Brincadeiras: dos campos para o corrupio institucional

Agosto 22, 2011 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do portal Educare de 3 de Agosto de 2011.

Sara R. Oliveira

Tese de doutoramento percorre quatro gerações para mostrar que a vida lúdica dos mais novos mudou substancialmente. O investigador Alberto Nídio fala numa espécie de regresso às cavernas: os miúdos fecham-se cada vez mais num refúgio cheio de tecnologia que mostra o mundo num ecrã. A escola a tempo inteiro também entra nesta história. Que trajetos temporais se revelam nas práticas sociais de uso de jogos, brinquedos e brincadeiras conhecidas a partir dos testemunhos de várias gerações de atores? Esta é a pergunta de partida da tese de doutoramento de Alberto Nídio Silva, investigador do Centro de Investigação em Estudos da Criança da Universidade do Minho. Durante quatro anos, percorreu memórias, recolheu testemunhos de quatro gerações vivas, percebeu que as brincadeiras mudaram com a rapidez da sociedade. E tirou conclusões. Os brinquedos artesanais, as correrias em campos e montes, as aventuras com os vizinhos na rua, foram desaparecendo do mapa das brincadeiras. Os brinquedos industriais preenchem agora as prateleiras dos centros de consumo, os quartos das crianças encheram-se de tecnologia, as respostas institucionais roubam tempo às famílias. O que mudou? Muita coisa.
Alberto Nídio ouviu atentamente dez famílias do meio urbano de uma pequena vila do interior e do meio rural intermédio, num total de 100 entrevistados, dos 5 aos 100 anos, e recorreu a registos fotográficos da Fototeca do Museu Nogueira da Silva e do Museu da Imagem, em Braga, para deixar o contraste vir ao de cima. O contraste do “lastro urbano que hoje engoliu espaços brincantes de antanho”. Jogos, Brinquedos e Brincadeiras – Trajetos Intergeracionais é o nome da sua tese de doutoramento apresentada na Universidade do Minho.

A vida lúdica das crianças mudou e sociedade foi virada do avesso. As mães já não ficam em casa a tomar conta dos filhos, à espera do regresso da escola. As ruas já não são palco de brincadeiras, os brinquedos já não são guardados com tanto cuidado, as escolas e as instituições privadas e públicas existem para dar respostas aos tempos que os pais passam fechados no trabalho. Obrigatoriamente, o circuito teve de mudar.

“O tempo de acesso quase ilimitado das crianças ao espaço público urbano e à Natureza no estado selvagem, pelos campos e montes, privados ou maninhos, embora não subjugado a nenhum formato em particular, fez-se predominantemente em grupo, por muito tempo constituído pela fratria, até há duas gerações atrás muitas vezes numerosa, os vizinhos porta com porta, do bairro ou da rua na cidade, e no sítio, lugarejo ou lugar na aldeia, e os demais colegas de escola, catequese, escutismo e doutros locais onde formalmente as crianças privavam, que se encontravam de forma espontânea ou entre elas convencionada para por aí informalmente viverem as suas aventuras lúdicas”, lembra o investigador no seu trabalho.

O tempo informal para brincar diluiu-se. As novas tecnologias tomaram de assalto uma sociedade ávida por respostas rápidas. E o site acabou por substituir o sítio. “A impossibilidade de ter as crianças por casa durante as longas jornadas de trabalho dos pais, o medo de as ter fora de casa à mão de uma sociedade que se tornou delas madrasta e o assalto que foi, por todos os lados, feito ao espaço público, cada vez menos lugar antropológico e mais passagem apressada de pessoas que parecem fugir umas das outras são, com toda a certeza, razões incontornáveis para explicar o estado do problema quando de brincadeira livre e espontânea das crianças, outdoor, falamos”, sublinha o investigador ao EDUCARE.PT.

“Engavetaram-se as crianças”
Alberto Nídio fala num regresso às cavernas. As ruas, os campos, os montes e os rios deixarem de ser locais de encontro nas horas das brincadeiras. Os quartos tornaram-se cavernas, num “refúgio de luxo conetado com todo o mundo”. E assim as crianças perdem o apetite para saírem de casa e se encontrarem com os amigos, com os vizinhos. “Afastadas de padrões de socialização poderosos, como os são os que subjazem ao mundo da brincadeira livre e espontânea e do convívio e aprendizagens interpares na gandaia da vida, é com esse novo estilo que vão chegar à sua adultez, pouco ajeitadas com as virtualidades da partilha, do convívio, do conhecimento do lugar do outro, da solidariedade, da compreensão da diferença, da resiliência e das mais variadas formas de sociabilidade de que é feito o quotidiano dos indivíduos”, sustenta. Dessa forma, na opinião do investigador, os padrões de socialização ficam mais empobrecidos.

As políticas públicas têm descurado o ato de brincar no processo de socialização? A resposta é afirmativa e o panorama é descrito como “preocupante”. Os espaços residenciais engoliram muitos solos outrora ocupados por brincadeiras. E a escola também não escapa à análise do trabalho. “Engavetaram-se as crianças em instituições de toda a espécie, com a escolar a tomar paulatinamente conta da maior fatia, sem cuidar de saber como o devia fazer sem ferir gravemente a especificidade da vida das crianças que até si vão e que, certamente, não passa apenas por cargas sucessivas de atividades curriculares, formatadas e comandadas por adultos que nem as deixam respirar.”

A escola a tempo inteiro é apresentada como uma lufa-lufa. O monitor do ATL recebe as crianças ainda antes das oito da manhã, às nove chega o professor da turma que ensina os mais novos até às quatro da tarde, com intervalo para almoço, depois chega o docente das Atividades de Enriquecimento Curricular, ao final da tarde o monitor do ATL volta a tomar conta dos mais novos que continuam o trabalho da escola até às sete da tarde. É hora de ir para casa, continuar o trabalho da escola, tomar banho, jantar, dormir. A rotina repete-se no dia seguinte. Alberto Nídio refere que, “de certo modo, a vida destas crianças infernizou-se e está seriamente amputada de uma vivência quotidiana com a dimensão do mundo encantado da brincadeira e das mil e uma confabulações que nele e dele cada uma delas, de per si ou em conjunto, ardilosamente erguia a cada instante de uma forma, quantas vezes, admiravelmente espontânea”.

Por isso, o investigador escreve que a escola a tempo inteiro, no formato que tem funcionado na maior parte dos sítios, “é a maior das inimigas da vida lúdica das crianças”. Na sua tese de doutoramento sublinha, a propósito, que “a filosofia que presidiu à formatação da chamada ‘escola a tempo inteiro’ sepultou a expectativa com que por aí chegamos a vislumbrar a possibilidade de se abrirem corredores de passagem de atividades desestruturadas das crianças para seu uso discricionário, onde, naturalmente, a brincadeira iria por vontade de todas elas ocupar lugar primordial. Na verdade, a escola não estava a cumprir uma obrigação que por dever de função não podia desconhecer, mas, sim, defender e valorizar”.

O paradigma mudou e os pais também têm o seu papel. Tirar os filhos dos quartos e levá-los a parques e espaços onde possam brincar e usar o corpo e a mente, a destreza e a argúcia. “As crianças precisam de se voltar a juntar informalmente fora de casa e longe da tutela dos adultos para vivenciarem a sua própria sociedade, com as suas idiossincrasias, vivendo e bebendo com liberdade e plena autonomia as incontáveis brincadeiras, regradas, inventadas ou circunstancialmente metamorfoseadas entre elas para melhor encaixar neste ou naquele perfil lúdico feito de argúcia com que as artes de fazer se ajeitam para lograr levar a melhor sobre o parceiro da contenda lúdica.”

Mesmo com uma sociedade mais tecnológica e com menos horas para passar tempo de qualidade com os mais próximos, as crianças nunca deixarão de brincar. As brincadeiras têm sempre espaço no tempo social dos mais pequenos. No entanto, a sociedade tem de saber proporcionar-lhe esses tempos livres. “O homo ludens não perecerá nunca porque jogar e brincar constitui um ato cultural inato ao ser humano, que o faz praticamente desde o dealbar da vida e o mantém ao longo de toda ela, até que se gaste o ciclo que a enformou”, sustenta o investigador ao EDUCARE.PT.

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