Reflexos do recém-nascido

Julho 18, 2011 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Artigo da Pais & Filhos de 30 de Junho de 2011.

Os gestos e actos voluntários são comandados pela substância cinzenta do cérebro. Partindo do cérebro, a ordem motora atinge a substância
branca da medula, passa para os nervos raquidianos e atinge o órgão-alvo, determinando sua reacção. O acto reflexo, ao contrário, é comandado pela substância cinzenta da medula e é realizado antes que o cérebro tome conhecimento dele.

Os recém-nascidos têm reflexos vários que são a tradução do nosso passado antropológico, que se vão atenuando, com o tempo, pela aprendizagem social e a habituação, mas qualquer pessoa, mesmo na idade adulta, se sentir disritmia fica alerta: imaginem que estão numa sala de concertos, tranquilamente a ouvir música. Se sentirem que, lá atrás, chegou alguém que diz umas palavras ao ouvido de outra pessoa e que três ou quatro se levantam, ficamos de imediato em alerta, incapazes de prestar atenção ao que quer que seja, a não ser tentar descobrir onde é a saída de emergência mais próxima… mesmo sem saber o que se passou realmente lá atrás. No que toca aos reflexos do recém-nascido, que descreverei, muitos deles vão desaparecendo à medida que o cérebro se organiza e que o bebé é, digamos, trazido ao século XXI. No entanto, alguns permanecem na idade adulta e outros podem reaparecer, como o chamado sinal de Babinski que surge  novamente quando, por exemplo, a pessoa tem um AVC.

Diga-se também que os reflexos de que estamos a falar não chegam ao córtex cerebral mas ficam apenas na espinal medula, sendo o conjunto estímulo-reacção independente da vontade. A sua presença, no recém-nascido, é um sinal de que o sistema neurológico está a funcionar bem. Por outro lado, convenhamos, é uma coisa que ainda entusiasma os pais, parecendo quase mistério.

À nascença, o cérebro de um bebé pesa entre 300 e 400 gramas, quatro vezes menos que o de um adulto. Para que se desenvolva  completamente, é preciso que todas as células nervosas estejam cobertas por uma substância branca gordurosa que se designa por
mielina. Essa camada é a responsável pela transmissão de impulsos nervosos do cérebro para o corpo. Sem ela, como acontece nas chamadas «’doenças desmielinizantes» (esclerose múltipla, síndroma de Guillan-Barré, leucodistrofi a e muitas outras), o diálogo entre o sistema nervoso e os órgãos efectores (músculos, etc.) fica prejudicado.

O processo de mielinização começa no segundo trimestre de gestação, atinge seu período mais intenso quando a criança tem oito meses e continua até ao final do segundo ano de vida, embora durante toda a vida haja processos de mielinização. Os reflexos primitivos ou ancestrais desaparecem quando a maioria das células está já coberta por mielina, melhorando progressivamente a capacidade de fazer movimentos voluntários. Ao longo do primeiro ano de vida observa-se esse fenómeno em idades-chave: sorrir, segurar a cabeça, voltar-se, sentar-se, gatinhar, controlar os movimentos da mão e tanta coisa mais. A mielinização do sistema nervoso central faz-se no sentido cefalo-caudal, ou seja, «da cabeça aos pés», e é por isso que a ordem não é aleatória: o bebé primeiro segura a cabeça e só depois se senta e só depois gatinha e anda.

Os movimentos reflexos começam ainda na gravidez, entre a 28ª e a 35ª semanas – um exemplo típico é a sucção, que representa a sobrevivência porque sem ela a alimentação é impossível, e que é patente ainda na vida intra-uterina (basta ver, na ecografia, o bebé a chupar no dedo). A sucção, por ser rítmica e ancestral, acalma os bebés (e as pessoas, em geral) e por isso é que as chupetas têm tanta saída (mesmo que atrasem o desenvolvimento da capacidade de lidar com a solidão e com o stresse).

Mais do que uma exibição do bebé, os reflexos são, repito, sinais que contribuem para a avaliação do estado de saúde do bebé.

Ler o resto do artigo Aqui

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: