Haverá crianças más?

Maio 2, 2011 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo publico no portal Educare no dia 13 de Abril de 2011.

Por Adriana Campos

Crianças com perturbações de comportamento têm fraca empatia e pouca preocupação com os sentimentos, desejos e bem-estar dos outros.

“Com alguma frequência tenho ouvido comentários como: esta criança é mesmo má, tem prazer em fazer mal aos outros, tem prazer em irritar, desafia o tempo todo, sensibilizamos mas sem qualquer sucesso! Há mesmo crianças más? Que aconselhar a esses pais para que possam ter êxito na sensibilização? Gostaria que partilhassem este tema que leva ao desespero de muitos pais.”

Helena Inácio

Não há crianças más, há crianças perturbadas. Quando uma criança apresenta “um padrão de comportamento repetitivo e persistente, em que são violadas os direitos básicos dos outros ou importantes regras ou normas sociais próprias da idade”, estamos perante uma perturbação de comportamento, que aparece devidamente caracterizada na DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais).

Quem trabalha em contexto escolar sabe bem o quanto estas crianças são difíceis de “agarrar”, uma vez que as palavras parecem ter pouca ressonância junto delas, pois, como diz o povo, as mensagens “entram a cem e saem a duzentos”. Crianças com perturbações de comportamento têm fraca empatia e pouca preocupação com os sentimentos, desejos e bem-estar dos outros. Podem ser insensíveis e não ter sentimentos de culpa e remorso. A leitura que fazem da intenção dos outros, sobretudo em situações ambíguas, é distorcida, interpretando-as como mais hostis e ameaçadoras do que na realidade são.

Por este motivo têm muitas reações de agressividade desproporcional aos comportamentos que lhe deram origem. As crianças com este tipo de perturbação tentam habitualmente culpar os outros dos seus próprios comportamentos, apresentam baixa autoestima, baixa tolerância à frustração, temperamento explosivo e comportamentos marcados por grande imprudência.

O porquê da existência deste tipo de comportamentos é a grande questão. Segundo estudos realizados, a perturbação de comportamento tem componentes genéticas e ambientais, aumentando o risco sempre que os pais biológicos ou adotivos apresentam perturbação antissocial da personalidade ou têm um irmão com perturbação de comportamento. Este tipo de perturbação é também mais frequente quando os pais biológicos apresentam dependência do álcool, perturbação de humor ou esquizofrenia, histórias de perturbação de hiperatividade com défice de atenção ou perturbação de comportamento.

Estudos recentes no âmbito da neurologia mostram que pessoas com personalidade antissocial apresentam alterações ao nível do sistema límbico, que é uma parte do cérebro responsável pela empatia e pela solidariedade.

O que concluir de tudo isto? As crianças que habitualmente caracterizamos como sendo “más”, com comportamentos que, efetivamente, podem caracterizar-se como tal, terão de ser alvo de tratamento psiquiátrico. Quanto mais precoce for a intervenção, melhor poderá ser o prognóstico. Felizmente, na maioria dos sujeitos, a perturbação remite na idade adulta. No entanto, existe uma substancial proporção de indivíduos que, quando adultos, continuam a revelar comportamentos que podem ser enquadrados na perturbação antissocial de personalidade. Quanto mais precoce for o início da perturbação de comportamento pior é o prognóstico.

Para concluir, poder-se-á afirmar que embora não exista cura para as perturbações de comportamento é fundamental que estas sejam identificadas e tratadas precocemente, de forma a minimizar os efeitos habitualmente devastadores que a elas estão associados. Pela minha experiência de muitos anos a trabalhar em contexto escolar, posso afirmar que as comissões de proteção de crianças e jovens poderão ser excelentes parceiros, na busca das melhores soluções para estas, crianças profundamente perturbadas!

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