que protege os avós, mas nunca me quis meter nisso. Tive receio de prejudicar a relação dos pais, que fosse mau também para as crianças, e tinha medo que eu e o meu filho perdêssemos o trabalho”.

Ivone, que contratou um advogado, queixa-se da morosidade do tribunal. Já tentou de tudo. Antes de os netos irem viver para o estrangeiro com a mãe, ligava-lhe, aparecia em casa dela, esperava pelas crianças à porta do infantário e chegou mesmo a contratar uma empresa para lhes ir entregar prendas de aniversário a casa… Hoje não sabe mais o que fazer: “Só queria saber onde é que eles estão. O meu advogado diz que o processo está a andar no tribunal, que tenho de esperar. O que eu sei é que não tenho respostas”, resume.O que lhe vale, diz, é que tem uma neta de 17 meses de outra filha que ajuda a criar. “Dou três beijos à minha neta, ela não percebe porquê, mas é um beijo por cada neto. Tenho saudades dos outros dois. Não há palavras para exprimir a angústia que é estar longe deles. Aquelas crianças não podem ser felizes sem os avós, sem a família paterna. É muito complicado”, desabafa.

Ouve-se a mesma mágoa na voz de Fernanda: “Só eu sei como é sentirmo-nos a morrer aos bocados. Havia vezes em que chorava quando passava por uma loja de bebés, quando via um anúncio com crianças na televisão. Era uma dor. Depois, quando conseguia ver os meus netos, também chorava, chorava, chorava. Sei que não é muito pedagógico chorar em frente deles, mas às vezes não aguentava”, reconhece.

Teresa conta que a primeira decisão do tribunal autorizou o pai e os avós paternos a ver a criança aos sábados, em casa da mãe, entre as 11h e as 18h: “O meu marido [avô], que morreu entretanto, nunca subia. Não conseguia. Eu ia sempre. Queria ver a minha neta”, afirma.

Quando, mais tarde, o pai da menina arranjou trabalho longe de casa e ela deixou de poder ver a neta todos os fins-de-semana, Teresa, que não conduz, continuou a não falhar uma visita. Metia-se no autocarro e ia ver a criança, que vivia a 60 quilómetros: “Ia sozinha, mas ia”. Quando tinha 15 meses, o tribunal entendeu que a criança podia ir a casa dos avós, de 15 em 15 dias: “E nós também podíamos ir ao colégio vê-la quando quiséssemos”, conta ainda.

Dar e não dar tudo

Porém, apesar deste contacto regular, Teresa diz que viveram sempre numa “paz podre” que nunca lhe deixou dar à neta o amor que queria: “Penso que intelectualmente lhe dei tudo o que podia. Como fui professora do ensino primário, levei-a a museus, compro-lhe material escolar, dei-lhe o primeiro computador. Mas emocionalmente não lhe dei tudo”.

Alega que também carrega “uma revolta e uma mágoa”, e não tem “a mais pequena esperança” de que as coisas entre os pais da menina se resolvam: “Tenho muita pena, isto é muito desgastante. Mas, independentemente dos problemas dos pais, o que sei é que eu sou avó e também perdi a minha neta. Estou metida no meio disto tudo. E também sinto que devo defender o meu filho”, justifica.

Hoje enfrenta a adolescência da neta: “Está com 13 anos, é uma fase muito difícil. No Natal veio cá casa, sentou-se no sofá e não tirou a bolsa do colo. Parecia uma estranha que estava de visita. Ela já não se sente bem ao pé de nós. Foi a última vez que a vi, no Natal”, recorda Teresa.

Já o último episódio que Ivone conta refere-se à decisão do tribunal, segundo a qual os avós podiam ver as crianças, mas as primeiras visitas seriam em “terreno neutro”: “Nem em nossa casa nem em casa da mãe. O primeiro encontro seria na Segurança Social, com uma assistente social e uma psicóloga. Recebi a convocatória da Segurança Social em Maio”.

No dia da primeira visita, Ivone preparava-se para sair de casa quando recebeu um telefonema do advogado. Tinha sido contactado pelo advogado da mãe das crianças, que lhe comunicou que a cliente recebera uma proposta de trabalho no estrangeiro e mudara-se, com os miúdos. “Foi em Maio do ano passado. A partir daí nunca mais soube nada deles.”

Todos os nomes das avós retratadas neste artigo são fictícios


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