A televisão pode motivar a prática da violência

Novembro 18, 2011 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Notícias TV de 28 de Outubro de 2011.

 Quatro especialistas em comportamentos infantis afirmam que a TV influencia a atitude das crianças. Imagens como o cadáver de Kadhafi ou o rapaz a andar de skate na estrada podem levar à violência infantil.

De que forma é que a televisão pode influenciar o comportamento das crianças? Na semana em que os meios de comunicação noticiaram o suicídio de uma criança de 10 anos, alegadamente por ter sido vítima de pressões e bullying por parte dos colegas da escola, a NTV ouviu alguns especialistas. “Gosto muito que a comunicação social divulgue este tipo de circunstâncias, para termos conhecimento, mas confesso que fiquei surpreendido quando vi, na terça-feira, uma reportagem da RTP a partir da escola onde estudava essa criança. A divulgação pouco cuidadosa pode deslumbrar. Se a criança estiver na corda bamba, pode ajudá-la a ser violenta por causa do mediatismo”, explicou o pedopsiquiatra Eduardo Sá.

Da mesma opinião é o colega de profissão Mário Cordeiro, que acredita que a televisão tem alguma influência nas atitudes das crianças e adolescentes. “Realmente a televisão, a Internet, os ecrãs em geral, têm influência na vida diária deles. Há modelos que passam na televisão que as pessoas tendem a imitar. Se assim não fosse, não havia publicidade como a conhecemos. Por exemplo, se aparece uma cena num filme ou numa série, ou o que for, que mostre uma cena de pancada, tem de se mostrar a cara da vítima a sangrar, um carro da polícia a chegar, algo que mostre a consequência daquele acto para que a criança fique do lado da vítima”, alertou o pedopsiquiatra. Eduardo Sá vai mais longe e dá como exemplo as imagens que passaram em todo o mundo do cadáver de Kadhafi. “Fizeram da violência uma festa sem explicar o que se passa. Não se pode permitir que se mostre este tipo de imagem, um cadáver como troféu. A criança e adolescente não entendem. E estamos a dizer-lhes que afinal pode praticar-se o crime e a violência salvo raras excepções, mas não se explica em que contexto.” Contudo, Eduardo Sá alerta: “É evidente que uma criança não se suicida apenas porque estava a ser vítima de bullying, naturalmente que está inserida numa mistura ou de problemas familiares e na escola… Não é a televisão que converte as crianças em miúdos maus. Mas pode influenciar. Lembro-me de que Bugs Bunny não era o desenho animado mais cavalheiro… isto não é um problema de hoje.”

Teresa Paixão, responsável pela programação infantil na RTP2, garante que não se recorda de nenhum programa em emissão actualmente que potencie a violência infantil. “Acompanho bastante os canais e posso dizer, com toda a certeza, que nunca vi nenhum canal de televisão que estimulasse os meninos a praticarem bullying. Agora, há outra coisa, nós compramos programas que são contra esses comportamentos violentos. A série diz que é feio espicaçar as pessoas, gozar, mas a abordagem que é feita pode ter o efeito contrário. E isso é perigoso e pode virar-se contra nós”, admite a programadora de televisão, deixando escapar: “A televisão pode influenciar as crianças em todos os comportamentos, sejam eles bons ou maus. Mas a televisão não é a única coisa que as pessoas vêem. Antes de existir televisão, as crianças já se espancavam. Antigamente eram chamados para fazer duelos. Tudo tem que ver com a educação. Agora tem é outro nome e é mais noticiado…”

Numa coisa os três especialistas estão de acordo. A série Morangos com Açúcar (TVI) “muitas vezes tem o problema da abordagem”. “Eles até tratam temas que não são abordados na televisão pública, porque nós não arriscamos, mas tenho a sensação de que estão cada vez pior, já foi mais bem feito”, afirma Teresa Paixão à Notícias TV.

Para Cristina Pontes, investigadora de televisão e comportamentos infantis, o assunto é muito complexo e “é mais do que um sim ou não”. Mas admite que mostrar imagens violentas pode causar o efeito de imitação. “As crianças de bullying fazem parte de relações. Não é novo e não começou na televisão. Em muitos casos, os agressores também foram vítimas. Claro que os media não ficam de fora. As crianças não são todas iguais e os conteúdos são vistos de maneiras diferentes. O efeito de um jornal não é o mesmo de um desenho animado. Pode ter o efeito de imitação para quem está mais fragilizado. Tudo depende de como é motivado, como foi noticiado. Mas isso não é uma inevitabilidade”, diz.

Mário Cordeiro dá outro exemplo de como a televisão pode influenciar negativamente a atitude dos mais novos. “As imagens do rapaz que andou de skate na estrada que no fim terminava com ele a cair e que o celebrizou com a frase ‘O medo a mim é uma coisa que não me assiste’. Devia ter aparecido a polícia, devia haver uma chamada de atenção que isto não se faz. Ele foi tido como herói quando colocou a vida dele e a dos outros em risco. E ainda por cima passou para a publicidade (Meo). É preciso uma base para que a violência no ecrã faça efeito.”

Os dois pedopsiquiatras insistem que o problema-base da violência é uma questão genética e decorre também da situação familiar. “Existe violência familiar, violência doméstica, as crianças podem ser reprimidas em casa e transportar tudo isso para a escola. Elas muitas vezes deviam ser protegidas dos próprios pais”, afirma Eduardo Sá.

Mário Cordeiro condena a televisão babysiter e alerta para a importância de os pais se sentarem a ver televisão ao lado os filhos para lhes explicar o que estão a ver. “Muitas vezes, para não se chatearem, ligam o televisor para que os filhos se divirtam. Tem de haver uma explicação do que é certo. E há outro problema: o jogos que se compram e que põem uma criança a matar pessoas apenas para ganhar pontos. Não se entende este estímulo a comportamentos inqualificáveis”, conclui.

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