Mãe depois dos 35 anos

Maio 21, 2011 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do i de 13 de Maio de 2011.

Fotografia de Ricardo Meireles

Fotografia de Ricardo Meireles

por Maria Catarina Nunes

Os últimos números do Plano Nacional de Saúde mostram que as mulheres têm filhos cada vez mais tarde. O objectivo era inverter a tendência

A boa notícia chegou quando Cristina Gonçalves já tinha dado o caso por encerrado. Há muito que tentava engravidar e não conseguia. Foi por isso que suspendeu os tratamentos de fertilidade a que se submetia há sete anos e decidiu que ia adoptar uma criança. No dia em que Cristina Gonçalves e o marido, Carlos Nunes, foram à primeira (e única) reunião de adopção, fizeram uma descoberta inesperada: Cristina estava grávida de sete semanas. “Nem queria acreditar. Só quando fui ao médico e ouvi o coração do Afonso bater é que tive a certeza.” Cristina, 39 anos, ia ser mãe pela primeira vez, fruto de uma gravidez natural.

O Plano Nacional de Saúde (PNS) estabeleceu, para 2010, uma meta inferior a 14,6 nascimentos por cem nados vivos em mulheres com 35 anos ou mais. Mas os resultados não são os esperados e os casos de maternidades tardias são cada vez mais frequentes. A taxa de nascimentos em mulheres com mais de 35 anos aumentou em todas as regiões de Portugal Continental. De acordo com dados do PNS, em 2004 nasceram 15,7 bebés de mães a partir dos 35 anos. Em 2009 esse número já tinha atingido os 20,6 nascimentos, por cada cem nados vivos.

O investigador do serviço de genética da Faculdade de Medicina do Porto, Mário de Sousa, explica que o mais preocupante nas gravidezes tardias é o envelhecimento dos ovócitos. Recordando que uma mulher perde, a partir da primeira menstruação, cerca de 20 a 30 ovócitos todos os meses, o especialista em medicina de reprodução mostra-se mais preocupado, não com a sua diminuição, mas com o facto de serem mais velhos: “Estão lá desde que a mulher nasce. Se ela tem 35 anos, é essa a idade dos ovócitos.” E se nós envelhecemos e desenvolvemos doenças, os ovócitos podem originar erros genéticos, que estão na base das trissomias.

Mário de Sousa defende que as mulheres “devem ter filhos, mas desde que a vida assim o permita”. É por isso que afirma: “O governo fez um país onde isto não pode acontecer. Não há dinheiro, nem famílias, nem filhos mais cedo”, argumenta.

O Afonso tem apenas um mês de idade e Cristina fala ao i com o filho ao colo, entre choros de bebé e hesitações próprias de ser mãe pela primeira vez. Confessa que a gravidez foi regada com muita ansiedade: “Não pelo parto, mas porque nesta idade há mais possibilidade de o bebé vir a ter problemas”, admite.

O maior medo das mulheres que optam por ter filhos depois dos 35 anos é, de facto, a probabilidade de a criança não nascer perfeita. Tal como Mário de Sousa, o presidente do Colégio de Obstetrícia e Ginecologia, Luís Graça, explica ao i que existem riscos de duas naturezas: o fetal e as doenças que aparecem à medida que vamos envelhecendo, sejamos de um ou de outro sexo. “O maior perigo para o bebé é a hipótese de existirem alterações de cromossomas”, assegura. Em segundo plano põe os problemas de diabetes e de hipertensão arterial, e em terceiro lugar sublinha os riscos de partos anómalos – porque a estrutura dos ossos e da bacia tem mais idade -, os prematuros, as cesarianas e os abortamentos. “Depois dos 35 anos não é o momento óptimo”, afiança o obstetra.

Mário de Sousa já o tinha referido. São muitas as mulheres que escolhem adiar a maternidade, já que desejam estabilidade financeira (e emocional) para educar as crianças com conforto. Foi o caso de Susana Dionísio. Apesar de ter uma relação amorosa séria e um emprego seguro há muito tempo, a gestora bancária de 40 anos acredita que “nunca existe uma altura ideal para engravidar, porque há sempre uma insegurança”. Talvez seja a razão para que Susana e Guilherme só tenham decidido ter um filho há dois anos. A Laura nasceu em Julho, com a mãe perto dos 38 anos. “Aconteceu assim, foi quando achámos que tínhamos as condições necessárias”. Apesar de tudo, quando era mais nova, Susana dizia que queria ser mãe em tenra idade: “A minha mãe tinha 39 anos quando eu nasci e por vezes achava que ela não me entendia bem”, conta ao i.

No entanto, Susana acredita que hoje em dia as mulheres são jovens por mais tempo e com uma boa dose de mente aberta e aceitação, conseguirá acompanhar a filha sem que a diferença geracional seja um problema: “Ainda vou sair à noite com ela”, atira em tom de brincadeira.

Um dos maiores problemas das mulheres que querem adiar a gravidez é a infertilidade. “Se o corpo envelhece, o útero também”, lembra Mário de Sousa. De acordo com o especialista, as taxas de gravidez com Reprodução Medicamente Assistida (RPM), são tanto mais positivas, quanto mais nova é a mãe.

Foi também o caso da irmã de Susana, a advogada Cristina Dionísio, que teve de fazer fez vários tratamentos. Com 42 anos, Cristina foi mãe há dois: “São acasos da vida. Só queria ter filhos depois de uma relação estável e depois disso demorou muitos anos até que engravidar” Cristina conta que a sua gravidez foi tranquila, mas que ia às consultas regularmente: “Não estava com medo, apenas mais alerta. Sentia-me muito confiante, mas havia a consciência de que estava a ser mãe mais tarde.” Os médicos não recomendaram “nada de extraordinário. Só os cuidados normais que uma grávida deve ter”, conta. O Frederico nasceu sem qualquer complicação e Cristina acredita que têm mais maturidade, conhecimento e paciência para o educar: “Além disso, como tenho estabilidade e liberdade profissional é muito mais fácil.

Há dez anos, quando trabalhava numa empresa com horários extremamente rigorosos, acho que não teria tanta disponibilidade.” Cristina e Manuel querem ter mais filhos. No seu caso, como no de muitas mulheres, é necessário recorrer aos tratamentos de fertilidade, “que em Portugal são muito caros. O Estado não apoia em nada”. É por isso que sublinha: “O país precisa de mais crianças, mas as famílias precisam de apoio.” Mesmo com uma vida estável a nível financeiro, o casal não se sente minimamente apoiado.

Na óptica de Mário de Sousa, são vários os obstáculos à maternidade: a falta de dinheiro, os estudos mais longos, querer progredir na carreira e as relações pouco estáveis. Por outro lado, o obstetra Luís Graça esclarece que a taxa natural de concepção máxima é maior nas mulheres que têm entre 20 e 32 anos: “É o período de máxima fertilidade e de maior tranquilidade na gravidez. Há uma idade própria para tudo”, conclui. A meta do PNS foi estabelecida, mas a evolução dos números tem sido no sentido contrário dos objectivos.


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