Reportagem: como a crise grega está a afectar as crianças

Maio 8, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do Público de 29 de Abril de 2012.

Por Maria João Guimarães, em Atenas

A sala de espera do centro de cuidados primários para crianças de Kaisariani é simples: uma secretária com uma telefonista risonha que parece estar lá colada, sofás-pretos-paredes-brancas, dois tons pontuados pelas cores de dois ou três jogos e livros infantis. Lá fora, na grande janela de vidro de onde se vê a rua, um homem pinta umas grades: foram colocadas após dois assaltos. Efeito da crise.

Mas os assaltos estão longe de ser uma preocupação grande neste centro em Kaisariani, um subúrbio de Atenas conhecido por aí se terem concentrado refugiados expulsos da Turquia em 1922. Cada vez cá vêm mais pessoas e cada vez os seus problemas são maiores. Há crianças que não comem antes de ir para a escola – e desmaiam durante as aulas.

Há um ano escolar, entre a primária e o ciclo, em que os alunos devem levar almoço de casa. Mas algumas crianças não estão a frequentar este nível porque os pais não têm nada para lhes pôr na lancheira. Há mães a dizer “o meu bebé chora e eu dou-lhe água”. Quem conta tudo isto é a assistente social Katerina Zolota: “O que é que fazemos? Temos de lhes encontrar leite – agora”, diz, o olhar penetrante por cima dos óculos, avermelhados tal como o cabelo, para sublinhar o efeito do que diz. E aqui o trabalho profissional no centro mistura-se com trabalho voluntário. Katerina já estava envolvida num grupo de acção social, que se dedicava mais aos imigrantes. Agora, dedica-se a todos, imigrantes e gregos. Tenta responder às necessidades que apareceram com a crise, e que são muitas.

Os voluntários vão às populares “tavernas”, ao mercado, às lojas locais, e todos têm contribuído. O que vem dali é distribuído por cabazes conforme as necessidades das famílias. Os cabazes estão no centro, território neutro. “Não queremos dar ajuda na escola para não estigmatizar as pessoas”, diz Katerina. Embora com a crise isto aconteça cada vez menos – agora é Electra Batha, a antropóloga social do centro, a comentar – “porque ninguém sabe se vai ter trabalho amanhã”, diz enquanto põe o cabelo liso para trás da orelha.

A associação sabe quais são as famílias que precisam, porque um voluntário já foi perguntar nas escolas quais os pais que pedem ajuda. Outra equipa angaria dinheiro para pessoas que não conseguem pagar as contas (tudo apontado num livro de contabilidade e contra um recibo, do qual a associação se orgulha, pois a prática de ter registos e passar comprovativos ainda é uma raridade). “Os pais que ajudamos depois ajudam-nos a ajudar”, diz Katerina. “Vão limpar a casa de uma idosa, ou pintam a casa de outra família, por exemplo. As pessoas querem muito ajudar.”

Teste do pezinho em risco

Mas o centro de Kaisariani arrisca-se, como outras instituições de saúde na Grécia, a ficar sem financiamento. A redução do orçamento do Instituto de Saúde Infantil, de que dependem (recebem metade do instituto, metade das autoridades municipais), atrasou em quatro meses o pagamento dos ordenados que tinham já sido cortados em pelo menos 20%. Os salários andam agora na ordem dos 1000 euros, alguns um pouco mais, para pessoas com décadas de experiência, ou com doutoramentos.

Os cortes no Instituto de Saúde Infantil estão também a pôr em causa que todos os recém-nascidos façam gratuitamente o teste do pezinho, uma análise simples em que se tira uma gota de sangue do calcanhar do bebé e que permite verificar se o bebé tem doenças congénitas. O teste é importante porque algumas das doenças são tratáveis, se identificadas.

Não foi, claro, só a saúde infantil a levar uma machadada. A saúde sofreu um corte de 13% em dois anos na Grécia. Nos hospitais, há médicos a relatar falta de tudo: de papel higiénico a seringas. Os mesmos médicos que, diz-se, levavam para casa partes do stock hospitalar de fraldas ou de pensos. E que, ouve-se uma e outra vez, esperam um pagamento extra dos pacientes. Mas já ninguém se queixa disto. Queixam-se de estar a ficar sem coisas básicas.

Um exemplo: várias farmácias de hospitais fecharam, e as que resistiram deixaram de ter alguns medicamentos ou exigem dinheiro mesmo a quem tem seguro ou segurança social, por medo de não serem reembolsadas. Medicamentos para o cancro de repente não existem (ou os médicos não os receitam, por serem demasiado caros). O cancro parece o exemplo mais chocante mas não é o único. “Tínhamos aqui uma mãe com um problema psiquiátrico que correu sete farmácias de hospitais – sete! – e não encontrou o medicamento de que precisava”, conta Katerina. “E toda a gente sabe como é perigoso parar a medicação nestes casos.”Além de tudo isto, como as contribuições para a saúde são feitas pelo empregador, quem fica desempregado pode usar os serviços mais um ano… “e depois não tem direito a nada”, diz Electra. Mesmo quem tem segurança social deve pagar cinco euros de taxa e uma parte do tratamento no sistema público. Há relatos de mulheres que não têm dinheiro para pagar o parto – ficam sem certificado de nascimento do bebé.

As crianças que não nascem

Os cortes no Instituto de Saúde Infantil também significam que, nos últimos quatro meses, o centro pagou apenas meio mês de salário. A assistente social tem, agora, de ser ajudada: Katerina tem dois filhos, um no liceu e outro na universidade, que sustenta sozinha. “Tenho outro emprego, de aconselhamento de pais, três vezes por semana. Esse paga-me a renda. O resto, a minha mãe ajuda-me. Vejam lá, com esta idade”, dispara. Mas não diz a idade, nem perde o ar bem-disposto. Aliás, é desconcertante como conversam sobre tudo isto. Há indignação, claro, não há sinais de desespero ou depressão – não se percebe se será por optimismo ou orgulho.

“O que havemos de fazer?”, suspira Katerina, e encolhe os ombros. “Este não é um trabalho em que possamos dizer “vão embora e venham quando houver dinheiro”.” Ainda falamos das eleições do próximo domingo, mas elas preferem não dizer as suas posições políticas num artigo sobre a sua vida profissional.

As crianças estão a ser muito afectadas pela crise. Não são só os desmaios, a falta de comida e de cuidados de saúde. É também a depressão e desespero dos pais, sublinha Giota Mavrika, responsável pelas visitas domiciliárias do centro de saúde, até aqui mais calada do que as faladoras Katerina e Electra. “Perguntámos a uma criança da 4.ª classe o que é que ela queria. Normalmente dizem “um campo de férias”, “o meu prato preferido”, ou “um jogo de vídeo”. Esta disse: “Quero que a crise económica passe”.”

E há ainda as crianças que ficam por nascer, nota Electra. “As pessoas hesitam em ter filhos. Uma amiga minha de 38 anos abortou. Ela já mal consegue sobreviver com o que ganha… como ia sustentar uma criança?”

Abril: Mês da prevenção dos maus tratos na Infância Crónica de Dulce Rocha na revista Visão

Maio 8, 2012 às 3:19 pm | Publicado em A criança na comunicação social, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica quinzenal da Drª Dulce Rocha, Vice-Presidente do Instituto de Apoio à Criança, na revista Visão de 20 de Abril de 2012.

É por isso que o julgamento do norueguês que assassinou dezenas de jovens e planeou matar todo o Governo está a provocar mais estranheza do que repulsa. As pessoas não querem acreditar que o ser humano é capaz das maiores atrocidades e por isso tratam sempre a violência como se fosse um fenómeno esporádico.

Creio que será também uma das causas para que não haja uma diminuição mais sensível da violência no Mundo, porque não se adotam mais medidas preventivas e se continua a apostar essencialmente na punição que obviamente só tem lugar depois de haver crime, com vítimas concretas.

A propósito de um vídeo que circulou na internet mostrando uma rapariga de 17 anos portadora de deficiência a ser violada por sete homens na África do Sul, a BBC referiu uma pesquisa recente que dava conta de que um em cada quatro homens do País de Mandela confessava já ter violado uma mulher.

Apesar de no ano passado ter havido 66.000 queixas por violação na República da África do Sul, é óbvio que a grande maioria das vítimas não denuncia os crimes.

Este é o panorama em muitos dos Países do Mundo. Inquéritos de vitimação feitos nas últimas décadas têm concluído que mesmo nos Países em que seria improvável uma estatística tão desastrosa, como na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, um terço das mulheres inquiridas referiam ter sido durante a sua vida, de alguma forma, vítimas de violência sexual, aumentando esta percentagem se as pesquisas incluissem todo o tipo de violência.

Desde os anos oitenta que a Organização Mundial de Saúde considera a violência interpessoal o maior problema de saúde pública do Mundo, estimando que todos os anos 1,6 milhões de pessoas morram devido a ela, sendo na sua maioria mulheres e crianças.

Desde a Mutilação Genital feminina aos maus tratos conjugais, desde o abuso sexual perpetrado sobre as crianças à violência emocional e psicológica que compromete o bem-estar e o desenvolvimento saudável das vítimas, todos os dias somos confrontados com notícias que nos interpelam no sentido de adotarmos medidas que previnam essas condutas que tornam tantos seres humanos infelizes, com lesões físicas sérias de que por vezes resulta a morte.

Temos consciência que a contribuição de cada um pode não ser decisiva porque não detemos poder suficiente. O negócio da pornografia infantil como o do tráfico de pessoas move milhões de dólares por dia, mais do que o negócio das armas, mas penso sempre que podemos contribuir para uma maior censurabilidade de atos que se traduzem na violação de bens jurídicos fundamentais e creio que essa maior censura social permitirá uma diminuição desses verdadeiros atentados aos direitos humanos pelo menos junto daqueles que estão mais perto de nós.

A iniciativa que a Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens em Risco em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação de Mulheres contra a Violência têm levado a cabo desde há três anos, assinalando Abril com um ciclo de cinema como Mês da Prevenção dos Maus Tratos na Infância, merece uma felicitação especial, tanto mais que associar entre nós o mês de Abril a mais esta causa nobre tem um significado ainda mais especial.

Nota: Na crónica anterior escrevi convencida que já tinha sido revogada a Lei da Adoção na Tunísia. Soube entretanto que afinal, apesar de anunciada, essa pretensão do Partido atualmente no Poder, ainda não foi concretizada. Faço votos para que a força da razão impeça essa verdadeira regressão. O direito das crianças a uma família que as ame deveria ser universal.

Portugal 2012 – Que adolescentes? Que adolescências?

Maio 8, 2012 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Curso e Debatever notícia Curso e Debate

Tema:

Que Adolescentes? Que adolescências?

Cordenação: Prof. Doutor Mário Cordeiro

Participação de Especialistas da área da Saúde e das Ciências Humanas, Jornalistas entre outros.

Auditório da Câmara Municipal de Óbidos

(Quinta-feira 10de Maio de 2012 Das 9h30- 16h30)

Incrições feitas aqui na nossa clínica através do telefone : 262 823 096

E-mail: geral@etcsaude.pt

Preço: 50€

Curso de Formação EYE Opener – TC On Empowerment on Youth Exchanges

Maio 8, 2012 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Curso de Formação

17 – 22 de Julho 2012 | Gerês | Portugal

EYEOPENER oferece uma experiência de aprendizagem internacional a jovens e pessoas que trabalham com jovens, facilitando que estes desenvolvam as suas competências na prática de Intercâmbios Juvenis no âmbito do Programa Juventude em Acção.

Os objetivos de EYEOPENER são:

– Proporcionar conhecimentos e informação sobre o Programa Juventude em Acção, em especial sobre os Intercâmbios Juvenis e sua capacidade para desenvolver cidadania (Europeia) ativa, especialmente (mas não exclusivamente) para novos utilizadores do programa;

– Proporcional uma experiência de aprendizagem individual e em grupo através de um processo de simulação do desenvolvimento de um projeto de Intercâmbio Juvenil;

– Desenvolver o conhecimento necessário, habilidades e atitudes para organizar um Intercâmbio Juvenil, baseado em práticas, princípios e padrões de qualidade de Educação Não Formal;

– Permitir que os participantes reflitam na sua aprendizagem e se familiarizem com o Passe Jovem – estratégia de reconhecimento de aprendizagem não formal na área da juventude, a sua ferramenta de produção de certificados e a sua aplicação a Intercâmbios Juvenis em particular e ao Programa Juventude em Acção em geral;

– Proporcionar a oportunidade de encontrar eventuais grupos parceiros e fazer contactos com outros países;

A principal finalidade é formar pessoas e a finalidade específica é oferecer aos participantes a oportunidade de encontrar parceiros. Outras coisas, como conhecer outras realidades, não é uma finalidade, mas um (bom) efeito colateral.

Atividade recomendada para
Técnicos de Juventude, líderes juvenis, líderes políticos.  1 Líder juvenil/ técnico + 1 ou 2 jovens (estes com idade entre os 15 e os 18).

Condições de participação
Custos de acolhimento (alimentação e alojamento) e programa são suportados pela Agência Nacional Portuguesa do Programa Juventude em Acção aos participantes selecionados.

Prazo de candidatura
11 de Maio de 2012

Língua de trabalho
Inglês

Mais informações e inscrições online:
http://www.salto-youth.net/tools/european-training-calendar/training/eye-opener-tc-on-empowerment-on-youth-exchanges.2537/

Alunos portugueses com baixa auto-estima escolar

Maio 8, 2012 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do i de 3 de Maio de 2012.

Por Marta F. Reis

Estudo internacional patrocinado pela OMS testemunha obesidade nos jovens portugueses

Não estão entre os que mais horas passam a ver televisão. Começam a fumar mais tarde – 16% das raparigas e 19% dos rapazes com 15 anos dizem ter experimentado pela primeira vez um cigarro aos 13 ou mais cedo e em países como França, Espanha ou Alemanha, a percentagem supera os 20%. Aos 15 anos, as portuguesas estão entre as que admitem menos vezes beber pelo menos uma vez por semana (só 6% o fazem e na Grécia, no topo da tabela, são 34%). Os últimos dados comparáveis sobre saúde e bem-estar dos adolescentes em 40 países da Europa, de Israel, dos EUA e do Canadá – no âmbito do estudo da OMS “Health Behaviour in School-Aged Children” (HBSC) – foram divulgados ontem. Os jovens portugueses surpreendem por ser dos que tomam mais vezes o pequeno-almoço e consomem mais fruta, mas estão entre os que se sentem menos vezes bons alunos e mais pressionados pela escola. São também dos que reportam mais problemas de obesidade.

O estudo contou com entrevistas a 200 mil adolescentes de 11, 13 e 15 anos, em 2009 e 2010, sendo 4036 portugueses, num trabalho coordenado por Margarida Gaspar de Matos, da Universidade Técnica de Lisboa. Portugal surge “confortavelmente” a meio na tabela e há melhorias a assinalar, diz ao i a investigadora. É o caso dos resultados sobre vida sexual ou violência na escola.

Apesar de vários estudos sugerirem o início precoce da vida sexual, aos 15 anos só 18% das raparigas e 27% dos rapazes admitem já ter tido relações. Aos 15 anos, 84% das raparigas portuguesas dizem ter usado preservativo na última relação sexual. Na Suécia apenas 58% o fizeram. E nos indicadores de bullying Portugal surge em 10.o lugar, com menos jovens a dizerem que estiveram envolvidos em lutas: 3% das raparigas e 18% dos rapazes com 13 anos estiveram envolvidos em pelo menos três episódios de violência física. Em Espanha as percentagens são de 23% e 28%.

Os piores indicadores permanecem em problemas que já tinham sido diagnosticados pelo projecto, que inclui Portugal desde 1998, alerta Gaspar de Matos. Apenas 61% das raparigas de 11 anos e 57% dos rapazes dizem ter um desempenho escolar bom ou muito bom (a média dos países é de 77% e 71%). Aos 13 anos, os jovens colocam Portugal como o penúltimo país (só atrás da Alemanha) onde há mais baixa auto-estima escolar. Embora os resultados nacionais não sejam assim tão maus – e os estudos sobre educação da OCDE demonstram que têm melhorado – há outro indicador preocupante: aos 15 anos os jovens portugueses são os segundos que se dizem mais pressionados pelas tarefas escolares, sobretudo as raparigas.

Sobre os indicadores de obesidade, Gaspar de Matos acredita que é cedo para perceber como vão evoluir, embora seja a primeira vez que Portugal surge tão acima: aos 13 anos, 22% dos rapazes e 13% das raparigas reportam excesso de peso, a quarta maior incidência. Para a investigadora, mais premente é o reforço da actividade física, sobretudo nas raparigas de 15 anos: só 6% dizem fazer exercício físico moderado a intenso pelo menos uma hora por dia, o que põe Portugal na cauda da Europa, com França, Suíça e Itália.

 

 


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