Definição de autismo está a ser revista e deverá reduzir número de diagnósticos

Janeiro 28, 2012 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 21 de Janeiro de 2012.

Romana Borja-Santos

 As linhas orientadoras para a nova definição passam por abolir a palavra “autismo”ou “Asperger”, falando-se só em “perturbações do espectro do autismo.

O autismo, uma perturbação do desenvolvimento que se manifesta normalmente durante a infância, passou de uma doença quase desconhecida a um “surto” de diagnósticos, motivo que está a levar a Associação Americana de Psiquiatria a reformular a definição de autismo e de outras patologias do mesmo espectro. A mudança deverá traduzir-se numa redução do número de diagnósticos – o que segundo os especialistas pode ser um passo positivo. Porém, a ser assim, os apoios escolares que dependem deste diagnóstico também ficariam em causa.

A variedade de sintomas e formas de manifestação são tão diversas que o autismo ou outras perturbações mais ligeiras, como a síndrome de Asperger, esbarram em dois problemas: ou não são reconhecidos pelos médicos, ou são diagnosticados sem justificação. As linhas orientadoras para a nova definição – que será concluída até final de 2012, no âmbito da quinta revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais, que serve de referência mundial – foram apresentadas na quinta-feira num encontro da Associação Médica da Islândia e passam por abolir a palavra “autismo” ou “Asperger”, falando-se só em “perturbações do espectro do autismo”, refere o New York Times.

O problema é que os critérios passam a ser mais apertados para separar o “pouco usual” de uma verdadeira “perturbação”, e as crianças têm obrigatoriamente de apresentar, por exemplo, dois comportamentos repetitivos (um dos estereótipos mais associados a este distúrbio, mas que nem sempre estão presentes). Contactada pelo PÚBLICO, a pedopsiquiatra portuguesa Áurea de Ataíde explica que, na prática clínica, existe desde “há muito o conceito de ‘perturbações do espectro do autismo’”. Há também dificuldades em distinguir as várias perturbações, “principalmente quando se trata de crianças muito pequenas”. Por isso, a redefinição do conceito poderá vir a facilitar a vida dos médicos. Por outro lado, a especialista salienta que “a eterna dificuldade em psiquiatria em estabelecer a linha entre o que é invulgar e o que é perturbação vem talvez ser acentuada pelo desaparecimento das diferentes categorias, nomeadamente da síndrome de Asperger, na qual se enquadram muitos dos casos em que as capacidades cognitivas, de linguagem e nível de funcionamento” são menos afectadas. No encontro da Islândia foi dado a conhecer um estudo da Universidade de Yale que estima que o número de pessoas com critérios para um diagnóstico do espectro do autismo seja reduzido para metade. Nos Estados  Unidos, onde a maior parte da população depende de seguros privados de saúde, a mudança poderá ter impactos desastrosos nas famílias, que verão recusadas terapias a crianças com necessidades especiais, mas sem autismo. Actualmente, estima-se que naquele país uma em cada 100 crianças tem um diagnóstico do espectro do autismo. Catherine Lord, da Associação Americana de Psiquiatria, citada por diferentes jornais americanos, garantiu que o único objectivo é clarificar os casos e não retirar ajudas. Áurea de Ataíde diz que a situação em Portugal é muito diferente, porque existe um sistema público de saúde e de educação. A especialista concretiza que em Portugal não é necessária a designação “autismo” para conseguir que uma criança tenha apoio na escola. A presidente do conselho executivo da Federação Portuguesa de Autismo Isabel Cottinelli Telmo, considera “necessária” a mudança do conceito de autismo, para não se cair em “diagnósticos empolados”, quando se incluem “todas as pessoas excepcionais ou com idiossincrasias, por exemplo, na síndrome de Asperger”. E conclui: “O que interessa são as necessidades das pessoas, mais do que os rótulos.”

 Critérios de diagnóstico

 Uma longa lista de sintomas para identificar

Problemas na interacção social, atraso no desenvolvimento da linguagem, comportamentos repetitivos e adesão inflexível a rotinas são apenas alguns dos pontos que actualmente fazem parte dos critérios de diagnóstico do autismo ou de outras patologias do mesmo espectro definidos no IV Manual Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais, que até ao final do ano deverá ter a sua quinta edição. O autismo é uma perturbação neuropsiquátrica global do desenvolvimento infantil que se prolonga por toda a vida e evolui com a idade, revelando boas respostas a algumas terapias. A pedopsiquatra portuguesa Áurea de Ataíde clarifica que é muito importante uma aposta num diagnóstico precoce bem feito para, se necessário, se poder começar uma intervenção especializada: “Pode ser muito grave para uma família a realização ‘leviana’ de um diagnóstico como este, que tem um peso emocional, familiar e social importantíssimo.” Por isso mesmo, só por volta dos três anos de idade é possível chegar a um diagnóstico mais fidedigno, visto que as perturbações do espectro do autismo implicam a observação do comportamento da criança e não existe nenhuma análise que confirme a patologia, apesar de alguns avanços em estudos genéticos. Assim, para ser confirmado um diagnóstico devem existir seis ou mais sintomas de uma longa lista que refere, por exemplo, dificuldades no contacto visual directo, fracasso no desenvolvimento de relacionamentos, atraso ou ausência total na linguagem falada, ausência de jogos e brincadeiras de imitação social próprios do nível de desenvolvimento, insistência em actividades isoladas, rituais específicos e maneirismos motores, como agitar ou torcer mãos ou dedos. R.B.S.


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